Categoria: Recortes

Muita BD para ver

Festivais e eventos multiplicam-se no primeiro semestre

Sinónimo do bom momento que a edição de banda desenhada vive actualmente, o primeiro semestre deste ano está recheado de eventos dedicados a esta arte.
Como geralmente o segredo é alma do negócio e muitas vezes as confirmações surgem em cima das datas de realização, na maior parte dos casos ainda não são conhecidos os convidados, mas há algumas excepções…
As hostilidades abrem a 18 de Março, na Lourinhã, com a segunda edição do Louri’BD no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira. Parceria da autarquia com a editora Escorpião Azul, que lançará no evento “E depois do Abril”, de Filipe Duarte e André Mateus, será dedicado ao tema “Monstros”, dará especial destaque aos autores nacionais e contará com exposições, lançamentos, uma feira de BD e uma programação dirigida às escolas.
O seu ponto alto será no fim-de-semana de 22 a 24 de Março, coincidindo com a Comic Con Portugal, que se inicia a 21. O maior evento de cultura pop nacional, a comemorar 10 anos de existência, regressa às origens, mais precisamente à Exponor, em Matosinhos. Não tendo na banda desenhada o seu aspeto mais mediático nem sequer exposições de originais, a verdade é que em termos relativos este é o segmento com o cartaz mais forte, como é comprovado pelos autores estrangeiros já confirmados: Miguelanxo Prado, Juan Diaz Canales, Teresa Valero, Stan Sakai, Ryan Ottley, Frank Cho, Mike Grell, François Boucq e Jordi Lafebre, que cobrem um amplo espectro da banda desenhada franco-belga aos comics de super-heróis, e que os fãs poderão contactar nas conferências e sessões de autógrafos.
Avançando no calendário, a 13 de Abril é inaugurado o Ilustra BD, nas belas instalações do Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, onde haverá exposições, feira do livro e programação variada que se estenderá até 2 de Junho.
No final de Abril, mais exactamente de 25 a 28, o Coimbra BD volta a ter lugar no Convento de São Francisco, espaço que ocupou pela primeira vez no ano passado. Desenho ao vivo, cosplay e uma grande aposta na BD nacional são os principais vectores deste festival já na sua oitava edição.
No mesmo fim-de-semana – 27 e 28 de Abril – o Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, será mais uma vez ponto de encontro dos admiradores de Tex, um western em publicação ininterrupta desde 1948. A 9.ª Mostra do Clube Tex Portugal, como habitualmente, irá propor uma exposição dedicada ao ranger e conversas e sessões de autógrafos com os dois autores convidados, cujos nomes já são conhecidos: Fábio Civiteii, possivelmente o mais célebre desenhador de Tex após Aurelio Galleppini, o seu criador gráfico, e Sandro Scascitelli.
Depois do sucesso da edição inaugural, em 2023, que comprovou a necessidade de um evento dedicado à BD no Norte do país, o Maia BD vai regressar de 24 a 25 de Maio. Este ano a organização promete “ocupar todo o espaço do Fórum local com um número de exposições bem superior ao anterior, que se prolongarão no tempo para lá das datas do evento em si”. Está também previsto “um número maior de autores internacionais, a par de uma boa selecção de convidados nacionais, articulados essencialmente à volta dos lançamentos a realizar nesse período”.
O semestre “aos quadradinhos” terminará com o XIX Festival Internacional de BD de Beja, como sempre da Casa da Cultura local que, de 7 a 22 de Junho acolherá um evento que, a par das exposições de originais, costuma primar pelo intenso convívio entre autores e visitantes no seu primeiro fim-de-semana. Para já, a organização só confirma dois nomes: Alix Garon e Antoine Cossé, mas entre portugueses e estrangeiros deverão ser mais de duas dezenas.


