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Revista de BD de terror lançada hoje

A revista de banda desenhada “Zona Negra” é lançada hoje, sexta-feira, às 19h15 no cinema S. Jorge, em Lisboa, com a presença de alguns dos seus colaboradores, estando a apresentação a cargo de João Maio Pinto.
Esta é a segunda edição do projecto independente Zona, que publica ilustrações e bandas desenhadas de jovens autores portugueses, com o objectivo de motivar a produção de novos trabalhos e o desenvolvimento artístico dos autores participantes.
Depois da boa aceitação do inicial “Zona Zero”, datado de Junho último, surge este número temático, dedicado ao terror aos quadradinhos, ou não esteja o seu lançamento integrado na programação do festival de cinema MOTELx 2009, que até ao próximo domingo divulga a mais recente produção internacional de cinema de terror, incluindo a estreia mundial, hoje, às 19h30, do filme “Viva la Muerte! – Autopsie du Nouveau Cinéma Fantastique Espagnol”, do francês Yves Montmayeur.
A “Zona Negra”, que ficará depois disponível em livrarias especializadas, tem meia centena de páginas a preto e branco, contando com a colaboração, entre outros, de Eduardo Monteiro (que assina a capa), Hugo Teixeira, Maria João Careto ou Roberto Macedo Alves. Para o final do ano está previsto o lançamento do terceiro número, denominado “Zona Gráfica”.


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F. Cleto e Pina

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Histórias de Portugal em Banda Desenhada

O relato da(s) História(s) de Portugal e dos portugueses, uma das poucas temáticas permitidas à BD portuguesa pela censura durante os anos da ditadura, continua a ser um nicho explorado por alguns autores face a um mercado com diversas limitações.

O nascimento da banda desenhada realista, com a publicação nos EUA de “Tarzan” e “Buck Rogers”, em Janeiro de 1929, teve reflexos nos autores portugueses que a experimentaram, seguindo alguns dos modelos ingleses e norte-americanos vistos em revistas como “O Papagaio”, “O Mosquito” ou “O Diabrete”. No entanto, progressivamente, as limitações que a censura impunha, obrigaram-nos a optar quase sempre pelas temáticas que exaltavam o amor à Pátria e os feitos dos heróis portugueses. Por esse motivo, muitos heróis seriam “nacionalizados”: entre outros, Michel Vaillant foi rebaptizado Miguel Gusmão, Rip Kirby virou Rúben Quirino e Flash Gordon passou a Capitão Relâmpago. Por isso, nos anos 40 e 50, os criadores lusos adaptaram clássicos da literatura, narraram episódios históricos ou fizeram deles (re)leituras ficcionadas (mas fiéis), em títulos como “O Caminho do Oriente” (a viagem de Vasco da Gama à Índia, vista pelos olhos de um miúdo, de E. T. Coelho e Raul Correia), “O Falcão” (a resistência à invasão napoleónica, de José Garcês), “Serpa Pinto” (de Fernando Bento) ou “A peregrinação de Fernão Mendes Pinto” de (José Ruy).
Curiosamente, terminada a ditadura, alguns autores nacionais optaram por manter esse registo, por ser uma área em que se tinham especializado e na qual não tinham a concorrência estrangeira – cujos quadradinhos ficcionais sempre chegaram ao nosso mercado a custos (bem) mais convidativos para os editores. Entre eles, contam-se José Ruy (cujos 25 anos da sua adaptação dos “Lusíadas em BD” foram recentemente assinalados com uma edição integral, pela Âncora Editora) e José Garcês (autor da “História de Portugal em BD”), ambos há mais de seis décadas ligados aos quadradinhos.
Nos últimos anos, explorando uma outra vertente, têm-se multiplicado histórias em banda desenhada de vilas e cidades – Guarda, Gouveia, Fornos de Algodres, Pinhel, Faro, Ourém, Penamacor, Oliveira de Hospital, Penamacor, Amadora, Paredes, Penafiel, Sabugal… – quase sempre com o apoio (ou mesmo edição) dessas autarquias, que distribuem os livros pelas escolas e bibliotecas locais – mas raramente nas livrarias, o que os torna inacessíveis ao leitor habitual.
Neles, a par dos veteranos citados, encontram-se João Amaral, José Pires ou Baptista Mendes, todos ligados a um registo realista clássico, mas também autores da nova geração, como Manuel Morgado ou Ricardo Cabrita, o que parece provar que este é um caminho que vale a pena trilhar, quanto mais não seja porque lhes permite trabalhar na arte que escolheram como sua.

