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Recontar velhas histórias

Astonishing X-Men – Perigo
Joss Whedon (argumento), John Cassaday (desenho) e Laura Martin (cor)
BdMania

Os heróis são os mesmos, as temáticas – ódio aos mutantes (uma forma de xenofobia…), ameaças poderosas, tensões internas – já são conhecidas; pode-se dizer que estas histórias já foram contadas… Mas a verdade é que Whedon fez deste regresso dos X-Men, ocupados com a reconstrução do grupo e da sua escola e a braços com um invulgar inimigo, um dos arcos mais interessantes dos últimos anos.
Com a vantagem do seu argumento, ágil e extremamente legível, assente em diálogos vivos e credíveis, ter sido posto em imagens por um Cassaday soberbo no desenho humano, de um realismo impressionante, e explodindo quando impera a acção, com o todo servido por belas cores lisas em que imperam os tons quentes.


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F. Cleto e Pina

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Histórias de Garfield… sem Garfield!

Por incrível que possa parecer, em Outubro próximo vai ser editado nos Estados Unidos um álbum de tiras de Garfield… sem Garfield! Mas não se pense que se trata de uma colectânea das tiras em que não aparece o popular gato laranja, gordo, anafado e prepotente, que adora lasanha, criado por Jim Davis. Este livro recolhe, sim, algumas dezenas das tiras originais de Davis, das quais Garfield foi pura e simplesmente apagado!
A ideia – no mínimo original – pertence ao (também cartoonista) irlandês Dan Walsh, de 33 anos, que em Fevereiro deste ano criou um site dedicado “a remover Garfield das tiras de Garfield com o propósito de revelar a angústia existencial de um certo Mr. Jon Arbuckle” (o dono de Garfield). E prossegue: “É uma viagem profunda ao interior da mente de um jovem isolado do mundo, enquanto luta uma batalha perdida contra a solidão e a depressão num tranquilo subúrbio norte-americano”.
Sem Garfield, o seu sobrinho Nermal ou o cão Odie, as tiras “ganham uma nova atmosfera, aumentando ainda mais a solidão de Jon Arbuckle… As suas observações soam algures entre a crise existencial e o mais profundo desespero”, escreveu a propósito o New York Times.
A ideia agradou aos fãs do gato, que multiplicaram as visitas ao site de Walsh, acabando este por chegar ao conhecimento de Jim Davis que, surpreendentemente, também se tornou admirador das tiras sem o seu gato, afirmando mesmo: “foi uma boa inspiração; quero agradecer ao Dan por me ter permitido ver outro lado do Garfield. Algumas das tiras que ele escolheu ficaram muito divertidas. Quando as leio penso: ‘Oh, eu devia tê-lo deixado de fora’. Teriam muito mais piada”.
Por isso, com o seu apoio, “Garfield Minus Garfield” vai ser lançado pela Ballantine Books, uma divisão da Random House Publishing Group, que já publica as recolhas das tiras originais de Davis desde 1980, sendo já um dos livros mais aguardados do último trimestre nos Estados Unidos. A obra, com 128 páginas a cores, ficará disponível a 28 de Outubro e incluirá, lado a lado, as tiras originais com Garfield e a versão “apagada” para “que os leitores as possam comparar”.
O livro sairá em simultâneo com “Garfield 30th Anniversary Book”, no qual Davis revê as primeiras três décadas deste gato trintão que se estreou nos jornais a 15 de Junho de 1978. Gordo, preguiçoso, cínico e sarcástico, Garfield – adaptado a desenho animado e, mais recentemente, ao cinema, combinando animação computorizada e imagem real – ocupa o tempo em que não dorme a ver televisão, devorar lasanha, maltratar Odie, esmagar aranhas ou exasperar Jon, para deleite dos leitores de todo o mundo que acompanham as suas deambulações diariamente em mais de 2500 periódicos e compram as muitas centenas de produtos licenciados, que fazem deste gato um dos maiores sucessos de merchandising da história da banda desenhada.


