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Mortadelo y Filémon: meio século de disparates

Francisco Ibañez, o seu criador, quer que as suas aventuras continuem quando desaparecer; “Misión: salvar la tierra”, segundo filme de imagem real estreia este ano

Quando se fala de banda desenhada popular (sem que este adjectivo seja depreciativo), diversos nomes surgem de imediato: os heróis Disney, nos EUA, a Turma da Mônica no Brasil, os fumetti Bonelli, com Tex à cabeça, na Itália… e Mortadelo y Filémon, aqui ao lado, na vizinha Espanha.
Estes últimos completam hoje 50 anos – estrearam-se a 20 de Janeiro de 1958, na revista Pulgarcito #1394, da editora Bruguera – sendo uma criação de Francisco Ibañez. Os dois protagonistas, baptizados em Portugal de Mortadela e Salamão (onde foram editados dezena e meia de álbuns, o último dos quais, “Estrelas de Cinema” (2005), pela ASA), respectivamente (in)subordinado e chefe, são uma espécie de agentes secretos e primam pela falta de discrição e de jeito, transformando cada missão num fracasso completo e num caos total. Da galeria das principais personagens fazem também parte o Super, superior hierárquico dos heróis, Ofélia, a sua (muito) gorda secretária, e o professor Bactério, inventor dos mais extravagantes apetrechos.
A série assenta num humor desbragado, quase sem limites nem temas tabus, e num ritmo infernal, onde os gags se sucedem a alta velocidade, sem um único momento de pausa que permita ao leitor respirar o fôlego. Ao mesmo tempo, Ibañez tira todo o partido do seu traço arredondado e extremamente expressivo, com as personagens (em especial Salamão, vítima constante da inépcia de Mortadelo) a ficarem momentaneamente com o corpo deformado, queimado ou quase estropiado, devido aos violentos acidentes – explosões, queda de objectos, portas que se abrem, etc. – que vão sofrendo, como é mais vulgar ver nos desenhos animados. Outra marca da série são as constantes mutações de Salamão, capaz de instantaneamente vestir um disfarce que sirva a sua missão, ou de aparecer transformado em animal, revelando assim o seu estado de espírito, ou até em objecto.
Para além de Mortadelo y Filémon, Ibañez, que nasceu a 16 de Março de 1936, em Barcelona, e espera que alguém prossiga com as suas criações quando desaparecer, criou outros sucessos, que originaram um verdadeiro império de “historietas” (BD espanhola) de humor, como “13, Rue del Percebe”, “El botones Sacarino”, “Rompetechos” ou “Pepe Gotera y Otilio”, sendo normal a interacção entre os protagonistas de todas elas.
Para assinalar os 50 anos da dupla, as Ediciones B editaram “El Gran Livro de Mortadelo y Filémon”, que resume a história de sucesso da série, traduzida também na Dinamarca, Alemanha, Brasil ou Turquia, os seus primeiros passos, as aventuras mais significativas, anedotas, curiosidades, as diversas adaptações em cinema de animação e os filmes de imagem real, HYPERLINK “http://www.mortadeloyfilemon.com/pelicula/” “La gran aventura de Mortadelo y Filemón” (2003) e “Misión: salvar la tierra” (a estrear este ano).


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F. Cleto e Pina

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Uderzo por ele próprio

Biografia do desenhador de Astérix sai em França dia 16; Novo filme de Astérix, com actores de carne e osso, chega aos cinemas no final do mês