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Portugal aos quadradinhos

Este ano houve já diversas edições evocativas dos acontecimentos que fizeram das localidades o que elas são. A sul, a “História de Olhão”, de José Garcês, narra os momentos mais marcantes da localidade, a propósito dos 200 anos da sua elevação a vila e da revolta contra as tropas napoleónicas.
Subindo no mapa, do Alentejo, chegam “Salúquia – A Lenda de Moura em Banda Desenhada”, que tem a particularidade de reunir dezena e meia de versões do mesmo conto, em registos que vão do realismo mais tradicional ao humor ou à sua transposição para outras épocas, e o recente “O Crime de Arronches”, a adaptação por Eugénio Silva da obra literária homónima de 1924 de Henrique Mendes de Mendonça. Em Tomar, foi lançado “Fernando Lopes-Graça – Andamentos de uma vida”, de Ricardo Cabrita, que conta de forma sóbria (um)a biografia do maestro, compositor e musicólogo, a propósito dos 100 anos do seu nascimento.
Com um salto para Norte, encontramos “História de uma Língua e de um Povo”, uma abordagem histórico-ficcional da origem da língua mirandesa, feita por José Ruy e Amadeu Ferreira, editado em português e… mirandês. Mais perto do litoral, nasceu um projecto diferente, pequenos livros de apenas oito páginas, criados por Sara Coelho, Rui Alves e Teresa Cardia, sobre figuras históricas/lendárias do Alto Minho, que, no final, serão reunidos num único álbum; o primeiro, dos dez previstos, editado pela edilidade de Monção, foi dedicado a Deu-La-Deu Martins.


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“A BD é mais poderosa do que qualquer outra forma de expressão”

Afirma David Rubin, autor galego de banda desenhada

Chama-se David Rubin, nasceu em Ourense em 1977, e, de passagem pelo Porto, para inaugurar exposições de originais na Biblioteca Municipal de Gaia (até 31 de Agosto) e na livraria/galeria Mundo Fantasma (C.C. Brasília, até 13 de Setembro), conversou com o JN sobre a BD galega. Ou melhor, sobre a “BD feita na Galiza, onde há autores a trabalhar para lá, para Espanha, França, Estados Unidos, mas não em histórias com vacas ou castros.” A existir uma “BD galega”, ela distinguir-se-á pela maneira “de escrever, de sentir, como se expressam as personagens, que é o que torna as obras autênticas e perduráveis no tempo”. Co-fundador do colectivo Polaquia, que edita a revista “Barsowia”, afirma que a 9ª arte na Galiza “está no seu melhor momento porque nunca houve tantos autores no activo, tantas propostas editoriais, tantos não galegos publicados em galego”. Apesar disso, não “há que lançar foguetes, pois ainda há muito para avançar”.
Conversador agradável, finalista do Prémio Nacional de Comic espanhol em 2007, por “La teteria del oso malayo” (Astiberri), define-se “antes de tudo como um autor de BD que também faz cinema e ilustração” e considera os quadradinhos “mais complexos e poderosos que qualquer outra forma de expressão, seja a literatura, o cinema, o teatro…”, pois “um autor de BD é escritor, desenhador, pintor, encenador, iluminador, monta, marca o ritmo, planifica, define a velocidade de leitura…”
Apesar de ter feito “o primeiro comic aos 7 anos”, acredita que com “cada livro aprende e dá um pouco mais do que no anterior”. E se a sua ambição é viver da banda desenhada, mesmo que pudesse “não deixaria a animação ou a ilustração”, pois não quer “confinar-se a um único meio e ficar limitado”.
Nas suas histórias, Rubin fala do que o “inquieta, preocupa ou diverte”, sem ter que agradar a editores, leitores ou modas. O que não impede que tenha aceite o desafio de adaptar em apenas 30 pranchas “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, ou “O Monte das Almas”, de Gustavo Bécquer, com os quais aprendeu “a usar a sombra e a cor como elementos narrativos e a dar a primazia ao relato em relação ao desenho”. O que é fundamental, pois “os comics são sobretudo um meio narrativo”.
Define-se como “um criador visceral, que trabalha com as tripas e o coração, deixando que a arte flua sem controle”, pelo que por vezes o resultado o surpreende. Gosta de reler o trabalho impresso, para verificar “se tudo saiu bem” e folheia-o “de vez em quando para ver a evolução, pois ela não se planeia; conforme se avança na vida, experimentam-se coisas diferentes que afectam o desenho e as formas de contar histórias”.
Tendo estado nos festivais de BD de Beja e da Amadora, acredita no potencial destes encontros em que se “vão formando pontes que beneficiam todos” e lhe permitiram descobrir e apreciar autores portugueses (que nomeia sem dificuldade) como Paulo e Susa Monteiro – que já publicou na “Barsowia” – Miguel Rocha, Filipe Abranches, José Carlos Fernandes, Pedro Brito ou Pedro Nora. E defende maiores intercâmbios entre festivais portugueses e galegos e até edições conjuntas.


