Categoria: Recortes

‘O que é que lhes dá gás?’

O Museu Berardo inaugurou a exposição Tinta nos Nervos que pretende fazer um retrato do panorama da banda desenhada nacional. São mais de 40 artistas representados, incluindo, o ‘pai’ desta técnica em Portugal, Rafael Bordalo Pinheiro

A exposição inclui o primeiro álbum de banda desenhada portuguesa, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro
Não procuram fama nem dinheiro, «os autores de banda desenhada apenas querem dar azo à sua carolice!», brinca Pedro Vieira de Moura, comissário de Tinta nos Nervos uma exposição que inaugurou no passado dia 10 de Janeiro, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa.

Num panorama nacional em que as publicações de banda desenhada são poucas e os artistas se desdobram mais por pequenas «edições de autor» do que pela edição constante de livros, «faz sentido mostrar a banda desenhada na sua perspectiva artística», afirma o comissário. «Em Portugal, se um autor vender dois mil livros já se considera que tem um público muito alargado», ironiza Pedro Moura que lamenta que esta expressão artística não tenha a mesma dimensão de outras, como a fotografia, a pintura ou o cinema.

Mas «o que é que lhes dá gás?». Na obra O Peregrino Blindado, Eduardo Batarda – conhecido pela sua carreira como pintor – apresenta algumas explicações humorísticas para responder à pergunta: «O pensamento sagaz; (…) a literatura, aliás…».

Com mais ou menos humor, de uma forma mais linear ou mais simbólica, os 41 artistas expostos no Museu Berardo mostram que a banda desenhada vai para além das ‘histórias aos quadradinhos’:«Em termos históricos, esta forma artística encontra raízes disseminadas numa série de técnicas e de linguagens. E estes artistas exploram esta arte de um modo particularmente pessoal, expressivo e atento a questões estéticas contemporâneas».

Organizada por afinidades artísticas, a exposição tanto exibe obras que se afirmam pela sua vertente escrita, explorando temas como autobiografias, problemas de género ou questões políticas, como mostra a sua vertente mais estética, explorando novas linguagens. E neste universo tão vasto é possível encontrar autores modernos e contemporâneos no activo, mas também nomes incontornáveis como Rafael Bordalo Pinheiro ou Carlos Botelho, autor de Ecos da Semana, publicado no semanário Sempre-Fixe, criado a 13 de Maio de 1926. O objectivo é «dar a conhecer um panorama alargado e diversificado e estimular os visitantes a procurar as ‘suas’ bandas desenhadas».

Bonecos gigantes, carros de brincar, garrafas com mensagens ilustradas e instalações complementam a exposição que é mais do que uma mostra de pranchas coloridas. Ao longo do espaço, o público é ainda surpreendido por murais de grandes dimensões da autoria de Luís Henriques, André Lemos, José Feitor, Joana Figueiredo e Miguel Carneiro, mas também por vídeos e esculturas que fazem a ligação entre a banda desenhada e outras formas de expressão artística, desafiando o público a acompanhar o processo de criação das personagens e histórias expostas.

Não faltam ainda livros, fanzines e publicações inéditas e até o primeiro álbum de banda desenhada nacional, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro. Intitulado Inusitada Viagem do Imperador do Brasil, o humorista «retrata D. Pedro IV como um provinciano, em viagem pela Europa, num texto cheio de recados à realeza…». Assim se prova que a banda desenhada é muito mais do que histórias dedicadas ao público infanto-juvenil e vai para além das suas personagens mais emblemáticas. Ao fugir às publicações mainstream, descobre-se em Portugal uma série de autores que fazem cada vez mais da banda desenhada uma «disciplina aberta a experimentações».

TINTA NOS NERVOS;
MUSEU COLECÇÃO BERARDO – PRAÇA DO IMPÉRIO. LISBOA TEL. 213 612 878

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Os Irmãos Mais Novos de Tintin

