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O perigo da unanimidade que “Blacksad” justifica

Policial negro actual, embora situado décadas atrás

Sei que a unanimidade é perigosa mas no caso de Blacksad é impossível não ficar deslumbrado pelo originalidade da estrutura, pela qualidade das histórias e pela desenvoltura do traço desta criação dos espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
O título mais recente “Então, tudo cai” é, até agora, o mais ambicioso da série e, talvez por isso, foi necessário dividir a história por dois álbuns, que a Ala dos Livros já disponibilizou em português, reproduzindo as capas originais que compõem uma imagem única, com quatro dos principais intervenientes e a coragem de a segunda não ter o protagonista.
Ambientado numa Nova Iorque efabulada, o relato, apesar de se situar décadas atrás, soa estranhamente actual, pois combina ambições pessoais, lutas sindicais, interesses imobiliários e ligações perigosas entre políticos e gente pouco recomendável, numa trama bem urdida, consistente e sólida, repleta de segredos incómodos, em que os passados de algumas personagens as atrapalham e os cadáveres se vão multiplicando.
A par deste contexto mais genérico, em que arte e progresso parecem servir propósitos antagónicos, o protagonista, que dá título à série, reencontra antigas ligações, como sempre escolhe o lado errado das trincheiras e acabará por pagar caro as suas opções, fazendo, também ele jus ao título que aponta para a finitude da impunidade, das injustiças e dos negócios esconsos, sem que isso implique nenhum fundo nem lições de moral.
Policial negro, contido nos diálogos, deixando que a arte – e que arte! – de Guarnido tenha a primazia na narração da história – revela no entanto como Canales é extremamente assertivo e certeiro nas palavras que coloca na boca das suas personagens, com uma qualidade de escrita peculiar e uma enorme capacidade de transmitir muito com pouco.
E se, adequadamente, numa história que também tem ligações com a representação e o teatro, o tom de tragédia vai aumentando página a página, nenhum leitor estará preparado para a cena final, monumental e ao mesmo tempo representativa da pequenez do ser humano ou, em “Blacksad”, dos animais antropomórficos que assumem na sua forma as suas características intrínsecas, nos espelham e representam de forma tão forte, marcante e reveladora.
…porque, na verdade, é nessa última vinheta que, “Então, tudo cai”.

Blacksad: Então, tudo cai
Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Ala dos Livros
60+56 p., 17,50€ (cada)


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F. Cleto e Pina

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Um duplo olhar para o passado

Histórias humanas com a guerra como cenário de fundo
Colecção “Obras de Pratt” recupera obras menos conhecidas do criador de Corto Maltese

Terminado 2023 e com a habitual acalmia editorial das primeiras semanas do novo ano é altura de recuperar alguns dos títulos que a sucessão de novas edições impediu de ler e/ou recensear.
Uma delas, é o segundo tomo da colecção “Obras de Pratt”, que a Ala dos Livros inaugurou com “Anna na Selva”, e em que estão a ser recuperados títulos menos conhecidos do autor veneziano, que é como quem diz, o muito que ele fez para lá de “Corto Maltese” e “Os Escorpiões do Deserto”, duas séries já com edição integral portuguesa.
Intitulado “Koinsky relata… meia dúzia de coisas que sei sobre eles”, curiosamente é narrado pelo protagonista de “Os Escorpiões…” e reúne cinco narrativas originalmente escritas e desenhadas em 1956 e 1957, quando Pratt vivia em Londres.
São relatos de guerra, é verdade porque decorrem em cenários da Primeira e Segunda guerra mundiais, mas na realidade são apenas histórias de seres humanos que estiveram no local errado, no momento errado, porque é isso que a guerra é, e tentaram fazer o melhor possível, apesar da cobardia ou da coragem forçada, de crendices e superstições, de paixões e alianças momentâneas, de crenças, convicções, ideais ou dos meros acasos que o destino proporcionou.
Pensadas e executadas num tempo em que a banda desenhada não tinha o estatuto de que merecidamente goza hoje, possivelmente até para formatos diferentes, estes cinco contos amorais surgem agora numa edição cuidada, em que cada um é introduzido por um breve resumo, fotografias da época, aguarelas alusivas coloridas e desenhos preparatórios.
Cruzando protagonistas e figurantes de diferentes origens, nacionalidades e temperamentos, saltitando entre o Norte de África, Itália ou a Palestina, encontramos neste “Koinsky…” algumas das temáticas caras a Pratt, nomeadamente os absurdos em que as guerras são férteis e o predomínio do indivíduo e do livre arbítrio sobre as massas e as imposições a que são sujeitas, e não deixa de ser curioso que relatos com mais de seis décadas, já levantem questões que hoje, como afinal então, embora com perspectivas diferentes, já eram actuais e fracturantes, como a independência de algumas repúblicas da ex-URSS ou o destino do território da Palestina, que nos nossos dias continuam na ordem do dia e sem resolução.

