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“Renovação permanente é a palavra-chave de Eternus 9”

“É necessário ousar, renovar, saltar no escuro sem garantias de qualquer espécie”

Chama-se Victor Mesquita, tem 69 anos e esteve na origem da revista Visão, onde ficou incompleto “Eternus 9 – Um filho do Cosmos”, editado em álbum – há muito esgotado – em 1979.
Agora, uma nova edição, com alguns extras, está nas livrarias “na sequência de um excelente encontro com o Dr. Guilherme Valente, da Gradiva, em que o entusiasmo circulou como fogo-de-santelmo. Antes de assinar o contrato, avancei com o trabalho parado 15 anos atrás, do qual saiu a nova capa”.
Nos anos 70, conta o desenhador, “viajei um ano ao lado de Eternus, ouvindo o silêncio que ele fazia, sondando o ser estranho e familiar que crescia a meu lado, que me ajudaria a crescer”. E guarda como “recordação dominante desse meu período existencial, a mão a dar uma volta à chave, fechando-me no estúdio, as pranchas surgindo semana a semana, suspensas por molas como um estendal de roupa”.
Da génese de Eternus 9, revela que “foi prefigurado na minha cabeça mais do que no papel”, num processo contínuo, em que “estabeleci os pontos-chave que seriam preenchidos ao sabor do risco de cada instante da criação, de modo a que me sentisse sempre a viver uma aventura na qual as coisas corriam à medida que eu avançava, sujeito a cair a cada passo, firmando-me e descobrindo um novo chão a cada passada”.
Relato em estilo barroco, visualmente impactante, de teor humanista, filosófico e de “antecipação científica”, explora conceitos então ainda quase ignorados, como a ecologia, pois “sempre me preocupou a ideia do planeta e da sociedade caminharem por onde não deveriam, para a extinção das reservas de energia natural. Estou apaixonado pela Terra, pela transcendência que rodeia o nosso planeta, algo que se move e nos move sem nos apercebermos”. O que contribui decisivamente para que este não seja um álbum datado, a par de “no fundo, não passar de uma criação seminal, logo incompleta, em que tudo se encontra em aberto. E que no segundo álbum – A Cidade dos Espelhos, a lançar no final de 2009 – “se renova muito para além do que já foi dito, porque Re9vação permanente é a sua palavra-chave”.
“Esta reedição”, afirma o autor, “marca o regresso de Eternus 9 e de alguém que no segundo álbum afirma não ter nada a ver com Victor Mesquita”! Sem se abrir, afirma que “a resposta cabal será dada em A Cidade dos Espelhos, algo completamente novo, em que exploro de que matéria são feitos os sonhos”. E prossegue: “é preciso abrir portais mágicos no real; as crises são óptimas: é preciso é sair delas com sugestões novas, evitando cair no fosso das anteriores. É necessário ousar, renovar, saltar no escuro sem garantias de qualquer espécie; em suma: acreditar”.
A sequela, de que já concluiu “o primeiro de seis capítulos” existe desde o início, pois “sempre vi o primeiro álbum como o ovo a partir do qual nasceriam mais nove, já traçados em termos de título e contexto”. Mesmo assim, “não previa que o segundo evoluísse como evoluiu, com a história a surpreender-me a cada passo, transformada num organismo com vida própria”. E levantando um pouco a ponta do véu, conta que nele, “um portal caleidoscópico atravessará um mundo cujo coração será Lisboa, depois da Guerra Nuclear que transfigurou a face do planeta. A placa tectónica deslocada por efeito de subducção ao longo do rio Tejo, fragmentou a Lisboa de hoje até quase não se poder reconhecê-la, mas onde continuam as referências que a distinguem, o espírito de lugar que a possui”. E a par do qual desenvolve “um Diário de Trabalho e Apontamentos, integrado na própria ficção que diz o que no álbum não é dito”, que é, afinal, “a história do dia a dia do autor vista do lado de fora da novela gráfica”.

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“Gostava de repetir a experiência da Visão!”