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F. Cleto e Pina

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O regresso como um grande senhor

Na sua nova vida mais realista, Alix é adulto e senador romano
O regresso à Gália, evoca Vercingétorix e desperta ódios antigos

Alix, criação de Jacques Martin em 1948, para a “Tintin” belga, foi uma das personagens marcantes do tempo áureo daquela publicação. Adolescente, permitia que os jovens leitores se identificassem com ele; sensato e com uma sólida base histórica, garantia o apoio dos pais a essa leitura.
Há alguns anos, Valérie Mangin e Thierry Démarez, imaginaram o seu regresso em adulto, como senador romano, numa série de álbuns que a Gradiva tem publicado com uma regularidade muito interessante, sendo o mais recente “A Floresta Carnívora”.
Nesta nova vida como um grande senhor, Alix casou, teve filhos que geralmente o acompanham para sustentar a aura adolescente do original e mostra-nos o império romano sob uma outra faceta, o das guerras internas, das conspirações políticas e das lutas sem tréguas pelo poder, numa sociedade em que a sede do ouro e a multitude de deuses e cultos contribuem para acelerar a sua decadência.
Se é verdade que estas histórias funcionam por ciclos e que ao longo dos álbuns há uma linha condutora comum que torna mais sólida a reconstrução da personagem e da época, a verdade é que este décimo álbum se lê de forma independente. Na sua origem, está um dos aspectos que tem marcado estas novas aventuras: o regresso a locais onde esteve na juventude e o reencontro com personalidades que em determinado momento da sua vida foram marcantes.
“A Floresta Carnívora” tem como cenário a Gália natal de Alix, onde conheceu e tentou apoiar o chefe Vercingétorix que se opunha ao invasor romano. Reminiscências desses tempos, velhas histórias por resolver e ódios latentes vão tornar este regresso perigoso e dotá-lo de contornos trágicos, parecendo mais uma vez que apenas a morte consegue apagar o que o tempo não foi capaz de fazer esquecer.
A maturidade de Alix, mais realista tematicamente, tem o devido acompanhamento gráfico com uma recriação conseguida de uma época apaixonante, em que amizades e paixões antigas, a par de rancores e conspirações, estaão longe de garantir maior tranquilidade ao protagonista.
Autónoma em si mesma, esta série “Alix Senator” poderá adquirir contornos mais ricos e aliciantes se a memória ainda retiver as aventuras originais de Alix ou se levar o leitor a (re)descobri-las.

Alix Senator #10 – A Floresta Carnívora
V. Mangin e Th. Demarrez
Gradiva
56 p., 20,99 €


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F. Cleto e Pina

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Clássicos da Literatura Portugueses revivem em BD

Mensagem”, de Fernando Pessoa, é o primeiro volume, hoje à venda

Chega hoje às livrarias o primeiro volume da coleção “Clássicos da Literatura Portuguesa em BD”, a “Mensagem”, de Fernando Pessoa, adaptada por Pedro V. Moura e Susa Monteiro.
Esta iniciativa da editora Levoir e da RTP surge na sequência do sucesso dos “Clássicos da Literatura em BD”, aferida pelo facto de “sete títulos terem sido TOP de vendas nas lojas FNAC”, revelou ao JN Sílvia Reig, editora da Levoir. E continua: “entre eles estavam as adaptações de “Os Maias”, “Amor de perdição” e “Auto da Barca do Inferno”, que revelaram que havia interesse por parte dos leitores portugueses” neste tipo de obras.
“Propor 13 títulos inéditos de adaptações de obras da literatura portuguesa, desenvolvidos por uma equipa de mais de 30 profissionais, entre argumentistas, ilustradores e professores, na sua grande maioria portugueses” adianta Sílvia Reig, “é um esforço financeiro enorme; um investimento oito vezes superior ao da anterior coleção, pois as obras são encomendadas de raiz”.
A colecção abre com “Mensagem” e Pedro V. Moura, o argumentista responsável pela adaptação, explica que “a obra integral de Fernando Pessoa fazia parte da lista alargada de textos a considerar, mas por uma questão de prioridades, clareza e tempo, foi seleccionada a mais famosa”.
O escritor adianta que “se por um lado conseguimos incluir todos os poemas, na íntegra, ao contrário de obras em que ‘cortar’ é absolutamente necessário”, as dificuldades surgiram porque “um meio visual oferece elementos não-previstos num texto literário, para mais um tão simbólico e lírico.” E prossegue: “Optámos por criar ciclos próprios na BD, através de personagens e elementos recorrentes, que criam uma espécie de narrativa paralela ao poema, que por vezes se intersecta com ele, e por diferenciar partes através de escolhas cromáticas e outras estratégias”.
A eleição de Susa Monteiro “foi feita em diálogo com a editora”, acrescenta Moura. A ilustradora confessa “que à partida a adaptação parecia difícil, mas isso foi ultrapassado pois o guião era muito claro e rico em propostas gráficas”, o que tornou “o processo muito fluido”. Mesmo assim, surgiram algumas dificuldades, como “a utilização de planos picados e contra-picados e a necessidade de desenhar elementos, como o mar, que habitualmente não utilizo”. Mas conclui: “acabou por ser um projeto muito desafiante em termos técnicos o que o tornou muito mais interessante”.
Para Pedro Moura, o propósito desta adaptação é “que as pessoas possam reler a “Mensagem” como que pela primeira vez e que estejam atentas à dimensão de banda desenhada semi-autónoma em relação ao texto”, enquanto Susa deseja que “o livro chegue a um público o mais vasto possível, chamando a atenção para o trabalho poético de Pessoa, mas também para as possibilidades gráficas e narrativas da BD”. E finaliza: “é uma coleção que tem o potencial de angariar novos leitores para a banda desenhada portuguesa”.
E a editora até os procura noutras paragens, pois, conforme revelou Silvia Reig, estes livros “estão a ser propostos a editoras brasileiras, espanholas e francesas e o mercado anglo-saxão também é um objectivo”.
O volume seguinte será “Farsa de Inês Pereira”, com argumento de André Morgado a partir do texto de Gil Vicente e desenho do brasileiro Jefferson Costa.