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O regresso de Flash Gordon

Clássico da BD regressa adaptado ao século XXI; Filme com o herói está em preparação; Antologia com pranchas de Alex Raymond começará a ser editada este ano em Portugal

Flash Gordon, um dos maiores clássicos da banda desenhada, está de volta numa nova série em formato comic-book, que está a chegar às lojas especializadas norte-americanas.
O argumento foi escrito por J. M. DeMatteis, um veterano dos quadradinhos, agora editor-chefe da Ardden Entertainement, responsável pela edição, e por Brendan Deneen, co-fundador da empresa, tendo o desenho sido entregue a Paul Green, que assina o seu primeiro trabalho de fôlego em BD, após anos a trabalhar no mercado de videojogos.
O projecto foi apresentado em Junho na New York Comicon, onde o número #0 foi um sucesso de vendas, apesar das grandes diferenças entre ele e a versão original, criada por Alex Raymond, em 1934. Ou talvez devido a elas, uma vez que o traço clássico, realista e elegante original deu lugar a uma versão moderna e estilizada, enquanto que o argumento, segundo Deneen, “combina elementos clássicos da personagem com novas abordagens típicas do século XXI”, citando como exemplo “a guerra civil em Mongo que não deixará de parecer familiar a quem tenha estado atento ao nosso mundo nos últimos anos”, embora se mantenha “fiel ao espírito da incrível criação de Raymonds”.
Na versão original, Flash Gordon deslocava-se ao planeta Mongo, na companhia do cientista Hans Zarkov e da bela Dale Ardden, para evitar a sua colisão com a Terra, aproveitando para derrotar o tirano Ming. Raymond fez da BD uma referência, devido ao tratamento realista dado às personagens, com destaque para as belíssimas mulheres, aos estranhos seres com que a povoou e aos muitos elementos exóticos de que dotou o novo mundo, que combinava a arquitectura dos anos 30, com castelos medievais e surpreendentes avanços tecnológicos. Lançado directamente como prancha dominical, Flash Gordon passaria também a tira diária em 1940, assinada por Austion Briggs. Mac Raboy, Dan Barry, Paul Norris ou Al Williamson foram alguns dos autores responsáveis por Flash Gordon, que terminou a sua carreira nos jornais em 2003. A última versão original em revista, foi uma mini-série da Marvel Comics, em 1995.
Em Portugal, onde Flash Gordon – por vezes rebaptizado como “Capitão Raio”, “Roldan” ou “Capitão Relâmpago” – fez a sua estreia nos anos 40, a editora Bonecos Rebeldes tem previsto para Setembro/Outubro o lançamento do primeiro dos nove volumes da edição integral das pranchas dominicais de Alex Raymond, que prevê concluir dentro de dois anos. Por outro lado, a próxima edição do Festival de BD da Amadora, em Outubro, cujo tema é a ficção-cienífica, dedicará uma exposição a este aventureiro espacial.

[Caixa]

Flash Gordon no ecrã

A Columbia Pictures acaba de anunciar que contratou Matt Sazama e Burk Sharpless para escreverem o argumento de um novo filme de Flash Gordon, que será dirigido por Breck Eisner (“Sahara”), que o produzirá juntamente com Neal Moritz. O herói tinha já regressado à TV, em 2007, sem grande sucesso, numa temporada de 22 episódios com Eric Johnson, Gina Holden, Jody Racicot e John Ralston, no Sci Fi Channel.
O êxito dos quadradinhos levou Flash Gordon aos ecrãs logo em 1936, numa série de 13 episódios da Universal, realizada por Frederick Stephani e protagonizada por Buster Crabbe, que também interpretaria a primeira longa-metragem do herói, “Mars attacks the World”, em 1938. As séries televisivas sucederam-se, incluindo versões animadas. A última aventura de Flash Gordon no cinema foi em 1980, numa película com Sam Jones, assinada por Mike Hodges, que ficou famosa… pela banda sonora dos Queen.
E há rumores que afirmam que a saga “Star Wars” só existiu porque George Lucas não conseguiu os direitos da criação de Raymond…