Em 1975, surgiu nas bancas uma luxuosa revista intitulada Visão, um projecto de autores “para uma nova BD portuguesa”, que, devido a conflitos internos duraria apenas 12 números. Victor Mesquita, saído a meio, foi um dos seus fundadores e confessa que “gostaria de repetir a experiência, com outra gente, claro, outro tipo de relacionamento e colaboração”.
Respeitando “as diferenças inerentes à época actual”, acredita que seria possível retomá-la “com o mesmo estatuto de criação inovadora, criando dinâmicas paralelas”. E revela: “tenho o título, o estatuto e a forma que ela teria se surgisse financiamento; simples e rápida de executar, a sair, como O Mosquito, duas vezes por semana, 16 páginas, a cor e a preto e branco”. E remata: “a BD é uma fonte de riqueza inesgotável, só tem de ter qualidade e uma nova filosofia de comunicação”.

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Projectos

Entre muitos projectos à espera de “um editor verdadeiramente empenhado”, conta “um manga de samurais”, de que já elaborou “a história, a sinopse e uma introdução de impacto”, protagonizado por alguém que “existe em carne e osso, uma velha samurai que descende em linha directa de um dos mais famosos shoguns do século XVII e que matou o marido num combate singular”.
E fala, com entusiasmo, como sempre que a BD é o tema, da “história de Ernesto Santelmo, um engenheiro genético neto de um pescador de Tavira e de mãe americana que descobre a cura para uma das piores pandemias que assolam o planeta e se vê envolvido numa espiral de intrigas científicas”. E que foi atropelado pela realidade, porque “o envio das primeiras pranchas para os EUA estava previsto para a semana a seguir ao 11 de Setembro, e elas abriam com um atentado, um arranha-céu em chamas, ao fundo as Torres Gémeas ainda de pé… Uma das muitas coincidências de que a minha vida está recheada”.


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Popeye octogenário

Há exactamente 80 anos, Elzie Crisler Segar desenhava pela primeira vez numa vinheta, um marinheiro que, apesar de baixo, careca e pouco inteligente, viria a tornar-se famoso sob o nome de Popeye (“zarolho”, daí a pala preta que ostentava).

Nela, o devorador de espinafres mais conhecido do mundo, em resposta à pergunta “É um marinheiro?”, disparava esta curiosa resposta: “Penso que sou um cowboy!”, mais tarde substituída pela carismática: “Eu sou o que sou!”. Mas as curiosidades não se ficavam por aqui já que, ao contrario de quase todos os outros heróis dos quadradinhos, a sua estreia deu-se numa série avulsa, “The Thimble Theatre” (Teatro em Miniatura), uma tira diária de imprensa, inicialmente publicada na vertical, que Segar assinava desde 19 de Dezembro de 1919. Nela, de forma teatral, quase sempre em tiras auto-conclusivas, foi apontando alguns dos podres da sua América: a volatilidade das fortunas, o novo-riquismo, as desigualdades sociais, baseando-se no quotidiano da família Oyl, onde predominavam o colérico Castor, a sua irmã Olive (Olívia Palito), e o seu noivo Ham Gravy. A partir de 1925 a série ganhou uma prancha dominical colorida, na qual Segar pode explanar o seu sentido de espectáculo e desenvolver narrativas longas que combinavam cenários rurais e marítimos, a sede de aventura, a superstição, a magia e o medo do desconhecido.
É na sequência de uma delas que Popeye surge, conquistando de imediato os leitores – chegou a ser mais popular do que Mickey Mouse – apesar da sua falta de atributos físicos, graças às tiradas inesperadas, à força sobre-humana (de início sem qualquer relação com os espinafres, a sua imagem de marca nos desenhos animados), à resistência a murros, facadas e tiros e, ao mesmo tempo, ao seu carácter contraditório tão humano, igualmente capaz de se dedicar inteiramente a um bebé (Swee’pea, introduzido em 1933) como a acreditar que pode resolver tudo com os punhos (o que levou alguns a considerá-lo uma má influência para as crianças). A sua popularidade levou Segar a alterar o título da sua criação para “The Thimble Theatre Starring Popeye”, logo em 1931. O sonhador e devorador de hambúrgueres, Wimpy, o pai, Poopedeck Pappy, o estranho animal Eugene the Jeep, a malévola Sea Hag (Bruxa do Mar), o brutamontes Blutus e tantos outros foram-se juntando numa notável galeria, que Segar animou, em narrativas cada vez mais surreais, até à sua morte, vítima de leucemia, em 1938. A série prosseguiu com diversos autores, com destaque para Bud Sagendorf, que lhe conferiu um carácter mais humorístico e próximo da versão animada e a assinou entre 1958 e 1994.
Muito antes, logo em 1933, os estúdios Max Fleischer juntavam Popeye e Betty Boop o breve tempo de um desenho animado, para em seguida desenvolverem uma série com o marinheiro, que até hoje já protagonizou mais de 750 animações, onde foi cimentada a sua actual imagem de marca: a força dependente dos espinafres (que levou Cristal City, no Texas, a maior produtora deste vegetal, a erigir-lhe uma estátua em 1937, agradecendo-lhe o aumento de 33 % no seu consumo nos EUA), a paixão pela anoréxica Olive (cuja silhueta inspirou um perfume de Moschino), a sua rivalidade com Blutus e a sua afirmação como marinheiro (“I’m Popeye, the saylor man”, cantava a música), tantas vezes negada na BD. Nos anos 60, foi a estrela de uma série televisiva e, em 1981, chegou ao grande ecrã, numa película dirigida por Robert Altman, que teve como (único) mérito revelar Robin Williams, como Popeye, contracenando com Shelley “Olive” Duvall.