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Portugal e Galiza (re)encontram-se na BD

Exposições do galego David Rubin e dos portugueses Miguel Rocha/João Paulo Cotrim, dão corpo ao 1º Encontro Luso-Galaico de BD, que é inaugurado amanhã, na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia.

As mostras, integradas nas manifestações de Vila Nova de Gaia – Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2009, que decorrem até final do mês, serão inauguradas às 16h30, na presença dos autores.
Apesar da denominação escolhida, esta não é a primeira vez que a BD portuguesa e da Galiza se encontram (ver caixa) o que também não significa que os contactos já havidos tenham sido especialmente frutíferos. As explicações poderiam ser várias, desde a forma independente como trabalham a maior parte dos criadores à enorme diferença entre a realidade dos quadradinhos aqui e na Galiza, com vantagem para esta última, onde a 9ª arte atravessa há uma década um momento especialmente dinâmico e estimulante. E que é visível, por exemplo, na multiplicação de eventos dedicados à “banda deseñada”, desde as históricas Xornadas de Ourense ou o Salón de Cangas ao já incontornável Viñetas desde o Atlântico, dirigido pelo mais prestigiado autor de BD galego, Miguelanxo Prado, ou na proliferação de publicações, independentes e colectivas, como “BD Banda”, “Golfiño” (distribuída com o jornal “La Voz de Galícia”), ou “Barsowia”.
Por cá, face a um mercado em contracção (ao contrário do espanhol, que recebe anualmente mais de 2000 títulos) e com os jornais de portas fechadas, os novos quadradinhos portugueses têm passado por edições independentes, de pequena tiragem e circulação limitada, como “Mocifão”, “Gambuzine”, “Efeméride”, “Super Pig”, “A Fórmula da Felicidade”, “Noitadas, Deprês e Bubas”, “Venham +5”, “Tomorrow The Chinese Will Deliver The Pandas”, “O filme da minha vida”, “Murmúrios das Profundezas” ou “Zona Zero”.
David Rubin, nascido em Ourense em 1977, é a principal atracção do encontro de Gaia. Dividido entre o desenho e a animação, é um dos rostos mais visíveis da nova BD galega, como co-fundador do colectivo Polaqia e pela obra que tem espalhado por inúmeras publicações e dois álbuns – “El circo del desaliento” e “La tetería del Oso Malayo” (ambos da Astiberri) – em que dá largas ao seu traço realista distorcido, expressivo e muito legível, com que liberta narrativas curtas, mas fortes e bem estruturadas. Originais seus estarão igualmente na livraria/galeria Mundo Fantasma (C.C. Brasília), até 13 de Setembro, que a propósito editou um giclée numerado e assinado por Rubin.
Miguel Rocha e João Paulo Cotrim mostram em Gaia “As Lições de Salazar”, um dos capítulos do premiado romance gráfico “Salazar – Agora, na hora da sua morte” (Parceria A. M. Pereira), uma visão desassombrada que desconstrói o mito do ditador, mostrando o seu lado humano, com muitas fragilidades e limitações. Cotrim, nascido na capital, em 1965, primeiro director da Bedeteca de Lisboa, é membro do projecto Gulbenkian/Casa da Leitura e assessor do Centro Cultural de Belém, e tem uma vasta obra, aos quadradinhos e não só. Miguel Rocha, também natural de Lisboa (1968), tem desenvolvido um estilo original e personalizado em títulos como ”A vida numa colher – Beterraba” e “MALITSKA” (ambos da Polvo).
São duas das (muitas) formas diferentes de abordar a BD que podem ser descobertas até final do mês, como aperitivo para depois as desfrutar no papel.

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Primeiro encontro foi há 19 anos, no Rivoli

O primeiro “Encontro Luso-Galaico de Banda Desenhada” teve lugar no Porto, no Teatro Rivoli, de 23 a 30 de Dezembro de 1990, e foi organizado pelo projecto Comicarte, no ano em que, após cinco anos consecutivos, não realizou o Salão Internacional de BD do Porto, devido à criação, na sede da Comissão de Jovens de Ramalde, da primeira bedeteca portuguesa, entretanto desactivada.
Como base teve as exposições: “Más Criações”, que mostrava a nova banda desenhada nacional, e “Debuxantes en Banda”, da Casa da Xuventude de Ourense, que ilustrava a realidade galega. Convívio de autores e fãs, o encontro teve também quatro painéis de debates, sobre “BD contemporânea: Sangue e sexo à discrição”, “Crítica e críticos: Função e utilidade”, “O uso da BD no ensino” e “BD infantil, de origem a parente pobre”, e um café-concerto com poesia de Mário de Sá-Carneiro e de Rosalia de Castro, dita por Isabel Aragão, e uma actuação do grupo Jig.