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Retalhos de Manta

Convite à descoberta da obra gráfica de João Abel Manta

Em “João Abel Manta – Caprichos e Desastres”, com o pretexto (desnecessário) dos 80 anos do artista, João Paulo Cotrim leva-nos num longo e detalhado passeio pela obra gráfica de Manta, um dos mais interessantes e estimulantes artistas plásticos que o século XX deu a Portugal, “uma obra múltipla que respira, que não se consegue prender no fio de uma metáfora apenas”.
Nas mais de duas centenas de páginas deste álbum, Cotrim apresenta alguns (dos muitos) momentos significativos da sua arte, propondo-os ao leitor da forma como os vê, à luz do tempo em que foram executados – mas também à luz do tempo em que são (re)interpretados – enquanto nos desafia a (re)vê-los à nossa maneira, à luz da nossa formação/da nossa intuição, nas suas múltiplas leituras.
Contido nas palavras, dando espaço às imagens, Cotrim ajuda-nos a descobrir uma imensa manta de retalhos. Retalhos (de Manta) multiformes nas técnicas utilizadas (desenho livre ou trabalhado, colagens, fotocomposições e técnicas mistas várias) ou nas temáticas abordadas (dos trabalhos mais conhecidos à ilustrações de obras literárias, das célebres capas do “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias” aos retratos de personalidades da vida cultural portuguesa, passando até por obras que a censura forçou à gaveta), com os quais o artista construiu um retrato lúcido e mordaz, marcante, por vezes incomodativo, deste país que é Portugal, afinal mote (quase) único de toda a sua criação, nas suas grandezas e misérias. Ou, talvez, na grandeza das suas misérias.

O cartoonista da Revolução

João Abel Manta – Caprichos e Desastres
João Paulo Cotrim
Assírio & Alvim, El Corte Inglés e C.M.L. – Museu Bordallo Pinheiro

Com uma diversificada obra como arquitecto, pintor, caricaturista, designer e cenógrafo, João Abel Manta, nascido a 29 de Janeiro de 1928, assinou as primeiras obras nos anos 40 do século passado e diplomou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1951.
E foi/é também cartoonista, especialmente após o 25 de Abril – sendo por muitos considerado “o cartoonista da revolução” por excelência – sendo de sua autoria as marcantes “Caricaturas Portuguesas dos anos de Salazar” ou um dos mais conhecidos cartazes do MFA.


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Alley Oop, um homem pré-histórico com 75 anos

Criação de Vincent T. Hamlin viajou no tempo e foi à Lua

Nascido há apenas 75 anos, Alley Oop é, apesar da sua juventude, um dos mais famosos homens pré-históricos da banda desenhada.
Criado por Vincente T. Hamlin, nascido no Iowa, a 10 de Maio de 1900, que se inspirou na frase dos acrobatas franceses (“Allez Oup”) e na sua paixão pela temática pré-histórica, este cro-Magnon, dotado de grande força, cujo rosto evoca um chimpanzé, vive no reino de Moo, governado pelo inconstante rei Guzzle, acompanhado do seu dinossauro Dinny e da sua namorada Ooola. Com uma ligeira crítica social, as suas divertidas andanças, trabalhadas com um traço limpo e legível, começaram a ser publicadas como tira diária a 7 de Agosto de 1933, passando também a prancha dominical, em Setembro do ano seguinte. A 6 de Abril de 1939, Hamlin imprimiu uma mudança radical na série, introduzindo Elbert Wonmug, um feiticeiro-cientista, inventor de uma máquina do tempo que haveria de levar o herói a passear por toda a História, combatendo piratas e mouros, e a visitar o século XX e até a Lua (em 1947).
Apesar do grande sucesso que alcançou no formato jornal, tendo sido publicado simultaneamente em quase um milhar de títulos, as diversas tentativas de transpor Alley Oop para revista não tiveram grande êxito, o que não impediu a sua adaptação em desenho animado, já nos anos 70, ou que, na década anterior, tivesse inspirado um grande êxito dos Hollywood Argyles, de que Roberto Carlos fez uma inspirada versão, transformando o seu nome brasileiro – Brucutu – em sinónimo corrente de homem primitivo ou bruto.
Hamlin, falecido a 14 de Junho de 1933, manteve Alley Oop até 1971, entregando-o depois a Dave Graue, que colaborava na série desde 1950. Este, falecido num acidente de viação em 2001, seria substituído por Jack Bender, que o assistia há 10 anos e que ainda assina a série hoje em dia, com a colaboração da esposa, Carole.
Em Portugal, Alley Oop ficou conhecido como Trucutu e foi uma das séries escolhidas para o primeiro número de “O Mundo de Aventuras”, publicado a 18 de Agosto de 1949.


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Saído dos infernos

Hellboy surpreende pela arte e pelas múltiplas referências

O que primeiro atrai em Hellboy é a arte de Mike Mignola, que quase se poderia classificar como uma “linha clara” escura, já que o seu desenho plano, estilizado, desprovido de pormenores desnecessários, extremamente legível, invulgar no universo dos comics norte-americanos, é servido por tons soturnos, sombrios, mesmo quando a acção decorre em montanhas verdejantes…
Isso contribui sobremaneira para o ambiente opressivo e tenso das narrativas, onde o inesperado espreita a cada página e onde cada construção – quase sempre velhos castelos decadentes – esconde perigos inimaginados.
Mas são as narrativas, bem construídas, envolventes, alternando suspense com cenas de acção, com as pontas soltas necessárias para serem retomadas mais tarde, fazendo a ligação entre as histórias e criando uma interessante cumplicidade com o leitor, que mais surpreendem, pela conjugação de aspectos que aparentemente nada têm em comum: investigações de tom detectivesco e demónios saídos do inferno – o primeiro dos quais o próprio Hellboy -, o paranormal par a par com a ciência, a retoma da temática nazi como personalização do mal absoluto como um dos lados do eterno confronto entre este e o bem…
“Verme Conquistador”, que tem introdução de Guillermo del Toro, reúne todos aqueles aspectos, cruzando-os com diversas referências literárias, cinematográficas e televisivas agradavelmente retros, numa história que traz Hellboy de novo à velha Europa, a mais um castelo em ruínas, para evitar a concretização de um plano iniciado pelos nazis 60 anos antes, quando enviaram o primeiro ser humano para o espaço.

Mignola, o expressionista

Hellboy – Verme conquistador
Mike Mignola (argumento e desenho)
G. Floy Studio

Mike Joseph Mignola nasceu a 16 de Setembro de 1960, em Berkeley, na Califórnia. Publicou os primeiros trabalhos aos 19 anos, destacando-se pelo invulgar grafismo que alguém classificou como “uma combinação de expressionismo alemão com a arte de Jack Kirby”.
Contratado pela Marvel em 1983, desenhou Daredevil, X-Men, Hulk, Conan ou Homem-Aranha e, a partir de 1987, também histórias de Batman para a DC Comics.
Em 1993, na Dark Horse, criou Hellboy, assinando argumento e desenhos, que já lhe valeu diversos prémios Harvey e Eisner.


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Retrato do outro lado

Wanted
Mark Millar (argumento), JG Jones (desenho) e Paul Monts (cor)
BDMania

Wesley Gibson leva uma vida banal e miserável, até saber que o espera uma fabulosa herança se substituir o pai, o mais mortal dos assassinos. Se isto soa familiar é porque esta é a BD que inspirou o filme “Procurado”, com James McAvoy e Angelina Jolie.
Mas só no conceito de que dentro de nós há um desconhecido à espera de ser despoletado, porque na forma ela é mais dura e violenta e está ambientada num mundo (diferente?) que os super-vilões controlam desde que eliminaram todos os super-heróis (e qualquer lembrança deles).
Este conceito original, bem narrado, assenta em diálogos bem construídos por Millar, que não se inibe de concluir a obra com uma bofetada que insulta mas faz pensar o leitor.


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Gaston Lagaffe em desenho animado

Técnica inovadora vai dar vida ao herói criado por Franquin

Gaston Lagaffe, uma das mais marcantes criações da banda desenhada franco-belga, imaginada por Franquin, vai ganhar nova vida numa série de desenhos animados. O anúncio, feito pelo Syndicat des Producteurs de Films d’Animation (SPFA), dá conta do envolvimento na sua produção da Normaal Animation, da Marsu Productions e da cadeia televisiva France 3, as duas últimas já responsáveis pela passagem ao pequeno ecrã de outro herói de Franquin, o exótico Marsupilami.
Segundo o comunicado, nesta série de animação Gaston “aparecerá pela primeira vez nos ecrãs de televisão graças a uma nova técnica que permitirá animar directamente os desenhos originais do autor”, estando prevista a produção de 78 episódios de 7 minutos cada um. Este aspecto é dos que mais dúvidas tem levantado sobre a transposição de Lagaffe da 9ª arte para a TV, dado que as histórias originais, providas de um ritmo intenso e de um acentuado sentido de humor, decorriam em apenas uma ou duas pranchas. Outra das questões levantadas pelos muitos fãs de Franquin, é a questão da voz da personagem que cada leitor sempre “ouviu” de forma diferente na BD…
Integralmente editado em Portugal, Gaston Lagaffe, nasceu em 1957, no número 985 da revista “Spirou”, com aspecto ajuizado devido ao cabelo cortado curto e ao casaco e lacinho que vestia. Semanas depois, o cabelo tornou-se mais revolto e passou a vestir uns jeans, uma camisola verde de gola alta e umas alpercatas, que o acompanhariam toda a vida. Após algum tempo a vaguear (literalmente) pelas páginas da publicação, Lagaffe revelou os seus dotes de preguiçoso inveterado, uma invulgar aptidão para originar confusões e criar as mais mirabolantes (mas inúteis) invenções, desesperando os seus colegas da redacção da revista “Spirou”, cujo prédio destruiu por várias vezes. Dessa forma, André Franquin (1924-1997) fez dele um dos mais divertidos anti-heróis da BD, afirmando o seu sentido de humor transbordante e contagiante, e o seu traço pessoal, dinâmico, vivo e extremamente expressivo.


