“Sou um autor de BD que também faz cinema”

“O público de cinema não tem memória”

Palavras de Miguelanxo Prado que esteve no Porto para falar de “De Profundis”, a primeira longa-metragem de animação feita a partir de pintura a óleo

Chama-se Miguelanxo Prado, nasceu na Corunha em 1958 e é um dos mais aclamados e premiados autores de banda desenhada da sua geração. Esteve no Fantasporto para falar de “De Profundis”, um filme de animação, mas assume-se “como um autor de BD que faz cinema”. Até porque “continuo a pensar que a banda desenhada é o código mais potente dos que controlo. A capacidade que tem uma imagem fixa, de criar na mente do leitor a noção de movimento, de passagem do tempo, etc., é uma potencialidade que não vejo noutros meios”. Por isso, enquanto autor empenhado em transmitir uma mensagem crítica, embora reconhecendo que com o cinema chega a um público mais vasto, prefere a BD, porque “um leitor fica com o livro para toda a vida; um espectador esquece o filme. O público de cinema não tem memória”.

Quanto a “De Profundis”, apresentado como “uma proposta de pesquisa artística para relacionar a pintura, a música e as novas tecnologias da imagem”, é antes de tudo “um projecto extremamente pessoal, nascido no final dos anos 90” e no qual se empenhou “durante quatro anos: os dois primeiros na pré-produção, e os dois seguintes de dedicação total e exclusiva “. Isto porque Prado fez “todos os desenhos – em pintura a óleo – necessários para obter a animação”. Por isso, classifica “De Profundis” como “uma animação de autor; melhor, de autores, porque é um projecto meu e do Nani Garcia, um amigo, músico de Jazz, com larga experiência de escrita de música para cinema e televisão” e cujas composições são os únicos sons audíveis nos 75 minutos de filme.

“Um projecto assim só podia ser desenvolvido com alguém que eu respeitasse muito ou com quem tivesse uma relação pessoal muito forte para poder suportar quatro anos de processo criativo conjunto”.

“De Profundis”, que só deve ser visto por quem é capaz “de estar 15 minutos sentado a ver um pôr-do-sol no mar”, conta a história de uma violoncelista que vive numa casa no meio do oceano, onde aguarda o seu amado, um pintor que sempre quis ser marinheiro, e que, após um naufrágio, efectua uma viagem maravilhosa ao fundo do mar, fonte inesgotável de beleza e mistérios. Por isso Prado acredita que “os habitantes dos países que têm uma cultura marítima e uma relação próxima com o mar, terão uma sensibilidade especial para apreciarem a obra”. Como “os portuenses, que vivem com o mesmo Atlântico que me inspirou, o que poderá criar uma cumplicidade maior, para entender a história, o seu lado onírico, as mitologias relacionadas com o mar, as sereias, os monstros marinhos, os sonhos e terrores que o mar inspira”.

E embora a gestação de “De Profundis” tenha coincidido no tempo com a catástrofe do petroleiro “Prestige”, Prado nega “a ideia de denúncia. O filme tem sim uma clara vocação de redenção, uma espécie de ritual propiciatório, um pedido de perdão. Pretende recuperar o oceano na sua concepção mais limpa, mais brilhante, mais tradicional. É um conto, com muita poesia. Estou consciente que a metáfora pode ser vista como uma denúncia; eu vejo-o mais como uma oferenda”.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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