Obras de Pratt: Koinsky
Hugo Pratt
Ala dos Livros
196 p., 39,90 €


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F. Cleto e Pina

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À imagem dos super-heróis de papel

Sátira e homenagem às personagens dos quadradinhos
O Corvo, criação de Luís Louro, surgiu há quase 30 anos e é um dos poucos heróis recorrentes da BD nacional

Há quase 30 anos, em 1994, para ser exacto, a banda desenhada portuguesa assistia ao nascimento do Corvo na colecção “Estórias de Lisboa”. Prevista como história única, tinha como protagonista um adolescente lisboeta órfão, seduzido pela utopia do mundo dos super-heróis de que se alimentava nas revistas de quadradinhos, apostado assim em esquecer o mundo real, assustador e triste em que vivia. Com passeios arriscados pelos telhados de Lisboa, com o seu companheiro Robim – uma bicicleta… – dando largas ao seu ódio a pombos e gaivotas, tentava desta forma emular a acção daqueles que admirava, numa narrativa em tom descontraído mas desencantado, entre o drama e a ternura, que fazia do Corvo, alter-ego do jovem Vicente, mais um herói de pacotilha do que um verdadeiro super-herói.
Mas a verdade é que ele agradou aos leitores que foram pedindo novas histórias e assim, três décadas depois, são já 6 os tomos em que Luís Louro foi explanando as desventuras do pretenso super-herói, o mais recente dos quais “O Silêncio dos Indecentes”, teve edição da Ala dos Livros. Progressivamente, construiu-lhe um universo próprio, com personagens recorrentes, deu-lhe um passado que se reflecte no seu presente, dotou-o de formas específicas de estar e de agir e fez dele um dos raros heróis com continuidade na banda desenhada nacional.
O que significa que, a cada novo álbum, com a habitual planificação arrojada e o desenho anguloso e dinâmico, encontraremos uma personagem bem definida, embora perdida dentro de si mesmo, dos seu sonhos e obsessões, aqui e ali uma alusão brejeira, e soluções inesperadas para situações bem típicas do quotidiano dos super-heróis de verdade, os de papel.
E enquanto narra as aventuras e os desvarios de Vicente e/ou do Corvo, Louro vai-nos mostrando uma Lisboa que se por um lado é típica e tradicional, por outro é também subterrânea, esconsa e sombria, habitada por vilões que têm mais de imbecis e frustrados do que de malvados. A par deste retrato urbano, aproveita igualmente para deixar algumas provocações sobre temas actuais fracturantes e sensíveis, contrapondo a esse tom mais reflexivo piscadelas de olho bem-dispostas aos mundos dos quadradinhos, os dos álbuns e revistas e o da BD portuguesa.

