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O crepúsculo do Western no centenário de um dos seus criadores

Possivelmente uma das mais famosas imagens dos westerns aos quadradinhos, é a vinheta final dos álbuns de Lucky Luke, na qual canta “Sou um pobre cowboy solitário, muito longe de casa”, cavalgando rumo ao pôr-do-sol. Imagem que, de alguma forma, pode ilustrar o crepúsculo que vive o género na banda desenhada – e também nas outras artes…
A perda do fascínio e do mistério que o Oeste selvagem em tempos exerceu e que desapareceu neste tempo globalizado em que toda a informação está ao nosso alcance; a transferência daquele fascínio para mundos siderais, onde as aventuras narradas, em muitos casos são puros westerns… espaciais; a substituição do ser humano – protagonista por excelência dos westerns, enquanto narrativa de superação – pela máquina, em tantas situações; o aparecimento de outras fontes de entretenimento, são algumas das justificações para esse estado. Às quais Gianfranco Manfredi, em entrevista recente ao site Universo HQ, acrescentou o facto de “os novos desenhadores terem dificuldades em desenhar cavalos e o oeste em geral”, ao anunciar para 2010 o fim de Mágico Vento (um aclamado misto de western e terror, bem condimentado com a exploração dos costumes índios e o paralelismo ficcional à realidade histórica, distribuído mensalmente entre nós em edição brasileira da Mythos).
Por isso, é cada vez mais difícil substituir as imagens que estão na memória de todos aqueles que algum dia cavalgaram juntamente com o insubordinado Blueberry, foram companheiros de Jerry Spring, vibraram com o duelo de Red Dust e Kentucky ou viveram as preocupações humanistas de Buddy Longway ou Ken Parker. Isso, porque são poucos os que vêm renovar o género – Gus, Bouncer ou Preacher, são parcos exemplos – juntando-se aos resistentes: Blueberry, Lucky Luke, Túnicas Azuis, Jonah Hex, Zagor ou Tex.
Tex que é o mais duradouro western da BD, algo que Giovanni Luigi Bonelli, nascido a 22 de Dezembro de 1908, em Milão, estaria longe de imaginar quando o concebeu, em 1948, como um herói duro e determinado, capaz de usar a força das balas para obter justiça. Antes dessa estreia, com o desenhador Aurelio Galleppini, G. Bonelli, consumidor voraz de romances e filmes de aventura, cujo centenário do nascimento, se cumpriu no passado dia 22, tinha já uma assinalável carreira na BD, na literatura para a juventude e como editor. Tex, inspirado nos grandes êxitos cinematográficos do género, seria a sua grande criação e, depois da chegada do seu filho Sergio à direcção da editora, tornou-se um imenso sucesso e a face mais visível dos fumetti (a BD italiana). Forçado a abandoná-lo, devido à idade e à doença, em 1991, Gian Luigi Bonelli deixou muitas outras criações (e westerns) populares, nas quais sempre exaltou a amizade, o companheirismo, a lealdade e o espírito de aventura.
Os 100 anos do seu nascimento ficam marcados pela atribuição do seu nome a uma rua de Agropoli, pela primeira reedição do único romance de Tex que escreveu – “Il massacro di Goldena” (1951) – e indissociavelmente ligados às comemorações do centenário do nascimento dos fumetti, com a revista “Il Corriere dei Piccoli”, cumprido exactamente hoje.
Quanto a Tex, mantém vendas mensais de cerca de um milhão de exemplares, no conjunto das suas várias colecções, pelo que custa a acreditar nas pessimistas previsões de Sergio Bonelli aqui ao lado, quase apetecendo dizer que, se Tex reflecte o crepúsculo da BD nos quadradinhos, muitos bandidos tombarão ainda perante as suas balas certeiras antes de chegar a noite escura e triste.

