Etiqueta: Edições ASA

Lançamentos ASA 2010

A ASA prevê lançar no nosso país durante 2010 os primeiros tomos de “Dragon Ball”, de Akira Toryiama (ainda no primeiro semestre), “Yu-Gi-Oh”, de Kazuki , e “AstroBoy” e “A Princesa e o Cavaleiro”, ambos criações de Osamu Tezuka, o “pai” do manga (BD japonesa) moderno. Até agora a editora apenas lançara manga de origem norte-americana, dada a grande dificuldade em negociar com as editoras nipónicas tiragens tão pequenas como são as portuguesas. Conforme revelou ao Jornal de Notícias a Drª Maria José Pereira, responsável pelo departamento de BD da ASA, estas edições seguirão o formato original “Tankobon”, a preto e branco, com cerca de 200 páginas por volume e sentido de leitura japonês, ou seja, do fim para o princípio e da direita para a esquerda, e permitirão finalmente descobrir em português títulos relevantes de um género que chegou ao Ocidente há cerca de 20 anos e que detém quotas de mercado na ordem dos 40 % na França, Espanha, Alemanha ou Estados Unidos.

Mas não só de manga viverá o catálogo de BD da editora, que já este mês, com “Mú”, acolherá uma nova colecção de Corto Maltese, a grande criação de Hugo Pratt, a cores, com novas introduções e num formato ligeiramente inferior ao habitual. Ainda sem data definida continua o início da edição integral das aventuras de Tintin, de Hergé, com nova tradução.

Contrariando uma das principais críticas desde sempre feitas à edição de BD em Portugal, a ASA propõe-se concluir este ano pelo menos quatro das séries que tem em curso: “Passageiros do Vento”, de Bourgeon (com a chegada às livrarias, ainda em Janeiro, do sétimo volume “A menina de Bois-Caiman #2”), “Bórgia”, de Jodorowsky e Manara (com dois tomos em 2010), “A Teoria do Grão de Areia – vol. 2”, de Schuiten e Peeters, e “Murena”, de Dufaux e Delaby, e continuar com algumas séries do seu catálogo como Lucky Luke ou Dilbert.

Futura Imagem

Pedro Couceiro acelera em banda desenhada

Se a vida de algumas pessoas dava um (ou vários) livros, Pedro Couceiro é certamente um deles, por isso não surpreende que no próximo dia 19 de Novembro chegue às livrarias “Sonho sem Fim”, um álbum de banda desenhada que relata a vida do piloto. Editado pela ASA, tem argumento de Hugo Jesus, que publica o seu primeiro livro, e desenho de Rui Ricardo, o mesmo de “Jogos Humanos”, “Canção do Bandido” (ambos com Paulo Patrício) ou “Superfuzz” (com Esgar Acelerado).
Na origem do livro está uma paixão antiga de Pedro Couceiro pelos quadradinhos, que com esta obra de tom didáctico pretende transmitir a mensagem de que na vida nada é impossível quando se acredita e trabalha por isso, para que “todas as crianças e não crianças que têm um sonho por realizar possam ter uma visão mais optimista do futuro”, afirma o piloto.
Antes do pequeno cantor e do campeão das pistas, o livro aborda o percurso do homem, através de pequenos acontecimentos que ajudaram a moldar a realidade e a construi-la “em cima de sonhos, cimentando bases para o meu futuro e vendo sempre o amanhã como um dia melhor que o de hoje”, diz, para reforçar a ideia.
Embaixador da Unicef para Portugal desde 1995, Pedro Couceiro decidiu que as receitas deste livro reverterão exclusivamente a favor das Aldeias SOS, instituição que visitou no início da sua carreira internacional e que o marcou profundamente pela obra que desenvolve em prol de tantas crianças. Para isso conseguiu a parceria da Navigator, que forneceu o papel, da Lithoformas, que realizou a impressão e encadernação, e da Leya-Asa, responsável pela produção e distribuição do álbum. Sem estes apoios “não teria conseguido realizar mais este sonho e, em especial, angariar verbas extras para uma causa tão nobre”.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Do mar profundo

Filme animado e livro ilustrado, De Profundis é uma história de paixão pelo mar

É no mar, desde sempre fonte de fascínio e terror, de calma e violência, de paixão e repulsa, de morte e de vida, que se centra De Profundis.

O filme, incluído no livro ilustrado (ou o inverso?), nasceu de pinturas a óleo animadas de forma tradicional e é como uma banda desenhada com movimento, pela qual a câmara navega, revelando pormenores, desvendando detalhes, guiando os nossos olhos fascinados. Porque nele, talvez como nunca, o desenho virtuoso de Prado brilha, reluz, cativa e atrai, realçado pela forma pausada como a acção decorre, qual passeio, melhor, qual mergulho extasiado, ao som da música original de Nani Garcia (indissociável da animação) interpretada pela Orquestra Sinfónica da Galiza.
Na origem desta história, simples e maravilhosa, combinação onírica de fantasia e lendas marítimas, está a paixão pelo mar (da Corunha, onde o autor vive). No seu centro, uma improvável mansão, assente num penedo no meio do imenso mar, que lambe a cada vaga a sua escadaria ao cimo da qual uma violoncelista toca belas e melancólicas melodias para si, para os cetáceos que cada fim de tarde passam (para a ouvir?), para o seu companheiro, pintor dos fascínios do mar.
Mas um dia, uma tempestade naufraga a traineira onde ele embarcou, mergulhando-o numa viagem iniciática pelo misterioso fundo do mar, onde redescobre tudo o que já pintou – memórias que desconhecia serem-no – de desfecho fantástico. Mais aberto no filme, que apela mais à descoberta, à capacidade de nos maravilharmos; mais directo no livro, de respostas mais concretas.



Da BD à animação
De Profundis (edição com DVD)
Miguelanxo Prado
Edições ASA

Nascido em 1958, Miguelanxo Prado, estudou arquitectura, dedicando-se à banda desenhada desde 1980. Uma das grandes referências da 9ª arte espanhola das últimas duas décadas, foi premiado em Angoulême, Barcelona, Amadora ou Roma, estando quase todas as suas obras editadas em Portugal.
Após trabalhar na versão animada de “Men in Black” (1997), produzida por Steven Spielberg, tem em “De Profundis” um projecto extremamente pessoal ao qual dedicou quatro anos de trabalho.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

“Obrigada, patrão”, de Rui Lacas, Melhor Álbum Português de 2008

Foram divulgados ontem no 19º Festival Internacional de BD da Amadora, que decorre até ao próximo domingo, no Fórum Luís de Camões, os vencedores dos Prémios Nacionais de BD 2008.
O grande vencedor foi Rui Lacas que, com “Obrigada, patrão” (Edições ASA), conquistou os troféus para Melhor Álbum Português e Melhor Argumento Português. O livro, lançado originalmente no mercado francófono pelas Éditions Pacquet, já havia sido distinguido em 2007 como Melhor Álbum Português em Língua Estrangeira.
O prémio para Melhor Desenho Português contemplou António Jorge Gonçalves, pelo seu trabalho em “Rei” (Edições ASA), enquanto “Madalena Matoso” era distinguida com o prémio Melhor Ilustração para Livro Infantil por “O meu vizinho é um cão” (Planeta Tangerina).
“Muchacho,Tomo 2”(Edições ASA), de Lepage, foi considerado o Melhor Álbum de Autor Estrangeiro, “Zits – Amuado, Aluado, Tatuado” (Gradiva), de Jerry Scott e Jim Borgman, recebeu a distinção para Melhor Álbum de Tiras Humorísticas, e o diptíco “Blueberry: A Mina do alemão perdido”/”O Espectro das balas de Ouro” (Edições ASA/Público), de Charlier e Giraud, foi escolhido como Clássico da 9ª Arte.
“Venham + 5 nº5” (Bedeteca de Beja) recebeu o prémio para Melhor Fanzine, o Prémio Juventude (atribuído por uma turma de Artes de uma escola da Amadora) distinguiu “Wanya, Escala em Orongo” (Gradiva), de Nelson Dias e Augusto Mota, e a Câmara Municipal da Amadora atribuiu o Troféu de Honra a Victor Mesquita.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

BD romântica para elas

Dramacon #1 (de 3)
Svetlana Chmakova (argumento e desenho)
Edições ASA

Crónica irrequieta de paixões adolescentes, decorre numa convenção de manga e anime, onde Christie, uma argumentista, vai pela primeira vez, em companhia do seu namorado e desenhador, Derek, com quem termina a sua relação de sentido único, quando conhece Matt.
Mostrando como elas e eles vivem de forma diferente os seus amores, a autora surpreende pelo realismo com que expõe relacionamentos e reacções emocionais, acentuando esse retrato realista, por paradoxal que pareça, pelo uso recorrente de representações mais caricaturais das personagens, de acordo com os seus estados de espírito, o que também contribui para dotar a obra de um ritmo vivo e lhe confere um agradável tom de comédia romântica.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Gandhi, Einstein e Marie Curie em manga educativo

Colecção da Bertrand divulga personalidades notáveis da História junto dos mais novos; ASA apresenta novas colecções de manga hoje em festa no Porto

