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Criador do Homem-Aranha e dos X-Men vai desenvolver super-heróis para a Disney

Acordo assinado ontem dá à Disney prioridade nos projectos de Stan Lee, que também criou os X-Men e o Hulk

Dois dos maiores nomes da indústria cinematográfica e dos quadradinhos norte-americanos anunciaram a assinatura de um contrato para desenvolvimento de novos projectos: Stan Lee, o criador do Homem-Aranha, Hulk, X-Men ou Demolidor, através da sua empresa POW! Entertainement, e a Walt Disney Company.

O acordo agora firmado, nascido por iniciativa de Bob Chapek, presidente da divisão de entretenimento doméstico da Disney, dá a esta empresa prioridade sobre todos os projectos desenvolvidos por Lee para diferentes suportes: filmes com actores reais, desenhos animados, livros, banda desenhada, projectos para televisão, etc.

Dick Cook, Presidente da Disney Studios afirmou que Stan Lee “é uma das mais criativas e inventivas forças da indústria actualmente”. Como que a corroborá-lo, Lee, que, com 84 anos, parece indestrutível como os seus heróis, afirmou ter “milhões de projectos; tenho gavetas repletas de ideias para filmes, programas de televisão e muitas outras coisas” com novos heróis como El Lobo, Chameleon, Thunder Rider, Whirlwind, Doubleman, Nightbird ou Blaze que, “com sorte, se poderão tornar grandes sucessos”.

Nascido a 28 de Dezembro de 1922, em Nova Iorque, Stanley Martin Lieber entrou para a Timely Comics (hoje em dia Marvel Comics) com apenas 17 anos e sem funções precisas. Durante os anos 40 tornou-se um dos argumentistas das “Casa das Ideias” e, no início dos anos 60, com a percepção das mudanças introduzidas pela guerra e pelo período que se lhe seguiu, inovou dentro do género, criando os chamados “super-heróis com problemas reais”, com quem os leitores se podiam identificar, como o Quarteto Fantástico, o Homem-Aranha ou os X-Men, que fizeram da Marvel a principal editora de comics e hoje fazem milhões nas bilheteiras. Com uma aparição fugaz, ao jeito de Hitchcock, em todos os filmes protagonizados pelos seus heróis, – dia 14 estreia “Quarteto Fantástico e Surfista Prateado”, e em diferentes fases de produção estão “Hulk 2”, “Thor”, “Nick Fury”, “Homem-de-Ferro” ou “Wolverine” – Lee já se transformara a próprio em herói de BD, partilhando com algumas das suas criações a série “Stan Lee meets…”, que assinalou os seus 65 anos na Marvel, devendo aparecer proximamente nos EUA na forma de action figure.

Stripperella fora do acordo

“Stripperella”, que a Disney já anunciou não querer retomar, foi uma série de animação para adultos estreada nos EUA em 2003. O corpo de Pamela Anderson (que deu voz à protagonista) serviu de modelo aos desenhadores para a stripper Erotica Jones, uma loura sensual que usa como armas contra criminosos como o Dr. Cesarean, um cirurgião plástico que faz implantes de seios explosivos, um piercing vibratório, um detector de mentiras nos seios ou um scanner sob a língua.

Sem grande sucesso, “Stripperella” valeu a Lee um processo por parte de uma verdadeira stripper, sob a acusação de se ter inspirado numa ideia que ela lhe teria contado.


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Um homem sem memória

Um livro por dia
Título: XIII – El Cascador
Autores: Jean Van Hamme (argumento) e William Vance (desenho)
Editora: ASA
Preço sem desconto: 12,00 €

“XIII” é uma das mais (justamente) aclamadas séries de aventuras da BD franco-belga, marcada pelo traço realista e expressivo de Vance, e pelas múltiplas inflexões e o suspense constante do argumento de Van Hamme. Narra a saga de um homem, com o número XIII tatuado num ombro, amnésico devido a um ferimento de bala, perseguido por autoridades e criminosos.