O Corvo VI – O silêncio dos indecentes
Luís Louro
Ala dos Livros
64 p., 17,75€


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F. Cleto e Pina

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Nos lugares do fundo do autocarro

Um comando negro em território francês ocupado, em busca de um tesouro patrimonial
História ficcionada, guerra e racismo coexistem no primeiro grande livro de BD do pós-férias

Primeiro grande livro de BD do pós-férias, “Uma estrela de algodão preto” tem como tema central o racismo profundamente enraizado nos Estados Unidos, não desde tempos imemoriais, como quase escrevi, mas desde a sua fundação enquanto nação, o que paradoxalmente implica maior longevidade…
Mas esta obra pode ser encarada sob dois outros registos: o histórico ficcional e o relato de guerra, este mais do ponto de vista humano do que heróico. Na realidade, a obra acompanha um comando de soldados negros, em França, durante a II Guerra Mundial, com a missão de recuperarem a primeira bandeira dos Estados Unidos, utilizada na Declaração de Independência, em 1776. Antes desse momento, Yves Sente e Steve Cuzor fazem um longo preâmbulo para nos mostrarem qual o lugar e como eram tratados os soldados negros no exército norte-americano: tal e qual como na maioria dos Estados Unidos, ocupavam os “lugares do fundo do autocarro”, para utilizar uma frase bem expressiva de um deles…
Se a História em “Uma estrela de algodão preto”, passa também por aqui, ela tem início quase dois séculos antes, nos primeiros passos daquela que viria a ser uma das nações mais poderosas do mundo e porta-estandarte de ideais como liberdade e justiça… pelo menos para os que ostentam a cor de pele correcta.
Voltando ao comando negro do relato, para lá do simbolismos óbvio da missão concedida exactamente a eles, os três homens envolvidos na recuperação da bandeira original têm uma motivação extra: descobrir se uma das suas 13 estrelas tinha por detrás uma estrela negra de algodão, supostamente colocada por uma costureira negra.
A narrativa é tensa, as atitudes depreciativas dos soldados e oficiais brancos em relação aos negros multiplicam-se e Sente arrasta conscientemente o progresso da acção para acentuar o clima tenso e opressivo que perpassa por todas as páginas, reforçado pelo traço realista e rico de contrastes de Cuzor.
Mas, apesar dos momentos de ilusão e de afirmação do valor dos negros, independentemente do sucesso ou não da sua missão, que deixo aos leitores descobrirem, a mensagem que permanece é a mesmo que ecoa ainda nos nossos dias: por mais que as estrelas negras brilhem, o seu presente pouco importa e pouco difere do seu passado…

Uma estrela de algodão preto
Yves Sente e Steve Cuzor
Ala dos Livros
192 p., 35,00€


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F. Cleto e Pina

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Tinham razão em revoltar-se

De 1968 a 1978, uma década quente em França
Dominique Grange, com desenho de Tardi, traça retrato autobiográfico de militantismo político

Não acredito em ‘leituras de Verão’ nem em ‘aproveitar as férias’ para ler. Quem lê, lê o ano todo; quem não lê, aproveita o tempo livre para descansar e se divertir. Por isso e porque o meu tempo da sua leitura foi agora, trago hoje “Elise e os novos partisans”, uma banda desenhada que é tudo menos ‘leitura de Verão’ na comum acepção facilitista desta designação.
Obra auto-biográfica, mesmo que não intensiva mas militante, este álbum, com a assinatura gráfica do grande Jacques Tardi, companheiro de Dominique Grange, narra uma década da vida desta cantautora e activista política. Mas não uma década qualquer, antes a que mediou entre os anos de 1968 e 1978, dos mais quentes que a França viveu socialmente no pós-II Guerra Mundial.
A Elise do relato é, assim, o alter-ego de Dominique Grange e com ela vamos acompanhar a doutrinação política feita por voluntários por toda a França, os desafiadores debates entre camaradas, os sucessivos levantamentos populares, das lutas pela auto-determinação da Argélia às revoltas estudantis, dos combates por melhores condições de trabalho nas fábricas, nas minas e um pouco por toda a parte à explosão de inúmeos movimentos políticos, à esquerda e à direita. Movimentos, greves, manifestações, ocupações, que valeram resposta violenta e brutal por parte das forças policiais, prisões arbitrárias, maus tratos, bastonadas, pontapés, insultos, gestos racistas letais em contraste com o peso e valor da solidariedade pura e genuína.
Em quase duzentas páginas de banda desenhada, em que a acção e as reacções se sucedem a um ritmo frenético, sem tempo para parar, meditar ou reflectir, Grange expõe a sua experiência, partilhando o que sucedeu um pouco por todo o hexágono e as notícias, animadoras ou frustrantes, que chegavam do Vietname, da Argélia, do Chile ou até de Portugal, com a queda de algumas ditaduras ou a instituição de outras, num relato intenso que soa estranho e, por vezes, até surreal, enquanto retrato de um tempo que já não vivemos e que nos parece quase pouco credível.
…quando afinal hoje, se bem que por motivos diferentes, aqui e ali e de forma tão evidente em França, a brutalidade policial, a repressão, o racismo e a xenofobia continuam e estes ecos de há meio século continuam a ressoar.