Joana, João e o Macaco Simão foram criados por Hergé há 75 anos

Corria o ano de 1936. O sucesso de Tintin – então a viver a sua sexta aventura, “O Ídolo Roubado” – era crescente, mas não fazia a unanimidade. A prová-lo, chegava a Hergé uma carta da revista católica francesa “Coeurs Vaillants”, onde se lia que o herói “não ganha a sua vida, não vai à escola, não tem pais, não come, não dorme… Isso não é lógico”. E, em jeito de encomenda, desafiava Hergé a criar alguém “cujo pai trabalhe, que tenha uma mãe, uma irmã mais nova, um animal de estimação”, contou o desenhador numa entrevista a Numa Sadoul.
Recuperando personagens de um trabalho publicitário Hergé criou assim Jo, Zette e Jocko (rebaptizados em Portugal como Joana, João e o Macaco Simão), estreados há 75 anos, a 19 de Janeiro de 1936, e que viveriam três aventuras a preto e branco, (remontadas e) divididas por cinco álbuns quando foram coloridas, nos anos 1950. Os seus protagonistas eram os irmãos Joana e João, o pai, o engenheiro Legrand, a mãe, doméstica, e Simão, um macaco, o tal animal de estimação da “encomenda”.
O traço e a estrutura narrativa estavam próximos dos utilizados em Tintin, com bastante humor e uma boa dose de ficção-científica, fruto da ocupação do pai. Em cada aventura, a célula familiar desfazia-se rapidamente porque, enquanto os miúdos se metiam em alguma enrascada, o pai e a mãe ficavam em casa, aflitos e expectantes, aguardando o seu regresso do destino distante e exótico para onde os tinham conduzido as aventuras ingénuas e rocambolescas.
Em Portugal, estes “irmãos mais novos” de Tintin estrearam-se em 1964 na revista Zorro, passando pelo suplemento “Quadradinhos” de “A Capital”, antes da edição em álbum, pela Editorial Verbo, em 1982. A ASA, que actualmente está a reeditar As Aventuras de Tintin, ainda não agendou a reedição desta série, recuperada pela Casterman num único volume em 2008.

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Petição Quer Travar Integração da Bedeteca na Biblioteca

Está a circular na Internet uma petição que pretende travar a integração da Bedeteca na Biblioteca dos Olivais, em Lisboa. A medida foi anunciada na quinta-feira pelo director municipal de Cultura, Francisco da Motta Veiga, que garantiu que a Bedeteca não seria extinta, mas integrada, como serviço especializado, na Biblioteca dos Olivais. Salientando o facto de o organismo, inaugurado em Abril de 1996, se encontrar “reduzido à sua mais simples expressão, mantendo a sala de leitura onde conserva o seu acervo de publicações disponíveis ao público”, a petição considera “urgente os responsáveis camarários terem consciência de que os autores e o público em geral afirmam o seu apreço por este organismo, reivindicando que esta situação seja contrariada”. Os peticionários exigem ainda medidas “no sentido de perspectivar o futuro” da Bedeteca, dotando-o de “meios reais permitam a sua plena actividade”. E contrariam ainda as declarações do director municipal, afirmando que “a Bedeteca não mantém funcionários especializados”.

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O Mosquito Abriu Asas há 75 anos

A 14 de Janeiro de 1936 chegava aos quiosques portugueses um novo jornal infanto-juvenil. Era o primeiro voo de O Mosquito, “O semanário da rapaziada”, que duraria 17 anos e 1412 números e marcaria de forma indelével os quadradinhos portugueses.

O começo – como toda a sua vida, aliás – foi modesto: apenas oito páginas em formato A4, papel de jornal de fraca qualidade e a presença de uma única cor apenas nas capas e nas páginas centrais. E um preço a condizer: 5 tostões, os oficiais 50 centavos, qualquer coisa como 25 cêntimos nos tempos do euro que hoje vivemos, o que durante muitos anos lhe serviu de bandeira, apresentando-se como “o jornal infantil mais barato”.
Ao leme do insecto, estavam dois dos maiores nomes do jornalismo infanto-juvenil nacional, António Cardoso Lopes, o famoso Tiotónio, já com experiência similar de outras publicações, responsável pelo grafismo, e Raul Correia, que asseguraria grande parte da criação literária da nova publicação, bem como as traduções (livres, quase sempre autênticas novas versões) das bandas desenhadas publicadas. Juntos fizeram de O Mosquito “o primeiro movimento colectivo de rebeldia das crianças em Portugal”, escreve António Dias de Deus em “Os Comics em Portugal” (Cadernos da Bedeteca, Cotovia). Porque, acrescenta, o seu conteúdo fugia às “lindas e bem-formativas revistas, como O Senhor Doutor e O Papagaio”. Por isso, “O Mosquito foi perseguido, confiscado, rasgado, queimado, deitado para o caixote do lixo, anatemizado e esconjurado. Os pais, aparentemente, tinham a razão e a força (…) mas acabaram por perder a guerra”.