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Entrevista com Sergio Bonelli, editor de Tex e argumentista sob o pseudónimo de Guido Nolita

“Tex pode acabar daqui a 5 anos”

JN – Como era Gian Luigi Bonelli?
Sérgio Bonelli – Fisicamente era fascinante, muito musculoso e atlético para a estatura. Era alegre, muito extrovertido e adorava entreter os amigos com assuntos que surpreendiam pela originalidade e pelo seu anticonformismo.
JN – E o escritor?
SB – Gostava de improvisar página após página. Ele tinha orgulho no seu ofício de argumentista e dava-se completamente a Tex e aos protagonistas das suas histórias.
JN – Ele expressou alguma vontade em relação a Tex depois do seu desaparecimento?
SB – Nos últimos anos apercebeu-se que Tex se tinha tornado importante no mundo da BD e aceitou que outros continuassem a sua obra. Depois da decisão de o abandonar, desistiu de corrigir os textos dos outros; por simpatia e amor paterno, intervinha, com alguns conselhos, nas histórias escritas por mim.
JN – Tex está praticamente inalterado desde a sua criação. Por razões comerciais, artísticas ou sentimentais?
SB – Infelizmente não é verdade. Apesar do esforço de imitar o seu criador, todos os novos argumentistas introduzem diferenças que os leitores mais atentos não deixam de apontar.
JN – Os tempos actuais não pedem um Tex mais “politicamente correcto”?
SB – Pelo contrário, o rigoroso “politicamente correcto” exigido por alguns incomodaria outros. É difícil contentar todos. O mundo dos quadradinhos pode abrigar personagens de todo o tipo: o leitor facilmente encontra heróis “modernos” sem se desnaturar um “herói” tradicional.
JN – Tex continua a conquistar leitores?
SB – As novas gerações não gostam de western. Tex continua a ser a BD mais vendida em Itália, mas todos os meses perde leitores; pode ser que daqui a 5 ou 6 anos já não haja suficientes para o manter. Infelizmente, a BD está destinada a dar rapidamente lugar a outros divertimentos mais fáceis e cativantes.


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Tintin num só volume

Acaba de chegar ao mercado francófono uma nova edição das aventuras de Tintin que tem a particularidade de reunir num único volume a cores as 24 histórias que Hergé escreveu e desenhou. Nele, estão incluídas “Tintin no país do Sovietes”, a primeira história do herói, e “Tintin e a Arte-Alfa”, em que o autor trabalhava à data da sua morte, em Março de 1983, e que deixou inacabada, com apenas 42 pranchas pouco mais do que esboçadas e o argumento incompleto.
Num formato inferior ao habitual (193 x 250 mm), este imponente volume (com mais de 7 centímetros de altura e quase três quilogramas de peso ), tem 1694 páginas e custa 77 euros, ou não fossem as aventuras de Tintin para ”jovens dos 7 aos 77 anos”, tem uma tiragem de 35 mil exemplares, tendo a editora Casterman anunciado que não fará qualquer reedição, pelo que se transformará rapidamente num objecto de colecção.
A edição do livro antecipa a comemoração dos 80 anos do herói de poupa e calças de golfe, que se cumprem no próximo dia 10 de Janeiro.


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“Mein Kampf” de Hitler e “O Capital”, de Karl Max, adaptados em manga