Elise e os novos partisans
Dominique Grange e Jacques Tardi
Ala dos Livros
176 p., 29,90 €


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F. Cleto e Pina

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Quando Marco Polo conta um conto…

Biografia do mercado veneziano narrada com tom surpreendente
Vinhetas de maior tamanho evocam ilustrações orientais, delicadas e imprecisas

Uma das diversas vantagens de ser leitor voraz e insaciável é a possibilidade de podermos ser surpreendidos a cada livro que abrimos, como me aconteceu, mais uma vez, com este “O Livro das Maravilhas” , uma edição recente da Ala dos Livros).
Aproximei-me dele sem referências e vi-me mergulhado, de forma inesperada, nas demandas de Marco Polo, mesmo que evocadas de forma selectiva e cronologicamente algo anárquica.
Até porque, nas primeiras páginas, deparamos apenas com um velho de trajes orientais, acompanhado por um servo que puxa uma carreta com os seus haveres e que em breve o abandonará. Será substituído, quase de imediato, por um rapazinho que, tendo-se aproximado com intenções menos honestas, acaba por se juntar a ele, curioso primeiro, depois maravilhado com o que o homem lhe vai revelando.
Para a agradável surpresa mencionada acima, contribuiu também o estilo gráfico adoptado por Vincent Froissard e a paleta de tons cinza que lhe apôs, como que pedindo ao leitor para dotar de cor na sua própria imaginação as maravilhas narradas. E se para as personagens o desenhador abraçou um traço semi-caricatural, que contrasta com tudo o mais no livro, aos cenários da acção aplicou um estilo mais realista, mas como que desvanecido por uma bruma recorrente e persistente, que obriga a maior concentração do leitor para os desvendar mergulhando neles. Para além disso criou as vinhetas de maior tamanho à imagem de ilustrações orientais, delicadas e imprecisas, mas extremamente interessantes do ponto de vista plástico e narrativo.
Desta forma, conseguiu dotar o argumento de Étienne Le Roux com uma aura de mistério, semeando a dúvida e pontuando-a aqui e ali com elementos fantásticos que deixam o leitor, tanto quanto o jovem, constantemente na dúvida sobre o que realmente aconteceu ou quando o narrador decidiu dourar a sua história.
E sendo verdade que as duas obras contam, substancialmente, o mesmo, será interessante comparar esta biografia, com o díptico “Marco Polo” (edição da Gradiva), de tom e construção mais tradicionais, e verificar como é possível narrar substancialmente o mesmo de modos tão díspares.

O Livro das Maravilhas
Étienne Le Roux e Vincent Froissard
Ala dos Livros
76 páginas, 22,90 €


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Idealismo e utopia em trinta anos de História

Paixões e companheirismo arrastam Mattéo ao longo de meia Europa
Chega ao fim um longo e inebriante fresco histórico traçado com virtuosismo por Jean-Pierre Gibrat

