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Dois anos de vida num mundo de homens

Solidão e frustração como caminho para resolver situação financeira, “Patos” foi distinguido com dois Eisner, um dos mais prestigiados prémios para a BD do mercado norte-americano

A mudança de paradigma em relação à banda desenhada, em Portugal, nos últimos anos, é evidente e só isso explica, por um lado, a multiplicação de edições que fogem à oferta mais óbvia e, por outro, a aposta neste género por parte de editoras que ainda há poucos anos não a incluíam nos seus catálogos.
“Patos”. de Kate Beaton, é um dos exemplos recentes disto. Distinguida com dois Eisner, um dos prémios para a BD mais prestigiados nos EUA, é uma obra autobiográfica que, ao longo de mais de 400 pranchas conta a experiência vivida pela autora nas areias petrolíferas canadianas.
Passo a contextualizar: terminados os estudos numa área artística, Kate Beaton teve de encontrar um emprego bem pago para fazer face aos pesados encargos do seu empréstimo de estudante. Na época, em 2005, para uma jovem da pequena localidade de Cabo Bretão, a zona das areias petrolíferas de Alberta soava como o Eldorado, pois os empregos, nos armazéns de ferramentas, a conduzir maquinaria pesada ou na exploração das minas, eram pagos bem acima da média.
No reverso da medalha, implicava viver num local que, pelo seu isolamento natural, funcionava quase como uma prisão, para mais num mundo maioritariamente de homens – em média cinquenta para cada mulher – com todo o tipo de consequências imagináveis, do assédio ligeiro e bem intencionado, se é que tal existe, até à violação.
Entre a necessidade de resolver o seu problema financeiro, com o inevitável excesso de horas de trabalho, a solidão implícita num local de onde raramente se sai, as muitas frustrações experimentadas, os equívocos, a vontade cíclica de deixar tudo, a falta de distracções e o sentimento de culpa por algumas das decisões tomadas, Kate Beaton narra de forma contida, sem intenção panfletário, de modo quase sistemático, com um certo desprendimento que funciona como defesa e até a compreensão de quem consegue avaliar os vários pontos da questão, os dois anos que passou em diversas explorações de petróleo.
O traço utilizado para o fazer é algo simplista e caricatural, o que ajuda a atenuar a carga dramática da obra, mas eficaz em termos narrativos e foi mesmo através da banda desenhada que a autora encontrou o equilíbrio necessário e a forma de combater e ultrapassar os efeitos nefastos que aquele tipo de vida provoca.

Patos
Kate Beaton
Relógio D’Água
440 p., 26,00€


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O perigo da unanimidade que “Blacksad” justifica

Policial negro actual, embora situado décadas atrás

Sei que a unanimidade é perigosa mas no caso de Blacksad é impossível não ficar deslumbrado pelo originalidade da estrutura, pela qualidade das histórias e pela desenvoltura do traço desta criação dos espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
O título mais recente “Então, tudo cai” é, até agora, o mais ambicioso da série e, talvez por isso, foi necessário dividir a história por dois álbuns, que a Ala dos Livros já disponibilizou em português, reproduzindo as capas originais que compõem uma imagem única, com quatro dos principais intervenientes e a coragem de a segunda não ter o protagonista.
Ambientado numa Nova Iorque efabulada, o relato, apesar de se situar décadas atrás, soa estranhamente actual, pois combina ambições pessoais, lutas sindicais, interesses imobiliários e ligações perigosas entre políticos e gente pouco recomendável, numa trama bem urdida, consistente e sólida, repleta de segredos incómodos, em que os passados de algumas personagens as atrapalham e os cadáveres se vão multiplicando.
A par deste contexto mais genérico, em que arte e progresso parecem servir propósitos antagónicos, o protagonista, que dá título à série, reencontra antigas ligações, como sempre escolhe o lado errado das trincheiras e acabará por pagar caro as suas opções, fazendo, também ele jus ao título que aponta para a finitude da impunidade, das injustiças e dos negócios esconsos, sem que isso implique nenhum fundo nem lições de moral.
Policial negro, contido nos diálogos, deixando que a arte – e que arte! – de Guarnido tenha a primazia na narração da história – revela no entanto como Canales é extremamente assertivo e certeiro nas palavras que coloca na boca das suas personagens, com uma qualidade de escrita peculiar e uma enorme capacidade de transmitir muito com pouco.
E se, adequadamente, numa história que também tem ligações com a representação e o teatro, o tom de tragédia vai aumentando página a página, nenhum leitor estará preparado para a cena final, monumental e ao mesmo tempo representativa da pequenez do ser humano ou, em “Blacksad”, dos animais antropomórficos que assumem na sua forma as suas características intrínsecas, nos espelham e representam de forma tão forte, marcante e reveladora.
…porque, na verdade, é nessa última vinheta que, “Então, tudo cai”.