Após algumas tentativas para impor os manga (BD japonesa) no mercado português, cujos resultados ficaram sempre aquém do esperado – nos mercados francês, espanhol, alemão ou norte-americano, a sua implantação ronda os 40 % -, estão neste momento nas livrarias seis títulos neste estilo, preferido pelas novas gerações que cresceram com os desenhos animados japoneses (anime), os videojogos e a Internet e que lêem manga em inglês.
A Bertrand centra a sua aposta nas crianças, propondo três volumes coloridos da colecção Grandes Figuras da História, uma produção do estúdio Ykids, da YoungJin Singapore. Dedicados a Albert Einstein, Ghandi e Marie Curie, destacam não só os factos fundamentais da biografia de cada um, mas também episódios curiosos, menos conhecidos, das suas carreiras, equilibrando o tom informativo com as características próprias da ficção, constituindo uma abordagem divertida e visualmente estimulante à descoberta das vidas inspiradoras de algumas personalidades da História. Cada volume destes manga educativos, com cerca de centena e meia de páginas, é complementado com notas de leitura para pais e professores, e com uma cronologia da época em que os biografados viveram, havendo um guia mais completo para download no site da Ykids.
Nele estão também referenciadas outras obras no mesmo estilo, nomeadamente as biografias de Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá e Leonardo Da Vinci, adaptações de lendas greco-romanas e de clássicos da literatura como “Mulherzinhas”, “A Ilha do Tesouro” ou “As Viagens de Gulliver”, bem como livros de introdução à Matemática, à História e à Leitura.

Festa Manga no Porto

Entretanto, hoje, no Porto, na Livraria Central Comics (R. do Bonjardim, 594), as Edições ASA promovem uma festa de apresentação dos seus títulos manga, oriundos do catálogo da norte-americana Tokyopop, com a presença de Maria José Pereira, responsável editorial do departamento de BD. Trata-se das trilogias “Warcraft”, baseada no jogo com o mesmo título, “Dramacon”, uma comédia romântica que decorre numa convenção de manga e anime, e “A princesa Pêssego”, a história de uma menina e do seu animal de estimação, um furão. Estes dois últimos têm a particularidade de se destinarem ao público feminino, adolescente, quase sempre esquecido pela banda desenhada ocidental, mas sempre contemplado pela produção nipónica de BD. O primeiro volume de cada série, devendo os restantes chegar às livrarias em Outubro próximo e em Fevereiro de 2009.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

ASA aposta em manga

“Warcraft”, “Dramacon” e “Princesa Pêssego” serão lançados em Setembro; Obras direccionadas para jovens de ambos os sexos

As Edições ASA acabam de anunciar a sua aposta em títulos de manga, termo que na sua origem designava a banda desenhada japonesa e hoje em dia é utilizado para classificar obras aos quadradinhos que seguem as suas características. Geralmente são a preto e branco, prolongam-se por muitos volumes, totalizando centenas ou milhares de pranchas, são protagonizadas por personagens de olhos grandes, a acção tem predominância sobre os diálogos e as linhas indicadoras de movimento e as onomatopeias são muito utilizadas. Esta é mais uma tentativa de impor este género em Portugal, que continua a ser uma excepção no mundo ocidental, pois em países como os Estados Unidos, França, Espanha ou Alemanha as vendas de manga representam valores da ordem dos 40 %.
Os primeiros três títulos, oriundos do catálogo da norte-americana Tokyopop, com volumes que rondam as duas centenas de páginas, serão lançados a 8 de Setembro, estando prevista a edição de um novo tomo todos os meses. “Warcraft – A Trilogia do Poço do Sol”, do norte-americano Richard A. Knaak e do coreano Kim Jae-Hwan, relata as aventuras de Kalec, um dragão azul que assumiu a forma humana para investigar um poder misterioso, e de Anveena, uma bela rapariga que guarda um segredo de encantamento. “Dramacon”, da russa Svetlana Chmakova, dá uma perspectiva pitoresca e romântica dos bastidores de um festival de manga. Finalmente, “A Princesa Pêssego”, dos norte-americanos Lindsay Libos e Jared Hodges, conta a história de uma solitária menina de nove anos que recebe como animal de estimação um furão, cuja mordedura tem consequências surpreendentes.
“Warcraft”, uma BD de acção, inaugura a colecção “Shounen” (manga destinado aos leitores juvenis masculinos), enquanto que os outros dois títulos apresentam a particularidade de serem “shoujo” (BD para adolescentes femininas), um segmento de mercado tradicionalmente esquecido pela banda desenhada ocidental, mas que os manga há muito trabalham, bem como todos os outros porque no seu país de origem, o Japão, há mangas para crianças, adolescentes, jovens e adultos de ambos os sexos, com todas as temáticas possíveis e imaginárias: acção, humor, aventura, policial, fantástico, terror, romance, desporto, economia ou pornografia.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Um álbum menor