Com a recente publicação pela Ala dos Livros da sua “Sexta época”, “Mattéo” é mais uma série de banda desenhada integralmente editada em português.
Com algumas atribulações, é verdade, a exemplo da vivência agitada do seu protagonista, uma vez que, depois de iniciada pela Vitamina BD em 2009, só seria retomada uma década mais tarde, pela Ala dos Livros, mas ainda a tempo de acompanhar o volume final francês.
Percorrendo 30 anos da História europeia, “Mattéo” acompanha os grandes momentos da Primeira Guerra Mundial, da revolução socialista na Rússia e da Guerra Civil espanhola, para terminar em plena Segunda Grande Guerra. Ao longo desses anos conturbados, seguimos o protagonista que dá nome à série, muitas vezes simples peão no meio de acontecimentos imparáveis com ritmo próprio ou companheiro (sempre) fiel dos amigos que a vida lhe foi propondo, tanto movido pelas utopias que embalaram alguns daqueles movimentos, quanto pelos seus interesses pessoais. Leia-se aqui as paixões que foi vivendo, como as belas Juliette e Amélie, ou as deslocações forçadas pela fuga às autoridades ou ao invasor. Pagando cara a sua impulsividade, entregando-se completamente em nome da amizade ou das crenças comuns, crente num mundo melhor e mais equitativo com igualdade e justiça para todos, mas sucessivamente traído e desiludido pela realidade que abafou utopias e amanhãs cantantes, Mattéo percorreu meia Europa, vendo e vivendo de perto o crescimento de utopias e assistindo desolado ao seu estrepitoso tombar.
Nesta sexta época, com o seu mundo a desmoronar-se devido à ascensão da Alemanha Nazi após a vitória de Franco em Espanha, Mattéo, de volta ao ponto de partida, embora sofra na vida e na pele as consequências do conflito e da invasão da França, vai passar ao lado dos acontecimentos, impulsionado mais uma vez por interesses pessoais: a procura do filho que o desconhece como tal. Desta forma, termina, sem ficar fechado, um longo e inebriante fresco histórico traçado com mestria, delicadeza e virtuosismo por Jean-Pierre Gibrat, de um modo inesperado mas coerente, que vinca a importância do ser humano sobre as ambições de alguns e a predominância de valores como o companheirismo, a solidariedade, a dedicação e a entrega em prol dos outros.

Mattéo: Sexta época (2 de Setembro de 1939 – 3 de Junho de 1940)
Jean-Pierre Gibrat
Ala dos Livros
80 p., 22,90 €


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F. Cleto e Pina

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Um Astérix que não é o Astérix

Lapinot, alter-ego de Trondheim, veste a pele do pequeno guerreiro gaulês
Paródia é homenagem ao espírito e à forma das histórias de Uderzo e Goscinny

Em anos recentes, os universos das grandes séries clássicas franco-belgas que encantaram gerações de leitores das revistas “Tintin”, “Spirou” ou “Pilote”, têm sido revisitados a dois níveis: pela sua retoma em continuações que eternizam os parâmetros originais ou, então, em versões de autor, quase sempre mais estimulantes e criativas.
Curiosamente, “Por Tutatis!”, acabado de editar pela Ala dos Livros, não encaixa em nenhuma das definições mas, se não tivesse sido criado numa (consentida) revelia à editora original, teria tudo para ser um “Astérix por…”
Por Lewis Trondheim, no caso, que, por razões que os leitores descobrirão, optou por colocar Lapinot, o seu herói/anti-herói/alter-ego, num arremedo da “pequena aldeia gaulesa que bem conhecemos”, para mais na pele de Astérix. As razões e as consequências irão sendo explanadas ao longo das pranchas, enquanto vão sendo avançados os contornos de um confronto do ‘pequeno guerreiro gaulês’ com o deus que desde sempre o protegeu e aos seus compatriotas, o omnipotente Tutatis.
No livro, toda a estrutura aponta para uma verdadeira aventura de Astérix – ou quase – com os elementos expectáveis numa aventura dos gauleses: Obélix, Panoramix, o chefe e o bardo com as suas canções, a (falta de) frescura do peixe, os confrontos com os romanos, as caçadas aos javalis, os infortunados piratas e, principalmente, a poção mágica no centro dos acontecimentos. É uma obra que decorre em bom ritmo, com gags recorrentes, uma bela sucessão de trocadilhos e os piscares de olho a serem mais do que os desvios, evidentes e assumidos, à obra original.
“Por Tutatis!”, que se distingue pela novidade da abordagem dentro da novidade “Astérix que não é Astérix”, é uma homenagem que se compreende sincera a René Goscinny e a Albert Uderzo, criadores originais de Astérix, dentro do espírito da obra que eles nos legaram, com divertidos anacronismos, uma inteligente exploração das idiossincrasias originais e a repetida constatação de que “isto nunca aconteceu na BD”, o que faz dele um álbum muito divertido, pleno de referências a várias aventuras e que pede uma leitura atenta pelos apreciadores de Astérix, para o usufruirem em toda a sua plenitude.