Blacksad: Então, tudo cai
Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Ala dos Livros
60+56 p., 17,50€ (cada)


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Fim do milénio à moda do Porto

Retrato das noites portuenses nos últimos anos do século passado, das bandas de garagem aos pequenos festivais, o percurso de uma tribo de góticos

“Companheiros da Penumbra”, edição da Chili com Carne já em segunda edição, é um enorme fresco de mais de 300 páginas sobre as noites da cidade do Porto nos últimos anos do século passado.
Com a narrativa balizada entre o VIII Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, em Outubro de 1995, e os últimos dias de 1999, “Companheiros da Penumbra” acompanha uma tribo de góticos numa época em que destinos, vontades, sonhos e anseios, se expressavam livremente, cruzando-se, chocando ou avançando juntos, para sucessos e desilusões que só se vivem uma vez e que, mesmo não parecendo, fizeram deles o que viriam a ser.
São cinco anos intensos, vividos e narrados em ritmo acelerado, num tempo em que as noites portuenses se abriam a todas as experiências artísticas, gráficas ou principalmente musicais, com a adrenalina e as descobertas pautadas com muito álcool, algumas drogas e pelos ritmos vivos e pesados, ensaiados em casa para desespero dos vizinhos ou mostrados em público em bares, salas de alterne ou armazéns abandonados, onde os festivais se sucediam ao ritmo da iniciativa e da partilha de experiências e em que todas as expectativas eram legítimas.
Após uma leitura que se torna compulsiva, de “Companheiros da Penumbra” fica a ideia de um retrato sincero da época, naturalmente subjetivo porque maculado pelo olhar pessoal de quem o viveu intensamente. Retrato delineado por Nunsky de forma expressiva, com um traço realista que recria espaços e lugares perfeitamente reconhecíveis, servido por uma apurada técnica de contrastes de branco e negro que salienta as opções estéticas dos intervenientes e a extensa banda sonora que atravessa todo o livro, de Bauhaus, The Cure, Joy Division ou Mission às bandas que nascem e acabam perante os nossos olhos.
E mesmo os que não integraram as tribos mostradas, que não viveram aqueles momentos ou outros semelhantes, que não passaram por alguns daqueles espaços, certamente recordarão locais, nomes e acontecimentos que, de alguma forma, marcaram e construíram a história musical e artística da cidade do Porto naquele período de 5 anos que o leitor devora avidamente à procura de se redescobrir, antes do final de um milénio que se anunciava por um lado de profunda mudança e por outro de grande incerteza.

Companheiros da Penumbra
Nunsky
Chili com Carne
320 p., 20,00 €


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Porto volta a ter uma Bedeteca

Espaço privilegiado para leitura de banda desenhada inaugurado hoje

A partir de hoje, a cidade do Porto volta a ter uma Bedeteca, ou seja uma biblioteca de edições de banda desenhada, situada no Centro Comercial Brasília.
A Bedeteca portuense, primeiro espaço do género no país, foi inaugurada em Outubro de 1990. Entre duas edições do Salão Internacional de BD do Porto, o projecto ComicArte concretizou o sonho de criar um espaço privilegiado para leitura de BD, que funcionou durante anos na sede da Comissão de Jovens de Ramalde.
Agora, após “anos de hibernação”, conforme se lê na apresentação do renovado projecto, foi recuperado “o seu acervo (…) num trabalho privado em prol do bem público”. A gestão está entregue à Turbina Associação Cultural, que recebe o apoio da Livraria Mundo Fantasma, situada em frente à nova Bedeteca, mas tem havido contactos com poderes públicos para eventuais apoios.
Ao acervo inicial, que entre outras preciosidades inclui a mítica revista (À Suivre) e muitos dos fanzines nacionais de BD publicados entre 1974 e o final dos anos 90, foram já adicionadas um bom número de edições recentes de diversas editoras, estando já disponíveis cerca de 4000 obras, sendo a “intenção duplicar esse número até final do ano”.
Mas, “mais do que um local onde se pode ler BD”, a Bedeteca pretende “continuar um trabalho em prol desta arte e da abertura das perspectivas e experiências que ela pode proporcionar ao leitor”, potenciando “a presença da banda desenhada nos hábitos de leitura das novas gerações”.
A inauguração da Bedeteca é pretexto para um dia consagrado à banda desenhada. Às 10 horas, o novo espaço de leitura abre as suas portas ao mesmo tempo que tem início o Mercado do Contra de Fanzines e Banda Desenhada, um evento dedicado às edições alternativas que contará com a presença André Caetano, Ricardo Baptista, Filipe Abranches, Pedro Moura, Daniel Lopes ou Marco Mendes. Em simultâneo realiza-se uma oficina de Desenho em Diário Gráfico, orientada por Paulo J. Mendes.
Pelas 15 horas, a Galeria Mundo Fantasma inaugura a exposição “Companheiros da Penumbra”, com originais de Nunsky, uma obra editada pela Chili com Carne que constitui uma viagem “a um Porto muito diferente da cidade conquistada pelo turismo de hoje. Um tempo de passagem, em que especialmente a Sé e a Ribeira, mas também os centros comerciais decadentes, encontravam novos habitantes nas hordas de juventude que iam enchendo bares e discotecas, onde se experimentavam projectos musicais e artísticos e se erguia alto a bandeira do direito à diferença”. Nunsky, que estará presente para autógrafos, participará numa conversa em torno desta BD e da cena alternativa do Porto dos anos 1980/90.
O programa encerra com o lançamento do primeiro fanzine do clube de banda desenhada “Cão Raivoso” (da Escola Soares dos Reis), mas para dia 17 está já agendado a primeira sessão de um Clube de Leitura, animado pelo Goteira – Colectivo de BD, dedicado ao livro “Palestina”, de Joe Sacco, a que actualidade deu nova relevância.


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O adeus a Alfredo Castelli, um dos mais importantes argumentistas italianos

Criador de Martin Mystère, tornou mais rica e erudita banda desenhada popular do seu país

