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Zits também em animação

“Zits”, uma das mais populares tiras diárias de imprensa da actualidade, criada em 1997 por Jerry Scott (argumento) e Jim Borgman (desenho), e publicada diariamente pelo Jornal de Notícias bem como por mais cerca de 1600 jornais de todo o mundo, acaba de ganhar uma versão animada.
Uma mão cheia de episódios dos “Zits Motion Comics” está já disponível gratuitamente na página da internet do King Features Syndicate, na secção Comics Kingdom, uma plataforma online de distribuição de tiras diárias de imprensa para jornais locais norte-americanos. São episódios com cerca de 30 segundos que adaptam algumas das histórias originais publicadas nos jornais, dotando-os de movimento básico e som. Este último aspecto é o grande trunfo desta experiência, pois as vozes escolhidas para Jeremy Duncan, o adolescente de 15 anos que protagoniza “Zits” (“borbulhas”), para os seus pais, Walt e Connie, com quem protagoniza um constante choque de gerações, e para os seus amigos, Hector, Sara e Pierce, encaixam perfeitamente naquelas que “se ouvem” no papel.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Da tumultuosa imobilidade dos adolescentes

Zits #12 – Autoimóvel
Jerry Scott (argumento) e Jim Borgman (desenhos)
Gradiva
13,00 €

Subgénero dentro do universo da banda desenhada, sem grande expressão entre nós (são escassos e inconsequentes os exemplos), as tiras diárias de imprensa são um mercado frutífero nos EUA, graças aos muitos jornais em circulação, e estão profundamente arraigadas nos hábitos dos leitores de periódicos norte-americanos. Só assim se compreende que as que têm mais sucesso – “Peanuts”, “Garfield”, “Calvin & Hobbes”, etc. – possam ser publicadas simultaneamente em centenas ou milhares de jornais, exportação incluída. Como é o caso de “Zits”, que surge diariamente nas páginas do Jornal de Notícias e de mais de 1500 outros jornais!

“Zits” (literalmente “borbulhas”, as borbulhas de acne que infernizam a vida aos adolescentes) narra o quotidiano de Jeremy Duncan, de 15 anos, mostrando um conhecimento profundo e ao mesmo tempo divertidamente crítico sobre o “duro” dia a dia da adolescência, pejado de problemas transcendentes como o levantar cedo, os primeiros pêlos, as namoradas, a roupa, as aulas, as bandas de garagem, o controlo dos pais aos amigos e horários, como primeiros sintomas do inevitável confronto geracional, porque (aos seus olhos) a mãe insiste em tratá-lo como uma criança e o pai ficou irremediavelmente preso no tempo, há 30 ou 40 anos atrás… Aliás, “Zits” satiriza a tal ponto as diferenças entre duas gerações consecutivas que, mais do que um choque pode falar-se de um completo desencontro de gerações, como reflexo da forma acelerada como o tempo passa hoje em dia.

E se o primeiro objectivo destas tiras, às quais muitos leitores do JN possivelmente lançarão apenas um rápido olhar (ou nem isso…), é divertir de forma ligeira (no politicamente correcto mercado norte-americano, temas fracturantes raramente são focados), a verdade é que “Zits” pode bem ser considerado um retrato sociológico poderoso e incisivo de uma faixa etária importante nesta sociedade globalizada – os problemas de Jeremy nos EUA, são os mesmos dos adolescentes portugueses, brasileiros ou dinamarqueses (e a globalização contribui cada vez mais para o sucesso das tiras de imprensa) – que não consegue resolver os seus conflitos mais básicos, aqueles que nascem na estrutura familiar.

Se a escrita de Jerry Scott é fluida  e directa, atingindo mesmo o brilhantismo em alguns diálogos de antologia, a verdade é que um dos grandes trunfos de “Zits” é o traço de Jim Borgman, extremamente rico e diversificado para o género – lembremo-nos que os autores deste género de BD estão obrigados a um ritmo produtivo intenso (a publicação é diária, sem interrupções), pelo que não surpreende que a maioria das tiras de imprensa assente num traço simples, muitas vezes só esquemático. Em “Zits”, no entanto, destacam-se a grande expressividade dos rostos e corpos e a forma como Borgman hiperboliza graficamente as experiências sensitivas e emocionais dos protagonistas, por exemplo, tornando a mãe invisível ou colando-a (literalmente) no tecto, mostrando expressões incompreensíveis a jorrarem dos ouvidos de Jeremy, aumentando exageradamente os seus pés, pernas, braços, boca ou cabeça, etc. Isto é especialmente notório nas pranchas dominicais (que infelizmente o JN não publica…) onde Borgman joga magnificamente com o maior espaço disponível, podendo multiplicar as vinhetas e deixando o desfecho explodir com mais força no quadro final ou, pelo contrário, usar uma imagem única, rica em pormenores, referências ou citações.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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