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“Os Simpsons” em filme, à conquista de novos fãs

Projecto com 10 anos finalmente concretizado; Ambientalistas e fanáticos religiosos são alvos preferenciais da película; Filme estreia hoje em 75 salas; Família amarela pela primeira vez fala português, em 48 das cópias em exibição

Estreia hoje, em Portugal, um dia antes de chegar às salas de cinema norte-americanas, “Os Simpsons – O filme”, um projecto “velho” já de dez anos, finalmente concretizado. Nele, pouco depois do início, Homer Simpson, que assiste no cinema a uma película protagonizada por Itchy e Scratchy, a versão gore de Tom e Jerry que Bart e Lisa adoram, interroga-se desabridamente: “Porque é que estou a pagar para assistir a uma coisa que posso ver de borla na TV?”. Mas se a mesma pergunta chegar a aflorar às mentes de quem for ver “Os Simpsons – o filme”, depressa a esquecerão, pela forma divertida como ele se desenrola, capaz de arrancar mesmo algumas sonoras gargalhadas, pelo imprevisto ou non-sense de algumas situações.

Por isso, dirão os fãs, valeu bem a pena a espera, para poder assistir às desgraças quotidianas da mais conhecida família da TV no grande ecrã, onde Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie ganham uma nova dimensão, literalmente falando mas também fruto de uma animação mais cuidada, que os feios bonecos amarelos já mereciam, depois de quase uma centena de distinções televisivas conquistadas ao longo de uma carreira ímpar no pequeno ecrã.

Tudo começa quando Homer provoca (mais) um enorme desastre ambiental em Springfield, o que leva a Agência de Protecção Ambiental (EPA) norte-americana a isolar a cidade dentro de uma redoma de vidro, dando assim cumprimento a uma estranha profecia do avô Simpson, logo no início, quando entra em transe na igreja. Conseguindo à justa fugir ao linchamento pelos seus concidadãos, Homer e família vão para o Alasca, onde a aparente harmonia reencontrada se transformará em separação, o que levará Homer a uma atribulada peregrinação e busca interior, de que sairá pronto a redimir-se e a assumir – como raras vezes aconteceu ao longo da sua vida – as suas responsabilidades.

A história, bem construída, transporta com felicidade para o grande ecrã o ritmo próprio da série televisiva, com as habituais inflexões iniciais e vários relatos cruzados, e preenche agradavelmente e sem se dar por eles os 85 minutos que dura, tendo mesmo algumas cenas de antologia com destaque para o longo percurso de skate de Bart, totalmente nu, pelas ruas de Springfield.

Conta também com o habitual cortejo de referências, mais ou menos explícitos, como o naufrágio do Titanic, a idílica cena Disney em que Branca de Neve, esgotada, se deita nas camas dos anões sendo coberta pelos animais da floresta, ou a sátira ao documentário ambientalista de Al Gore “An inconvenient truth”, transformado em “An irritating truth” na dissertação de Lisa, mal recebida pelos seus concidadãos.

A tradição televisiva de incluir personagens reais nos episódios (dobrados por eles próprios), da política (Clinton, Blair) à TV (Jack Bauer, Mulder, Scully), passando pela música (Sting, Aerosmith) ou pelo cinema (Elizabeth Taylor, Woody Allen), também tem continuidade no filme, com os Green Day, logo no genérico (vaiados quando tentam um discurso em prol da natureza), Tom Hawks, Hillary Clinton, como vice do presidente Itchy, ou Schwarzenegger (“já” – sic) como Presidente, embora só os dois primeiros dêem as suas vozes aos bonecos.

Finalmente, há o reencontro com situações recorrentes – o egoísmo e gulodice de Homer, o activismo ambiental de Lisa – com outras mais surpreendentes como a aproximação de Bart e Ned Flanders, a paixão de Lisa por um miúdo irlandês ou o novo animal de estimação de Homer (um porco), a par das intervenções da vasta e rica galeria de personagens secundárias, alegremente mergulhadas numa existência vazia e auto-destrutiva. A grande novidade é a existência de um verdadeiro “mau” na história, o politicamente correcto (?) Russ Cargill, responsável da EPA, o que ajuda a perceber porque afirmou Matt Groening “que muita gente se vai sentir ofendida com o filme”, numa clara alusão aos ambientalistas e aos fanáticos religiosos, que surgem como alvos preferenciais da película.

E embora o filme seja “apenas” um (bom) episódio longo, tem tudo para conquistar novos fãs para a série, ajudado pelo mediatismo gerado à sua volta e pela actual moda que leva os adultos a verem filmes de animação, o que o deverá transformar num dos êxitos de bilheteira deste Verão.

O que resulta num desafio extra para a versão dobrada em português que conta, nos principais papéis, com as vozes de José Jorge Duarte (como Homer), Cláudia Cadima (Marge), Carla de Sá (Bart, que volta a ter uma voz “feminina” tal como na versão americana), Manuela Couto (Lisa), Pepê Rapazote (Russ Cargill), Cucha Carvalheiro (curandeira) e Filipe Duarte (Ned Flanders). Com o risco acrescido de, em Portugal, a série televisiva ter sido sempre legendada.