O mundo dos fumetti (designação italiana para as histórias aos quadradinhos) está mais pobre: Alfredo Castelli, o argumentista que tornou erudita a banda desenhada popular faleceu hoje, contava 76 anos.
Natural de Milão, onde nasceu a 26 de Junho de 1947, Castelli iniciou a sua carreira de autor de BD com apenas 16 anos, quando criou a tira humorística, “Scheletrino”, que ele próprio escrevia e desenhava.
Nos anos seguintes desenvolveu actividades em diversas áreas, comprovando a versatilidade que viria fazer dele uma das maiores figuras dos quadradinhos italianos: escreveu argumentos para várias editoras, incluindo a Disney italiana, criou com Paolo Sala, o “Comic Club 104” (1966), o primeiro fanzine italiano dedicado à BD, escreveu guiões de publicidade para a TV, meio para o qual assinou também o argumento da série “Cappuccetto a Pois” (1969) e foi dele a história do filme “Il tunnel sotto il mondo” (1969).
O ano seguinte encontra-o como co-fundador, com Pier Carpi, da revista “Horror”, multiplicando as colaborações com as principais editoras do seu país, nalgumas delas com criações próprias como “L’Ombra”, “Gli Aristocratici” ou “L’Omino Bufo”.
A sua vida mudaria em 1978, quando iniciou a colaboração com Sergio Bonelli, que lhe pediu argumentos para “Mister No” e “Zagor”. Dois anos depois, apresentava ao editor milanês o primeiro esboço daquela que seria a sua grande criação: Martin Mystère, o Detective do Impossível, arqueólogo, investigador e apresentador televisivo.
Embora seguisse o modelo tradicional com um trio de protagonistas, Mystère, o cérebro, Diana a bela e sensual noiva eterna (com quem Martin viria a casar muitos anos depois) e Java, a força bruta, um homem primitivo do Neandertal resgatado numa das aventuras, e Sergej Orloff e os Homens de Negro, os vilões de serviço recorrentes em muitas histórias Castelli dotou a sua criação, cujo visual foi entregue a Giancarlo Alessandrini, de uma característica que a viria a distinguir das outras séries populares da editora, como Tex ou Dylan Dog: passou para o protagonista o seu interesse pessoal pelos grandes mistérios da humanidade, dando um tom erudito à banda desenhada, sem que ela perdesse as suas características populares de entretenimento de massas. Dessa forma, pelas suas páginas passaram civilizações míticas como a Atlântida ou Mú, os mistérios associados a locais reais como o Triângulo das Bermudas, a Ilha da Páscoa ou Stonehenge, objectos lendários como a espada Excalibur, extraterrestres ou povos perdidos. Martin Mystère mudou a forma como os italianos olhavam para a sua banda desenhada, associando à aventura pura e dura, temáticas modernas e mais complexas, baseadas numa investigação cuidada e com o fundo de verdade possível, apresentando-as de forma aliciante e credível para conquistar os leitores e levá-los à procura de respostas com o protagonista, embora muitas vezes elas não estejam disponíveis, sendo mantida a aura de mistério que as envolve.
A estreia de Castelli no nosso país data de 1975, quando o “Jornal do Cuto” publicou duas aventuras de”Os Aristocratas”. Quanto às aventuras de Martin Mystère, chegaram quase sempre aos quiosques do país através de edições brasileiras, os chamados “formatinhos”, por isso há muitos leitores portugueses que se tornaram admiradores do “Detective do Impossível”. Em anos recentes duas obras de Castelli tiveram edição nacional: a primeira, “O Destino da Atlântida” (Levoir, 2018), desenhada por Roberto Cardinale e Alfredo Orlandi, é uma aventura de M. Mystère que tem como ponto de partida os Açores; a segunda, “Apocalipse – A revelação de São João”, é uma ambiciosa reinterpretação gráfica do livro bíblico, desenhada por Corrado Roi.
No site da Sergio Bonelli Editore, na despedida ao homem que tantos fez sonhar, pode ler-se que o “legado artístico e intelectual de Alfredo Castelli é enorme e, portanto, naturalmente muito pesado. Se aqueles que tiveram a sorte de estar perto dele se lembram do seu entusiasmo narrativo e do seu perene bom humor, os muitos leitores que o conheceram apenas através das páginas impressas ficam com muitas histórias em quadrinhos e inúmeros ensaios e artigos. E estes permanecerão connosco para sempre.”