[Caixa]

13 Clássicos com nova roupagem

São 15 volumes, correspondentes a treze obras: “Mensagem”, “Farsa de Inês Pereira”, “Sermão de Santo Antonio aos peixes”, “Carta a el-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil”, “O Fato novo do Sultão”, “Frei Luís de Sousa”, “O Crime do Padre Amaro”, “Crónica de D. João I”, “Peregrinação” (volume duplo), “A Dama do Pé-de-Cabra”, “Menina e Moça”, “Maria Moisés” e “Os Lusíadas” (volume duplo).
De periodicidade mensal, com 64 páginas a cores, dossier pedagógico incluído e o preço de 15,90€, permitirão redescobrir Pessoa, Gil Vicente, Garrett, Eça, Camilo ou Camões com a nova roupagem conferida pelos estilos gráficos diferenciados de Bernardo Majer, Joana Afonso, Daniel Silvestre, Miguel Rocha, Manuel Morgado, Miguel Jorge ou Filipe Abranches.


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F. Cleto e Pina

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Suspensos de uma folha de papel de carta

Uma jovem independente em plena época vitoriana
“Colecção Zidrou” distingue um dos mais interessantes argumentistas actuais

Se no cinema é normal seguir actores, na banda desenhada geralmente procuram-se determinados desenhadores. Mas, tal como na Sétima Arte há quem escolha os filmes preferencialmente pelos seus realizadores, também na BD há leitores que fazem as suas escolhas com base no nome do argumentista.
Neste particular, Zidrou é um dos nomes a reter e, se as suas obras de tom humano estão hoje espalhadas por diversos catálogos nacionais, em boa hora as editoras A Seita e Arte de Autor se uniram para lhe dedicarem uma colecção de que “Emma G. Wildford” é o tomo mais recente.
Ambientada durante o reinado da rainha Vitória, com toda a carga que isso implica em especial sobre as mulheres, tem como protagonista a jovem Emma, que contraria todo o espírito da época. Autónoma, aspirante a escritora, independente e decidida tem, no entanto, a vida suspensa do regresso do noivo, Roald Hodges, membro da National Geographic Society, desaparecido durante uma expedição à Lapónia.
Perante o silêncio da renomada organização e as tentativas de consolação e comiseração por parte dos mais próximos, Emma decide partir à aventura, em busca do seu amado.
Para trás, num clima de desaprovação total, deixa tudo e também uma carta que Roald lhe deixou caso não voltasse e que nunca quis ler, acreditando que isso mantinha vivo o seu noivo – ou pelo menos a sua esperança. A viagem, por locais inóspitos, de clima rigoroso, será feita num misto de descoberta e afirmação, com Zidou a aproveitar para caracterizar, com realismo e um humor contido, a jovem Emma bem como uma época plena de regras castradoras e preconceitos, num relato não isento de surpresas cujo desfecho vai bem para lá do acabar “bem” ou “mal”.
Graficamente, Edith com um traço simples, despido de pormenores desnecessários mas muito eficiente em termos narrativos dá vida a uma Emma que atrai e dispõe bem o leitor, embora possa revelar-se algo desconcertante pela forma como tantas vezes decide tomar em mãos as rédeas do seu destino.
Leitura de conforto, pelo tom optimista que apesar de tudo dela exala, “Emma G. Wildford” na edição portuguesa, a exemplo da original francófona, tem – literalmente – um exemplar da famosa carta que pontua todo o relato e cuja leitura, a fazer apenas no final, confere um sentido acrescido ao que foi sendo narrado.