Na próxima quarta-feira, dia 16, chega às livrarias francesas “Uderzo se raconte” (Éditions Stock), a autobiografia de Uderzo, o desenhador de Astérix. Reconhecidamente um dos grandes desenhadores de histórias aos quadradinhos, também argumentista – bem menos bem sucedido – após a morte de René Goscinny, em 1977, e um hábil gestor da imagem de Astérix e companhia, que transformou num dos grandes negócios da BD mundial, Uderzo faz, assim, a sua estreia num género diferente.
O que, com certeza, ajudará a tornar 2008 (mais) um bom ano para Astérix. Isto, mesmo não estando previsto nenhum novo álbum que Uderzo, em sucessivas entrevistas, não tem posto de parte enquanto hipótese, embora se mostre plenamente consciente da sua idade (80 anos) e das dificuldades crescentes que tem para desenhar devido aos problemas na mão direita. Porque convém não esquecer que à autobiografia há que acrescentar a estreia do terceiro filme baseado nas aventuras aos quadradinhos do pequeno guerreiro gaulês, com actores de carne e osso (Clovis Cornillac, Gérard Depardieu, Alain Delon), realizado por Frédéric Forestier e Thomas Langmann, que terá a sua estreia nos ecrãs franceses já no próximo dia 30, arrastando consigo a reedição do álbum original e um sem número de artigos de merchandising. E com a realização no Verão, em Pequim, na China, do maior de todos os eventos desportivos do calendário mundial, o título escolhido não poderia ser senão “Astérix nos Jogos Olímpicos”.
“Uderzo se raconte”, é um grosso volume de quase 300 páginas no qual Albert Uderzo conta na primeira pessoa, como o filho de imigrantes italianos em França, nascido a 25 de Abril de 1927 em Fismes, se tornou um dos mais célebres autores de quadradinhos, profissão que abraçou contra a vontade do pai.
Pelo meio, entre muitas ilustrações, indispensáveis para conhecer melhor este desenhador de eleição, ficam as suas origens italianas, a chegada dos pais a França, o encontro com Ada, o grande amor da sua vida e futura esposa, a relação com René Goscinny, com quem trabalhou durante 26 anos, criando as aventuras de João Pistolão, Humpá-pá o pele vermelha e, entre muitos outros, sobretudo, de Astérix, bem como a revista Pilote, as hesitações para continuar as aventuras dos irredutíveis gauleses após a morte do seu argumentista, a criação das edições Albert-René ou a chegada de Astérix ao grande ecrã, primeiro em desenhos animados, depois em filmes com actores de carne e osso.
Um resumo em tom terno mas divertido, que surpreende pelo dom de observação que revela, da vida e obra de um dos últimos “dinossauros” da banda desenhada mundial, Uderzo, que é, nas palavras de Maria José Pereira, editora de BD das edições ASA e, com certeza, uma das pessoas que melhor o conhece em Portugal, “”.

[Caixa]

Bom ano, Astérix!

Por cá, 2008 promete também uma boa colheita, no que a Astérix diz respeito. Ainda em Janeiro, chega às livrarias “Astérix entre os belgas”, o último título da reedição completa da série que a ASA leva a cabo desde 2003, com novas traduções, que têm a particularidade de traduzirem o nome de todas as personagens, com excepção de Astérix, Obélix e Panoramix. Ainda em Janeiro, dia 31, chega aos ecrãs portugueses “Astérix nos Jogos Olímpicos”. Aproveitando a embalagem, em Fevereiro, o livro em que a película se inspirou, ficará disponível com uma nova capa alusiva à versão cinematográfica e enriquecida com algumas informações a ela relativas.
E em Março, será finalmente lançado “Astérix e os seus amigos”, uma homenagem a Uderzo de diversos colegas de profissão, entre os quais os veteranos Tibet, Dany, Jean Graton ou Walthéry, nomes de referência como Van Hamme, Rosinski, Vance, Boucq, Loustal, Baru ou Manara, ou valores confirmados da nova geração como Mourier, Arleston, Guarnido, Tarquin ou Zep, em Abril último, a propósito do seu 80º aniversário.
E, não havendo ainda certezas, também não está excluída a hipótese de ser editada ainda este ano em português a autobiografia de Uderzo que os franceses vão conhecer já esta semana.