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Muita BD para ver

Festivais e eventos multiplicam-se no primeiro semestre

Sinónimo do bom momento que a edição de banda desenhada vive actualmente, o primeiro semestre deste ano está recheado de eventos dedicados a esta arte.
Como geralmente o segredo é alma do negócio e muitas vezes as confirmações surgem em cima das datas de realização, na maior parte dos casos ainda não são conhecidos os convidados, mas há algumas excepções…
As hostilidades abrem a 18 de Março, na Lourinhã, com a segunda edição do Louri’BD no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira. Parceria da autarquia com a editora Escorpião Azul, que lançará no evento “E depois do Abril”, de Filipe Duarte e André Mateus, será dedicado ao tema “Monstros”, dará especial destaque aos autores nacionais e contará com exposições, lançamentos, uma feira de BD e uma programação dirigida às escolas.
O seu ponto alto será no fim-de-semana de 22 a 24 de Março, coincidindo com a Comic Con Portugal, que se inicia a 21. O maior evento de cultura pop nacional, a comemorar 10 anos de existência, regressa às origens, mais precisamente à Exponor, em Matosinhos. Não tendo na banda desenhada o seu aspeto mais mediático nem sequer exposições de originais, a verdade é que em termos relativos este é o segmento com o cartaz mais forte, como é comprovado pelos autores estrangeiros já confirmados: Miguelanxo Prado, Juan Diaz Canales, Teresa Valero, Stan Sakai, Ryan Ottley, Frank Cho, Mike Grell, François Boucq e Jordi Lafebre, que cobrem um amplo espectro da banda desenhada franco-belga aos comics de super-heróis, e que os fãs poderão contactar nas conferências e sessões de autógrafos.
Avançando no calendário, a 13 de Abril é inaugurado o Ilustra BD, nas belas instalações do Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, onde haverá exposições, feira do livro e programação variada que se estenderá até 2 de Junho.
No final de Abril, mais exactamente de 25 a 28, o Coimbra BD volta a ter lugar no Convento de São Francisco, espaço que ocupou pela primeira vez no ano passado. Desenho ao vivo, cosplay e uma grande aposta na BD nacional são os principais vectores deste festival já na sua oitava edição.
No mesmo fim-de-semana – 27 e 28 de Abril – o Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, será mais uma vez ponto de encontro dos admiradores de Tex, um western em publicação ininterrupta desde 1948. A 9.ª Mostra do Clube Tex Portugal, como habitualmente, irá propor uma exposição dedicada ao ranger e conversas e sessões de autógrafos com os dois autores convidados, cujos nomes já são conhecidos: Fábio Civiteii, possivelmente o mais célebre desenhador de Tex após Aurelio Galleppini, o seu criador gráfico, e Sandro Scascitelli.
Depois do sucesso da edição inaugural, em 2023, que comprovou a necessidade de um evento dedicado à BD no Norte do país, o Maia BD vai regressar de 24 a 25 de Maio. Este ano a organização promete “ocupar todo o espaço do Fórum local com um número de exposições bem superior ao anterior, que se prolongarão no tempo para lá das datas do evento em si”. Está também previsto “um número maior de autores internacionais, a par de uma boa selecção de convidados nacionais, articulados essencialmente à volta dos lançamentos a realizar nesse período”.
O semestre “aos quadradinhos” terminará com o XIX Festival Internacional de BD de Beja, como sempre da Casa da Cultura local que, de 7 a 22 de Junho acolherá um evento que, a par das exposições de originais, costuma primar pelo intenso convívio entre autores e visitantes no seu primeiro fim-de-semana. Para já, a organização só confirma dois nomes: Alix Garon e Antoine Cossé, mas entre portugueses e estrangeiros deverão ser mais de duas dezenas.


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Chegar ao céu, encontrar o inferno

Virtudes da banda desenhada popular, Dylan Dog regressa às livrarias nacionais com o selo de A Seita

Hoje em dia, quando se fala de banda desenhada popular, de certa forma evocando um tempo em que ela se encontrava em generosas quantidades nos quiosques, há um nome que vem logo à mente, o de Sergio Bonelli e da editora italiana que leva o seu nome. Alicerçado no sucesso de Tex, um western puro e duro em publicação ininterrupta desde 1948, este editor milanês conseguiu criar um sistema editorial que permite alimentar, sem grandes oscilações de qualidade, ao nível gráfico e temático, as revistas de 100 páginas que mensalmente coloca à venda.
Entre outras séries – Martin Mystère, Julia, Dragonero… – que vale a pena conhecer, há uma que se destacou e chegou até a fazer concorrência à popularidade de Tex: Dylan Dog, uma criação de Tiziano Sclavi estreada em 1986. Ex-inspector da Scotland Yard, também conhecido como Detective do Pesadelo, pelo equilíbrio entre o real, o fantástico e o onírico que pontua as suas histórias, DD tem vindo a protagonizar a maior parte dos volumes da colecção Aleph, em que a editora A Seita apresenta aos leitores portugueses títulos da Sergio Bonelli Editore.
O mais recente é “Picada Mortal”, escrito por Alberto Ostini e Francesco Ripoli, que narram como o aparecimento de mais um cadáver de uma prostituta, horrivelmente desfigurada, a boiar num rio, irá levar Dylan até Southeaven, para investigar um assassino em série e recordar memórias, nem todas agradáveis, de umas férias da adolescência, passadas naquele local.
Será assim que reencontrará Tiffany, paixão dessa época e fará de tudo para evitar que ela seja mais uma vítima da dupla ameaça: o assassino em série e o vício da droga que a domina e a leva a prostituir-se.
Se até aqui nada parece soar muito original, “Picada mortal” tem dois trunfos que fazem dele uma leitura aconselhável. O primeiro, é o facto de longos excertos serem narrados em voz off pela própria Tiffany, antecipando, sem desvendar completamente, o que ainda está por acontecer, criando em simultâneo a curiosidade e a dúvida no leitor, o que o impele a continuar a leitura; o segundo é o desfecho, inesperado e chocante, bem ancorado na vida real.
Numa série em que se costumam cruzar referências das mais variadas origens, a originalidade é uma das explicações para o sucesso deste anti-herói.

Dylan Dog – Picada mortal
Ostini e Ripoli
A Seita
104 p., 14,99 €


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O regresso como um grande senhor

Na sua nova vida mais realista, Alix é adulto e senador romano
O regresso à Gália, evoca Vercingétorix e desperta ódios antigos

Alix, criação de Jacques Martin em 1948, para a “Tintin” belga, foi uma das personagens marcantes do tempo áureo daquela publicação. Adolescente, permitia que os jovens leitores se identificassem com ele; sensato e com uma sólida base histórica, garantia o apoio dos pais a essa leitura.
Há alguns anos, Valérie Mangin e Thierry Démarez, imaginaram o seu regresso em adulto, como senador romano, numa série de álbuns que a Gradiva tem publicado com uma regularidade muito interessante, sendo o mais recente “A Floresta Carnívora”.
Nesta nova vida como um grande senhor, Alix casou, teve filhos que geralmente o acompanham para sustentar a aura adolescente do original e mostra-nos o império romano sob uma outra faceta, o das guerras internas, das conspirações políticas e das lutas sem tréguas pelo poder, numa sociedade em que a sede do ouro e a multitude de deuses e cultos contribuem para acelerar a sua decadência.
Se é verdade que estas histórias funcionam por ciclos e que ao longo dos álbuns há uma linha condutora comum que torna mais sólida a reconstrução da personagem e da época, a verdade é que este décimo álbum se lê de forma independente. Na sua origem, está um dos aspectos que tem marcado estas novas aventuras: o regresso a locais onde esteve na juventude e o reencontro com personalidades que em determinado momento da sua vida foram marcantes.
“A Floresta Carnívora” tem como cenário a Gália natal de Alix, onde conheceu e tentou apoiar o chefe Vercingétorix que se opunha ao invasor romano. Reminiscências desses tempos, velhas histórias por resolver e ódios latentes vão tornar este regresso perigoso e dotá-lo de contornos trágicos, parecendo mais uma vez que apenas a morte consegue apagar o que o tempo não foi capaz de fazer esquecer.
A maturidade de Alix, mais realista tematicamente, tem o devido acompanhamento gráfico com uma recriação conseguida de uma época apaixonante, em que amizades e paixões antigas, a par de rancores e conspirações, estaão longe de garantir maior tranquilidade ao protagonista.
Autónoma em si mesma, esta série “Alix Senator” poderá adquirir contornos mais ricos e aliciantes se a memória ainda retiver as aventuras originais de Alix ou se levar o leitor a (re)descobri-las.