Emma G. Wildford
Zidrou e Edith
A Seita e Arte de Autor
104 p., 24 €


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F. Cleto e Pina

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Humor, suspense e “vozes na cabeça”

Psicóloga bipolar investiga homicídio em Barcelona
Jordi Lafebre assina registo policial com traço dinâmico e sensual

A Arte de Autor deu a conhecer Jordi Lafebre aos leitores portugueses como desenhador da ternurenta e bem-disposta série familiar “Verões Felizes” e, depois, como autor completo, na comédia romântica “Apesar de tudo”, que só podia ser narrada em BD, dada uma brilhante característica da sua concepção.
Agora, regressa de novo a solo em “Sou o seu silêncio”, num registo policial ambientado em Barcelona, com uma protagonista feminina, Eva, uma psicóloga algo excêntrica com traços de bipolaridade que, como tantas vezes neste género, dá por si inesperadamente envolvida numa investigação de homicídio.
Tudo começa quando é convidada por uma amiga e ex-paciente para a acompanhar a uma reunião para leitura de um testamento, no seio da família Monturós, com muitas posses e socialmente relevante, como produtora do espumante que leva o seu nome. A atravessar uma fase difícil e sujeita a avaliação psicológica para ser decidido se pode continuar ou não exercer a sua profissão, devido às vozes que “ouve na sua cabeça”, embora reticente, Eva acaba por aceitar.
Inevitavelmente, acontece um homicídio, o que provoca a entrada em cena de uma detetive bastante discreta para investigar o crime e todos os que aspiram à herança e são por isso potenciais suspeitos.
Atravessando-se uma e outra vez no caminho da detective, Eva, com as suas mudanças de humor, a constatação das decisões pouco sensatas que frequentemente tomou e os fantasmas interiores com que se debate, leva à introdução de notas dissonantes de humor ou suspense numa intriga bem urdida, em que Lafebre vai expondo cada um dos membros da família Monteiro, bem como uma teia de interesses pouco claros, negócios mais ou menos esconsos e os ardis que levam a cabo para se posicionarem face ao pecúlio em jogo.
O relato, em que a vida particular da protagonista se mistura com a investigação, é servido pelo traço dinâmico, elegante, sensual e apelativo a que o autor nos habituou, com o qual dá vida a este teatro de costumes, arrastando-nos em loucas correrias ou mergulhando-nos nos momentos depressivos que Eva vai vivendo, ao mesmo tempo que a investigação vai avançando de forma inesperada e surpreendente.

Sou o seu silêncio
Jordi Lafebre
Arte de Autor
112 p., 25,95 €


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F. Cleto e Pina

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Um duplo olhar para o passado

Histórias humanas com a guerra como cenário de fundo
Colecção “Obras de Pratt” recupera obras menos conhecidas do criador de Corto Maltese