Neste álbum, continuando em busca do seu passado e da sua identidade, após um envolvimento com uma qualquer guerrilha centro-americana, encontra-se preso numa impenetrável fortaleza, de onde só um golpe audacioso, quase suicida, o poderá libertar. Alvo de duas paixões, uma actual e uma pertença (?) do seu passado, XIII vai encontrar, finalmente, uma pista credível sobre o seu passado.


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Extrapolação

Devido à coexistência (nos mercados ocidentais) de comics, BD franco-belga e mangas, e às múltiplas influências que daí resultam, alguns acreditam que no futuro (não tão distante) toda a produção de BD convergirá para um mesmo padrão. Tenho dúvidas, porque continuo a acreditar na capacidade criativa dos autores.

Não sendo exemplo disto, até porque tal ainda não se concretizou, “Fantôme” (Casterman), de Suk Jung-hyun, ilustra, de alguma forma, como tal se poderá traduzir: o traço, hiper-realista, e as cores estão mais próximos do conceito europeu de BD do que daquilo que costumamos associar (do que conhecemos?) à produção asiática; o desenvolvimento dos diálogos e as várias cenas de acção têm indiscutivelmente a marca manga (ou caso manhwa – BD coreana); a teoria de conspiração subjacente ao argumento, apela a uma temática bem americana.

Servida por uma planificação cinematográfica e dinâmica, a história, passada num futuro próximo, em que um cataclismo natural reduziu drasticamente a população, agora reunida num único estado, trazendo a vantagem do fim das guerras – mas também a necessidade de criar tensões para justificar a única força policial existente e a sua relação com um canal de TV -, lê-se bem e permite arriscar a extrapolação de que a massificação referida terá aspectos positivos quando significar o aproveitamento do que cada um daqueles géneros tem de melhor.


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Viagem ao universo de Hergé

Um livro por dia
Tintim, o Sonho e a Realidade: a Historia da Criação das Aventuras de Tintim
Michael Farr
Verbo
Preço 39,99 €

No ano do centenário do nascimento de Hergé, este livro é uma excelente oportunidade para um longo mergulho no universo que desenvolveu e no seu processo criativo. Nele, o inglês Michael Farr, mostra como cada história de Tintim esteve relacionada com o momento que o seu criador vivia e ilustra profusamente como Hergé se documentou para cada álbum, desde “Tintim no País dos Sovietes” até “Tintim e os Pícaros”, criando para o efeito um imenso arquivo de veículos, trajes, paisagens, posições, acessórios, etc., para conseguir obter o profundo rigor que é uma das imagens de marca de cada aventura do mais célebre repórter dos quadradinhos e que fez de cada uma delas um retrato fiel da época em que foi elaborada.


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Tex Willer em Moura

Principal herói Bonelli é destaque da 16ª edição daquele festival de BD alentejano; Fabio Civitelli presente no próximo fim-de-semana; Evento homenageia os gatos da BD e também José Abrantes, Catherine Labey e Susa Monteiro

Tex Willer, o famoso ranger dos quadradinhos italianos, chega hoje a Moura, no Alentejo. Não em busca de um qualquer malfeitor, como é habitual, mas como convidado especial de um festival já na 16ª edição. Em sua companhia, em lugar de Kit Carson, Kit ou Jack Tigre, estarão Fabio Civitelli, um dos seus mais destacados desenhadores da actualidade (ver entrevista) e os seus originais, e José Carlos Pereira Francisco, responsável pelo blog português de Tex (http://texwiller.blog.com), representante em Portugal da Mythos Editora e um dos seus maiores coleccionadores mundiais, que mostrará em Moura dois milhares de itens da sua colecção. E é oportunidade também para conhecer a vaga de novos desenhadores responsáveis pelo cow-boy, entre os quais Corrado Mastantuono, Pasquale Del Vecchio ou Frisenda.

Mas a verdade é que o tema do MouraBD 2007, que decorre no castelo local, é “O Gato”, sendo dada uma panorâmica geral destes felinos na BD e no Cartoon, a par de retrospectivas da obra de José Abrantes, Catherine Labey e Susa Monteiro, que, juntamente com Civitelli, estarão presentes no dia 2 de Junho, véspera de encerramento do evento de cujo programa constam ainda um ciclo de “Cinema e BD” e uma feira do Livro.