Escolha óbvia em ano olímpico para base do terceiro filme de Astérix de imagem real – e também porque muitos títulos, satirizando outros povos, não são opção neste tempo em que impera um cada vez mais doentio politicamente correcto – “Astérix nos Jogos Olímpicos” até é um dos álbuns menores da era Goscinny.
Criado no também olímpico ano de 1968, acompanhando a actualidade, como era hábito dos autores, tem um argumento demasiado espartilhado pelo tema base, que embora arrancando bem, acaba por se perder num excesso de descrições que lhe retiram ritmo, não sendo feliz o esquema que conduz Astérix à palma olímpica e que origina o primeiro caso (múltiplo!) de doping dos jogos.
Isto não quer dizer que o álbum – reeditado pela ASA com nova capa e marcado pela estreia do ancião Decanonix – não contenha algumas cenas de antologia, como a discussão gastronómica sobre os cogumelos ou a involuntária interrupção do treino do campeão romano por Astérix e Obélix, capazes de arrancar sonoras gargalhadas ao leitor.

Astérix nos Jogos Olímpicos
Goscinny (argumento) e Uderzo (desenho)
Edições ASA


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Impressões

Rei
António Jorge Gonçalves (desenho) e Rui Zink (argumento)
Edições ASA
328 p.
16,00 €

Dez anos depois de “A arte suprema” (oportunamente reeditada pela ASA, com nova roupagem), então a “primeira novela gráfica portuguesa” (aproveitando o momento forte que as obras assim catalogadas viviam), António Jorge Gonçalves e Rui Zink (ou vice-versa) voltaram a encontrar-se para juntarem vontades e inspirações que desaguaram em “Rei”, que pode ser considerado próximo do manga (bd japonesa, o género aos quadradinhos em ascensão nos nossos dias). Próximo no formato – livro -, no local da acção (e de inspiração) – o Japão -, na utilização de alguns dos códigos da linguagem manga.
De “Rei”, convém começar por explicar o título: tão só um nome feminino japonês, vulgar, tal como Maria, em Portugal. Porque o resto se torna difícil de explicar, podendo-se aspirar apenas a compartilhar impressões de leitura. Porque cada leitor, cada leitura – até as leituras dos autores, seus primeiros leitores – conduzirá por caminhos diferentes, levará a destinos diversificados, tão aberta é a obra – talvez demais até no final indefinido (por finalizar?), distante de muitos dos pressupostos que a narrativa foi traçando…
Simplificando o que não é simples (nem simplificável…), pode-se resumir “Rei” como a história de duas buscas. A de Nuno, 20 anos, que se busca a si mesmo na distância (a que se coloca da progenitora) do país longínquo que é o Japão, procurando a sua razão de ser no país que o seu mestre (de karaté e meditação) o fez idealizar. Nuno que encontra no Japão um amigo, Yukio, e Rei, a rapariga andróide (a explicação simplista) ou a projecção dos seus distúrbios mentais (a leitura racional)…
A segunda busca é a da mãe de Nuno, Teresa, que, um ano depois, também vai ao Japão, em busca do filho. E de uma relação inexistente. Mãe que, apesar de muito ocupada com a sua actividade política – é alguém importante em Portugal – continua a ver (e a tratar/a ignorar) o filho como se ele ainda fosse uma criança. Mãe que o filho vê como a Madrasta da Branca de Neve, altiva, distante, indisponível… Má. Mas que não passa de uma mulher, que pode ser – é – solitária, sensível, sincera no seu desejo de ser mãe. Na sua busca, Teresa leva Tano, o mestre do seu filho. Para a guiar e ajudar… Também para o castigar, como causador da partida do filho… e algo mais. Tano, que teme o que pode encontrar, no (re)encontro forçado com a origem que nunca teve, com as suas referências, ganhas na distância…
Estas duas buscas – duas histórias – são narradas em paralelo, alternadamente, graficamente de forma distinta. Para a segunda é utilizada um traço mais trabalhado, próximo do real visível, anatomicamente proporcionado, servido por correctos contrastes de luz e sombra. A busca de Nuno tem um traço mais arredondado, estilizado, livre, esboçado ao correr da imaginação, sem trabalho preparatório, longe da realidade, metafórico, onírico, alucinado.
Porque “Rei” é uma obra extremamente gráfica, que obriga o leitor a grande atenção, exigindo muito dele, impelindo-o à interpretação constante dos desenhos que vê. Que contam/narram mais do que aquilo que mostram explicitamente, quase sempre em páginas de uma vinheta só, cheias com pormenorizados planos de conjunto, vigiando de longe, no vazio, uma acção concreta, ou mergulhando(-nos) nas personagens, em close-ups alucinantes, sempre em equilíbrio perfeito com os diálogos que fluem livremente ou falando-nos alto quando são os silêncios (a ausência de texto) que imperam.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem

Caminhos para a BD em Portugal

O corvo III – Laços de família
Luís Louro (desenhos) e Nuno Markl (argumento)
Edições ASA
13,00 €

Evereste
Ricardo Cabral
Edições ASA
10,00 €

Obrigada, patrão
Rui Lacas
Edições ASA
15,00 €

O lançamento, no recente Festival de BD da Amadora, de uma dezena de obras de autores portugueses, longe de ser um atestado de vitalidade dos quadradinhos nacionais, reflecte a importância do evento enquanto local privilegiado para os autores e as suas obras encontrarem – e serem encontrados – os/pelos seus leitores. Até porque parte – pela tiragem reduzida ou por opção editorial – não tem sequer distribuição nacional, o que torna mais difícil chegarem aos seus (potenciais) leitores. Três deles mostram alguns caminhos que se abrem (podem abrir…) à BD em Portugal.
Em “O Corvo III – Laços de família”, Luís Louro, criador e até agora autor completa do Corvo, o (pobre) super-herói português que percorre as ruas de Lisboa com Robin, a sua bicicleta, às costas, decidiu apelar a Nuno Markl para a escrita do argumento, e há que reconhecer que a aposta foi ganha, a dois níveis. Logo à partida, pela associação de uma “celebridade” ao livro, o que lhe dá maior visibilidade; depois, porque o humor de Markl adapta-se bem ao desastrado super-herói, tendo originado uma aventura divertida e bem-disposta (que só peca por parecer curta demais), que faz a ponte com os anteriores álbuns, continuando a revelar-nos alguns dos estranhos super-heróis (bem) nacionais e a traçar um retrato sentido de uma certa Lisboa típica. E que tem alguns achados, mostrando a familiaridade de Markl com a temática, começando logo pela abertura, no cemitério, que evoca ambientes e poses típicos dos super-heróis (a sério), em especial do Homem-Aranha, para os desmistificar com o bem conseguido desfecho. Quanto a Louro (até neste texto quase esquecido – este é o perigo destas “parcerias”) continua igual a si próprio com o seu traço solto e dinâmico e uma planificação fluida que pontua o ritmo da história.
Quanto a “Evereste”, ancora-se na realidade contemporânea portuguesa ao adaptar aos quadradinhos o livro no qual o alpinista João Garcia conta a sua trágica ascensão ao cume do Evereste. Nele, o traço de Cabral umas vezes surge algo tolhido, talvez demasiado preso à documentação fotográfica que lhe terá servido de base, e noutras explode em belas imagens panorâmicas que nos ajudam a compreender a imensidão das montanhas cobertas de neve e a dimensão da proeza de João Garcia, assim transformado em herói (nacional), fazendo relembrar hábitos de tempos em que a censura limitava (forçava…) as escolhas dos autores.
Finalmente, “Obrigada, patrão” recordou-me (em antítese) os muitos autores que, ao longo dos muitos anos que levo ligado à BD, dizem não criar por não terem onde publicar, porque Rui Lacas, numa atitude rara entre nós, com umas quantas dezenas de pranchas prontas, foi ao festival de BD de Angoulême, França, mostrá-las. Encontrou editor na Suiça (Paquet), no ano passado e, só depois, agora, em Portugal. O seu desenho tem por base uma linha clara de traço grosso, expressiva e muito dinâmica, com multiplicidade de enquadramentos e belos achados, como a utilização de palavras como onomatopeias, tudo pintado predominantemente por tons de ocre, amarelo e castanho, que evocam a região onde se passa a história, a Zambujeira e o seu clima sufocante. Como sufocante é a narrativa, um retrato amargo da relação entre os senhores das terras e os trabalhadores rurais, mostrando como as prepotências daqueles cerceiam os sonhos destes, como as ilusões da infância podem ser espezinhadas pelas (tristes) realidades da idade adulta, e que culmina com um inesperado toque de humor negro, que valoriza o todo.


Escrito Por

F. Cleto e Pina

Publicação

Jornal de Notícias

Futura Imagem