Por Tutatis!
Lewis Trondheim
Ala dos Livros
48 p., 15,50 €


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F. Cleto e Pina

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Biografia ousada do poeta maldito

Charles Baudelaire revisitado em BD
De regresso ao mercado português, Yslaire conta a sua vida pelos olhos da sua amante

O tema não era fácil nem a obra poderia ser ligeira, mas biografar Charles Baudelaire em banda desenhada comportava riscos óbvios. Bernard Yslaire, que assim regressa ao mercado português com este “Menina Baudelaire”, sai-se muito bem da tarefa a que se propôs, reflectindo a vida atribulada e a inquietação permanente em que viveu o autor de “As flores do mal”.
Partindo da sua morte, em 1867, Yslaire retrocede mais de meio século, até à sua infância, partindo daí para traçar um retrato vigoroso da forma como Baudelaire viveu. Fá-lo, no entanto, por interposta pessoa, especificamente Jeanne Duval, a sua amante, a sua Vénus negra, a sua única e verdadeiro paixão, aquela que o acompanhou enquanto ele quis e que a ele sempre voltou, em especial nos momentos de desânimo, de perda ou de desequilíbrio. É ela que, numa longa missiva dirigida à progenitora do poeta, a quem tenta explicar a intensidade da relação que mantiveram, partilha com os leitores os extremos que balizaram a vida de Baudelaire, entre a boémia a criação frenética, as dívidas constantes e os pedidos de crédito, a companhia de outros criadores – Delacroix, Banville, Nadar… – a pesada herança da sífilis e os efeitos devastadores da medicação com que a combatia que contribuíram decisivamente para a sua decadência acelerada.
Mais do que a biografia única do poeta, bem pode dizer-se que Yslaire traça uma dupla biografia, a dele e de Jeanne, de tal forma em tantas ocasiões foram um só ou se submeteram um ao outro, com um traço realista solto e desenvolto, pontualmente atravessado pelo imaginário dele… e dela, em visões avassaladoras ou pesadelos tornados realidade, que contribuem para tornar mais tortuoso e incómodo um retrato que, aqui e ali, inevitavelmente, roça a provocação e a vontade de chocar, espelhando assim a vida libertina do poeta maldito, cuja obra só pode ser publicada integral e livremente, quase um século após a sua morte.
É a realidade dos tempos que correm – os anos recentes – mas nem por isso se deve passar ao lado. As edições portuguesas apresentam hoje a mesma qualidade superior em termos de papel, impressão ou encadernação, que em tempos invejávamos às originais francófonas , e chegam aos leitores nacionais com pouco ou nenhum atraso em relação a elas, como acontece com, este “Menina Baudelaire”, mais uma belíssima edição da Ala dos Livros que potencia e exibe como merece a obra de Yslaire.

Menina Baudelaire
Yslaire
Ala dos Livros
160 p., 32,00 €


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F. Cleto e Pina

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Meio século aos quadradinhos