A editora japonesa East Press, acaba de lançar adaptações em manga (bd japonesa) de dois títulos polémicos: “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e “O Capital”, de Karl Marx, integradas na colecção “Clássicos da Literatura em manga”, que já vendeu 1,2 milhões de exemplares no Japão.
No “Mein Kampf” (A minha luta), escrito em 1924, quando estava preso, Hitler expôs as ideias nacionalistas, anti-semitas e racistas adoptadas pelo partido nazi, que seriam postas em prática após a sua subida ao poder na Alemanha, em 1933. Quanto a “Das Kapital” (O Capital), escrito por Karl Marx em 1867, é uma crítica contundente ao capitalismo e a base das doutrinas socialistas marxistas.
O editor-chefe da East Press, Kosuke Maruo, em declarações à BBC Brasil, atenuou eventuais polémicas que a edição do “Mein Kampf” possa levantar, lembrando que o original, proibido em vários países, está publicado no Japão e que toda a gente “já conhece a história e o pensamento nazi”. E acrescenta: “A ideia não é apresentar Hitler como vilão ou herói, mas apenas mostrar quem era e o que ele pensava”. Isto porque a versão em manga começa na infância de Hitler e vai até ao final da Segunda Guerra Mundial, mostrando o ódio que ele sentia pelos judeus.
Quanto à versão aos quadradinhos de “O Capital” não poderia ter surgido em melhor altura, dada a crise financeira que o mundo atravessa, pois segundo Maruo, “a recessão económica que o país enfrenta” pode ajudar à venda do livro, cuja história aborda conceitos como a exploração dos trabalhadores e as diferenças entre as classes sociais. Esta não é a primeira vez que a obra de Marx surge em BD, existindo, inclusive, uma versão portuguesa, da autoria de Carlos Barradas, datada de 1978.
A colecção da East Press, que, segundo o seu editor, adapta obras “que as pessoas conhecem, mas que não têm muita paciência para ler até ao fim”, permitindo-lhes “ler um clássico e entender os conceitos em apenas uma hora”, conta já 27 títulos entre as quais “Crime e Castigo”, de Dostoievski, “Fausto”, de Goethe, “Rei Lear”, de Shakespeare, ou “Guerra e Paz”, de Tolstoi, sendo o mais vendido “Kanikousen”, baseado no original do japonês Takiji Kobayashi. “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e “O Desespero Humano – Doença até a Morte”, do teólogo e filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, serão os primeiros títulos de 2009.


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Gérard Lauzier, homem da BD, do teatro e do cinema

Gérard Lauzier, autor de BD, dramaturgo e cineasta faleceu aos 77 anos.
Nascido em 1932, licenciou-se em Filosofia, derivou depois para arquitectura e acabou a fazer desenho de imprensa e publicidade. Em 1974, chegou à BD, na “Pilote”, com “Lili Fatale” e, depois, “Tranches de Vie”, crónicas do quotidiano e das relações humanas, feitas em traço rápido e nervoso, simples suporte da sua veia mordaz e irónica. Em português tem traduzidos “Coisas da Vida” e “A corrida do rato”.
Nos anos 80 afastou-se da 9ª arte, adaptando algumas das suas criações para teatro e cinema, tendo escrito igualmente os diálogos de “Astérix e Obélix contra César”. Em 1992 teve um fugaz regresso à BD com “Portrait de L’artiste”, recebendo no ano seguinte o Grande Prémio de Angoulême pelo conjunto da sua obra.


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À abordagem!

Após 40 anos de carreira, Hermann estreia-se numa história de piratas

Aos 70 anos, “O diabo dos sete mares”, é (mais) uma confirmação de Hermann como um dos melhores desenhadores realistas da BD franco-belga.

E revela a sua mestria na planificação contida mas variada e dinâmica e, principalmente, no desenho traçado com soberbas cores directas, das múltiplas gamas de cinzentos das cenas nocturnas aos tons luxuriantes dos pântanos da Carolina do Sul. Isto, depois de incursões por quase todos os géneros: aventura em estado puro (em “Bernard Prince”), western (“Comanche”), Idade Média (revisitada n’“As Torres de Bois-Maury”), futuro pós-apocalíptico (“Jeremiah”), ficção histórica (“Jugurtha”) ou humor e fantasia (“Nic, o sonhador”).
Agora, tudo se inicia com o casamento em segredo da filha de um rico fazendeiro com um aventureiro de passado duvidoso. Só que o seu acto despoleta um sem número de consequências, do deserdar da jovem ao incêndio da plantação do seu pai, da fuga do casal às sucessivas alianças, lutas e traições pela posse do tesouro do mítico e terrível pirata conhecido como “Diabo dos Sete Mares”, em torno de quem tudo gira apesar de uma aparição pouco mais do que fugaz.
Tudo narrado em cadência acelerada, com os acontecimentos e as revelações a sucederem-se, obrigando o leitor a parar por vezes para considerar as diversas pistas que o argumentista Yves H., como é habitual nele, vai fornecendo, fazendo de uma intriga aparentemente simples e directa, uma trama elíptica e elaborada.