Altos voos
E o sucesso foi imediato. Iniciado com uma tiragem de apenas cinco mil exemplares, no auge da sua popularidade atingiu 30 mil, era publicado duas vezes por semana e as máquinas onde era impresso, trabalhavam seis dias por semana, em dois turnos de oito horas!
Combinando novelas ilustradas, textos mais moralistas e bandas desenhadas, recortadas e remontadas, ocupando todos os espaços de cada página, O Mosquito, “o jornal mais bonito”, que ao longo da sua vida mudou de formato cinco vezes e chegou a ter 16 páginas, fez da interactividade com os leitores um dos seus grandes trunfos. Por isso, a par das cartas dos leitores e da publicação das suas fotografias, teve um emblema, multiplicaram-se os concursos, as separatas e as construções para armar. O sucesso crescente levou à criação de colecções paralelas, números especiais, um suplemento para meninas – A Formiga – e emissões radiofónicas, que o fizeram voar atravessando as mudanças de três décadas e de uma guerra mundial.

Histórias memoráveis
Quem leu O Mosquito – quando foi publicado ou anos mais tarde, herdado de pais ou tios – recorda com certeza “Pelo mundo fora…”, “Formidáveis aventuras do grumete Mick, do velho Mock e do cão Muck”, “Jovens Heróis”, “O Capitão Bill, o grumete Bell e o cozinheiro Ball”, “Águias da Lei”, “O Capitão Meia-Noite”, “O Gavião dos Mares”, “Pedro de Lemos, Tenente, e o ‘Manel’, Dez Reis de Gente”, “O Voo da Águia”, “Serafim e Malacueco”, “Anita Pequenita” e, sobretudo, possivelmente, as aventuras do Cuto. E desconhecendo, com certeza, que todas elas eram estrangeiras, a maior parte inglesa, com algumas espanholas à mistura. Quase no final, surgiriam também americanas: “Príncipe Valente”, “Terry e os Piratas”, “Tommy, o rapaz do circo”…
Mais tarde, esta colaboração estrangeira seria quase completamente substituída pela produção nacional. O grande sustentáculo da revista, foi então Eduardo Teixeira Coelho (o célebre ETC), que desenhou “Os Guerreiros do Lago Verde”, “Falcão Negro”, “Os Náufragos do Barco sem Nome” ou o mítico “O Caminho do Oriente” (considerado por muitos Os Lusíadas da BD nacional). “A Casa da Azenha” (de Vítor Péon), “Os Espíritos Assassinos” (Jayme Cortez), “O reino proibido” (José Ruy) ou “O Inferno Verde” (José Garcês) são outros títulos que deixaram marca nas páginas de O Mosquito

O último bater de asas
Com o correr dos anos, a chegada de novos concorrentes – O Diabrete, O Mundo de Aventuras, O Cavaleiro Andante -, a saída de Cardoso Lopes, “uma obcecação pela história pátria e pelos clássicos da língua portuguesa”, escreve António J. Ferreira, outro especialista da BD nacional (em O Mosquito nº 1, V série), a revista perde a rebeldia e “fala cada vez menos à imaginação infantil, tornando-se um prolongamento da escola”.
Chegaria ao fim, de forma discreta, já não era “o semanário infantil português de maior tiragem”, a 24 de Fevereiro de 1953. Mas deixara de tal forma a sua marca, que, escreve Leonardo de Sá no recém-lançado “Dicionário Universal da Banda Desenhada – Pequeno Léxico Disléxico”, o termo “mosquito” chegou a ser usado “para designar em Portugal qualquer revista de histórias aos quadradinhos”.

Outros voos
Por isso, também, se compreende que ao longo dos tempos tenha havido várias tentativas de retomar o título – e o fantástico e o maravilhoso a ele associados. Em 1960, Eduardo Carradinha e José Ruy, autor na primeira série, deram-lhe uma segunda vida, similar à primeira, que durou apenas 30 números. Um ano depois, nova tentativa de renascimento, teve apenas quatro números, mais longa mesmo assim que o número único de prospecção lançado em 1975.
Já nos anos 80, albergando sob as suas asas o melhor da BD europeia de então a par da recuperação de alguns clássicos, O Mosquito voou de novo, durante uma dúzia de números e um Almanaque natalício, na sua última ressurreição. Até hoje.