Editores e autores portugueses tentam mostrar-se em Angoulême

Como todos os anos desde há meio século, com excepção dos anos da pandemia, o último fim-de-semana de Janeiro acolhe mais uma edição do Festival de BD de Angoulême, o mais mediático e representativo do velho continente.
Durante quatro dias, a pequena cidade do sudoeste de França é invadida por dezenas de milhares de fãs dos quadradinhos que na sua peregrinação anual duplicam a população local em busca de livros, autógrafos e autores ou simplesmente para participarem da grande festa da BD, mesmo que, progressivamente o festival se tenha afastado das propostas mais comerciais e das preferências do grande público.
Isso reflecte-se nas listagens de nomeados para os vários prémios e nas exposições propostas. Este ano, o maior destaque vai para a retrospectiva dedicada à canadiana Julie Doucet, distinguida em 2022 com o Grande Prémio da cidade pelo conjunto da sua obra, uma autora subversiva e provocadora, que fez o seu percurso nos fanzines e em publicações underground, questionando a identidade feminina em obras auto-biográficas, com um toque surreal.
Os mundos fantásticos de Philippe Druillet e as histórias realistas da costa-marfinense Marguerit Abouet, marcam um absoluto contraste temático em mais duas mostras da edição deste ano que também propõe uma exposição imersiva sobre a cor, evocando uma das exposições do primeiro festival, em 1974, “A estética do preto e branco na BD”.
Atento ao crescimento exponencial do mangá, um segmento de mercado que triplicou entre 2019 e 2021 e é já o mais importante em França, Angoulême preparou três exposições subordinadas a esta temática, as monográficas consagradas a Rioichi Ikegami, o veterano criador de “Crying Freeman”, e a Junji Ito, mestre do mangá de horror, e uma terceira sobre a série “Ataque dos Titãs”.
Para além das exposições oficiais, conferências, apresentações e sessões de autógrafos e dos enormes pavilhões insufláveis onde funciona a Feira do Livro, ao virar de cada esquina, em lojas, restaurantes e até na catedral, é possível descobrir outras mostras e apreciar belos originais.
Mas o festival continua a ser um local de encontro de editores para compra e venda de direitos. É verdade que com as novas tecnologias, “a maior parte dos negócios já estão fechados”, revelou ao Jornal de Notícias João Miguel Lameiras, um dos sócios da cooperativa editorial A Seita, que mesmo assim leva marcadas “4 ou 5 reuniões, para negociar títulos para 2024, pois o programa de 2023 já está carregadíssimo”. Com muitos autores portugueses no catálogo, a intenção “é mostrar a produção nacional, mas não está nada apalavrado”, conclui.
Joana Afonso, actualmente a desenhar uma versão de “O Auto da Barca do Inferno”, a publicar este ano, confessa que devido ao muito trabalho que tem tido, vai “numa de turista”, mas “com trabalhos na mala para mostrar, se se proporcionar”.
O mesmo propósito leva também a Angoulême Filipe Abranches, autor e editor da antologia “UMBRA”, integrado “numa comitiva informal de portugueses encabeçada pelo Paulo Monteiro [director do Festival de Beja]”. Recorda Angoulême como “um espaço de reencontro de velhos amigos da BD”, onde pretende ter “reuniões informais”, uma vez que a “UMBRA” tem que se mostrar, procurar a sua internacionalização e angariar novos autores estrangeiros”. Revela ainda ter a sua “novela gráfica “Jungle!!!” à venda no stand da Breakdown Press” e que dará autógrafos “na edição polaca – “Selwa!!!” – no stand da Timof Comics, o editor que mais tem editado BD portuguesa no mundo”.
Finalmente, Ricardo Magalhães, da Ala dos Livros, pensa que “apesar das novas tecnologias é importante visitar anualmente um ou dois certames internacionais ligados ao livro.” Por isso, “a ida a Angoulême vai ser uma oportunidade para falar com colegas internacionais e aferir o que pensam dos desafios que se colocam à edição, nomeadamente com o aumento generalizados dos custos”. Revela que recebeu “nas últimas semanas diversos pedidos de reunião de novos contactos editoriais” e que leva “as obras dos autores nacionais que publicamos para divulgar e tentar que sejam publicados noutras línguas”. E termina com uma mágoa: “enquanto em Portugal são os editores e/ou os autores a mostrar os seus trabalhos, há países cujos autores são representados em Angoulême por instituições oficiais que têm mecanismos de apoio e divulgação à edição no estrangeiro”.


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F. Cleto e Pina

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