E a aposta da distribuidora nela é grande pois, das 75 salas de cinema em que vai estrear, apenas 28 têm cópias da versão original (cinco digitais), havendo 47 cópias da versão dobrada, numa clara tentativa de o transformar num “filme de família”, coisa que os Simpsons, apesar de serem uma animação, sempre estiveram longe de ser, pelo seu carácter crítico e mordaz e pelo estatuto adulto de muitos dos seus temas e abordagens.

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Saber mais

TV/DVD

Criados, diz a anedota, num quarto de hora, enquanto Matt Groening aguardava por uma reunião com a Fox, os Simpsons estrearam-se em 1987, em episódios de 30 segundos no The Tracey Ulman Show. A popularidade alcançada levou-os a um especial de Natal, em 1989, e à estreia como série regular a 14 de Janeiro de 1990. Eleitos pela Times, em 1998, como a melhor série televisiva do século XX, conta 400 episódios, vai na 18ª temporada nos EUA e na 15ª em Portugal (RTP 2) onde já estão disponíveis as primeiras 9 em DVD.

BD

O sucesso televisivo levou ao lançamento, em Novembro de 1993, de “Simpsons Comics”, com as mesmas personagens, em histórias novas. A sua equipa criativa, onde se destacou Bill Morrison, foi capaz de transpor para uma nova linguagem o espírito e a dinâmica do original, o que permitiu ao comic manter-se até à actualidade. Outros títulos têm sido lançados paralelamente, como “Bartman”, “Bart Simpson’s Treehouse of Horror” ou “Itchy and Scratchy”.

Merchandising

Membros activos e empenhados de uma sociedade hiper-consumista, os Simpsons têm contribuído para ela com a sua quota-parte, surgindo em bonés, t-shirts, roupa interior, lápis e canetas, relógios, copos e canecas, velas, purificadores de ar, decorações de Natal, puzzles, jogos, pins, bolachas, gomas e um sem número de bonecos 3D, onde se destacam criações recentes como as cenas famosas de episódios da TV ou a colecção do filme com cada membro da família numa poltrona de cinema.

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Perfil de uma família disfuncional

Família disfuncional, dependente da televisão, retrato cáustico da família típica americana, os Simpsons, ao longo de 20 anos, não ganharam uma única ruga, mas os acontecimentos marcantes, como as mortes da esposa do beato Flanders ou do seu gato de estimação, acompanham-nos ao longo dos episódios.

Homer Jay Simpson

Quase quarentão, calvo, com barriga de cerveja (Duff), egoísta e glutão (adora donuts e tudo o que tenha gordura e calorias), Homer trabalha na Central Nuclear local e é o chefe (mas pouco) da família, que, bem lá no fundo, adora. Eterno indeciso, é perito em tomar sempre a pior decisão. Quando não está a causar desastres, está em frente à televisão ou no bar do Moe.

Marge Bouvier Simpson

Dois anos mais nova que Homer, destaca-se pelo seu alto penteado e pelo enorme poder de encaixe que lhe permite manter a família unida. Dona de casa exemplar, divide o seu tempo entre a obsessão compulsiva pela limpeza, o cuidado dos filhos e evitar que Homer provoque (mais) danos. Quando algum tema a motiva, leva tudo à sua frente e, uma vez por outra, encontra tempo para mostrar que poderia ter sido uma grande mulher.

Bart Simpson

É o filho mais velho, tem 10 anos, anda no 4º ano e, apesar de inteligente, é cábula, traquina, irrequieto e, por vezes, mesmo mau. Adora aborrecer Lisa, enfurecer Homer e, devido às suas partidas, passa a maior parte do tempo escolar no gabinete do director Skinner, um dos seus ódios de estimação. A sua frase favorita é: “Não fui eu quem fez isso!”.

Lisa Simpson

Com 8 anos, é o génio da família. Anda no 2º ano, é sensível, inteligente, empenhada e inamovível nas causas que abraça (defesa dos animais, do ambiente…), toca saxofone e tem interesses culturais. É a “filha perfeita”, mas parece deslocada no seio da sua disfuncional família, o que muitas vezes lhe causa profundas depressões.

Maggie (Margaret) Simpson

Malabarista da chupeta, que raramente tira, a mais nova da família tem um ano, não fala, gatinha mais do que anda e passa a maior parte do tempo a ver televisão. Aparentemente alheia ao que acontece à sua volta, quando passa à acção, pode correr a tiro um bando de mafiosos, chefiar uma revolta na creche ou ter um papel preponderante, como no filme.

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Matt Groening, o autor

Matt (Matthew Abram) Groening, o criador dos Simpsons, nasceu a 15 de Fevereiro de 1954, em Portland, Oregon, EUA. Mau estudante, dedicava mais tempo à BD e ao cartoon do que aos estudos, tendo criado “Life in Hell” (“O amor é um inferno”, na edição portuguesa da Gradiva), uma tira que começou por policopiar e que acabou em dezenas de jornais. Deste sucesso de Binky e Sheba, dois coelhos antropomórficos através dos quais transmite uma imagem distorcida e caricatural da sua vida em Los Angeles, aos feios bonecos amarelos, de olhos salientes, foi um passinho que o elevou à categoria de celebridade.