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Da espada ao avental

Com “Hägar, o Horrendo”, massacres e pilhagens tornam-se divertidas

Manuel Caldas, depois da notável restauração das pranchas originais dos primeiros volumes do “Príncipe Valente” e do western humanista “Lance”, duas obras realistas, propõe agora o humor de “Hägar, o horrendo”, um clássico das tiras diárias norte-americanas. Comum aos três projectos é o cuidado apaixonado posto nas edições e o grande respeito pela obra original e (consequentemente) pelo autor.
Hägar é um vicking atípico, ou não divida ele o tempo entre as actividades inerentes à sua “profissão” – invadir, pilhar, saquear – e as banais tarefas domésticas quotidianas a que Helga, a sua mulher – que usa cornos maiores, símbolo do poder entre os vickings de Browne – o obriga.
Com um universo reduzido – inspirado na sua família e amigos – que junta a Hägar e Helga, Hamlet, o filho letrado, Honi, a filha que sonha com proezas guerreiras, Lute, o trovador pacifista que aspira ao seu coração, Eddie (nada) Felizardo, companheiro de batalhas, e poucos mais, Browne explana um humor simples mas eficaz, assente num traço arredondado, simpático, expressivo e desprovido de pormenores desnecessários, com divertidos anacronismos e desfecho sempre surpreendentes, parodiando não só a época de Hägar mas também o quotidiano de todas as épocas, mostrando que dentro de cada um de nós há um pouco deste vicking permanentemente insatisfeito e rude mas também submisso, e transformando as pilhagens e massacres cometidos pelos vickings, um dos mais violentos povos da História, em algo divertido por que ansiamos página após página.

Obra da maturidade

Hägar, um vicking de sorriso inofensivo e feliz – Ano I
Dik Browne
Editor: Manuel Caldas; Distribuição: Gradiva

Não é vulgar, mas quando Dik Browne (1917-1989) imaginou Hägar, em 1973, já passara os 55 anos. Até aí, tivera uma carreira mediana, com um Prémio Reuben (1963) para a tira familiar “Hi and Lois”, criada e escrita por Mort Walker, como ponto alto.
E sem alguns problemas de visão, que o levaram a querer precaver o futuro da família, talvez Hägar nunca tivesse saltado duma folha de papel para 1900 jornais de todo o mundo, privando-o do Reuben de 1973, da fama e dinheiro que nunca tivera e da completa realização pessoal e artística.


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Insólito humor animal

Pérolas a Porcos #6 – Os Sopratos
Stephan Pasis
Bizâncio

Apesar do exemplo das relações predador/presa entre crocodilos e zebras e orcas e focas e do protagonismo de um rato (cínico), de um porco (burro – passe o paradoxo) e de um bode (estranhamente sensato), esta não é uma “enciclopédia animal”. Porque com eles – e com personagens tão improváveis como uma anémona-do-mar, um par de nozes, um violento pato empalhado, bonequinhos vickings efeminados ou Barbara Bush – Pastis, com um humor ácido e um irresistível nonsense, demole tudo, do relacionamento (humano?) à religião, dos programas televisivos aos grupos de auto-ajuda, não poupando sequer ele próprio, a sua criação ou outras tiras de BD famosas (como na incursão terrorista do rato a “Baby Blues”).


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