Terminado 2023 e com a habitual acalmia editorial das primeiras semanas do novo ano é altura de recuperar alguns dos títulos que a sucessão de novas edições impediu de ler e/ou recensear.
Uma delas, é o segundo tomo da colecção “Obras de Pratt”, que a Ala dos Livros inaugurou com “Anna na Selva”, e em que estão a ser recuperados títulos menos conhecidos do autor veneziano, que é como quem diz, o muito que ele fez para lá de “Corto Maltese” e “Os Escorpiões do Deserto”, duas séries já com edição integral portuguesa.
Intitulado “Koinsky relata… meia dúzia de coisas que sei sobre eles”, curiosamente é narrado pelo protagonista de “Os Escorpiões…” e reúne cinco narrativas originalmente escritas e desenhadas em 1956 e 1957, quando Pratt vivia em Londres.
São relatos de guerra, é verdade porque decorrem em cenários da Primeira e Segunda guerra mundiais, mas na realidade são apenas histórias de seres humanos que estiveram no local errado, no momento errado, porque é isso que a guerra é, e tentaram fazer o melhor possível, apesar da cobardia ou da coragem forçada, de crendices e superstições, de paixões e alianças momentâneas, de crenças, convicções, ideais ou dos meros acasos que o destino proporcionou.
Pensadas e executadas num tempo em que a banda desenhada não tinha o estatuto de que merecidamente goza hoje, possivelmente até para formatos diferentes, estes cinco contos amorais surgem agora numa edição cuidada, em que cada um é introduzido por um breve resumo, fotografias da época, aguarelas alusivas coloridas e desenhos preparatórios.
Cruzando protagonistas e figurantes de diferentes origens, nacionalidades e temperamentos, saltitando entre o Norte de África, Itália ou a Palestina, encontramos neste “Koinsky…” algumas das temáticas caras a Pratt, nomeadamente os absurdos em que as guerras são férteis e o predomínio do indivíduo e do livre arbítrio sobre as massas e as imposições a que são sujeitas, e não deixa de ser curioso que relatos com mais de seis décadas, já levantem questões que hoje, como afinal então, embora com perspectivas diferentes, já eram actuais e fracturantes, como a independência de algumas repúblicas da ex-URSS ou o destino do território da Palestina, que nos nossos dias continuam na ordem do dia e sem resolução.

Obras de Pratt: Koinsky
Hugo Pratt
Ala dos Livros
196 p., 39,90 €


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Muita BD para ver

Festivais e eventos multiplicam-se no primeiro semestre

Sinónimo do bom momento que a edição de banda desenhada vive actualmente, o primeiro semestre deste ano está recheado de eventos desdicados a esta arte.
As hostilidades abrem a 18 de Março, na Lourinhã, com a segunda edição do Louri’BD

Neste momento estamos a tratar com o município da Lourinhã da programação, da qual não te posso adiantar nada, porque não temos autorização para o fazer.
A única coisa que te posso dizer é que o evento se vai realizar entre 18 a 24 de Março. Vamos centrar o evento propriamente dito nos dias 22, 23 e 24 Março.
O Município da Lourinhã lançou no início deste mês a sua agenda cultural para Janeiro, Fevereiro e Março, com uma programação que acolhe projectos nacionais e locais, na sua maioria, com entrada gratuita. É capa uma ilustração do livro ‘E depois do Abril’, dos autores Filipe Duarte e André Mateus, obra que será lançada no LouriBD, uma parceria da autarquia com a editora local, Escorpião Azul, com o apoio da Antena1. Num comunicado enviado ao ALVORADA a autarquia revela que o evento decorrerá entre 18 e 24 de Março, com o tema ‘Monstros’ e contará ainda com lançamentos de outros livros, conversas, debates, workshops, cinema de animação, uma Feira do Livro de Banda Desenhada, um concerto ilustrado, sessões de autógrafos, exposições de peças de arte, bem como pranchas originais de banda-desenhada.
Em Março, para além de cinema e cinema de animação, um workshop de encadernação clássica, poesia para bebés e ‘Yoga entre Histórias’, a Lourinhã dinamiza a 2ª edição do Festival de Banda Desenhada da Lourinhã – LouriBD – que tem por objectivo tornar acessível e aproximar todas as pessoas, independentemente, das idades e literacias, à Nona Arte. O evento decorrerá no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, com entrada livre, e terá uma programação dirigida às escolas, entre os dias 18 e 22 e ao público em geral, entre os dias 22 e 24.