Quem é Tex Willer?

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Tex, que nasceu na revista “Collana del Tex”, a 30 de Setembro de 1948, e é, sem dúvida, o símbolo por excelência do império de quadradinhos populares Bonelli. Os seus criadores foram Giovanni Luigi Bonelli (texto) e Aurélio Galleppini “Galep” (desenho). De seu nome completo Tex Willer, membro dos célebres rangers do Texas, assume, simultaneamente o papel de investigador, justiceiro e até chefe índio, sob o nome de Águia da Noite. Ao seu lado tem quase sempre o seu velho amigo Kit Carson, o índio Jack Tigre e Kit Willer, seu filho. Pondo a justiça e a legalidade – a par da amizade – antes e acima de tudo, não hesita em assumir o papel de juiz e carrasco, quando tal é necessário. Apesar de beber parte da sua inspiração nos grandes westerns cinematográficos, Tex não é um western tradicional, pois muitas vezes são os índios que têm o papel de “bons” e um certo misticismo é presença recorrente nas histórias, entre as habilidades dos feiticeiros índios ou os estranhos poderes de Mefisto, o seu maior inimigo.

Com uma legião de fãs indefectíveis, um pouco por todo o mundo – acaba de chegar à Rússia – Tex é recordista de vendas em Itália, com 230 000 exemplares mensais (só da série regular), e no Brasil (40 000 ex.), onde é publicado pela Mythos Editora, que edita uma dezena de títulos de Tex, entre novas histórias, reedições e edições especiais, que chegam depois a Portugal onde vendem uns invejáveis 3 a 4 mil exemplares por mês.

“Tex é uma personagem que eu sempre amei”, afirma Fabio Civitelli, o desenhador responsável pela edição comemorativa dos 60 anos do herói

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Chama-se Fabio Civitelli, nasceu a 9 de Abril de 1955, e aos “sete, oito anos apaixonei-me pela BD. Quem mais me prendia era Tex, que continuo a ler até hoje”. Sem formação artística, cultivou “diariamente a paixão pelo desenho e sempre sonhei tornar-me um desenhador profissional”. Nasceria assim o seu traço luminoso, de linhas seguras, limpo de pormenores desnecessários, quase sempre sem tons intermédios entre o preto e o branco, que contrasta equilibradamente.

Mais tarde, “nos anos 70, li com avidez revistas de BD de autor, para tentar assimilar as novas tendências. Graças a Graziano Origa, o meu primeiro mestre, que dirigia um conhecido estúdio de Milão, aos 19 anos comecei a trabalhar em quadradinhos de bolso, eróticos e de terror. Cinco anos depois, em 1979, entrei para a Sergio Bonelli Editore, começando uma belíssima colaboração que prossegue até hoje”. O que não deixa de ser curioso já que acompanhou “muito a BD de autor”, mas o facto de “sempre me ter considerado um autor “popular” condicionou a minha escolha”. E lembra que “o meu ingresso na equipa de Tex foi decidido pelo Sergio Bonelli em pessoa. Senti-me um receoso, porque nunca tinha desenhado um western. Mas Tex é uma personagem que eu sempre amei como leitor e, ao ganhar aos poucos segurança e conhecimento do Velho Oeste, apaixonei-me tanto que não tenho vontade de fazer outro trabalho”.

Em Itália, os fumetti Bonelli vendem-se em quiosques, a preço baixo, graças ao pequeno formato, ao preto e branco e papel simples, o que, a par “das maiores exigências de produtividade e pontualidade nas entregas” faz com que muitos ainda os considerem uma forma menor de BD. Civitelli, que sempre tentou “experimentar e inovar”, considera que essa distinção “decaiu com os anos”, sublinhando que “é por opção editorial que a Bonelli se preocupa em oferecer o seu produto a um público o mais vasto possível, o que só é possível nos quiosques. A BD “de autor” vive nas lojas especializadas, com poucos milhares de leitores. As edições Bonelli contam nos seus quadros com muitos talentos criativos que produzem BD de elevada qualidade, de géneros variados, capazes de contentar todos os leitores, com um custo muito competitivo”.