Alix Senator #10 – A Floresta Carnívora
V. Mangin e Th. Demarrez
Gradiva
56 p., 20,99 €


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Clássicos da Literatura Portugueses revivem em BD

Mensagem”, de Fernando Pessoa, é o primeiro volume, hoje à venda

Chega hoje às livrarias o primeiro volume da coleção “Clássicos da Literatura Portuguesa em BD”, a “Mensagem”, de Fernando Pessoa, adaptada por Pedro V. Moura e Susa Monteiro.
Esta iniciativa da editora Levoir e da RTP surge na sequência do sucesso dos “Clássicos da Literatura em BD”, aferida pelo facto de “sete títulos terem sido TOP de vendas nas lojas FNAC”, revelou ao JN Sílvia Reig, editora da Levoir. E continua: “entre eles estavam as adaptações de “Os Maias”, “Amor de perdição” e “Auto da Barca do Inferno”, que revelaram que havia interesse por parte dos leitores portugueses” neste tipo de obras.
“Propor 13 títulos inéditos de adaptações de obras da literatura portuguesa, desenvolvidos por uma equipa de mais de 30 profissionais, entre argumentistas, ilustradores e professores, na sua grande maioria portugueses” adianta Sílvia Reig, “é um esforço financeiro enorme; um investimento oito vezes superior ao da anterior coleção, pois as obras são encomendadas de raiz”.
A colecção abre com “Mensagem” e Pedro V. Moura, o argumentista responsável pela adaptação, explica que “a obra integral de Fernando Pessoa fazia parte da lista alargada de textos a considerar, mas por uma questão de prioridades, clareza e tempo, foi seleccionada a mais famosa”.
O escritor adianta que “se por um lado conseguimos incluir todos os poemas, na íntegra, ao contrário de obras em que ‘cortar’ é absolutamente necessário”, as dificuldades surgiram porque “um meio visual oferece elementos não-previstos num texto literário, para mais um tão simbólico e lírico.” E prossegue: “Optámos por criar ciclos próprios na BD, através de personagens e elementos recorrentes, que criam uma espécie de narrativa paralela ao poema, que por vezes se intersecta com ele, e por diferenciar partes através de escolhas cromáticas e outras estratégias”.
A eleição de Susa Monteiro “foi feita em diálogo com a editora”, acrescenta Moura. A ilustradora confessa “que à partida a adaptação parecia difícil, mas isso foi ultrapassado pois o guião era muito claro e rico em propostas gráficas”, o que tornou “o processo muito fluido”. Mesmo assim, surgiram algumas dificuldades, como “a utilização de planos picados e contra-picados e a necessidade de desenhar elementos, como o mar, que habitualmente não utilizo”. Mas conclui: “acabou por ser um projeto muito desafiante em termos técnicos o que o tornou muito mais interessante”.
Para Pedro Moura, o propósito desta adaptação é “que as pessoas possam reler a “Mensagem” como que pela primeira vez e que estejam atentas à dimensão de banda desenhada semi-autónoma em relação ao texto”, enquanto Susa deseja que “o livro chegue a um público o mais vasto possível, chamando a atenção para o trabalho poético de Pessoa, mas também para as possibilidades gráficas e narrativas da BD”. E finaliza: “é uma coleção que tem o potencial de angariar novos leitores para a banda desenhada portuguesa”.
E a editora até os procura noutras paragens, pois, conforme revelou Silvia Reig, estes livros “estão a ser propostos a editoras brasileiras, espanholas e francesas e o mercado anglo-saxão também é um objectivo”.
O volume seguinte será “Farsa de Inês Pereira”, com argumento de André Morgado a partir do texto de Gil Vicente e desenho do brasileiro Jefferson Costa.