Quanto vale O Mosquito?
Apesar da sua idade e longevidade, ainda hoje surgem colecções completas de O Mosquito, que podem valer até 7500 euros. O alfarrabista José Vilela, estima que existirão umas 50 no total, mas Alberto Gonçalves, da Timtim por Timtim, refere que, com alguma paciência, gastando mais um pouco, através da internet e procurando em alfarrabistas, é possível completar uma colecção num prazo de um ou dois anos.
Os números mais difíceis, para além dos primeiros, mais antigos, e dos últimos, que tiveram menor tiragem e distribuição, são os que correspondem às mudanças de formato, pois estragavam-se com mais facilidade. Quase impossível, é encontrar as diversas separatas e construções que a revista ofereceu.
De qualquer forma, como este tipo de coleccionismo está geralmente associado à recordação das leituras de infância, são cada vez menos aqueles que ainda procuram O Mosquito.

O Mosquito em números
17 anos (1936-1953)
1412 números
1512 bandas desenhadas curtas
250 bandas desenhadas em continuação
381 contos
425 cartas do Avozinho
180 números de A Formiga (suplemento para meninas)
Tiragem inicial: 5000 exemplares
Tiragem máxima: 30 000 exemplares (duas vezes por semana)
Tiragem no final: 7000 exemplares

José Garcês e José Ruy: autores de O Mosquito relembram revista

Dos muitos desenhadores a quem O Mosquito serviu de escola e de montra, restam quatro: António Gomes Ferreira, Servais Tiago, José Garcês e José Ruy. Os dois últimos, na casa dos 80, continuam a fazer dos quadradinhos o seu dia-a-dia, tendo álbuns programados para o primeiro semestre deste ano.
Em comum, têm também o facto de terem sido leitores d’O Mosquito antes de nele trabalharem. Ruy, que tinha cinco anos quando tomou “contacto com esse tipo de narrativa”, ficou fascinado: “O Mosquito, pelos enredos e pela diversidade de temas, era uma janela aberta para um mundo que os miúdos desconheciam”. Já Garcês, descobriu a revista pelas “construções de armar”, atribuindo o seu fascínio à qualidade “das espantosas bandas desenhadas inglesas, o melhor que havia na altura, ficção muito bem contada e desenhada”.
Desse tempo de leitores, evocam os (futuros) colegas nacionais: Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, e, na escrita, Raul Correia e José Padinha; dos espanhóis, em especial Emílio Freixas e Jesus Blasco.
Ruy, que começara no Papagaio aos 14 anos, entrou n’O Mosquito para fazer “a litografia das cores do jornal, legendas e ilustrações” e chegou a ajudar “o Tiotónio na máquina de impressão”, tendo publicado uma única BD, O reino proibido, iniciada no nº 1352.
Quanto a José Garcês, depois de uma passagem pelo Pluto, fez mais cedo a sua estreia “n’O Mosquito, no nº 762, com O Inferno Verde”. Dessa época, recorda “o contacto com grandes autores e a disciplina que criou”, enquanto Ruy evoca “a vertigem que era trabalhar lá, sem rede nem margem para errar”.
Garcês tem como “primeira memória d’O Mosquito, uma visita às oficinas, ainda estudante”, de que guarda “ainda uma prova impressa a partir de um desenho feito para uma chapa de off-set”. Ruy, recorda “um episódio divertido e inusitado: a captura de uma ratazana, das muitas que lá havia, para servir de modelo vivo para uma BD”. Só que, “feitos os desenhos, faltou coragem para matar a bicha; pintou-se-lhe a cauda com tinta de impressão encarnada, mas nunca mais deu notícias”!
Curiosamente, nenhum dos dois possui a colecção da revista. Comenta José Ruy: “em casa de ferreiro, espeto de pau”!

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Bernard Prince: Ameaça Sobre o Rio

Com poucos meses de atraso sobre a edição original francesa, a Vitamina BD acaba de lançar “Ameaça Sobre o Rio”, álbum que assinala o regresso de Hermann à série Bernard Prince, trinta e dois anos depois de ter desenhado “Le Port des Fous”, o seu último álbum para esta série.
Após Herman ter decidido abandonar as aventuras de Bernard Prince para se dedicar às suas próprias criações, Greg prosseguiu a série com outros desenhadores, Danny e E. Aidans, mas a etapa de Hermann é única e inultrapassável, tanto mais que os argumentos de Greg na fase final da sua carreira, ficam bem longe dos tempos áureos da série.