Talento multifacetado

O Diabo dos Sete Mares – Parte 1
Yves H. (argumento) e Hermann (desenho)
Vitamina BD

Nascido a 17 de Julho de 1938, Hermann Huppen, em parceria com Greg, foi um dos pilares da revista “Tintin”, nas décadas de 60 e 70.
A partir dos anos 80, primeiro a solo, desde 1995 com argumentos do seu filho Yves H., aliou a um elevado ritmo produtivo um apuro gráfico da sua notável técnica de cor directa.


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Novo Lucky Luke chega dia 9

Chama-se “O Homem de Washington”, é o novo álbum de Lucky Luke, terceiro do período pós-Morris, e chega às livrarias portuguesas no dia 9, praticamente em simultâneo com a edição francófona, à venda desde sexta-feira passada.
Os responsáveis pela nova aventura são mais uma vez o desenhador Achdé (aliás Hervé Darmenton) e o humorista Laurent Gerra, que optaram por uma abertura em grande, reeditando um duelo entre Lucky Luke e o mítico Billy the Kid, continuando a apostar numa das imagens de marca dos seus álbuns: as constantes evocações do passado da série, que conta já mais de sete dezenas de títulos, desde a sua criação a solo por Morris, em 1946.
Entre 1955 e até à sua morte, em 1977, Goscinny assinou os argumentos e introduziu personagens carismáticas como os terríveis irmãos Dalton ou o idiota cão Rantanplan, seguindo-se um período em que Morris recorreu a diversos argumentistas, até falecer em 2001. Dois anos depois, a actual dupla fazia a sua estreia no “cowboy que dispara mais rápido do que a sua própria sombra” com “Lucky Luke no Quebeque”, primeiro tomo da nova série denominada “As aventuras de Lucky Luke segundo Morris”.
Agora, em “O Homem de Washington”, o fleumático cowboy enfrenta mais uma missão de alto risco: acompanhar e proteger o candidato republicano à Casa Branca, Rutherford Birchard Hayes (que na realidade viria a ser o 19º presidente norte-americano, entre 1877 e 1881), durante a sua campanha eleitoral pelo oeste selvagem, devido às ameaças de Pierre Camby, um rico explorador de petróleo apostado em ocupar o seu lugar, “um menino do papá”, que, por coincidência ou não, tem a cara de um certo George W. Bush…
Partindo de um tema actual, pretexto para um olhar crítico ao mundo da política, os autores narram uma implacável perseguição pela vastidão da América que, revelou Achdé ao JN, conta com “emboscadas, índios, uma locomotiva, um cozinheiro falhado, loucos do revólver, uma diligência, senadores, o muro de Berlim, agentes muito especiais, um pregador no deserto, uma louca por limonada e um ou dois coiotes!” e o encontro com celebridades actuais, como uma certa Britney Schpires, “cantora de cancan” em saloons. Tudo condimentado com bom humor, ritmo vivo e um traço solto, dinâmico e agradável.
A edição francesa, disponível desde a passada sexta-feira, é o best-seller aos quadradinhos para a época natalícia no mercado francófono, esperando-se que as vendas ultrapassem o meio milhão de exemplares, já que o álbum anterior de Achdé e Gerra, “O Nó ou a forca”, vendeu 650 mil cópias. A versão portuguesa chegará às livrarias na próxima terça-feira com uma tiragem (bem) mais modesta de 4 000 exemplares.

