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Memória de Marjane

Marjane Satrapi aterrou no Porto em Setembro de 2001. O segundo (de quatro) volumes da sua obra inaugural Persepolis acabara de sair em França e a embaixada francesa incluíra a iraniana nas propostas para a 11ª edição do Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto.

A exposição juntou – no Mercado Ferreira Borges – as pranchas da sua obra de estreia com um conjunto de tapetes persas que evocavam o ambiente de um país antigo numa procura – comum na estratégia do SIBDP – de associar cada exposição a um ambiente e a um cenário adequado.

A autora estava em início de carreira e era (também para nós) uma quase desconhecida de quem se começava a falar no ambiente francófono da BD. Mas Setembro, esse Setembro foi também o mês da tragédia nova iorquina e das repercussões no já instável mundo do médio oriente. Com o agravar das tensões (ontem como hoje) o facto de termos uma iraniana no programa chamou a atenção dos jornalistas que rapidamente pediam o seu testemunho e a sua opinião sobre a atribulada situação. A principal memória que retemos da passagem de Marjane pelo Porto e pelo Salão foi esta: uma jovem autora, exilada na europa, amante do seu país e consciente da situação em que este vivia, consciente da complexidade de tudo o que se vivia naquela região do mundo e dividida entre a vontade de falar e a consciência do que arriscava (a família ainda vivia no Irão).

A obra (ainda incompleta na altura) contribui muito para que no mundo ocidental se tivesse uma maior consciência de um mundo para nós distante e desconhecido. Muito justamente marcou o início desse novo século e pertence já à história da BD.

A autora produziu ainda alguma obras importantes no seio da BD (Bordados, Frango com Ameixas – ambos publicados em Portugal pela Levoir), e com a adaptação a cinema de animação de Persepolis iniciou uma carreira no cinema. Recentemente utilizou o seu papel desbravador para – voltando à BD – produzir e coordenar uma colectânea “Mulher, Vida, Liberdade” (na Iguana) denunciando a falta de liberdade no Irão e o desrespeito pelos Direitos da Mulheres e denunciando o assassinato de Mahsa Amini.

Aos 56 anos Marjane morreu de desgosto, dizem as notícias. A sua obra perdura e a nossa memória também.

A obra de Marjane Satrapi pode ser vista na exposição VOZES DO IRÃO no Festival Maia BD até 13 de Julho.

Pelo direito ao cabelo ao vento

Obra colectiva assinala um ano do assassinato de Mahsa Amini
Edição ganha actualidade reforçada graças à atribuição do Nobel da Paz à activista iraniana Narges Mhoammadi

Acabado de editar em Portugal pela Iguana, acompanhando o lançamento a nível internacional, um ano após a morte da iraniana Mahsa Amini, espancada pela polícia local por não estar a utilizar correctamente o véu, “Mulher Vida Liberdade” ganha uma nova actualidade devido à recente atribuição do Prémio Nobel da Paz à activista iraniana de direitos humanos Narges Mhoammadi.
Traçado por escritores e artistas iranianos e ocidentais, exibe um retrato multifacetado de uma realidade que, histórica e socialmente, é bem mais complexa do que uma análise ligeira pode fazer entender. Por isso, este livro pede mais do que uma leitura superficial, sendo até aconselhável voltar aleatoriamente a cada um dos relatos para conseguir apreender tudo aquilo que expõem sobre a situação política no Irão e as consequências das imposições do regime para os que lutam por mais liberdades, em geral, e para as mulheres em particular. Porque – e “Mulher Vida Liberdade” também o vinca – a morte de Mahsa Amini desencadeou protestos generalizados independentemente do género.
Marjane Satrapi, autora de “Persepolis” ou “Bordados”, obras poderosas sobre a situação no Irão, coordenou o projecto e assinou a capa deste livro em os textos, da autoria de um politólogo, um jornalista e um historiador, foram ilustrados ou transformados em BD por desenhadores menos conhecidos no Ocidente mas também por nomes consagrados como Catel, Pascal Rabaté, Paco Roca, Lewis Trondheim ou Joann Sfar.
Viveiro pleno de contrastes para leitores como nós, para quem é normal dizer o que pensamos, manifestarmo-nos, discordarmos ou exigirmos mudanças, esta obra revela como qualquer destas atitudes banais aos nossos olhos, no Irão facilmente se transformam numa questão de vida ou de morte. Vida se conseguires escapar, morte se te deixares apanhar.
São relatos emocionais, chocantes em muitos aspectos pela violência pura e subliminar envolvidas, sobre uma realidade que parece impossível na terceira década do século XXI, mas que mostra como o nosso mundo ainda está pleno de contrastes.
E se a par do forte tom de reportagem e documental, existe apesar de tudo uma mensagem de esperança num futuro inevitavelmente melhor, a verdade é que a História faz com que também perpasse o medo de que esse porvir ainda esteja distante.

Mulher Vida Liberdade
Vários autores
Coordenação de Marjane Satrapi
Iguana
288 p., 27,75€


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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