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Banda desenhada inspirada em placas de colmeia pintadas

Mostra de autores alternativos inaugurada hoje na Bedeteca de Lisboa

Depois de ter viajado por quase toda a Europa, é inaugurada hoje, às 15 h, na Bedeteca de Lisboa, a exposição “Honey talks”, constituída por originais de bandas desenhadas inspiradas nas pinturas realizadas em painéis de madeira que decoravam as colmeias eslovenas entre os finais do século XVIII e meados do século XX. Os apicultores pintavam, de forma naif, temas religiosos ou seculares, crítica de costumes, animais bizarros ou cenas históricas, em cores fortes e luminosas, porque acreditavam que isso levava as abelhas a reconhecerem mais facilmente a sua colmeia, o que aumentava a rentabilidade do negócio.
O projecto foi idealizado por Pakito Bolino, do colectivo francês Le Dernier Cri e coleccionador de excentricidades culturais, numa visita a um mercado em Liubliana, onde estavam à venda reproduções dos originais expostos no Mercado Etnográfico do país, como forma de artesanato. A sua concretização esteve a cabo do colectivo esloveno “Strip Core”, responsável pela revista “Stripburger” e pelas antologias temáticas “Stripburek”, que recolhem e promovem a produção de BD dos países do leste da Europa, bem como pela caixa com os livros dos autores representados na exposição: a alemã Anke Feuchtenberger, o francês Matthias Lehmann, os eslovenos Jakob Klemencic, Koco e Matej Lavrenčic, a israelita Rutu Modan, o holandês Marcel Ruijters, o húngaro Milorad Krstic, o croata Daniel Zezelj e o sérvio Vladan Nikolic. Alguns destes autores, que se basearam em imagens cedidas pelos Museus Etnográfico Esloveno e da Apicultura de Radovljica para as suas reinterpretações pós-modernas, têm obras editadas em Portugal na Polvo, Associação Chili com Carne ou na revista Quadrado.
A exposição, patente na Bedeteca até final de Fevereiro, em cuja inauguração estarão presentes Klemencic e David Kracan, editor da Stripburger, inclui ainda réplicas dos antigos painéis de colmeias e novos painéis pintados por autores eslovenos.


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Prémio Artemisia para Johanna

Johanna Schippers, nascida em Taiwan e aluna da Escola Superior de Imagem de Angoulême, foi contemplada com o Prémio Artemisia 2008, pelo álbum “Nos âmes sauvages” (Futuropolis). Tal como “Nèe quelque part” (Delcourt), esta é uma obra autobiográfica, na qual Johanna, num estilo semi-realista e caricatural, confronta a sua experiência com o chamanismo dos índios jívaros e o quotidiano ocidental onde ainda está bem presente o estereótipo do “bom selvagem”.
Aberto apenas á participação feminina e atribuído agora pela primeira vez, o Prémio Artemisia, foi criado pela associação com o mesmo nome – fundada, entre outras, pelas autoras de BD Chantal Montelier e Jeanne Puchol e a escritora Marie-Jo Bonnet – que tem por objectivo dar visibilidade e reconhecimento à criação de BD no feminino.


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Wilhelm Busch morreu há 100 anos

Artista alemão foi um dos percursores da banda desenhada; Autores contemporâenos de BD homenageiam criador de Max und Moritz

Há 100 anos, morria Wilhelm Busch, percursor da banda desenhada sem o saber. O termo só nasceria mais de meio século depois e a data da sua invenção (1906) só seria estabelecida em 1989 (com óbvios propósitos mediáticos) por um colégio de especialistas (entre os quais Vasco Granja), reunidos em Lucca, Itália. Isso, no entanto, não o impediu de criar verdadeiras sequências narrativas, desenhadas com traço caricatural, rápido e expresivo, e mesmo de criar dois dos primeiros heróis regulares da 9ª arte, os endiabrados Max e Moritz, em 1865, inspiradores de uma pleiade de duplas de garotos traquinas, como The Katzenjammer Kids (os célebres Sobrinhos do Capitão), juntando-se a um reduzido número de percursores dos quadradinhos, onde se contam, entre outros, o suíço Topfer e o português Bordallo Pinheiro. Max e Moritiz, são verdadeiros diabos à solta, cruéis e desagradáveis, sempre em busca de maldades para fazerem, narradas em sete episódios que constituem um todo e um retrato pela negativa do que deve ser o mundo da infância.
Nascido a 15 de Abril de 1832, em Widensahl, na Alemanha, Busch, que foi também poeta e pintor, fez estudos politécnicos em Hanover, antes de aprender técnicas litográficas em Dusseldorf. Ao mesmo tempo que se interessava pela obra de pintores como Hals, Rubens ou Brouwer, dava também os primeiros passos na caricatura, publicando em 1959, os seus primeros trabalhos nesta arte e também as suas primeiras bandas desenhadas.
Os 175 anos do seu nascimento, em 2007, e o centenário da sua morte deram origem a diversas exposições, nomeadamente no museu que tem o seu nome, em Hanover, e deixam como marco uma emissão filatélica pelos correios alemães com outra das suas personagens, Hans Huckebein, o lançamento de uma moeda de 10 euros, em prata, com a sua efígie, e a edição do livro “Wilhelm Busch und die Folgen” (Wilhelm Busch e os seus continuadores), que mostra a sua importância no imaginário colectivo alemão e em especial nos seus criadores gráficos, que conta com a colaboração dos mais proeminentes autores de banda desenhada germânicos das últimas décadas, como Ralph Koenig, Volker Reiche, Martin Tom Dieck ou Ulf K.