Numa e noutra série, Groening retrata a vida dos comuns mortais – sexo, trabalho, férias, crianças, morte – como que através de uma lente deformadora que apenas faz sobressair o pior do ser humano, com um humor corrosivo, iconoclasta e irreverente, que, se não convida ao riso desbocado, obriga a sorrir, ainda que de forma incómoda, quando, uma ou outra vez, nos reconhecemos na pele de Homer, Bart Lisa ou dos restantes Simpsons.

Groening é também o criador de Futurama, outra série televisva, que transporta o mesmo olhar cáustico para a sociedade do ano 3000.

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Curiosidades

Os Simpsons e Portugal I

Em 1995 a sala de estar da família Simpson foi construída em tamanho real no VIII Salão Internacional de BD do Porto e decorada com originais de banda desenhada de Bill Morrison, que esteve presente no evento, contribuindo decisivamente para o seu sucesso.

Os Simpsons e Portugal II

A única referência a Portugal nos 400 episódios televisivos acontece quando Homer e a sua família vão assistir ao vivo a um México-Portugal, em futebol, “para decidir qual o melhor país do mundo”. Homer afirma que se matará se Portugal não vencer, mas o jogo não chega a acabar, pois os espectadores, cansados da “monotonia” daquele desporto, acabam à pancada nas bancadas.

Os Simpsons em versão manga

Um desenho de uma obscura ilustradora, Space Coyote, divulgado na net no início deste ano, que mostrava os “Simpsonzu”, uma versão estilo manga (bd japonesa) da célebre família americana, valeu-lhe contratos para fazer um comic nesse estilo e também para colaborar em “Futurama”, a outra série televisiva de Matt Groening.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Vêm aí The Simpsons em formato manga

Maurício de Sousa anunciou que a Turma da Mónica também terá versão manga ainda este ano

Se de repente começar a ouvir falar da família Simpsonzu e achar nela estranhas semelhanças com uma família que conhece bem, não estranhe. Serão os protagonistas de uma nova banda desenhada em estilo manga (bd japonesa), baseada em “The Simpsons”, a célebre família amarela do pequeno ecrã, a lançar possivelmente ainda durante este ano.

E, curiosamente, tudo começou com uma brincadeira, quando Space Coyote, uma artista obscura, decidiu afixar no seu site, “só por brincadeira, para os amigos”, uma “foto de família” com duas dúzias dos mais conhecidos intérpretes de “The Simpsons”, com a particularidade de estarem desenhados com características manga: seja olhos grandes, bocas escancaradas e um aspecto assumidamente asiático. Incentivada pelas reacções recebidas, Space Coyote fez o mesmo exercício com os heróis de “Futurama”, outra série de Matt Groening, actualmente em exibição na 2:. As imagens começaram a circular na net, chegaram até à Bongo Comics, responsável pela versão em BD dos Simpsons, que, em lugar de processar a artista, decidiu convidá-la para desenhar uma banda desenhada, com a estética própria dos quadradinhos japoneses. Mas este autêntico conto de fadas não se fica por aqui, pois a ilustradora também foi contactada pela 20th Century Fox, que exibe os desenhos animados originais, para colaborar na nova temporada de “Futurama”.

Entretanto, no Brasil, em entrevista recente, Maurício de Sousa, o criador de Mônica, Cebolinha, Cascão e companhia – cujas novas revistas deverão ser distribuídas em Portugal nas próximas semanas – entre outros projectos anunciou “que também vamos ter a Turma da Mônica desenhada no estilo dos quadradinhos japoneses; vamos brincar um pouquinho com o estilo “semi-manga”, ainda este ano”.

Estes são mais dois exemplos da importância crescente deste género de BD no Ocidente, onde já representa 40 % ou mais dos mercados alemão, espanhol e franco-belga. Isto tem levado muitos autores europeus e norte-americanos, nomeadamente das novas gerações, a optarem por este género narrativo, preferido pelos leitores mais jovens, sendo exemplos recentes adaptações de Shakespeare na Inglaterra e nos EUA, ou edições aos quadradinhos apadrinhadas e protagonizadas por Courtney Love ou Avril Lavigne, como o JN oportunamente noticiou.

Em Portugal, se as anteriores tentativas de editar manga têm sido um fracasso, há alguma expectativa em relação à entrada das Edições ASA neste segmento, nos finais de 2007, e quem costuma acompanhar concursos e fanzines, nota o número cada vez maior de obras influenciadas pelo estilo narrativo nipónico. A um outro nível, o bimestral “BDJornal”, que acompanha a actualidade dos quadradinhos, tem publicado “Os Monótonos Monólogos de um Vagabundo”, de Hugo Teixeira, e as Produções Fictícias procuram uma parceria para lançarem aquela que classificam como “o primeiro manga português”, “Meia-Noite e Três”, de Nuno Duarte e Ana Freitas.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias