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Doações — Um Breve Relance

A Bedeteca Comicarte, promovida pela Comissão de Jovens de Ramalde nos anos 90, constituiu um acervo de livros graças aos apoios que, na altura, foram conseguindo com a doação de editoras como a Asa, a Edinter, a Meribérica /Liber, a Editorial Futura, a Verbo etc.

O acervo que a Bedeteca hoje já disponibiliza — herdado do trabalho desenvolvido nessa altura — não estaria disponível se não tivesse existido essa colaboração e boa vontade, e o relançamento do projeto passa, portanto, também por reativar essa solidariedade e interesse por parte das editoras nacionais.

Estamos seguros de que, como nós, também estas estarão convictas que a leitura pública é sempre a base do crescimento dos hábitos de leitura. E que o crescimento dos hábitos de leitura leva ao crescimento de um público interessado, que desenvolve o seu gosto e as suas preferências e contribui para o crescimento do mercado e do consumo. Em nosso entender, a disponibilização de títulos de banda desenhada não será excepção.

Algumas destas editoras são já nossas parceiras neste objectivo.
Já aderiram, portanto, a este desafio.
E porque consideramos que nada melhor do que a visão do editor, pedimos aos seus responsáveis que escolhessem uma peça — um livro — de entre aqueles que doaram e que desenvolvessem num curto texto aquilo que lhes parece de realçar nessa publicação.

Deixamos aqui alguns dos testemunhos já produzidos:

Para uma “bedeteca” é fundamental existir algum conteúdo que seja meta-conteúdo de BD, reflexão sobre a BD ou mesmo, reflexão sobre as reflexões sobre a BD. E quando esse conteúdo vem sob forma ele próprio de BD, melhor ainda! “Em Busca do Tintin Perdido”, do brasileiro Ricardo Leite”, que editámos no nosso país, é exactamente isso, uma viagem semi-autobiográfica pela vida, pelas experiências, pela imaginação do autor, reflecte sobre uma vida a reflectir sobre BD, as suas personagens, autores e obras. E para mais, magnificamente desenhado, um livro que faz surgir o panorama da BD das últimas décadas de uma maneira tremendamente viva.

—José Hartvig de Freitas, A Seita


Livro: L’Orso Borotalco e la Bambola nuda italiana.
Este livro obedece a um ritmo sequencial de 4, 3 e 1 imagem, pontuado por diálogos entre um jarro e um copo ao longo do arco de um dia, segundo uma linguagem entre a banda desenhada e o cartoon.

—Diniz Conefrey, Quarto de Jade


Escolho o “Cantiga d’Erasmo”.
Este fanzine foi elaborado no outono de 2018, por ocasião de ter sido artista convidada na YCON Paris desse mesmo ano. Não querendo aparecer sem algo inédito, elaborei uma história curta sobre dois estudantes de erasmus em viagem de fim-de-semana que se perdiam do seu grupo. Os dois rapazes têm agora de voltar sozinhos para a cidade onde se encontram a estudar, descobrindo coisas que têm em comum e partilhando algumas dores pelo caminho. Foi auto-publicada por mim em inglês e português. O fanzine recebeu posteriormente uma menção de bronze no 13th Japan International Manga Award em 2020.

—Daniela Viçoso


Pedem-me que escreva um parágrafo sobre um dos livros por mim doados, sobre o que nele gosto. Pois bem, não vou escrever sobre um livro mas antes sobre uma colecção: “Príncipe Valiente”, que tive de publicar em espanhol – sim, porque mais do que doador, sou o editor dela – por não ter mercado em português. São 17 volumes com mais de 1700 pranchas da melhor banda desenhada de sempre. A melhor, nem mais nem menos! É a edição com que sonhei durante mais de vinte anos, a edição que, não importava em que língua fosse, ansiava que algum editor fizesse; uma edição que reproduzisse os desenhos do seu autor com nitidez cristalina. Quando descobri que ninguém a fazia porque os detentores dos direitos de autor não tinham em boas condições o material que o permitisse, compreendi que teria de ser eu a fazê-la, restaurando o material existente. E, numa aventura que aqui não há espaço para contar, consegui iniciá-la! Depois, demorei 15 anos a completá-la, tive de lutar contra ventos, marés e ogres, mas consegui! Saiba o leitor, portanto, que entrar na obra imortal de Hal Foster pela primeira vez através da minha edição é quase pisar terreno sagrado.

—Manuel Caldas, Libri Impressi


Para Além dos Olivais – Um livro que reúne 12 autores que abordam o bairro dos Olivais na altura da comemoração dos 600 anos de Santa Maria dos Olivais. São 12 visões sobre 12 espaços como o aeroporto, os “perdidos e achados da PSP, o Shopping Center… em que destaco os trabalhos de Ana Cortesão e Luís Lázaro, sem querer desvalorizar as outras belas peças. Este livro tem um significado pessoal, saiu em 2000, ano em que entrei para a Bedeteca de Lisboa e uma das primeiras tarefas era chatear o Designer que estava atrasado na entrega do livro. Atrasado!? Leiam a BD do Nuno Saraiva, coordenador da antologia, a relatar os seus míticos atrasos deste trabalho, é hilariante, se for verdade, que ele tenha conseguido percorrer a construção, a celebração e a ressaca da Expo 98. Na BD, a auto-depreciação de Saraiva é balançada com a generosidade de João Paulo Cotrim. Ouve-se perfeitamente a voz de Cotrim… Mas… espera lá… é possível ouvir vozes em  BDs? Nesta sim, tal como na página 141 de “Alguns dias com um mentiroso” de Davodeau mas isso já é outra história…

—Marcos Farrajota, Bedeteca de Lisboa


Sabe-se lá porquê mas há uma década, Tiago da Bernarda, um estagiário jornalismo (e sem formação em desenho) fartou-se de ser explorado pelo sistema falido da imprensa social e começou a fazer tiras de crítica a discos de música portuguesa, criando um alter-ego felino, o Gato Mariano, e publicando em plataformas digitais ou em fanzines auto-editados. A Chili Com Carne juntou toda essa produção num “luxuoso” livro que se tornou num compêndio para quem gosta de música. Do Punk ao Hip Hop, dos GNR aos 10 000 Russos, os discos são arranhados ou acariciados pelo Gato. Depois do livro ter saído, o bichano começou a miar para outras bandas mais “fashion”, políticas e sociais, para além de ter arranjado um sobrinho pós-irónico, o Bruninho, para expor as contradições geracionais. Alguém se digne a comemorar os 10 anos de existência deste gato desbocado!

—Chili Com Carne


Quando este livro saiu um suposto crítico de BD não entendia porque havia publicado esta obra em capa dura, ao que parece ela não era digna de tal. Ó feliz ironia, o que diria esse senhor dos dias de hoje, em que se edita os maiores horrores estéticos em desastres ecológicos de capa dura, a cores e papeis grossos? Que diria essa pessoa se soubesse que o Garth Ennis, em Helsínquia, disse-me que não só estava admirado pela edição como lembrava-se da qualidade do trabalho? Christopher Webster auto-publicou o “Malus” em quatro números num fanzine. Ele, Janus e Mike Diana foram a razão que me fizeram criar a MMMNNNRRRG. Sabia que as suas obras únicas iriam desaparecer por serem publicações marginais. Webster que participou em projectos comerciais – há pouco tempo descobri que ele tinha sido publicado em Portugal “Astrologia para principiantes” (Bertrand; 1997) – incluindo uma BD para a grande Kodansha, fartou-se dos formatos pré-estabelecidos das indústrias e realizou este “Malus”, que é uma terra-de-ninguém. Demasiado comercial para o “underground”, demasiado bizarro para o “mainstream”, é um conto de fadas que come pedaços de sci fi, que digere Mangá e regurgita super-heróis para voltar a comer uma “sucessão de factos biológicos”. Merece uma capa dura, claro que sim! E o verniz localizado, by the way!

—Marcos Farrajota, editor da MMMNNNRRRG (2000-20)

Suspensos de uma folha de papel de carta

Uma jovem independente em plena época vitoriana
“Colecção Zidrou” distingue um dos mais interessantes argumentistas actuais

Se no cinema é normal seguir actores, na banda desenhada geralmente procuram-se determinados desenhadores. Mas, tal como na Sétima Arte há quem escolha os filmes preferencialmente pelos seus realizadores, também na BD há leitores que fazem as suas escolhas com base no nome do argumentista.
Neste particular, Zidrou é um dos nomes a reter e, se as suas obras de tom humano estão hoje espalhadas por diversos catálogos nacionais, em boa hora as editoras A Seita e Arte de Autor se uniram para lhe dedicarem uma colecção de que “Emma G. Wildford” é o tomo mais recente.
Ambientada durante o reinado da rainha Vitória, com toda a carga que isso implica em especial sobre as mulheres, tem como protagonista a jovem Emma, que contraria todo o espírito da época. Autónoma, aspirante a escritora, independente e decidida tem, no entanto, a vida suspensa do regresso do noivo, Roald Hodges, membro da National Geographic Society, desaparecido durante uma expedição à Lapónia.
Perante o silêncio da renomada organização e as tentativas de consolação e comiseração por parte dos mais próximos, Emma decide partir à aventura, em busca do seu amado.
Para trás, num clima de desaprovação total, deixa tudo e também uma carta que Roald lhe deixou caso não voltasse e que nunca quis ler, acreditando que isso mantinha vivo o seu noivo – ou pelo menos a sua esperança. A viagem, por locais inóspitos, de clima rigoroso, será feita num misto de descoberta e afirmação, com Zidou a aproveitar para caracterizar, com realismo e um humor contido, a jovem Emma bem como uma época plena de regras castradoras e preconceitos, num relato não isento de surpresas cujo desfecho vai bem para lá do acabar “bem” ou “mal”.
Graficamente, Edith com um traço simples, despido de pormenores desnecessários mas muito eficiente em termos narrativos dá vida a uma Emma que atrai e dispõe bem o leitor, embora possa revelar-se algo desconcertante pela forma como tantas vezes decide tomar em mãos as rédeas do seu destino.
Leitura de conforto, pelo tom optimista que apesar de tudo dela exala, “Emma G. Wildford” na edição portuguesa, a exemplo da original francófona, tem – literalmente – um exemplar da famosa carta que pontua todo o relato e cuja leitura, a fazer apenas no final, confere um sentido acrescido ao que foi sendo narrado.

Emma G. Wildford
Zidrou e Edith
A Seita e Arte de Autor
104 p., 24 €


Escrito Por

F. Cleto e Pina

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Jornal de Notícias

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Ascensão e queda na terra dos sonhos

O grande romance americano visto por um grande desenhador português
“O Grande Gatsby” retrata os loucos anos 1920 na América

Considerado hoje por muitos “o grande romance americano”, “O Grande Gatsby”, quase a completar 100 anos da primeira publicação, em 1925, não teve na altura grande sucesso, tendo vindo no entanto a ganhar relevância ao longo dos anos.
Na actual apetência da banda desenhada pela adaptação de clássicos da literatura, esta obra de F. Scott Fitzgerald não passou despercebida e uma das versões mais recentes tem a assinatura do desenhador português Jorge Coelho. Publicada originalmente há cerca de dois anos, em comic book, está agora em volume integral nas livrarias portuguesas, numa co-edição A Seita/Comic Heart, na colecção Nona Literatura, dedicada a adaptações literárias em BD.
Gatsby, o protagonista do romance, tem pontos de contacto com Fitzgerald, já que ambos nasceram em meio humilde, foram rejeitados pela mulher que amaram até alcançarem sucesso e, essa rejeição, levou-os a participar na Primeira Grande Guerra.
Ambientado nos “loucos anos 1920”, numa América que era simultaneamente a terra de todos os sonhos e o cemitério da maior parte das ilusões, “O Grande Gatsby” é um retrato duma época que um determinado estrato da sociedade norte-americana viveu de forma faustosa e ostentatória, em claro contraste com a vacuidade das suas existências vividas mais em função da forma do que do conteúdo.
História de paixões, amores ou simples caprichos sentimentais, esta adaptação escrita por Ted Adams encontrou em Jorge Coelho o artista ideal para recriar aquela obra, com o importante contributo das cores da também portuguesa Inês Amaro. O desenhador, que se lançou no mercado norte-americano a desenhar super-heróis para a Marvel, apresenta um notável retrato de época graças a um traço realista, fino e elegante, com o qual recria as enormes mansões e as grandiosas festas que nela tinham lugar, os potentes automóveis que começavam a encher as estradas e as personagens marcantes, orgulhosas e frias que Fitzgerald imaginou.
A opção por manter doses consideráveis do texto original nalgumas cenas, a par de outras que assentam apenas em balões de diálogo, torna o seu desfrutar mais pausado e obriga a um exercício de leitura mais apurado para fruir o belo desenho e reter da combinação de texto e arte a essência daquilo que Fitzgerald quis transmitir.

O Grande Gatsby
Adaptação da obra de F. Scott Fitzgerald
Ted Adams e Jorge Coelho
A Seita
176 p., 28,00 €


Escrito Por

F. Cleto e Pina

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Jornal de Notícias

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BD PALOP, um projecto para abrir horizontes aos falantes da Língua Portuguesa

Primeiros livros chegam em Novembro às livrarias

Intitula-se BD PALOP, quer promover e desenvolver “um género literário que trará outros horizontes à imaginação das novas gerações de falantes da Língua Portuguesa” e os primeiros livros chegam às livrarias nacionais este mês.
Criado no âmbito do programa ProCultura, sustentado com fundos da UE, geridos pelo Instituto Camões e pela Gulbenkian, tem como parceiro português o colectivo editorial A Seita. José Hartvig de Freitas, um dos seus responsáveis, revelou ao JN que “foi Bruno Caetano, que teve a ideia de montar um projecto de BD, e falou com Fàbio Ribeiro da Anima, uma empresa de Moçambique, da área da animação.” E continua: “depois, fomos à procura de parceiros em Angola e Cabo Verde, o estúdio BomComix e a Associação JovemTudo”. “De seguida, foram organizados workshops online com autores consagrados”, como André Oliveira, Joana Afonso, João Mascarenhas Jorge Coelho, Miguel Mendonça, Cris Peters, Mário Freitas, Osvaldo Medina que abordaram “temas que presidem à criação de uma BD: argumento, planificação, desenho, arte-final, cor, legendagem, edição, contratos, direitos, etc.”. Para além disso, adianta José de Freitas, “as equipas criativas, três por país (Moçambique, Angola e Cabo Verde) foram acompanhadas por um autor, que serviu de mentor”.
Igualmente importante, “foi a edição dos livros”. Ancorados na realidade ou em lendas africanas, de temática infantil, social ou de super-heróis, os primeiros sete, “já foram distribuídos nos PALOP que integram o projecto”, chegam “durante Novembro às livrarias nacionais” e “estarão à venda no Brasil, em Fevereiro/Março”.
Ao JN, Freitas confessa “que não havia expectativas muito claras, pois a situação do mercado de BD nos PALOP é muito desigual e, nalguns, muito incipiente”. Naturalmente, “as candidaturas foram de qualidade muito variável; no primeiro ano recebemos mais de autores a iniciar-se mas, no segundo, a qualidade média subiu, bem como o número de candidaturas, quase quatro dezenas”. Uma vez que o projecto procura também “ser baseado em critérios de igualdade e de equilíbrio de género, temos tido a felicidade de ter bastantes mulheres entre os formadores, mentores e jurados, e também surgiram muitas autoras”.
Considera que as propostas foram “muito interessante; quase vimos ser recapitulada muita da evolução da BD e da sua linguagem. Mais que tudo, sentimos imenso entusiasmo da parte dos autores, uma sede genuína de informação e conhecimento; as formações foram fantásticas, com criadores portugueses e brasileiros a trocar conhecimentos com os africanos, e uma enorme vontade por parte destes de perceber melhor a linguagem da BD e de melhorar o seu trabalho”.
José de Freitas afirma estar seguro que “ao longo dos três anos a qualidade dos livros irá aumentando e que no final serão 27 obras que irão de certo modo marcar a história da BD nos PALOP; haverá um antes e um depois deste projecto!”.
E termina com um desafio: “que os leitores portugueses adiram, arriscando na descoberta destes livros e destes autores”.

[Caixa]

A Turma do Cabralinho
Domingos Luísa e Coralie Silva
Cabo Verde

Na Cidade da Praia, Cabralinho e os seus amigos adoram ouvir as histórias de bruxas que o seu pai conta. Mas quando a imaginação impera e a ficção se transforma em realidade, as crianças irão viver uma estranha aventura.

Torre Nova
Eliana N’Zualo e Ique Langa
Moçambique

Antigo prédio de luxo, o edifício Torre Nova é agora um microcosmos, que espelha a sociedade e onde se multiplicam os dilemas, as frustrações e os problemas de relacionamento, vistos por um grupo de crianças.

Elektus
Danilson Rodrigues e Nick Agostinho
Angola

Após a independência, um interrogatório numa base militar é interrompido por uma dupla misteriosa, que terá de enfrentar seres modificados geneticamente, para evitar um terrível acontecimento que querem a todo o custo evitar.

Ventage
Florinda Sakamanda e Helder Simões
Angola

A queda de um meteorito, em Luanda, confere poderes extraordinários a alguns dos seus habitantes e transforma outros em monstros. É então formada a Ventage, uma organização que forma mutantes para proteger a sociedade.

Bonga
Darling Catar e Trisha Mamba
Moçambique

Numa Maputo futurista de 2069, assolada por uma onda de crimes, o relato assenta em temas seculares como o receio da diferença, a crendice, a superstição e a necessidade de aceitação dos que são mais próximos.

Panzu – A máscara dos deuses
Luís Mateus e Simão Kusanica
Angola

Panzu ambiciona ser um grande guerreiro, como os seus antepassados, e vai ter essa possibilidade quando, durante um ataque de um leopardo, descobre uma máscara ancestral, com surpreendentes poderes.

Tunuka
Kitty Blunt e Wilson Lopes
Cabo Verde

Ao investigar movimentações criminosas que visam derrubar o ancião que lidera a vila para instalar uma ditadura, Tunuka desenvolve poderes místicos e percebe que há detalhes do seu passado que ainda tem de descobrir.


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F. Cleto e Pina

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O preço da honra e o valor da vida

Obra-prima de Hiroshi Hirata finalmente editada em Portugal
Relato de contornos históricos, privilegia o lado humano dos confrontos em batalha

Se é verdade que o manga é um dos géneros mais editados mensalmente em Portugal, no que à BD diz respeito, entre os estereótipos que lhe estão associados, as narrativas de samurais têm sido pouco exploradas no nosso país. “O preço da desonra”, edição do coletivo editorial A Seita, é uma exceção recente. E é, simultaneamente, uma forma de dar a conhecer aos leitores portugueses um dos expoentes do género, o autor Hiroshi Hirata (1937-2021).
Curiosamente, se esta temática potencia aventura e acção a rodos, a verdade é que esta abordagem de Hirata vai mais no sentido da exploração de vertentes mais intimistas: o receio da morte no campo de batalha, a incapacidade de fazer face às situações limite que os combates propiciam, o facilitismo de virar costas em lugar de se deixar matar pelo oponente… e as suas consequências.
Reacções bem humanas, dirão alguns, com razão, mas que no contexto histórico em que se desenrola a acção e tendo em conta o código de honra do bushido pelo qual se regiam os guerreiros, eram de todo reprováveis e condenáveis. E aqueles que as assumiam, em troca de um valor monetário chorudo que se obrigavam a pagar mais tarde ao oportunista que os poupava, apesar da salvação momentânea, mantinham a vida em risco e, mais do que isso, colocavam em causa a sua honra.
O protagonista deste volumoso “O preço da desonra”, é, assim, um cobrador destas dívidas, alguém que meses ou anos mais tarde vem resgatar as promissórias assinadas com sangue nos campos de batalha. O problema é que, geralmente, por falta de meios, receio do opróbrio ou face à vida entretanto desenvolvida sobre aquela mentira, essa cobrança, feita ao próprio ou aos seus familiares, se revela complicada. E se, em determinados momentos, a acção, consubstanciada em confrontos plenos de dinamismo e movimento, acentuado pela mestria no uso de linhas cinéticas de movimento, é a única forma de cumprir o objectivo, a verdade é que Hirata, através do seu traço realista num preto e branco expressivo, privilegia as emoções e aborda as implicações sociais e familiares numa época em que estas tinham uma importância transcendente, aprofundando o lado humano deste relato de contornos históricos, em que destaca o desespero daqueles que um dia, face à morte, escolheram o elevado preço da vida.

O preço da desonra
Hiroshi Hirata
A Seita
396 p., 22,99 €


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F. Cleto e Pina

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Exposição — Variantes: Uma Homenagem à BD Portuguesa

Variantes

Ilustração de Pedro Morais.

Variantes

Começa desde logo com a descoberta de Bordallo Pinheiro como precursor de uma aventura com muitos nomes a destacar a partir daí. Mesmo enfrentando a difícil penetração num mercado que teima em não se abrir, apesar do reconhecimento internacional e prémios.

«Não nos interessa aqui elaborar uma análise crítica ou uma contextualização histórica profunda, mas não resistimos a fazer uma breve passagem pela sequência temporal do que tem vindo a luz em Portugal nesta arte, desde a célebre e inicial obra de Bordalo (…), e aquela que é seguramente uma das mais brilhantes obras nacionais na banda desenhada: Tu és a Mulher dos Meus Sonhos, Ela a Mulher da Minha Vida», explica-se no texto introdutório.

Mais do que um repositório histórico, esta proposta de homenagem é ela própria uma re-leitura, através de um percurso pelos autores e obras emblemáticas do passado, cujas pranchas escolhidas são recriadas por alguns dos desenhadores mais representativos das gerações actuais.

Autores homenageados

Ana Cortesão, André, António Jorge Gonçalves, António José Simões, António Resende Dias, Arlindo Fagundes, Augusto Mota, Carlos Botelho, Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, Fernando Relvas, Isabel Lobinho, Janus, João Fazenda, Jorge Magalhães, José Carlos Fernandes, José Luís Duarte, José Paulo Simões, José Ruy, Júlio Pinto, Júlio Resende, Luís Louro, Miguel Rocha, Nelson Dias, Nuno Artur Silva, Nuno Saraiva, Pedro Brito, Raphael Bordalo Pinheiro, Raul Correia, Roussado Pinto (Edgar Caygill), Sérgio Luiz, Stuart de Carvalhais, Tito, Victor Mesquita e Vítor Péon.

Autores das homenagens

André Caetano, André Pereira, Daniela Duarte, Fábio Veras, Francisco Nunes, Gonçalo Varanda, Jorge Coelho, José Smith Vargas, Madalena Abreu aka Hada, Marco Mendes, Marta Teives, Paula Cabral, Ricardo Baptista, Rita Alfaiate e Sofia Neto.

Textos

André Azevedo, André Oliveira, Isabel Carvalho, João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo, João Ramalho Santos, José Hartvig de Freitas, Júlio Eme, Marco Mendes, Margarida Mesquita, Miguel Coelho, Pedro Cleto e Rui Cartaxo.

Edição integrada num projecto de A Seita no âmbito do programa Garantir Cultura.

Apoio à Exposição da Direcção Regional de Cultura do Norte/Ministério da Cultura.

Local

Galeria Mundo Fantasma

Inauguração

Sábado, 25 de Novembro de 2023, pelas 17h00

Autores

A confirmar

Georges Bess: “Não escolho os livros que adapto pelos monstros, mas…”

Depois de “Drácula”, a sua adaptação de “Frankenstein” acaba de ser editada em português

Georges Bess aproveitou a oportunidade para ficar mais uns dias e descobrir os encantos da cidade do Porto.
Foi a oportunidade para um encontro com o Jornal de Notícias, durante o qual evocou a sua longa carreira e, em especial, os dois livros disponíveis em português em edições de A Seita : “Drácula” e “Frankenstein”, este último lançado naquele evento.
Nascido em 1947, recorda que desenha “desde pequeno”. Aos 20 anos encontrou “uma sueca e atrás do amor foi para a Suécia”. Evoca “um país muito acolhedor e interessante” mas, “como tinha de ganhar a vida, o desenho pareceu uma via interessante”, Começou por ilustrar “livros de aprendizagem de francês”, mas depois decidiu “tentar a sorte na banda desenhada”. Foi contactando “diversos editores”, até que um dia lhe pediram para “substituir um autor que estava doente” As substituições foram-se sucedendo, permitindo-lhe demonstrar uma das suas principais características: a versatilidade do traço, capaz de se adequar às necessidades.
Do seu período escandinavo, evoca “a participação na versão local da revista ‘Mad’, a personagem ‘Dante’ e, principalmente, o desenho de ‘The Phantom’ (‘Fantasma’), lido e relido em criança, nas tiras recortadas dos jornais”. Mais uma vez, a característica camaleónica do seu traço prestou-se a desenhar “o herói durante cerca de 15 anos, nas diferentes épocas e locais de acção, por vezes aproximando-se do traço de autores que admirava, como Joe Kubert”. Inicialmente “destinado ao mercado sueco, seria distribuído depois na Escandinávia e em dezenas de países”. Numa época em que “se trabalhava sem contrato”, nunca viu “um cêntimo de royalties dessas publicações”.
De regresso a França no final da década de 1980, conheceu o chileno Alejandro Jodorowsky, cineasta, dramaturgo, escritor e argumentista de BD que lhe propôs a série “Le Lama Blanc” (parcialmente editada em Portugal). Foi um “conhecimento fortuito, mas a sua proposta veio ao encontro de uma viagem ao Tibet que tinha realizado anos antes” e o influenciou fortemente”. No mesmo período, com o mesmo escritor desenvolveu uma surpreendente parceria: “um conjunto de histórias infantis publicadas no “Le Journal de Mickey” francês”.
O sucesso da série, inicialmente “pensada para um filme que nunca se realizou, prolongaria a colaboração em ‘Anibal Cinq’ e ‘Juan Solo’”. Mais uma vez, “os estilos diferentes permitiam diversificar e distrair”.
A partir daí, Bess tornou-se “autor completo”. Recorda que “a partir de certa altura, Jodorowsky apenas fornecia a ideia base oralmente”, tendo ele que “escrever o guião e os diálogos”. Por isso, pensou que se já fazia “tudo sozinho, também podia criar histórias próprias”.
Há poucos anos, na sequência de uma operação ao estômago, tendo que ficar imobilizado durante seis meses, começou a fazer desenhos, “a preto e branco, num estilo fantástico; depois, ia ampliando a imagem inicial por várias folhas, obtendo enormes quadros. Eram exercícios de desenho puro, sem qualquer objectivo. Um galerista viu-os, gostou muito e propôs expô-los; foram vistos por um editor que me convidou a fazer uma adaptação de ‘Drácula’ naquele estilo”.
Bess confessa que a princípio não se sentiu “muito atraído” mas, “após uma visita a Londres, onde passeou “no bairro em que Bram Stoker viveu, nas ruas que ele percorreu” e visitou “um cemitério extraordinário e casas góticas muito interessantes, senti uma enorme vontade de o desenhar”.
Depois de “Drácula” (edição portuguesa de A Seita), seguiu-se “Frankenstein”. “São duas obras lidas muito novo, marcantes e cuja influência ainda persiste”.
Gostou de estar no Maia BD, “um pequeno festival recém-nascido, simpático e acolhedor”, mas a sua preferência vai para estar em casa a desenhar. Trabalha “de manhã até ao fim da tarde, de domingo a sábado. Um dia, o desenho a lápis, no seguinte a passagem a tinta. Um álbum de 200 páginas, demora 400 dias a concluir. Mais o tempo de escrita!”
Com “Drácula”, começou por “ler o original”. Depois, colocou-o de lado e desenhou-o “como tinha sentido, realçando as emoções, sem utilizar demasiado o texto original”. Mesmo assim, em obras claramente visuais, mas Bess afirma ter “tentado valorizar a escrita, mantendo alguns termos da época, mas actualizando a linguagem para que seja compreendida hoje”.
A opção pelo preto e branco vem do facto “que torna os desenhos mais fortes, dá-lhes maior impacto”. Nestas obras, mudou “o formato, a técnica, a planificação é muito diversificada, as cenas podem estender-se por páginas duplas, sem seguir modelos mais tradicionais. Poder fazê-lo, ter esta liberdade, é magnífico!” revela claramente satisfeito.
Actualmente, trabalha numa terceira adaptação de “um romance clássico, de um dos mais conhecidos autores franceses”, que ainda não pode divulgar pois encontra-se no segredo dos deuses e dos editores, entre os quais A Seita que já garantiu a edição portuguesa. Curiosamente, como as outras duas, de certa forma também tem um ser deformado como protagonista. Bem-disposto, Bess adianta que não escolhe “as obras a adaptar por terem um monstro, mas…”


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F. Cleto e Pina

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O pequeno problema das últimas semanas

A difícil gestão de sentimentos ao lidar com a perda
Primeiro romance gráfico da portuguesa Joana Mosi aborda a questão do luto

Júlia é trintona, professora de educação física, vive na antiga casa da avó, junto à praia e tem um problema: um mangusto – supõe ela – que apareceu no seu jardim e destruiu a pequena horta caseira que tinha começado.
Este é o resumo, tão intrigante quanto desconcertante, de “O mangusto”, o primeiro romance gráfico da portuguesa Joana Mosi, editado pelo colectivo A Seita.
Porque, na realidade, “O mangusto” é um mergulho no íntimo de Júlia e na forma como ela está a gerir – ou não – o luto relativo à perda do seu marido Paulo. Um luto que a torna quase invisível aos olhos do irmão Joel, mais novo e game designer, que vive com ela desde que ficou desempregado e passa o dia a jogar videojogos; que torna irritante a relação com a mãe protectora e todos os seus conselhos; que a faz cumprir de forma intermitente as responsabilidades profissionais na escola em que está colocada. Em resumo, um estado de negação, que a afasta de tudo e de todos, e em que a passagem do tempo não torna menos dolorosas as recordações em que teima em refugiar-se – ou afogar-se. E de que tenta fugir, ao tornar quase obsessiva a questão do eventual mangusto, problematizando-a e fugindo às eventuais soluções.
Se a temática, delicada, não é nova, “O mangusto” seduz pela sensibilidade com que Joana Mosi a aborda e, acima de tudo, pelo tratamento gráfico que apõe ao seu relato, gerindo curtos diálogos, conversas monocórdicas ou silêncios ensurdecedores com uma surpreendente maturidade.
Por outro lado, a narrativa raras vezes é linear, com presente e passado a alternarem, ou com diversos momentos da actualidade a sucederem-se nas mesmas páginas que, dessa forma, assumem vários planos de acção, numa planificação aparentemente indefinida e anárquica que impede a acomodação do leitor.
Devemos atentar em especial na forma como Joana Mosi gere os tempos, o movimento
e a dicotomia som/silêncios, numa narrativa quase sempre lenta, proporcionando uma leitura profunda e detalhalista, apesar da aparente simplicidade do traço utilizado, que se arrasta no tempo, de forma insidiosa, a um tempo próxima e incómoda, pelo modo como transborda sentimentos e emoções de tão difícil gestão.

O mangusto
Joana Mosi
A Seita
184 p., 25,00 €


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F. Cleto e Pina

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Declaração de amor à banda desenhada

Ricardo Leite demorou meio século a concretizar o sonho de fazer BD
Conversa iniciática com os autores que admira e as personagens que o fizeram sonhar

Ricardo Leite é um autor brasileiro, conhecido pelos seus trabalhos de ilustração de capas de discos e de design, para além de ser o CEO da famosa Crama Design Estratégico. E é também o autor de “Em busca do Tintin perdido”, que A Seita em boa hora decidiu editar em Portugal.
O autor define este seu livro como ‘uma ficção autobiográfica’, mas vendo a forma como revela o seu amor pela banda desenhada, é evidente que o seu relato ultrapassa a simples ficção, é reflexo de uma vida real.
Leitor de ‘quadrinhos’ desde os mais tenros anos, aos 13 anos esteve quase a cumprir um sonho, conhecer Hergé, mas o criador de Tintin estava de férias quando o jovem passou por Bruxelas. Esse desencontro, de alguma forma marcou-o e, anos depois, uma estadia de dois anos em França, para tentar afirmar-se como autor, levou-o de desilusão em desilusão, até a falta de fundos e a próxima paternidade o terem obrigado a regressar ao seu país. Aí, a vida real sobrepôs-se ao sonho e durante décadas tornou-se um dos melhores no seu ramo, sem nunca deixar de ser leitor de BD.
Finalmente, aos 55 anos, mudanças profundas levaram-no numa viagem iniciática a Bruxelas, onde pode espreitar o mais fundo de si mesmo, para perceber se os seus sonhos ainda estavam vivos, porque, quando estamos numa encruzilhada, precisamos de descobrir se as nossas aspirações e anseios ainda têm força para nos fazer voar ou estamos já irremediavelmente presos à monotonia do quotidiano.
Para Leite, o resultado foi este “Em busca do Tintin perdido”, uma obra que levou uma década a executar e uma vida a preparar e que se afirma como uma belíssima declaração de amor à banda desenhada, nos seus inúmeros estilos, temáticas e propostas, e um passeio por um século de História desta arte.
São duas centenas de páginas intensas e profundamente emocionais, resultantes de um mergulho no seu âmago e de um passeio inquiridor e de descoberta da banda desenhada, ao longo das quais Leite, em simultâneo autor e personagem, dialoga no papel com os autores que ao longo da vida foi admirando, convive com as personagens que o fizeram viver momentos únicos e maravilhosos e, procurando no seu interior, redescobre a capacidade de ser feliz e ser capaz de fazer viver o seu sonho – e nós com ele.

Em busca do Tintin perdido
Ricardo Leite
A Seita
220 p., 26,00 €


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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