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Parar de fumar

Foi o que decidiu fazer Cati Baur, que conta aos quadradinhos a sua experiência nesse sentido no livro “J’arrête de fumer” (Delcourt). Experiência inicialmente narrada de forma regular (o que dá ao livro um tom de quase diário íntimo) no blog que mantém desde 2004, que é mais um exemplo de como as novas tecnologias podem ser usadas pelos quadradinhos.
No livro, que combina ilustração e sequências narrativas, desenhadas em traço fino, expressivo, composto com tons de cinzento dados a pincel, Cati Baur descreve, sem intenções moralistas (“eu fanfarrono o que quiser, é o meu livro”, escreve ela) e algum humor (que se vai esbatendo ao longo das páginas), o que passou para conseguir cumprir o seu propósito: a falta da nicotina, os sonhos em que fumava, como passou a contabilizar tudo em maços de cigarros (poupados) e não em euros, o aumento de peso, a indiferença dos próximos (“quando se acende um cigarro há sempre alguém para exprimir desaprovação; quando não o fazemos, ninguém nos felicita…”), como certas coisas (tomar um café, ir a uma festa ou um bar) parecem não fazer sentido sem um cigarro a acompanhar, aspectos que quase ofuscam por completo as alegrias das pequenas (grandes) vitórias quotidianas, sempre que um cigarro fica por acender….
Porque a recaída é sempre possível e parar de fumar “…nunca, nunca é algo adquirido”.

PS: Quase 10 anos (que se completariam a 11 de Fevereiro) e 456 colunas depois, este espaço “Aos Quadradinhos” chega ao fim. Àqueles que me acompanharam, (mais ou menos) regularmente, o meu obrigado; espero que tenham encontrado tanto prazer como eu em (pelo menos) algumas das centenas de edições aos quadradinhos, cuja leitura me pareceu relevante.


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Homem-Aranha e Hulk ao serviço das Nações Unidas