Relativamente a Tex destaca “o carácter forte, decidido e pouco disposto a acordos, embora menos hoje que em tempos idos”, e tem como objectivo “trabalhar sempre no limite para contentar primeiro o editor e depois as centenas de milhares de leitores exigentes”. 

E confessa-se honrado “por ter sido escolhido para desenhar a história comemorativa dos 60 anos de Tex, como reconhecimento pelos 23 anos que já lhe dediquei, por isso estou a empenhar-me ao máximo”.

Em Moura, Civitelli conta “encontrar muitos leitores aficionados e atentos, aos quais mostrarei com prazer inéditos, incluídas as primeiras 35 pranchas daquela história, e dos quais espero críticas, conselhos e sugestões”.


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BD em festa no Microfestival de Aveiro

Fernando Alvim apadrinha o evento

Decorre entre hoje e amanhã o Microfestival BD de Aveiro, que se auto-define micro por “ter um conteúdo considerável numa janela de tempo relativamente pequena”. Fugindo ao que é tradicional nos Festivais de BD (cujos modelos têm sido postos em causa nos últimos tempos) assume uma “forte componente cultural e simultaneamente festiva”, a que não será estranho o decorrer maioritariamente em discotecas.

Começa hoje, às 21h15 no Espaço d’Orfeu, em Águeda, com a “Oficina de escrita de guião para BD”, dirigida por Teixeira Moita e prossegue amanhã, às 16h00, com um passeio de barco pela Ria de Aveiro, ao som do Special BD Set de Fernando Alvim (que apadrinha o festival), com os participantes vestidos como personagens de BD.

As horas finais decorrerão no Quest Bar Disco, em Oiã, onde estão patentes as exposições: “Concurso de painéis Dr. Kartoon”, “Telas com temas Manga”, de Carlos Gomes e trabalhos de alunos da A.R.C.A. no âmbito do espectáculo de Marcantónio Del Carlo, “Quem Matou Romeu e Julieta?”, e o Mercado do Livro organizado pela Livraria Dr. Kartoon. A partir das 21h30, haverá um colóquio sobre “Cinema e BD” por João Miguel Lameiras e José Carlos Fernandes e a apresentação de diversos projectos editoriais: “Lupin III”, de Kazuhiko Kato (edição Mangaline Portugal/Naraneko), “O ABZ do sexo”, de António Nobre e Manuel Cruz (Arteplural), “Evereste”, de Ricardo Cabral (J. F. Stª Mª Olivais/C. M. Lisboa), “C.A.O.S. Livro Dois”. de Fernando Dórdio, Filipe Teixeira e Carlos Geraldes e “Super Pig # 2”. de Mário Freitas, Carlos Pedro e Gevan (ambos da Kingpin Comics), “Um Passeio ao Outro Lado da Noite”, de J.C. Fernandes (Fundação Calouste Gulbenkian), “O Corvo III – Laços de Família”, de Luís Louro e Nuno Markl (Edições ASA) e “Aeternu”, de Hugo Jesus e Manuel Morgado.

Por entre música e copos, o Microfestival prosseguirá noite dentro com sessões de autógrafos, um concerto pelos Tempura, uma banda de covers de músicas de Anime (desenho animado japonês), a realização de um painel de BD gigante ao vivo, em plena pista de dança, por Carlos Gomes, e, uma performance de Fernando Alvim.


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Hergé morreu de SIDA?

Segundo notícia divulgada ontem no jornal belga Le Soir, Hergé terá morrido com SIDA. No dia em que os tintinófilos do mundo inteiro celebravam o centenário do nascimento do autor, a suposição foi avançada por Philippe Goddin, um dos maiores especialistas em Hergé e na sua obra, que prepara uma nova biografia sobre o desenhador de Tintin, a lançar no Outono, após três anos de trabalho aturado, que Nick Rodwell definiu como “a primeira boa biografia de Hergé”, por ter por base longas conversas com a sua viúva Fanny Rodwell, sobre os 26 anos que passaram juntos.

Goddin afirmou que Hergé pode ter sido infectado por sangue contaminado, uma vez que nos últimos anos de vida sofreu múltiplas transfusões de sangue “para encher o depósito, como dizia aos amigos”. Elas foram necessárias porque “os problemas de saúde de Hergé estavam ligadas a uma coproporfiria hereditária. Esta doença, raríssima, explicaria a degradação progressiva da saúde mental da mãe de Hergé, falecida após ter sofrido diversas crises de loucura”.

Segundo a versão oficial, Georges Remi teria falecido devido a uma leucemia, o que não explica as diversas “gripes, pneumonias e bronquites de que padeceu desde que começou com as transfusões”. Na época, embora já conhecido, o VIH, vírus responsável pela transmissão da SIDA, “ainda não era identificável” – Hergé faleceu a 3 de Março de 1983 – “e a as transfusões faziam-se sem precauções especiais”, insiste Goddin,  professor de Artes Plásticas e autor de obras como “Hergé et Tintin”, “Tintin et les Bigotudos” (sobre a génese de “Tintin e os Pícaros” e, especialmente dos cinco monumentais volumes de “Hergé – Chronologie d’une oeuvre”, que reúnem toda a obra gráfica de Hergé.


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França violenta

A violência urbana em França, notícia em todo o mundo em 2001, 2005 e, recentemente, na sequência da eleição de Nicolas Sarkozy, é o ponto de partida de “Anarky T.01 – Riot” (Humanoides Associés”), mais um dos mangas europeus pré-publicados na revista mensal “ShonenMag”.

Decorrendo num futuro próximo (2011), mostra a sociedade francesa (em vésperas de uma eleição presidencial…), refém dessa violência, contrariada pela repressão policial e pela suspensão de muitos direitos civis, situando-se a acção entre as guerras aos gangs, o tráfico desenvolvido por estes últimos e os jogos políticos de bastidores pelo controle do poder que ameaçam criar um clima de verdadeira guerra civil.

Mostrando as vantagens do modelo manga, o argumentista Karos aproveita a não-limitação de páginas para aprofundar e desenvolver diálogos que se mostram cruciais para o desenvolvimento e compreensão da trama e que servem de contraponto às cenas de maior acção e violência, onde o desenho com algumas limitações, ainda em busca de um estilo próprio, de Pazo e Hobé se mostra mais eficaz.

O volume tem como bónus o making-off deste primeiro tomo no qual Karos esmiúça as várias fases da construção do argumento e, depois, da BD, que é também um interessante guia de leitura de uma obra que, descontando alguns exageros (?), mostra como a ficção pode andar a par (ou ligeira e assustadoramente à frente?) da realidade.


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Tintin e o ecrã: uma relação atribulada

A relação de Tintin com o cinema é bem anterior ao desejo de Spielberg de levar o herói de Hergé ao cinema. Logo nos anos 30 do século passado, pequenos filmes foram difundidos, tendo por base imagens fixas retiradas dos álbuns, comentadas no momento pelo projectista, e, em 1947, Claude Misonne e João Michiels realizaram uma versão de “O caranguejo das tenazes de ouro”, com marionetas animadas.

Em 1957, a Belvision, de Raymond Leblanc, editor da revista “Tintin”, produziu para televisão algumas dezenas curtas-metragens de animação com Tintin. O relativo êxito alcançado, devido mais à popularidade do herói do que à qualidade da animação, permitiu-lhe avançar, em 1969, para a longa-metragem “Le temple du Soleil” (que contou com um original de Jacques Brel na banda sonora), (fraca) adaptação do díptico “As 7 bolas de Cristal”/”O Templo do Sol”, e, em 1972, para “Le lac aux requins”, a partir de um (desinteressante) argumento original de Greg. Esta história foi adaptada em BD, com base nos fotogramas do filme, existindo igualmente pelo menos duas versões piratas desenhadas.

Mas antes disso, em 1960 e 1964, foram levadas ao grande ecrã duas histórias originais – “Le mystère de la Toison d’Or” e “Tintin et les oranges blues” – com actores de carne e osso: Jean-Pierre Talbot como protagonista e George Wilson como Capitão Haddock.

Os anos 90 viram uma nova série animada, mais cuidada e competente, mas menos fiel aos álbuns do que o desejado, que teve, pelo menos, o mérito de apresentar um herói sexagenário a uma nova geração mais próxima da tv do que da BD.

Para além do facto de “Tintin não ter no ecrã a mesma voz que nos álbuns”, como disse um miúdo à saída de um dos filmes, um ponto é comum a todas estas adaptações: a ausência do ritmo desenfreado e do verdadeiro espírito das aventuras de Tintin. Por isso, muitos consideram que Spielberg já concretizou este seu sonho há muito: nas aventuras de Indiana Jones.


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Quando a BD reinventa a literatura

Fagin, o judeu
Will Eisner
Gradiva
12,00€
128 pp.

E de repente, sem muito bem se saber porquê, a banda desenhada volta a descobrir os clássicos da literatura. Quer no mercado franco-belga, onde editoras como a Delcourt (ver texto ao lado), a Soleil, a Casterman e a Glénat estão a lançar títulos ou colecções dedicada às suas adaptações aos quadradinhos, quer nos EUA, onde a Marvel, detentora do Homem-Aranha ou do Quarteto Fantástico, anunciou também uma colecção com as mesmas premissas. Ou até no Brasil, onde a Conrad acaba de editar a (re)leitura que Marcati fez de “A Relíquia” de Eça de Queiroz. Mas estas adaptações não se anunciam como as maçudas e maçadoras versões de tempos idos, que nem BD eram, quando desenhadores anódinos ilustraram (mal) os textos integrais; hoje, elas estão entregues a autores de créditos firmados, que as escolheram como projectos pessoais em que se empenharam, transmitindo através de uma forma de expressão diversa o espírito da obra original e os sentimentos e as emoções que a sua leitura lhes proporcionou.
Marcando uma relação diferente entre a BD e a Literatura, surgem “Long John Silver #1”, de Dorison e Laufray (Glénat/Futuropolis), homenagem a “A Ilha do Tesouro”, de Stevenson, que explora as eventuais aventuras daquele pirata, ou “Fagin, o judeu”, de Will Eisner.
Como pressuposto, Eisner, nesta obra da velhice (data de 2003, tinha o grande mestre norte-americano já 86 anos), pretende desmontar a visão estereotipada dada dos judeus na versão original do romance clássico de Charles Dickens, “Oliver Twist”. Para isso, não (re)conta aos quadradinhos aquele drama vitoriano, mas sim a vida (inventada…) do seu vilão, Fagin (“o judeu”), mas não para o absolver dos crimes que cometeu nem sequer para o justificar; divergindo de Dickens, traça um retrato díspar de Fagin, mostrando-o não como a incarnação do mal mas como um ser humano como outro qualquer, com dúvidas, contradições e incertezas, empurrado para o crime pelas vicissitudes de uma vida que lhe foi por demais madrasta, equiparável, afinal, ao retrato delicodoce que Dickens nos deixou de Oliver Twist, com o senão de que a Fagin a fortuna nunca sorriu… ou sorriu demasiado tarde.
Para isso, aproveita a história base, num interessante diálogo com a literatura, para fazer um retrato expressivo da opressiva Londres vitoriana onde ela decorre e para onde transporta o leitor, das vielas lúgubres e esconsas às ricas mansões, através da riqueza, precisão e expressividade do seu traço, aqui servido por tons sépia, que nada retiram da força dos jogos de luz e sombra em que se mostra mais uma vez mestre incontestado, bem como no domínio do ritmo narrativo marcado à custa da forma como compõe as pranchas, construindo uma narrativa forte e bem estruturada através da qual defende o seu ponto de vista e tenta suavizar a imagem exageradamente anti-semita que o texto original de Dickens transmite, mesmo que involuntariamente.
E constrói, assim, uma obra de crítica social e de costumes e também histórica, na qual contextualiza a presença judaica numa Londres tolerante e liberal mas fechada, mostrando como os judeus da Europa Central (os asquenazitas, judeus de segunda, atrás dos (mais ricos) judeus ibéricos – sefarditas), eram empurrados para vidas feitas de esquemas e expedientes nada honestos, que estiveram ma origem da imagem estereotipada dos judeus, ainda hoje comum.


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F. Cleto e Pina

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