A irresistível atracção pelo abismo

Jean-Yves Delitte é garante de rigor histórico
Colecção “As Grandes Batalhas Navais” abre com Jutlândia, confronto decisivo da Primeira Grande Guerra

Pode soar estranho, mas possivelmente não é mais do que reflexo da atracção irresistível do ser humano pelo abismo, mas há temáticas que parecem não passar de moda e regressam regularmente aos gostos do público.
Entre elas estão, indiscutivelmente, as relacionadas com as duas grandes guerras e isso ajuda a perceber que nos últimos meses tenham surgido em Portugal várias propostas de banda desenhada dentro do género, sendo o mais recente a colecção “As Grandes Batalhas Navais”. O volume inaugural intitula-se “Jutlândia” e tem a assinatura de Jean-Yves Delitte, desenhador e argumentista especializado nestes temas bélicos.
Autor de todos os tomos da colecção, nalguns casos só como argumentista, noutros, como em “Jutlândia”, como autor completo, Delitte é garante de rigor histórico e de fidelidade na reconstrução das embarcações representadas, omnipresentes ao longo das pranchas, entremeadas pontualmente com espectaculares vinhetas de página dupla.
Tendo como principal qualidade a reconstituição de época de uma das batalhas decisivas da Primeira Grande Guerra, o argumento de Delitte acrescenta-lhe um factor humano ao incluir na narrativa algumas personagens, provenientes de um e outro lado das forças em confronto, que servem para balizar os horrores dos conflitos armados e para criar alguns laços com o leitor: um oficial em vésperas de se divorciar e outro apaixonado pela mulher; um veterano marinheiro alemão; um francês morador em territórios ocupados, que se voluntariou para a aviação para poder cumprir o sonho de voar mas acabou num navio – e os seus pais.
Em torno deles, num relato pontuado por informações sobre a situação política e militar e o valor e constituição das frotas britânica e alemã prestes a enfrentar-se ao largo da península dinamarquesa que dá título à obra, Delitte constrói um relato que foge à frieza do simples documentário e ganha alguma consistência e calor humano.
Se o final surge algo abrupto, deixando a sensação – para quem está à distância – de que a montanha – a grande batalha naval em perspectiva – pariu um rato – as baixas perdas relativamente à dimensão que poderiam ter atingido pelo muito superior número de embarcações e homens em confronto – isso é atenuado pelo dossier final que ajuda a contextualizar e dimensionar o trágico acontecimento.

As Grandes Batalhas Navais – Jutlândia
Jean-Yves Delitte
Gradiva
64 p., 19,50€


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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