[Caixa]

13 Clássicos com nova roupagem

São 15 volumes, correspondentes a treze obras: “Mensagem”, “Farsa de Inês Pereira”, “Sermão de Santo Antonio aos peixes”, “Carta a el-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil”, “O Fato novo do Sultão”, “Frei Luís de Sousa”, “O Crime do Padre Amaro”, “Crónica de D. João I”, “Peregrinação” (volume duplo), “A Dama do Pé-de-Cabra”, “Menina e Moça”, “Maria Moisés” e “Os Lusíadas” (volume duplo).
De periodicidade mensal, com 64 páginas a cores, dossier pedagógico incluído e o preço de 15,90€, permitirão redescobrir Pessoa, Gil Vicente, Garrett, Eça, Camilo ou Camões com a nova roupagem conferida pelos estilos gráficos diferenciados de Bernardo Majer, Joana Afonso, Daniel Silvestre, Miguel Rocha, Manuel Morgado, Miguel Jorge ou Filipe Abranches.


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Suspensos de uma folha de papel de carta

Uma jovem independente em plena época vitoriana
“Colecção Zidrou” distingue um dos mais interessantes argumentistas actuais

Se no cinema é normal seguir actores, na banda desenhada geralmente procuram-se determinados desenhadores. Mas, tal como na Sétima Arte há quem escolha os filmes preferencialmente pelos seus realizadores, também na BD há leitores que fazem as suas escolhas com base no nome do argumentista.
Neste particular, Zidrou é um dos nomes a reter e, se as suas obras de tom humano estão hoje espalhadas por diversos catálogos nacionais, em boa hora as editoras A Seita e Arte de Autor se uniram para lhe dedicarem uma colecção de que “Emma G. Wildford” é o tomo mais recente.
Ambientada durante o reinado da rainha Vitória, com toda a carga que isso implica em especial sobre as mulheres, tem como protagonista a jovem Emma, que contraria todo o espírito da época. Autónoma, aspirante a escritora, independente e decidida tem, no entanto, a vida suspensa do regresso do noivo, Roald Hodges, membro da National Geographic Society, desaparecido durante uma expedição à Lapónia.
Perante o silêncio da renomada organização e as tentativas de consolação e comiseração por parte dos mais próximos, Emma decide partir à aventura, em busca do seu amado.
Para trás, num clima de desaprovação total, deixa tudo e também uma carta que Roald lhe deixou caso não voltasse e que nunca quis ler, acreditando que isso mantinha vivo o seu noivo – ou pelo menos a sua esperança. A viagem, por locais inóspitos, de clima rigoroso, será feita num misto de descoberta e afirmação, com Zidou a aproveitar para caracterizar, com realismo e um humor contido, a jovem Emma bem como uma época plena de regras castradoras e preconceitos, num relato não isento de surpresas cujo desfecho vai bem para lá do acabar “bem” ou “mal”.
Graficamente, Edith com um traço simples, despido de pormenores desnecessários mas muito eficiente em termos narrativos dá vida a uma Emma que atrai e dispõe bem o leitor, embora possa revelar-se algo desconcertante pela forma como tantas vezes decide tomar em mãos as rédeas do seu destino.
Leitura de conforto, pelo tom optimista que apesar de tudo dela exala, “Emma G. Wildford” na edição portuguesa, a exemplo da original francófona, tem – literalmente – um exemplar da famosa carta que pontua todo o relato e cuja leitura, a fazer apenas no final, confere um sentido acrescido ao que foi sendo narrado.

Emma G. Wildford
Zidrou e Edith
A Seita e Arte de Autor
104 p., 24 €


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F. Cleto e Pina

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