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No domínio público

Desde o passado dia 1, Popeye passou ao domínio público na Europa, ou seja, qualquer um poderá utilizá-lo nos suportes que desejar, sem necessitar de qualquer autorização ou de pagar direitos. Isto acontece porque a leia europeia considera que os direitos de autor vencem 70 anos após a morte do criador. Nos EUA é diferente, já que são considerados 95 anos após a data da criação, ou seja a imagem de Popeye está protegida até 2024.
Na prática, as coisas não serão assim tão simples, já que continua em vigor a “marca registada”, pertença da King Features, que distribui as bandas desenhadas do marinheiro, pelo que é bem possível que utilizações de Popeye não autorizadas acabem nas barras dos tribunais, pois a sua imagem ainda rende anualmente cerca de 1,6 milhões de euros.


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Barack Obama encontra o Homem-Aranha

Antes da tomada de posse, Barack Obama vai encontrar-se com o Homem-Aranha na revista “The Amazing Spider-Man #583”, à venda nos EUA dia 14 e disponível nas lojas especializadas nacionais a partir de dia 31.

O encontro terá lugar numa história especial de cinco páginas, escrita por Zeb Wells e desenhada por Todd Nauck e Frank D’Armata, que decorre em Washington, durante a cerimónia de tomada de posse, que o Camaleão vai tentar boicotar, provocando a intervenção do Homem-Aranha, de quem é um dos mais antigos inimigos.
Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, explicou que “quando soubemos que o Presidente eleito Obama é fã do Homem-Aranha e coleccionados das suas revistas, decidimos que eles tinham de se encontrar”, acrescentando que “momentos históricos como este têm que se reflectir nos comics, pois o universo Marvel está definido no mundo real”.
A participação de Obama na revista deve levar a um aumento da sua procura pelos coleccionadores, sendo de esperar uma reimpressão dentro de poucos dias. Menos certo, embora previsível, é que algum dos exemplares disponíveis nas lojas portugueses tenha a capa variante desenhada por Phil Jiménez, que reúne o Homem-Aranha e Obama, uma vez que “geralmente a Marvel oferece uns tantos exemplares com capas especiais em função das quantidades encomendadas”, explicou ao JN Vasco Carmo, da livraria Mundo Fantasma no Porto, que, tal como a BDMania (Lisboa), conta disponibilizar a revista aos seus clientes a partir de dia 31.
A primeira aparição de Obama numa história de super-heróis aconteceu na revista “Savage Dragon #145”, onde este herói dava os parabéns ao recém-eleito presidente, colocando-se ao seu dispor. Nada de surpreendente, se tivermos em conta que o seu autor, Erik Larsen, antes das eleições expressou o seu apoio à candidatura de Obama exactamente na capa do número 137 da sua revista, que por isso teve direito a três edições, ultrapassando todas as expectativas de vendas.
Desta forma, Obama passa a fazer parte de uma restrita galeria de Presidentes dos EUA que contracenaram com super-heróis, onde já estavam, entre outros, John Kennedy, Ronald Reagan e Bill Clinton.


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Tintin octogenário

Foi a 10 de Janeiro de 1929 que o “Le petit Vingtième” publicou a primeira prancha de Tintin, dando início a uma aventura cuja actualidade, 80 anos depois, se faz cada vez mais distante da BD.

Nessa primeira prancha, a preto e branco, tal como as oito aventuras que se lhe seguiram, mais tarde redesenhadas a cores, Tintin partia de comboio para o País dos Sovietes, onde escreveria a sua primeira e única reportagem. Era um início marcado pela ingenuidade e pelo desenvolver do argumento ao correr dos desenhos, mas onde Hergé já revelava as qualidades – legibilidade, domínio da planificação, dinamismo do traço, construção da trama – que fariam dele um dos nomes maiores da 9ª arte.
Depois da Rússia, retratada de forma crítica e parcial, por influência do director do jornal católico que o publicou, Hergé levaria o seu herói a África e aos Estados Unidos, à América do Sul, um pouco por toda a Europa e mesmo à Lua, 20 anos antes de Armstrong. Com Tintin, construiu uma obra equilibrada e deslumbrante, traçada num primoroso estilo linha clara, tendo por principais vectores a aventura, a amizade, a lealdade e o sentido de justiça.
E que hoje em dia permanece perfeitamente legível – e inalterada devido à vontade expressa nesse sentido por Hergé – e na qual se encontram algumas obras-primas da BD. Mas que, nalguns casos, necessita de ser lida e interpretada à luz da época e do contexto em que foi criada, para evitar acusações ridículas e ignorantes como “racista”, “defensor de maus tratos aos animais” ou “colaboracionista”, que regularmente são feitas a Hergé, quase sempre por gentinha em bicos-de-pés em busca de 15 minutos de (triste) fama à sombra de Tintin. O caso mais recente veio esta semana à luz nas páginas do respeitável “The Times”, num artigo (risível) de Matthew Parris, antigo deputado britânico, intitulado “Claro que Tintin é gay. Perguntem a Milu”, de imediato desmontado por estudiosos e defensores da obra de Hergé.
A venda de originais tem também feito sucessivas manchetes, como em Abril último, quando o desenho a guache que serviu de capa à primeira edição de “Tintin na América”, datado de 1932, foi leiloado por 762 mil euros.
Com mais de 200 milhões de álbuns vendidos, a actualidade de Tintin a nível editorial (uma vez que o último álbum original data de 1976 e que Hergé faleceu em 1983) vem das sucessivas reedições em novas línguas e dialectos (que somam já mais de meia centena) e formatos, como o recente “Tout Tintin” (Casterman), que compila as 24 histórias num único tomo de 1694 páginas.
Isto, a par do filme (ver caixa) e da inauguração do Museu Hergé, marcada para 22 de Maio, data do 101º aniversário do nascimento do pai de Tintin. Situado em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, foi desenhado com a forma de um prisma, quase sem ângulos rectos, que parece flutuar, pelo arquitecto francês Christian de Portzamparc. Com fortes preocupações ambientais, ao nível do aquecimento, tratamento do ar e poupança de energia, o edifício com 6 700 m2 de superfície, divididos por quatro andares, acolherá o espólio da Fundação Moulinsart, sendo a parte museológica concebida pelo autor holandês Joost Swarte.