Depois de enfrentarem os mais incríveis vilões – e até de se enfrentarem um ao outro – o Homem-Aranha e o Incrível Hulk, dois dos super-heróis imaginados por Stan Lee, no princípio dos anos 60 do século passado, vão estar juntos de novo, mas desta vez ao lado das forças das Nações Unidas, com o objectivo de melhorar a sua desgastada imagem nos Estados Unidos, bastante afectada durante a presidência Bush, e também ensinar aos mais novos a importância das acções internacionais de cooperação e sensibilizá-los para problemas que têm lugar noutros pontos do globo.
A notícia foi dada em primeira-mão pela versão digital do Financial Times e confirmada pela Marvel Comics: os criadores da chamada “Casa das ideias” estão a desenvolver um comic-book no qual aqueles super-heróis se colocarão ao serviço da ONU para ajudarem a resolver conflitos e livrarem o mundo de algumas ameaças, tal como já aconteceu, por exemplo, com o Capitão América ou o Super-Homem, que, ao lado das forças aliadas, combateram Hitler e os exércitos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.
A história, desenrolar-se-á num país fictício, embrenhado num conflito armado, e o Homem-Aranha e o Hulk trabalharão lado a lado com as forças de manutenção de paz da ONU, os capacetes azuis. A revista, com uma tiragem de um milhão de exemplares, será inicialmente distribuída gratuitamente nas escolas dos Estados Unidos. Posteriormente serão feitas traduções em francês e noutras línguas, para permitir uma maior difusão do projecto.
Segundo Camilla Schippa, da secção de parcerias das Nações Unidas, o guião da história já está escrito, devendo ser aprovado até final de Fevereiro do próximo ano. Seguir-se-ão as fases de desenho a lápis, passagem a tinta, aplicação da cor e legendagem. Todos os artistas envolvidos neste projecto trabalharão gratuitamente.
Na origem desta ideia esteve o realizador francês Romuald Sciora, que actualmente elabora um DVD sobre a Organização das Nações Unidas, que deverá ser distribuído nas escolas juntamente com a banda desenhada.
A utilização dos heróis da Marvel em causas sociais ou campanhas de sensibilização não é inédita; já este ano, por exemplo, o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico protagonizaram o comic-book “Hard Choices”, integrado numa campanha de prevenção do uso e abuso de álcool pelos adolescentes, igualmente nos EUA.


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“Sou um contador de histórias”

Palavras de Fernando Relvas, nome grande da BD portuguesa, a residir na Croácia; Autor auto-editou recentemente diversos títulos pelo sistema “print on demand”; São crónicas de viagem em que combina texto, desenho e fotografia

O nome próprio é Fernando, mas foi pelo sobrenome de Relvas que se tornou conhecido, como um dos mais notórios autores de BD nacionais. A partir de 1978 na revista Tintin, com “L123”, “Cevadilha Speed” ou “O Espião Acácio”, depois no semanário “Se7e”, onde se perderam (para a posteridade) obras marcantes para uma geração como “Concerto para Oito Infantes e um Bastardo”, “Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino” ou “Karlos Starkiller”, crónicas urbanas de uma certa marginalidade, feitas de acção transbordante e humor desconcertante, quase sempre na Lisboa onde nasceu em 1954. Nos anos 90, o encontro (finalmente) com os álbuns, revelaram um autor em busca das histórias paralelas da nossa História, que não encontraram o seu público.
Há três semanas, Relvas regressou aos jornais, de forma efémera, com uma prancha no semanário gratuíto “Mundo Universitário”, no espaço coordenado há dois anos por Geraldes Lino, que o foi desinquietar na Croácia natal da sua mulher, onde reside “porque a certa altura se tornou óbvio que não estávamos a fazer nada em Portugal”. E sem rumo certo, como muitos dos heróis de papel que criou, “assim que surgir uma boa oportunidade, partiremos”. Porque, “como aí, os editores também são timoratos e com pouca imaginação e arrastam-se em promessas sem concretização”, o que o fez procurar alternativas, que encontrou “num artigo do “The Guardian”, sobre o site lulu.com” e o sistema “print on demand” (POD) (ver caixa). “Não me pareceu que perdesse algo em experimentar. O sistema é prático, a impressão boa, o prazo de pagamento rigorosamente respeitado”. Mas, “para o tornar rentável é preciso investir na promoção…” Por isso está ainda “em fase experimental”, não excluindo a hipótese “da edição clássica, que o POD, uma ferramenta útil, não substitui”. Assim, no lulu.com, entre milhares de propostas, estão as mais recentes experiências narrativas (ver caixa) do “contador de histórias que sou. Se é a banda desenhada que me permite fazê-lo melhor, então serei autor de banda desenhada”. Mas “não tem sido o caso nos últimos anos, pois cansei-me de desenhar e só encontrei sossego quando comecei a escrever mais e a desenhar menos”.
Banda desenhada (será?) onde tem “misturado tudo” – texto, desenho em computador, fotografia… – “como em Costa” ou na página do “Mundo Universitário”.
Estas obras, bem como as experiências que vai partilhando no seu blog (http://hardline-approach.blogspot.com)“, surpreendentemente são todas em inglês, “o que não foi fácil, porque gosto de escrever em português. Mas colocar publicações on-line só para leitores de língua portuguesa numa pareceu-me fraca iniciativa”. Depois, “comecei a achar graça à língua inglesa”, embora não ponha de parte o regresso à língua materna “se a procura o justificar ou surgir uma proposta séria dum editor português”, até porque “é uma língua que eu conheço bem!”.
Os seus projectos são “continuar a contar histórias, só não garanto que em BD. A experiência no Lulu reaproximou-me do desenho, mas tenho ali uns ficheiros de Word que me chamam com insistência…”

[Caixa 1]
Os novos títulos
Fernando Relvas tem disponível no lulu.com cinco títulos, aqui resumidos pelo autor:

“O Urso vai a Espanha”
Acabada de escrever em 2005, é a minha primeira novela. Inspirei-me no ambiente de uma BD feita cinco anos antes. No centro da história, que tem os mesmos elementos de movimento e rapidez duma BD, um simples mas estranho mistério que envolve um frete marítimo. É para ser lida entre dois pontos de uma viagem e é uma mistura de argumento de BD com crónica de viagem.

“Costa”, 1 e 2
Histórias curtas, relatos das viagens, aventuras e trabalhos de Costa, um marinheiro reformado que se entrega aos excitantes prazeres da cozinha, da pintura e do desenho, e dos encontros com misteriosas mulheres.

“Palmyra”
Segunda versão duma história concebida para ser publicada em Portugal em 2000, a sua acção passa-se em Lisboa, junto ao Tejo, algures entre um passado próximo e um vago futuro. Nela uma bióloga, Jau, é perseguida ao recusar-se colaborar num projecto sobre peixes transgénicos.

“Ink flow”
Histórias com poucas palavras e muita tinta, feitas sem esboços preparatórios, para ler com o texto em fundo, enquanto se acompanha o fluir da tinta.

[Caixa 2]
Print on demand
O sistema “print on demand” (POD) apresenta, à partida, dois atractivos: não implica investimento inicial e não gera stocks. O POD assenta num princípio simples: o autor entrega ao site a obra acabada (BD, livro, CD, DVD, etc.) em formato digital, e este coloca-a disponível para ser encomendada on-line, só imprimindo cada exemplar à medida que vai recebendo encomendas. O preço de custo tem por base o custo de fabrico do produto, ao qual o autor acrescenta a margem que desejar, sendo que o site fica com uma percentagem da mesma (entre os 10 % e os 25 %). Uma vez colocada a encomenda, o produto é fabricado, devidamente acondicionado e expedido para casa do comprador, que o recebe até três semanas depois.
Principal senão: toda e qualquer promoção fica a cargo do autor, que, no entanto, em qualquer momento pode retirar a obra do site ou introduzir as alterações ou correcções que ache necessárias, bem como consultar o número de exemplares já vendidos.


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Grande final

24 anos depois da sua origem (!), finalmente está desvendado um dos maiores mistérios da BD franco-belga: a verdadeira identidade de XIII, o amnésico (assassino do presidente dos EUA? filho de um agitador comunista? revolucionário na América Latina? terrorista irlandês?) protagonista de um dos maiores sucessos do género.
Segredo revelado num final duplo pois Van Hamme, para falar da conturbada situação vivida na Irlanda, escreveu um álbum extra – “La Version Irlandaise” (Dargaud), com traço de Jean Giraud – fundamental mas demasiado explicativo, a que falta o ritmo trepidante de outros tomos da série – presente, por exemplo, no 19º e último volume, “Le Dernier Round”, como sempre assinado por William Vance – na qual surgem surpreendentemente ligados os nomes de Kelly Brian e Jason Fly – que os portugueses já conhecem da atribulada edição que a série está a ter (está?) no nosso país, com apenas 10 dos álbuns desde 1988 (!?).
E o grande final de “XIII”, um dos mais apaixonantes relatos de mistério e acção jamais contados aos quadradinhos, demonstra a invulgar capacidade inventiva e narrativa de Jean Van Hamme, um dos maiores argumentistas que a BD conheceu, justificando a sua (re)leitura na totalidade, para comprovar o perfeito encadear da história… enquanto se espera a confirmação dos rumores que anunciam álbuns “paralelos” dedicados aos co-protagonistas da série!


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Impressões

Rei
António Jorge Gonçalves (desenho) e Rui Zink (argumento)
Edições ASA
328 p.
16,00 €

Dez anos depois de “A arte suprema” (oportunamente reeditada pela ASA, com nova roupagem), então a “primeira novela gráfica portuguesa” (aproveitando o momento forte que as obras assim catalogadas viviam), António Jorge Gonçalves e Rui Zink (ou vice-versa) voltaram a encontrar-se para juntarem vontades e inspirações que desaguaram em “Rei”, que pode ser considerado próximo do manga (bd japonesa, o género aos quadradinhos em ascensão nos nossos dias). Próximo no formato – livro -, no local da acção (e de inspiração) – o Japão -, na utilização de alguns dos códigos da linguagem manga.
De “Rei”, convém começar por explicar o título: tão só um nome feminino japonês, vulgar, tal como Maria, em Portugal. Porque o resto se torna difícil de explicar, podendo-se aspirar apenas a compartilhar impressões de leitura. Porque cada leitor, cada leitura – até as leituras dos autores, seus primeiros leitores – conduzirá por caminhos diferentes, levará a destinos diversificados, tão aberta é a obra – talvez demais até no final indefinido (por finalizar?), distante de muitos dos pressupostos que a narrativa foi traçando…
Simplificando o que não é simples (nem simplificável…), pode-se resumir “Rei” como a história de duas buscas. A de Nuno, 20 anos, que se busca a si mesmo na distância (a que se coloca da progenitora) do país longínquo que é o Japão, procurando a sua razão de ser no país que o seu mestre (de karaté e meditação) o fez idealizar. Nuno que encontra no Japão um amigo, Yukio, e Rei, a rapariga andróide (a explicação simplista) ou a projecção dos seus distúrbios mentais (a leitura racional)…
A segunda busca é a da mãe de Nuno, Teresa, que, um ano depois, também vai ao Japão, em busca do filho. E de uma relação inexistente. Mãe que, apesar de muito ocupada com a sua actividade política – é alguém importante em Portugal – continua a ver (e a tratar/a ignorar) o filho como se ele ainda fosse uma criança. Mãe que o filho vê como a Madrasta da Branca de Neve, altiva, distante, indisponível… Má. Mas que não passa de uma mulher, que pode ser – é – solitária, sensível, sincera no seu desejo de ser mãe. Na sua busca, Teresa leva Tano, o mestre do seu filho. Para a guiar e ajudar… Também para o castigar, como causador da partida do filho… e algo mais. Tano, que teme o que pode encontrar, no (re)encontro forçado com a origem que nunca teve, com as suas referências, ganhas na distância…
Estas duas buscas – duas histórias – são narradas em paralelo, alternadamente, graficamente de forma distinta. Para a segunda é utilizada um traço mais trabalhado, próximo do real visível, anatomicamente proporcionado, servido por correctos contrastes de luz e sombra. A busca de Nuno tem um traço mais arredondado, estilizado, livre, esboçado ao correr da imaginação, sem trabalho preparatório, longe da realidade, metafórico, onírico, alucinado.
Porque “Rei” é uma obra extremamente gráfica, que obriga o leitor a grande atenção, exigindo muito dele, impelindo-o à interpretação constante dos desenhos que vê. Que contam/narram mais do que aquilo que mostram explicitamente, quase sempre em páginas de uma vinheta só, cheias com pormenorizados planos de conjunto, vigiando de longe, no vazio, uma acção concreta, ou mergulhando(-nos) nas personagens, em close-ups alucinantes, sempre em equilíbrio perfeito com os diálogos que fluem livremente ou falando-nos alto quando são os silêncios (a ausência de texto) que imperam.


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