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Achdé: “Sou o primo da província de Lucky Luke”

JN – Após três álbuns de Lucky Luke, qual é a sensação?
Achdé – Continuo nas nuvens e a ter enorme prazer neste mito da BD. Estes sete anos passaram como um sonho! Com muito trabalho, incertezas e angústias, mas também com prazer e satisfação.
JN – O que mudou na sua relação com ele?
Achdé – Lucky Luke entrou na minha família. É um amigo que vive no meu atelier. Morris era o seu pai, eu acho que posso dizer que sou o seu primo da província.
JN – Qual o seu melhor álbum de Lucky Luke?
Achdé – O próximo! Porque terá que ser ainda melhor que os precedentes.
JN – Há quatro Lucky Luke diferentes, o original de Morris, o mais popular de Goscinny e Morris, o pós-Goscinny e o actual de Achdé e Gerra?
Achdé – Pergunta difícil… Lucky Luke evoluiu ao longo dos anos. Os mais mágicos são os de Morris e Goscinny, mas alguns de Fauche e Leturgie são geniais. É impossível compará-los!
JN – Como apresenta o seu Lucky Luke?
Achdé – Uma mistura entre James Stewart e John Wayne; grande, calmo, pragmático, mas também leal, franco e cavalheiresco; um verdadeiro herói.
JN – Ainda tem dificuldades em desenhá-lo?
Achdé – Digamos que tenho medo de errar. Por isso volto muitas vezes aos meus desenhos, para tentar melhorá-los. Baixar a qualidade de uma personagem como Lucky Luke não é aceitável.
JN – Reencontrar Billy the Kid foi um prazer ou um problema?
Achdé – Um prazer, claro! Animar outra personagem pequena e nervosa como o Joe Dalton foi uma verdadeira maravilha!
JN – Como vê o seu futuro com Lucky Luke?
Achdé – Se Deus permitir, longo e bom!
JN – E um Lucky Luke escrito por Achdé?
Achdé – Todo o desenhador tem a veleidade de perguntar se será capaz de fazer texto e desenho. Para já, o papel de co-argumentista satisfaz-me plenamente, mas quem sabe o que trará o futuro?
JN – O próximo Lucky Luke vai ser…
Achdé – Lindo!


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A gata do Tobias nasceu há 75 anos

A 3 de Dezembro de 1933, no topo da prancha dominical de “Mutt and Jeff”, aparecia pela primeira vez “Cicero’s cat”, com a assinatura de Bud Fisher, criador daquela banda desenhada, cujo centenário passou há cerca de um ano.
Na verdade, nem se tratava de uma estreia, a gata em causa já tinha surgido entre 1930 e 1932, em “From 9 to 5”, e o seu autor era na realidade Al Smith, responsável “fantasma” pela prancha dominical de “Mutt and Jeff” desde 1932.
A sua felina, baptizada como Esmeralda nos primeiros episódios e, depois, definitivamente, a partir de 1934, Desdemona (com o diminuitivo de “Desi”) ficaria conhecida como a gata de Cicero, o filho de Mutt, em cujas páginas fez múltiplas aparições.
Tira quase sempre muda, inicialmente a preto e branco, apostava num humor mais imediato, assente na sua glutonaria, só suplantada pela sua preguiça e no seu medo de cães. Movimentando-se com a graciosidade de um felino real, mais à vontade ao ar livre do que em ambientes domésticos, por vezes assumia posturas antropomórficas e surgia vestida, falando com outros animais ou também com os leitores.
Al Smith (2 de Março de 1902-24 de Novembro de 1986), assinou as suas peripécias com um traço bem legível, agradável e arredondado até 1980, quando as entregou a George Breisacher, que as manteve até ao seu cancelamento, dois anos mais tarde.
Em Portugal, a série foi rebaptizada como “A gata do Tobias”, tendo sido publicada nos anos 50, de forma irregular, (pelo menos) no “Mundo de Aventuras” e na “Colecção Audácia”.


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Marcellus Hall na galeria Mundo Fantasma

A livraria Mundo Fantasma, especializada em banda desenhada, inaugura hoje a sua galeria com uma exposição de originais do ilustrador norte-americano Marcellus Hall, que estará presente e onde serão lançados um mini-comic e o giclée (uma espécie de serigrafia digital) “Sunday in Central Park”, assinado pelo autor e de tiragem limitada.
Composta por cerca de três dezenas de originais, a mostra, patente até 4 de Janeiro, intitula-se Kaleidoscope City e revela o traço esguio, solto e pouco detalhado com que Hall ilustra o quotidiano nova-iorquino, dando vida tanto a pessoas quanto a edifícios e mostrando o pulsar da alma da cidade.
Músico e artista, Marcellus Hall nasceu em Minneapolis, em data indeterminada, pois todos os registos de nascimento dele se perderam numa inundação. Enquanto músico passou por bandas como Railroad Jerk e White Hassle, ao mesmo tempo que a sua faceta de ilustrador se revela em publicações como “The New Yorker”, “The Wall Street Journal” ou “Time”, entre outras.
A livraria Mundo Fantasma, embora com diferentes designações e localizações, teve origem em 1992, ocupando desde há poucas semanas as lojas 509/510 do Shopping Center Basília, onde também funcionará a galeria agora inaugurada, à frente da qual estão três dos responsáveis do Salão Internacional de BD do Porto, com a qual pretendem “desenvolver um panorama intenso da banda desenhada enquanto arte maior, expondo e comercializando originais e reproduções de qualidade, dos mais prestigiados nomes mundiais aos novos valores, passando pelos autores nacionais”.


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Astérix como nunca o vimos

Intitula-se “Astérix e os seus amigos” e é um álbum de homenagem a Albert Uderzo, criado pelos seus colegas de profissão, para comemorarem o seu 80º aniversário. A edição portuguesa acaba de chegar às livrarias.

Isto após serem ultrapassadas diversas contrariedades, que impediram a sua publicação em simultâneo com a edição original, lançada a 25 de Abril de 2007, a data precisa em que Uderzo, nascido em 1927, em Fismes, França, comemorava 80 anos.
O projecto nasceu em segredo no seio da sua editora, as Éditions Albert-René, conta a sua filha, Sylvie Uderzo, no preâmbulo do livro, com o propósito “de lhe oferecermos algo único, que lhe agradasse mas que também o surpreendesse. E que também pudesse agradar aos leitores”.
Foram assim contactados os seus colegas de profissão, desenhadores e argumentistas, podendo as respostas deles ser encontradas, sob a forma de ilustrações, dedicatórias, gags ou bandas desenhadas ao longo das mais de 70 páginas do livro, “num fogo de artificio de vinhetas Astérix” que mostram o pequeno guerreiro gaulês “como nunca o víramos antes”, sublinha Sylvie.
Isto porque, se alguns optaram por clonar o traço ímpar de Uderzo, em situações tradicionais ou completamente inovadoras (como Manara e Beltran, conhecidos pelas suas sugestivas protagonistas e pelo carácter erótico das suas obras), outros optaram por o recriar, ou aos seus conterrâneos gauleses, nos seus próprios estilos, muitas vezes proporcionado encontros inusitados com os seus próprios heróis. Por isso, Astérix volta a cruzar-se com um vicking, desta vez Thorgall, encontra o amnésico XIII, tatuado com aquele número… romano!, o chefe da aldeia sofre com as gafes de Gaston Lagaffe, Obélix apaixona-se pela bela hospedeira Natacha, cruzando-se também com o Pato Donald, Oliver Rameau, Lucky Luke, Ric Hochet, Kid Ordin ou o Marsupilami. E nem mesmo a conhecida paixão de Uderzo pelos Ferrari foi esquecida, sendo referenciada com humor por Jean Graton (evidentemente, ou não fosse ele o criador do campeão de Fórmula 1 Michel Vaillant) e Derib.
No total, são 34 autores de várias gerações, culturas, géneros, tendências e estilos, entre os quais Cauvin, Dany, Tibet, Walthéry, Van Hamme, Rosinski, Vance, Boucq, Loustal, Baru, Mourier, Arleston, Guarnido, Tarquin ou Zep, que mostram como o talento de Uderzo de alguma forma os marcou.
A edição portuguesa, que começou esta semana a chegar às livrarias, é da responsabilidade das Edições ASA, que também edita os títulos regulares das aventuras do pequeno guerreiro gaulês, e terá uma tiragem assinalável para os temos que correm: 20 000 exemplares, dos quais três mil numerados e autenticados com selo branco, como tem sido norma na primeira edição dos títulos de Astérix que a ASA está a relançar com novas traduções.
O produto da venda da edição original foi entregue pelas Éditions Albert-René à organização Défenseur des Enfants, responsável nomeadamente pela divulgação e defesa da Convenção dos Direitos da Criança, adoptada pela Organização das Nações Unidas em 1989. associando assim um dos mais bem sucedidos heróis da BD a uma causa social meritória.

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Novo álbum em 2009?

Foi a 29 de Outubro de 1959 que a primeira prancha de Astérix foi publicada, no número de estreia da revista “Pilote”, que viria a ser conhecida como “Le journal d’Astérix et d’Obélix” e ficaria como um marco incontornável na história da BD europeia.
Por isso, não surpreenderá se 2009 se transformar no ano Astérix, para comemorar o seu meio século de existência. De concreto ainda não há nada, mas circulam rumores que Uderzo está a trabalhar num novo álbum de Astérix, que seria uma grande surpresa para os fãs dos álbuns de Goscinny (e poderia até ser lançado naquele dia). Se uma possibilidade é tratar-se de uma versão modernizada do primeiro álbum da série, “Astérix o gaulês”, – um sonho antigo de Uderzo – outra hipótese é o novo título ter um argumentista diferente do desenhador…
A verdade é que foi o blog oficial de Astérix, Le Blog de Doubleclix, a levantar a lebre, anunciando, a 9 de Outubro último, que meses antes Uderzo reunira toda a sua equipa para lhes anunciar: “tenho uma ideia!”, descrevendo de seguida uma “impressionante série de invenções” que contribuirão para deixar a marca de Astérix no ano de 2009.


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Original do Lótus Azul vendido por 167 000 euros

Um desenho original de Hergé, a preto e branco, feito a guache, em 1935, para ilustrar uma capa do “Le petit Vingtième” alusiva a “Tintin e o Lotus Azul”, foi vendida este fim-de-semana por 167 292 euros, apesar de as estimativas apontarem apenas para 35 mil. Mesmo assim ficou longe do recorde estabelecido pela ilustração original da capa da versão a preto e branco de “Tintin na América”, vendida por 780 mil euros em Março último. O original, foi posto à venda por alguém que trabalhou no jornal “Le XXe Siécle”, nos anos 30, e que encontrou o desenho num monte destinado ao lixo após publicação, como era costume de então.
No mesmo leilão, promovido, pela conceituada Artcurial, onde também havia originais de Bilal, Franquin, Jacobs, Pratt, Tardi, Druillet ou Morris e edições raras de álbuns de BD, esboços a lápis de carvão das pranchas 45 e 46 de “Voo 714 para Sidney” atingiram 142 500 euros, um lote de mais de 300 documentos epistolares de Hergé foi vendido por 90 mil euros e os esboços de três tiras de “Carvão no Porão” foram licitadas por 68 mil euros, mostrando que não há crise que chegue ao mercado de originais de banda desenhada, considerados valores seguros por aqueles que neles investem.


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