Daí que este regresso de Hermann a “Bernard Prince”, ilustrando em cores directas, uma história escrita pelo seu filho, Yves H. fosse muito aguardado. Para esta nova aventura, cuja acção decorre num país fictício da América Latina, Yves foi buscar os principais elementos que fizeram o sucesso da série: a aventura em cenários exóticos, a fúria da natureza como grande obstáculo (nesta caso, uma chuvada diluviana), o Cormoran, e personagens recorrentes ao longo da série, como El Lobo, personagem que aparece nos álbuns “Tormenta sobre o Coronado” e “O Refúgio da Moreia” e Kurt Bronzen, o mau da fita de “A Fronteira do Inferno” e “Tormenta sobre o Coronado”, a quem os anos trataram bastante pior do que a El Lobo que, tal como Bernard Prince e Barney Jordan, pouco envelheceu.

E a questão do passar do tempo é um dos aspectos mais curiosos deste álbum, pois se há uma actualização a nível da tecnologia (todos têm telemóveis e o Cormoran tem computador e GPS) e dos costumes (o topless algo gratuito da filha de Bronzen não teria sido possível nas páginas da revista Tintin, onde os primeiros episódios foram publicados), as únicas personagens em quem é visível o passar do tempo, são Bronzen, que ficou careca, e Djinn, que parece ter mais quatro ou cinco anos do que na fase áurea da série, mesmo que a nível de comportamento se revele muito menos expedito do que nos bons velhos tempos. Mas essa é mesmo a maior falha do argumento de Yves H., que no resto se revela um discípulo aplicado de Greg, com a grande vantagem de contar a seu lado com um Herman ao seu melhor nível, tanto em termos de desenho como na cor.

“Bernard Prince: Ameaça sobre o Rio”, de Hermann e Yves H., Vitamina BD, 56 pags, 13,50 €

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Lisboa: Câmara Municipal Reestrutura Bedeteca Lisboa

A autarquia de Lisboa decidiu reestruturar a Bedeteca da cidade e integrá-la na Biblioteca Municipal dos Olivais, para racionalizar recursos, disse hoje à Lusa o director municipal de cultura, Francisco da Motta Veiga. O responsável garantiu à Lusa que a Bedeteca não será extinta, mas integrada, como um serviço especializado, na Biblioteca dos Olivais, passando a ser gerida pela coordenadora desta biblioteca, Teresa Capela. “É preciso racionalizar e não se pode perder espaço e recursos. É uma questão de articular funcionalidades. A equipa [da Bedeteca] mantém-se e as actividades também na medida das disponibilidades financeiras”, disse Motta Veiga. A Bedeteca Municipal de Lisboa foi inaugurada a 23 de Abril de 1996 no Palácio do Contador-Mor, nos Olivais, onde está sedeada também a Biblioteca Municipal daquela freguesia. Durante quase uma década, a estrutura funcionou como um centro cultural dedicado à banda desenhada, ilustração e cartoon, com uma valência de preservação documental e outra de divulgação e apoio a esta expressão artística, com lançamentos editoriais e exposições. À frente da Bedeteca de Lisboa estiveram João Paulo Cotrim (1996-2002) e Rosa Barreto (2002-2010) e desde a saída desta última responsável registou-se um declínio na programação da estrutura cultural, grande parte causado pela redução de verbas. “Tomámos a decisão de articular as duas valências [Bedeteca e Biblioteca Municipal] que funcionam no mesmo edifício”, reforçou o director municipal de cultura, garantindo que a medida faz parte de um plano alargado – a concretizar a longo prazo – para a rede de bibliotecas municipais da capital. Fonte da Divisão de Bibliotecas Municipais de Lisboa explicou à agência Lusa que a Bedeteca chegou a ter uma equipa de dez pessoas a trabalhar em torno da banda desenhada, reduzida actualmente a apenas três elementos. A Bedeteca, que possui cerca de oito mil volumes, apoiou a edição de novos autores de banda desenhada, realizou exposições, encontros de promoção de leitura e o Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração, tendo sido elogiada, sobretudo na viragem do século, por ter impulsionado novos valores da BD contemporânea. “A Bedeteca está reduzida a um conjunto de estantes numa sala, perdeu-se a componente de preservação da memória e o estímulo à produção”, lamentou João Paulo Cotrim à agência Lusa. Para o antigo director da Bedeteca, a integração do organismo como um serviço especializado da Biblioteca Municipal dos Olivais é “um desrespeito pelos mais de dez anos de trabalho da casa”. “Nunca se produziu tantos ensaios e reflexões sobre a banda desenhada, ilustração e cartoon como naquele período. Havia gente a pensar e a escrever sobre exposições e autores”, disse João Paulo Cotrim. João Fazenda, Isidro Ferrer e Lorenzo Mattotti foram alguns autores da banda desenhada portuguesa e estrangeira que a Bedeteca editou e ajudou a divulgar. Actualmente no país existe uma Bedeteca, com biblioteca e programação, em Beja, e até ao verão de 2010 o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, na Amadora, também tinha a valência de bedeteca. Desde então passou a ter apenas acervo ligado à BD e ilustração e a organizar exposições e o Festival Amadora BD. A componente de bedeteca foi incorporada na Biblioteca Municipal da Amadora.