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Um filme atribulado

A vontade de Steven Spielberg adaptar Tintin levou-o a conversar com Hergé sobre o assunto, tendo adquirido os seus direitos cinematográficos logo em 1983, adivinhando alguns a sua sombra em Indiana Jones, nomeadamente no espírito de aventura pura que percorre os filmes e nalgumas cenas de acção.
Em 2007, após acordo com os herdeiros de Hergé, Spielberg anunciou uma trilogia com actores de carne e osso, em parceria com Peter Jackson, devendo o primeiro filme, dirigido por si e baseado no diptíco “O segredo da Licorne”/”O Tesouro de Rackham o terrível”, estrear em 2008. O segundo filme, dirigido por Jackson, seria baseado em “As Sete bolas de Cristal”/”O Templo do Sol”, juntando-se os dois para a realização da última película, sobre “Rumo à Lua”/”Explorando a Lua”.
Só que, as dificuldades para conseguir os 130 milhões de dólares de financiamento necessários para o projecto (pouco atractivo para o mercado norte-americano onde Tintin não vingou), atrasaram-no sucessivamente, estando agora previsto o início das filmagens para Fevereiro e a estreia em 2010.
Isso inviabilizou a participação de Thomas Sangster, como Tintin, onde ainda só estão confirmados Andy Serkis, como Capitão Haddock, e Nick Frost e Simon Pegg para interpretar a dupla Dupont & Dupond, (surpreendentemente) transformada numa espécie de Bucha e Estica de formas moderadas…


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Flash Gordon nasceu há 75 anos

A 7 de Janeiro de 1934, os jornais norte-americanos publicavam a primeira prancha de Flash Gordon, de Alex Raymond, iniciando o período mais tarde baptizado como a Época de Ouro das tiras de imprensa.

Na verdade, alguns consideram que ela tinha nascido no mesmo dia, mas cinco anos antes, com o Tarzan, de Hal Foster e Buck Rogers de Philip Nowlan e Dick Calkins, mas a verdade é que 1934 fica indelevelmente marcado na história da BD nos jornais também pelas estreias de Jungle Jim (no mesmo dia e também de Raymond), Secret Agent X-9, Mandrake, Li’l Abner ou Terry and the Pirates.
Curiosamente, o Flash Gordon de Raymond – considerado por Umberto Eco uma das dez obras mais representativas da cultura ocidental – nasceu como resposta ao êxito de Buck Rogers, e inicia-se com uma ameaça de colisão entre a Terra e Mongo, um planeta à deriva, inspirando-se livremente no romance “When Worlds Collide”, de P. Wylie e E. Balmer.
Flash e a sua (eterna) noiva, a belíssima Dale Arden (por quem muitos suspiraram) seguiam a bordo de um avião que, atingido por um meteorito, caiu junto ao laboratório do sábio (meio louco) Hans Zarkov. Partem então com ele num foguete, apostados em desviar a rota de Mongo, onde acabam por despenhar-se. Perseguidos pelo ditador Ming, (também) apaixonado por Dale, inicia-se então a verdadeira aventura, uma luta pela libertação de um mundo que Raymond, com uma imaginação transbordante, tornou fabuloso com o seu traço fino, detalhado, barroco e hiper-realista, exigente na representação da anatomia humana mas sem limites na recriação das criaturas fantásticas com que o povoou.
O êxito da serie transpôs Flash Gordon para a TV e o cinema logo em meados da década de 30 e levou à criação de uma tira diária, em 1940, por Austin Briggs, tendo Raymond assegurado as pranchas dominicais até ser incorporado, em 1944, sucedendo-lhe, entre outros, Mac Raboy, Dan Barry, Paul Norris ou Al Williamson.
Em Portugal, o herói, por vezes rebaptizado Relâmpago ou Roldan, estreou-se no Mundo de Aventuras em 1946. A criação de tiras de imprensa originais seria suspensa em 2003, estando em publicação, pela Ardden Entertainement, comic com uma versão actualizada aos nossos dias, assinado por DeMatteis, Deneen e Paul Green.


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Hillary Clinton, Sarah Palin e Michelle Obama biografadas em BD

Após o sucesso das biografias em banda desenhada de Barak Obama e John McCain, então ainda candidatos a Presidente dos Estados Unidos, a Bluewater Productions decidiu explorar este segmento com a colecção “Female Force”, destinada a contar aos quadradinhos “as biografias de mulheres notáveis que estão a fazer e a moldar a história moderna”.
O primeiro número, lançado a 20 de Janeiro próximo, dia da posse do novo presidente norte-americano, será dedicado a Hillary Clinton e, nas suas 32 páginas, debruçar-se-á sobre o impacto histórico da senadora democrata como primeira mulher nomeada para presidente dos EUA. O argumentista, Neal Bailey, afirmou ter começado a escrever “do ponto de vista de alguém que não a admirava mas que durante o processo de pesquisa ficou fascinado por ela”. O desenho é de Daniel Croiser e o design da capa segue de perto o modelo das edições “masculinas” da IDW, com a figura da senadora sobreposta à bandeira norte-americana.
O segundo tomo da colecção, dedicado a Sarah Palin, está previsto para Fevereiro e como foi anunciada antes das eleições, previa dois finais diferentes, um apresentando a Governadora do Alasca como nova ocupante da casa Branca como Vice-Presidente de John McCain, e o outro contando a sua derrota nas eleições presidenciais. O seu argumentista é também Neil Bailey que afirmou que “é importante estarmos informados sobre o mundo à nossa volta e sobre as pessoas que o influenciam, e os comics continuam a ser uma das formas mais acessíveis de o mostrar”, cabendo o desenho a Ryan Howe.
Agora, acaba de ser anunciada a terceira protagonista da colecção, Michelle Obama, a futura primeira-dama norte-americana, uma vez que “a sua influência potencial nas futuras decisões políticas a torna uma figura fascinante”, segundo Darren G. Davis, presidente da Bluewater Productions. Vinnie Tartamella, o desenhador escolhido para este comic, previsto para Abril de 2009, que acompanha Michelle Obama desde a sua juventude em Chicago até à vitória do marido nas presidenciais, afirmou que “ao criar a imagem da futura primeira-dama, tentei mostrar a sua classe, beleza e inteligência”.


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Faleceu Zé Paulo, um dos autores da Visão

José Paulo Abrantes Simões, autor de BD, ilustrador, caricaturista e pintor que assinava Zepaulo, faleceu aos 71 anos, vítima de cancro.
Nascido em Lisboa, fez o curso de Pintura da Escola de Artes Decorativas António Arroio, e deu os primeiros passos nos quadradinhos, em pranchas publicitárias para “O Camarada”, tendo colaborado também em “A Capital”. Após o 25 de Abril destacou-se como um dos participantes na aventura da revista Visão, que teve 12 números editados entre 1974 e 1976, e onde publicou, entre outras, “Os Loucos da Banda”, “Histórias que a minha avó contava para eu comer a sopa toda” e “A Família Slacqç”. “A Direita de Cara à Banda (Desenhada)” (Caminho, 1977), colectânea de cartoons publicados no jornal “Diário” foi o seu primeiro álbum, a que se seguiria “Memórias do último eléctrico do Carmo” (1979).
Dono de um traço expressivo e detalhado, quase sempre trabalhado a preto e branco, e de um humor certeiro, sarcástico e de tom anarquista, Zepaulo foi uma presença irregular em diversas publicações (“Fungagá da Bicharada”, “DL Fanzine”, “O Inimigo”, “Vida de Preto”) ao longo dos anos, tendo o seu último trabalho sido uma prancha intitulada “Esperman”, integrada na obra colectiva “Super-Homem no Século XXI” editada este ano por Geraldes Lino.


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O crepúsculo do Western no centenário de um dos seus criadores

Possivelmente uma das mais famosas imagens dos westerns aos quadradinhos, é a vinheta final dos álbuns de Lucky Luke, na qual canta “Sou um pobre cowboy solitário, muito longe de casa”, cavalgando rumo ao pôr-do-sol. Imagem que, de alguma forma, pode ilustrar o crepúsculo que vive o género na banda desenhada – e também nas outras artes…
A perda do fascínio e do mistério que o Oeste selvagem em tempos exerceu e que desapareceu neste tempo globalizado em que toda a informação está ao nosso alcance; a transferência daquele fascínio para mundos siderais, onde as aventuras narradas, em muitos casos são puros westerns… espaciais; a substituição do ser humano – protagonista por excelência dos westerns, enquanto narrativa de superação – pela máquina, em tantas situações; o aparecimento de outras fontes de entretenimento, são algumas das justificações para esse estado. Às quais Gianfranco Manfredi, em entrevista recente ao site Universo HQ, acrescentou o facto de “os novos desenhadores terem dificuldades em desenhar cavalos e o oeste em geral”, ao anunciar para 2010 o fim de Mágico Vento (um aclamado misto de western e terror, bem condimentado com a exploração dos costumes índios e o paralelismo ficcional à realidade histórica, distribuído mensalmente entre nós em edição brasileira da Mythos).
Por isso, é cada vez mais difícil substituir as imagens que estão na memória de todos aqueles que algum dia cavalgaram juntamente com o insubordinado Blueberry, foram companheiros de Jerry Spring, vibraram com o duelo de Red Dust e Kentucky ou viveram as preocupações humanistas de Buddy Longway ou Ken Parker. Isso, porque são poucos os que vêm renovar o género – Gus, Bouncer ou Preacher, são parcos exemplos – juntando-se aos resistentes: Blueberry, Lucky Luke, Túnicas Azuis, Jonah Hex, Zagor ou Tex.
Tex que é o mais duradouro western da BD, algo que Giovanni Luigi Bonelli, nascido a 22 de Dezembro de 1908, em Milão, estaria longe de imaginar quando o concebeu, em 1948, como um herói duro e determinado, capaz de usar a força das balas para obter justiça. Antes dessa estreia, com o desenhador Aurelio Galleppini, G. Bonelli, consumidor voraz de romances e filmes de aventura, cujo centenário do nascimento, se cumpriu no passado dia 22, tinha já uma assinalável carreira na BD, na literatura para a juventude e como editor. Tex, inspirado nos grandes êxitos cinematográficos do género, seria a sua grande criação e, depois da chegada do seu filho Sergio à direcção da editora, tornou-se um imenso sucesso e a face mais visível dos fumetti (a BD italiana). Forçado a abandoná-lo, devido à idade e à doença, em 1991, Gian Luigi Bonelli deixou muitas outras criações (e westerns) populares, nas quais sempre exaltou a amizade, o companheirismo, a lealdade e o espírito de aventura.
Os 100 anos do seu nascimento ficam marcados pela atribuição do seu nome a uma rua de Agropoli, pela primeira reedição do único romance de Tex que escreveu – “Il massacro di Goldena” (1951) – e indissociavelmente ligados às comemorações do centenário do nascimento dos fumetti, com a revista “Il Corriere dei Piccoli”, cumprido exactamente hoje.
Quanto a Tex, mantém vendas mensais de cerca de um milhão de exemplares, no conjunto das suas várias colecções, pelo que custa a acreditar nas pessimistas previsões de Sergio Bonelli aqui ao lado, quase apetecendo dizer que, se Tex reflecte o crepúsculo da BD nos quadradinhos, muitos bandidos tombarão ainda perante as suas balas certeiras antes de chegar a noite escura e triste.

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Entrevista com Sergio Bonelli, editor de Tex e argumentista sob o pseudónimo de Guido Nolita

“Tex pode acabar daqui a 5 anos”

JN – Como era Gian Luigi Bonelli?
Sérgio Bonelli – Fisicamente era fascinante, muito musculoso e atlético para a estatura. Era alegre, muito extrovertido e adorava entreter os amigos com assuntos que surpreendiam pela originalidade e pelo seu anticonformismo.
JN – E o escritor?
SB – Gostava de improvisar página após página. Ele tinha orgulho no seu ofício de argumentista e dava-se completamente a Tex e aos protagonistas das suas histórias.
JN – Ele expressou alguma vontade em relação a Tex depois do seu desaparecimento?
SB – Nos últimos anos apercebeu-se que Tex se tinha tornado importante no mundo da BD e aceitou que outros continuassem a sua obra. Depois da decisão de o abandonar, desistiu de corrigir os textos dos outros; por simpatia e amor paterno, intervinha, com alguns conselhos, nas histórias escritas por mim.
JN – Tex está praticamente inalterado desde a sua criação. Por razões comerciais, artísticas ou sentimentais?
SB – Infelizmente não é verdade. Apesar do esforço de imitar o seu criador, todos os novos argumentistas introduzem diferenças que os leitores mais atentos não deixam de apontar.
JN – Os tempos actuais não pedem um Tex mais “politicamente correcto”?
SB – Pelo contrário, o rigoroso “politicamente correcto” exigido por alguns incomodaria outros. É difícil contentar todos. O mundo dos quadradinhos pode abrigar personagens de todo o tipo: o leitor facilmente encontra heróis “modernos” sem se desnaturar um “herói” tradicional.
JN – Tex continua a conquistar leitores?
SB – As novas gerações não gostam de western. Tex continua a ser a BD mais vendida em Itália, mas todos os meses perde leitores; pode ser que daqui a 5 ou 6 anos já não haja suficientes para o manter. Infelizmente, a BD está destinada a dar rapidamente lugar a outros divertimentos mais fáceis e cativantes.