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F. Cleto e Pina

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Uma fábula sobre tempos incertos

E se a felicidade pudesse ser concedida por uma fórmula matemática?
Obra publicada em dois volumes há década e meia, surge agora em edição integral

Devido à pequena dimensão do mercado editorial português de BD e às consequentes tiragens curtas, há obras nacionais que se tornaram quase lendárias. Uma delas é “A Fórmula da Felicidade”, publicada originalmente em dois tomos há cerca de década e meia que desapareceram há muito do mercado e eram procuradas por colecionadores ou leitores interessados.
Agora, ressurge numa edição integral, com todas as vantagens das técnicas de produção e impressão modernas, e com um posfácio extra de 16 páginas, que na verdade é um prólogo e acrescenta um elemento importante ao relato.
Escrito por Nuno Duarte, também guionista das Produções Fictícias que tantos projectos levaram ao pequeno ecrã, tem como ponto de partida uma curiosa pergunta: e se a felicidade estivesse dependente de uma fórmula matemática? A resposta, forte e bem estruturada, tem por protagonista Victor, um génio matemático, filho de uma prostituta e de pai incógnito, por isso marginalizado e humilhado por todos, que busca nos números o refúgio e o consolo que os humanos não lhe dão.
Quando descobre a tal fórmula que, quando lida por ele, produz a felicidade instantânea, Victor, transformado em guru da moda e milagreiro de trazer por casa, passa de desprezado a adulado mas, apesar da aparente realização pessoal e da fama recebida, devidamente exploradas por uma sociedade com fins lucrativos, mergulha numa espiral descendente de auto-destruição, cada vez mais sozinho apesar das multidões que o procuram.
Crítica premente, com ramificações familiares, sociais, políticas e religiosas, “A Fórmula da Felicidade” graficamente é mais um belo trabalho de Osvaldo Medina, bem servido por um colorido de tons suaves da responsabilidade de Ana Freitas. O desenhador revela uma grande legibilidade na planificação e na disposição dos elementos nas vinhetas e uma conseguida opção de dotar as personagens com cabeças de animais, escolhidas de acordo com as características de cada um (animal e humano), que contribuem para acentuar os pontos fortes da narrativa e permitem ao leitor um ilusório distanciamento. Ilusório, porque, apesar dos anos passados sobre a sua criação, esta fábula sobre tempos incertos, em que tantos falsos profetas facilmente encontram seguidores, continua actual e incómoda.

A Fórmula da Felicidade – Edição integral
Nuno Duarte e Osvaldo Medina
Kingpin Books
112 p., 21,50 €


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F. Cleto e Pina

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Enquanto as memórias se vão apagando

Uma viagem atribulada atrás de um tempo que já não volta
A doença de Alzheimer num relato terno e sensível baseado na vivência da autora

Já evocada pela banda desenhada em obras como “Rugas”, de Paco Roca (edição Levoir), a doença de Alzheimer é um dos piores pesadelos que podemos antever. Pelo esquecimento progressivo, mas também pelos momentos de lucidez que vão ocorrendo. É por isso que uma das protagonistas de “Não me esqueças”, que a ASA acaba de editar, diz: “Acho que estou a ficar maluca… Mas o pior é quando me lembro”.
Porque ela, avó de Clémence, tem Alzheimer. A filha, médica, atarefada pelo corre-corre quotidiano, colocou-a num lar, de onde acaba de fugir mais uma vez quando a história começa. Não porque se sinta maltratada ou solitária – na verdade, não se lembra… – mas porque teme que os pais estejam preocupados pelo seu desaparecimento…
Sendo a solução apresentada aumentar o cocktail químico para a acalmar, Clémence, a neta que foi por ela criada, decide levá-la à socapa do lar, para irem à casa da infância, esperando que o choque a ajude a recuperar a memória, a voltar a ser a sua avó.
“Não me esqueças” é o relato dessa viagem atribulada, pela situação da avó e por algumas peripécias que vão acontecendo, uma viagem carregada de recordações, emoções, memórias que vão e vêm. Uma história sensível e tocante, aqui e ali com um toque de um humor triste, que soa como antecipação do que tememos que nos possa vir a acontecer: esquecer quem somos, o que fomos, aqueles que amamos, ficarmos presos num pedaço de realidade ultrapassada, da qual escapamos por breves momentos, apenas para cairmos em nós e vermos aquilo em que nos tornamos.
O vazio, o esquecimento, o apagamento que são o mote desta belíssima narrativa, são acentuados pela forma como Alix Garin, que projectou em Clémence muito da sua experiência pessoal, os traduz com um traço extremamente simples, eliminando muitas vezes os cenários, até o próprio carro, e transmitindo com invulgar assertividade as emoções que extravasam as imagens, a angústia, o vazio, a solidão, o nada em que uma vida se pode tornar, mas com uma enorme ternura e um ligeiro sentimento de esperança que preenche e conforta o coração do leitor e o ajuda a aceitar o que é inevitável e a ter vontade de corrigir o que ainda é possível.

Não me esqueças
Alix Garin
ASA
224 p., 24,90 €


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Paulo J. Mendes vence Prémio Jorge Magalhães com “Elviro”

Paulo J. Mendes, foi distinguido com o Prémio Jorge Magalhães de Argumento para Banda Desenhada, referente ao ano editorial de 2022, pela sua obra “Elviro”, editada pela Escorpião Azul.
Ao JN, o autor nortenho referiu que esta distinção, que vem juntar-se ao troféu para Melhor Álbum de Autor Português, recebido no recente Amadora BD, “para alguém que nunca está satisfeito e questiona permanentemente o próprio trabalho é algo de gratificante e um sinal de que provavelmente até vamos fazendo qualquer coisa de jeito.”
Sendo um prémio para argumento, como autor apostado em “criar histórias e respectivos mundos, acaba por ter um valor acrescentado”. E desenvolve: “ Uma boa história aguenta-se bem com um desenho menos bom, mas o oposto já não é possível, o que diz muito da importância do argumento”.
“Elviro”, segundo o escritor e desenhador, é “um divertimento que nasceu nos tempos cinzentos da pandemia, que celebra os dias soalheiros do Verão de época já remota, com um leve toque picante” e também “uma homenagem aos velhos e pitorescos transportes públicos desse tempo e respectivos entusiastas que os registaram para a posteridade”, no caso os eléctricos de Nalgas do Mar, a estância balnear em que decorre o relato, semelhantes aos que o Porto ainda vai tendo.
O sucesso desta obra, bem como de “O Penteador” (Escorpião Azul), distinguido em 2020 com uma Menção Honrosa, não o fazem arrepender de “um afastamento da BD de décadas, que resultou de uma sucessão de acontecimentos muito específicos”. E explica que possivelmente “era assim que as coisas estavam destinadas a ser. Perante isto, e deitando mão ao velho chavão “mais vale tarde do que nunca”, o tempo não é de pensar naquilo que poderia ter sido feito no passado, mas sim olhar para o que ainda temos pela frente com muita motivação”.
E pela frente, está um novo livro, “cuja edição está prevista para o Outono de 2024”. E revela, entusiasmado: “é extenso, com cerca de 250 pranchas”, em que tem “estado completamente imerso como um eremita, não por causa de prazos mas pela entusiástica vontade de avançar”. Relativamente à história, adianta que “terá um humor aqui e ali mais ácido e negro, e começa com uma personagem que é obrigada a revisitar o seu passado, desencadeando com isso uma caldeirada de peripécias!”
Paulo J. Mendes, que já tinha sido distinguido com uma Menção Honrosa em 2020, por “O Penteador” (Escorpião Azul), sucede a Filipe Melo (“Balada Para Sophie”, 2020, Companhia das Letras) e a “O Fogo Sagrado” (Derradé, 2021, Escorpião Azul).
O júri decidiu também atribuir uma Menção Honrosa a Bernardo Majer por “Estes Dias” (Polvo).
O Prémio Jorge Magalhães, é uma iniciativa da editora Ala dos Livros e uma homenagem a alguém que dedicou a sua vida à escrita e à BD, como editor, coordenador de revistas (“Mundo de Aventuras”, “Mosquito – 5.ª série”, “Selecções BD”…) ou argumentista, com o objetivo de dignificar e valorizar o argumento na Banda Desenhada.


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F. Cleto e Pina

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