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“Mais cedo ou mais tarde a Angelina Jolie vai telefonar…”

Nuno Nobre, Desenhador português, quase sem experiência, desenha biografia em BD da actriz

Chama-se Nuno Nobre, tem 29 anos e vive em Almada. E é um dos raros portugueses – será mesmo o único? – que teve a sorte de ver Angelina Jolie entrar na sua vida. Não a mulher de carne e osso, bonita e sensual, mas a sua versão aos quadradinhos. Porque Nobre, mesmo sem grande experiência, após enviar “portefólios para algumas editoras”, foi seleccionado pela norte-americana “Bluewater Productions”, especializada na publicação biografias em BD, para desenhar a da actriz de “Tomb Raider” ou do recente “O Turista”.
Com muita pena sua, revela: “este trabalho não me proporcionou a oportunidade de conhecer a actriz, mas, mesmo não tendo recebido qualquer reacção ao meu trabalho, tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde, ela não resistirá a telefonar… e eu sei ser bastante paciente!”
Escritas por Brent Sprecher, que “ficou bastante satisfeito com o trabalho realizado, havendo a possibilidade de trabalhar juntos novamente”, as 32 páginas do comic, de que Nobre fez “os desenhos a lápis e tinta, definindo os layouts e as personagens”, levaram “cerca de 4 a 5 meses a executar, tendo tido bastante liberdade a nível criativo”.
As principais dificuldades foram a “necessidade de terminar as pranchas bastante rápido, ficando por fazer mil alterações que desejaria ter introduzido” e “retratar a Angelina a partir de imagens e de fotos… algumas vezes funcionou, outras nem tanto”.
Agora, com “Female Force: Angelina Jolie” prestes a chegar às livrarias especializadas, Nuno Nobre confessa-se “entusiasmado” embora não queira “criar grandes expectativas, pois uma coisa é o nosso trabalho, outra é o resultado final”, onde também entra “o trabalho do colorista, a paginação e o design gráfico. Pode acabar por ser decepcionante ou uma surpresa bastante agradável”. De qualquer forma, sendo “ainda muito cedo para criar expectativas”, tem “um feeling que uma ou outra porta se abrirá para novas oportunidades”.
Entretanto, tem “em fase de definição das personagens e do guião, um projecto pessoal em BD” e gostaria “de desenhar sobre mitos e lendas da história portuguesa, sobretudo nos momentos históricos e marcantes do País, como a época dos Descobrimentos, no qual existe uma mistura de fantasia e mitologia pagã”.

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Under Siege: Jogo Criado em Portugal para a PlayStation 3

Chama-se Under Siege e é um novo jogo exclusivo para a PlayStation 3 que estará disponível já em Fevereiro através da PlayStation Network, a loja online da consola. “A grande novidade é que, pela primeira vez, se trata de um jogo totalmente criado em Portugal, pelo Seed Studios”, explicou ao JN Filipe Pina, um dos seus sócios.
Jogo de estratégia em tempo real, “com nome e logótipo registados a nível mundial”, decorre num mundo imaginário povoado por criaturas fantásticas, pode ser jogado a solo ou online com outros jogadores e, a par da arte cuidada e atraente e de ser fácil de aprender e de jogar, “tem como principal atractivo um editor que permite criar novos níveis e personagens que ficam disponíveis para todos os compradores do jogo”.
“A vantagem de ser vendido online”, explica Pina, é “a eliminação de uma série de intermediários e custos (impressão de caixas, manufactura dos CDs, transporte desde a China, etc.), o que permitiu um maior controle do produto final e a sua venda a um preço muito mais acessível: 14,99 €”.
Embora o Seed Studios, fundado em 2006, tivesse já alguma experiência na área dos videojogos – “nomeadamente a criação do “Sudoku for kids” e do Toyshop para a Nintendo DS” – nunca encetara um projecto desta envergadura, iniciado em 2008, “que implicou um investimento de cerca de 1,2 milhões de euros, repartidos em partes iguais pelos sócios, empréstimo bancário e por um subsídio do IAPMEI”. A parte do financiamento, “pelo desconhecimento do meio por parte de quem toma decisões”, foi o momento mais complicado do processo, que chegou a envolver cerca de 20 pessoas em simultâneo. Um processo longo, árduo e trabalhoso” que deu à empresa um know-how único até agora inexistente no nosso país”.
As previsões de vendas “apontam para os 100 mil exemplares (apenas 0,15 % da população actual da PS3)”, estando o futuro de Under Siege dependente do sucesso que atinja.
Como parte do marketing, foi criada uma BD que serve de prólogo ao jogo e de apresentação das personagens. Escrita pelo próprio Pina, foi desenhada por Filipe Andrade, actualmente a trabalhar para a Marvel, uma dupla que já dera nas vistas nos quadradinhos com BRK (ASA). As pranchas da BD e a arte que serviu de base ao jogo, estarão expostas na Polónia, em Outubro, e, logo a seguir, no Amadora BD 2011.

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Os Livros da Kingpin

Com mais ou menos visitantes, o Festival da Amadora continua a condicionar o calendário da edição de BD em Portugal, especialmente no que se refere às pequenas editoras. E a Kingpin Books, de Mário Freitas, é, sem dúvida a editora que melhor tem sabido aproveitar a dinâmica do Festival para potencializar a carreira comercial das suas edições.

Foi o que sucedeu mais uma vez este ano, com a edição de “Off Road”, obra de estreia como autor completo do desenhador americano Sean Gordon Murphy, conhecido pelos seus trabalhos para a DC Comics, com destaque para a colaboração com Grant Morrison em “Joe, the Barbarian”, que foi um dos convidados do Festival.
Publicado num agradável formato livro, que acentua as características de novela gráfica da obra, “Off Road”.é a história de uma viagem “todo o terreno” em que tudo acaba por correr mal, protagonizada por três amigos e um jipe amarelo. Leve, divertida e bem contada história de camaradagem, que se lê bem, mas se esquece rapidamente, “Off Road” mostra bem o talento narrativo de Murphy, que lhe valeu um prémio da American Library Association. Com um traço estilizado e semi-caricatural em que são visíveis influências do mangá, a arte de Murphy funciona muito bem a preto e branco, sobretudo neste formato mais compacto do que o habitual “comic book”.

E este parece ser definitivamente o formato eleito para as novas edições da Kingpin, que reedita neste formato uma edição revista e recolorida da mini-série “Agentes do C.A.O.S.
Série de espionagem, inicialmente publicada em três volumes, cuja acção se inicia em Portugal nos inícios dos anos 80, para terminar 13 anos depois, em Lisboa, com uma passagem pela Rússia de Boris Yeltsin, C.A.O.S., melhorou gradualmente de número para número, tanto em termos do desenho, bastante agradável, de Filipe Teixeira, como das cores, ainda assim demasiado planas de Carlos Geraldes.
E mesmo o argumento, sem primar especialmente pela originalidade, vai ganhando em eficácia e fluência narrativa, resultando numa movimentada história de acção que se lê bem, com um ritmo e um aparato nas cenas de tiroteio (dignas de um filme de Hollywood) pouco habituais na BD portuguesa.
Mas a verdade é que “Agentes do C.A.O.S.”, ganha outra coerência nesta nova edição, revista e recolorida por Mário Freitas. Mas vai ser preciso esperar pelo novo título da série, que revelou o inspector Franco (um bem conseguido cruzamento “tuga” entre o Dirty Harry e o Comissário Gordon), que está a ser desenhado por Osvaldo Medina, a lançar em 2011, para ver se “C.A.O.S. confirma inteiramente as potencialidades que esta primeira história já deixa antever.

(“Off Road”, de Sean Murphy, Kingpin Books, 128 pags, 17,99€
“Agentes do C.A.O.S: A Conspiração Ivanov”, de Fernando Dordio, Filipe Teixeira e Mário Freitas, Kingpin Books, 84 pags, 16,99 € )

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Saltar do Papel

Se em termos temáticos o suporte físico nunca foi uma prisão para os heróis dos quadradinhos, a verdade é que ocasionalmente, ao longo de décadas, eles tentaram fugir aos limites das duas dimensões do papel.