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Tintin num só volume

Acaba de chegar ao mercado francófono uma nova edição das aventuras de Tintin que tem a particularidade de reunir num único volume a cores as 24 histórias que Hergé escreveu e desenhou. Nele, estão incluídas “Tintin no país do Sovietes”, a primeira história do herói, e “Tintin e a Arte-Alfa”, em que o autor trabalhava à data da sua morte, em Março de 1983, e que deixou inacabada, com apenas 42 pranchas pouco mais do que esboçadas e o argumento incompleto.
Num formato inferior ao habitual (193 x 250 mm), este imponente volume (com mais de 7 centímetros de altura e quase três quilogramas de peso ), tem 1694 páginas e custa 77 euros, ou não fossem as aventuras de Tintin para ”jovens dos 7 aos 77 anos”, tem uma tiragem de 35 mil exemplares, tendo a editora Casterman anunciado que não fará qualquer reedição, pelo que se transformará rapidamente num objecto de colecção.
A edição do livro antecipa a comemoração dos 80 anos do herói de poupa e calças de golfe, que se cumprem no próximo dia 10 de Janeiro.


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“Mein Kampf” de Hitler e “O Capital”, de Karl Max, adaptados em manga

A editora japonesa East Press, acaba de lançar adaptações em manga (bd japonesa) de dois títulos polémicos: “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e “O Capital”, de Karl Marx, integradas na colecção “Clássicos da Literatura em manga”, que já vendeu 1,2 milhões de exemplares no Japão.
No “Mein Kampf” (A minha luta), escrito em 1924, quando estava preso, Hitler expôs as ideias nacionalistas, anti-semitas e racistas adoptadas pelo partido nazi, que seriam postas em prática após a sua subida ao poder na Alemanha, em 1933. Quanto a “Das Kapital” (O Capital), escrito por Karl Marx em 1867, é uma crítica contundente ao capitalismo e a base das doutrinas socialistas marxistas.
O editor-chefe da East Press, Kosuke Maruo, em declarações à BBC Brasil, atenuou eventuais polémicas que a edição do “Mein Kampf” possa levantar, lembrando que o original, proibido em vários países, está publicado no Japão e que toda a gente “já conhece a história e o pensamento nazi”. E acrescenta: “A ideia não é apresentar Hitler como vilão ou herói, mas apenas mostrar quem era e o que ele pensava”. Isto porque a versão em manga começa na infância de Hitler e vai até ao final da Segunda Guerra Mundial, mostrando o ódio que ele sentia pelos judeus.
Quanto à versão aos quadradinhos de “O Capital” não poderia ter surgido em melhor altura, dada a crise financeira que o mundo atravessa, pois segundo Maruo, “a recessão económica que o país enfrenta” pode ajudar à venda do livro, cuja história aborda conceitos como a exploração dos trabalhadores e as diferenças entre as classes sociais. Esta não é a primeira vez que a obra de Marx surge em BD, existindo, inclusive, uma versão portuguesa, da autoria de Carlos Barradas, datada de 1978.
A colecção da East Press, que, segundo o seu editor, adapta obras “que as pessoas conhecem, mas que não têm muita paciência para ler até ao fim”, permitindo-lhes “ler um clássico e entender os conceitos em apenas uma hora”, conta já 27 títulos entre as quais “Crime e Castigo”, de Dostoievski, “Fausto”, de Goethe, “Rei Lear”, de Shakespeare, ou “Guerra e Paz”, de Tolstoi, sendo o mais vendido “Kanikousen”, baseado no original do japonês Takiji Kobayashi. “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e “O Desespero Humano – Doença até a Morte”, do teólogo e filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, serão os primeiros títulos de 2009.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

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