Não me refiro à passagem a outros meios, que tem acontecido recorrentemente, desde os primórdios da própria BD enquanto género popular – em filmes e séries televisiva ou mesmo em espectáculos musicais ou teatrais – mas sim a histórias aos quadradinhos publicadas em 3D. Que, tal como acontece com os filmes hoje em voga, em especial no que à animação diz respeito, estão longe de ser novidade.
A exemplo do cinema, para que o leitor possa desfrutar do efeito tridimensional pretendido, necessita de um par de óculos especiais, neste caso com uma lente vermelha e outra azul. E, tal como no grande ecrã, a sua não utilização transmite a sensação de que as imagens estão desfocadas.
Ao contrário do que se possa pensar, na maior parte dos casos, as obras não são criadas de origem para serem impressas em 3D. Este efeito é obtido, imprimindo em duplicado cada imagem, em duas cores diferentes, com um ligeiro desfasamento. Na prática, isto potencia o chamado efeito de paralaxe já existente na visão humana, fazendo o uso dos óculos com que cada um dos olhos veja uma das imagens, recebendo o cérebro a sensação de profundidade.
As primeiras experiências de quadradinhos a três dimensões, datam dos anos 50, quando as imagens em 3D tinham grande popularidade. Como não podia deixar de ser, um dos primeiros heróis escolhidos foi Superman, mas os resultados não foram famosos, quer porque parte das legendas foi também submetida ao mesmo tratamento, o que as tornou ilegíveis, quer porque ao fim de pouco tempo os óculos provocavam dores de cabeça.
Igualmente da mesma época é uma revista 3D do Mighty Mouse, que causou como que uma “experiência religiosa” em Ray Zone, então com seis anos, como ele revela no seu site (http://www.ray3dzone.com/), tendo decidido dedicar a sua vida ao 3D.

Por isso, Zone, desde os anos 80, para além de ter participado na produção de diversos filmes de animação e com actores, é o responsável por quase todas as edições de BD do género publicadas nos Estados Unidos, algumas mesmo de sua autoria.

O que na prática representa quase centena e meia de títulos de dezenas de editoras, alguns obscuros, outros protagonizados por heróis bem conhecidos como Spirit, Steve Ropper, Krazy Kat, Phantom, Simpsons, Superman, Batman, Donald, Mickey, Patinhas, Roger Rabbit, Transformers, X-Men, Hulk ou Flash Gordon, aplicando Zone a sua técnica à arte “plana” de alguns dos maiores nomes da banda desenhada, em edições quase sempre de número único, destinadas a assinalar alguma data marcante ou utilizadas como truque de marketing.

Por isso, se um dia destes, abrir uma revista de BD e uma bala do Fantasma lhe assobiar aos ouvidos, o Super-Homem passar a voar ou receber, escapar por pouco a um murro do Hulk ou receber em cheio uma fisgada de Bart Simpson, não se assuste. É apenas uma BD a três dimensões!

Entretanto, a ser verdade o que a Image Comics anuncia há já algumas semanas, o one-shot “Captain Wonder”, a lançar em Fevereiro, apresentará o mais avançado 3D alguma vez utilizado em quadradinhos que, no entanto não dispensará os tradicionais óculos, como habitualmente oferecidos com a revista.
Escrito e desenhado por Brian Haberlin e Philip Tan, com experiência em séris como Witchblade, Spawn, Green Lantern ou X-Men, narra a história do Captain Wonder, desaparecido após 24 anos de generosos serviços em prol dos seres humanos, estando agora todas as esperanças depositadas em Billy Gordon, um menino de 10 anos, que é o único a saber do seu paradeiro. Até agora a editora apenas disponbibilizou a capa, onde o efeito tridimensional está bem patente, e três páginas anteriores à aplicação do 3D.
A Image Comics, que foi criada em 1992 por sete autores saídos da Marvel, entre os quais Todd MacFarlane e Jim Lee, descontentes por não terem a posse e o controle criativo sobre o seu trabalho, já tinha feito uma forte aposta na banda desenhada 3D em 1997 e 1998, publicando dessa forma WildC.A.T.S., Gen 13 ou Astro City, alguns dos seus principais títulos.

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