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O honesto Li’l Abner nasceu há 75 anos

Improvável neste tempo “globalizado”, uma tira diária de banda desenhada ambientada no coração da América profunda era também algo original há 75 anos, quando a 13 de Agosto de 1934 se estreou “Li’l Abner”. Mas que se entendia, numa América que começava a sair da crise em que a tinha mergulhado a Grande Depressão económica de 1929 e em que muitos defendiam o retorno às origens.
A sua acção desenrolava-se maioritariamente em Dagpotch, um espelho dos EUA, e o seu protagonista era Li’l Abner Yokum, um provinciano pouco inteligente e infantil que vivia uma existência simples com o pai e a mãe, apenas perturbada pelas aparições tempestuosas de Daisy Mae, uma loura de formas generosas com quem viria a casar.
A série era regida por um princípio simples: os Abner eram pobres mas honestos; o resto da humanidade não, que originava histórias divertidas, cujo tom ia do poético ao cínico, mas sempre com uma forte componente de crítica social e política, encabeçada por personagens imbecis e preguiçosas.
O seu criador foi Al Capp (pseudónimo de Alfred Gerald Caplin) que tinha sido assistente de Ham Fisher, em “Joe Palooka”, antes de encontrar o sucesso com “Li’l Abner” que, depois de uma estreia modesta numa quinzena de jornais, teve um sucesso retumbante que o levou a quase um milhar de periódicos nos anos 40 e ser adaptado em folhetins televisivos e radiofónicos, numa comédia musical da Brodway (interpretada por Jerry Lewis) e numa longa-metragem (em 1959). A par do registo burlesco e satírico, Capp, que foi indicado para o Nobel da Literatura por John Steinbeck, evidenciou um virtuosismo gráfico, assente num traço expressivo e dinâmico, numa boa utilização de sombras e numa legendagem original.
A partir de 24 de Fevereiro de 1935, “Li’l Abner”, que foi publicado em Portugal pontualmente, passou também a ter uma prancha dominical, igualmente assinada por Capp que animou a sua criação até ao fim, a 13 de Novembro de 1977, dois anos antes da sua própria morte.


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Vida da princesa Diana em Banda Desenhada

Acaba de ser lançada nos Estados Unidos a biografia de Diana de Gales em banda desenhada. Intitulada simplesmente “Princess Diana”, narra a sua vida desde pequena até à sua morte trágica, num acidente de viação, em Agosto de 1997, passando pelo seu casamento com o Príncipe Carlos e os posteriores desentendimentos que levaram à sua separação, não esquecendo a influência e popularidade que teve e que continuou mesmo após a sua morte.
Em formato comic, com 32 páginas a cores, é da autoria de Chris Arrant, Ryan Howe e Vinnie Tartamella, e é a primeira biografia de uma não-americana incluída na colecção “Female Force”, da Bluewater Productions, dedicada a “mulheres notáveis que estão a moldar a história moderna”, e por onde já passaram Hillary Clinton, Sarah Palin, Michelle Obama ou Caroline Kennedy. Condoleezza Rice, Oprah Winfrey e Stephenie Meyer, a autora do best-seller “Crepúsculo”, são outros dos títulos já anunciados.
Esta colecção nasceu após o sucesso das biografias desenhadas de Barak Obama e John McCain, lançadas antes das últimas eleições presidenciais norte-americanas. As duas obras deram origem à colecção “Political Power”, que também já dedicou volumes a Joe Biden, Colin Powell e Ronald Reagan.
Entretanto, na Alemanha, as Editions Eichborn, acabam de editar “Miss Tchormanie” (que é como quem diz “Miss Alemanha” com um forte acento germânico), um livro de cartoons dedicado a Ângela Merkel. Escrito por Miriam Hollstein e desenhado por Heiko Sakurai dá uma imagem agradável da primeira mulher a governar aquele país, facto a que poderão não ser alheias as eleições federais em Setembro próximo.


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De Profundis, um belo poema animado

“De Profundis” é a história de uma relação intensa e apaixonada de um pintor pelo mar, contada na forma de filme animado por Miguelanxo Prado, que o Bosque Secreto estreia em Portugal na próxima quinta-feira.

Conhecido (e aclamado) como autor de BD, o autor galego, aquando da sua passagem pelo Fantasporto, em 2007, definiu-o ao JN como “uma pesquisa artística para relacionar a pintura, a música e as novas tecnologias da imagem, um projecto extremamente pessoal” no qual se empenhou “durante quatro anos: os dois primeiros na pré-produção, e os dois seguintes de dedicação total e exclusiva”, porque fez “todos os desenhos – em pintura a óleo – necessários para a animação”.
Mas desengane-se quem pensa ir assistir a uma película animada por computador, em 3D, com ritmo frenético e (algum) humor; Prado optou pela animação tradicional e um ritmo contemplativo, “para quem é capaz de estar 15 minutos a ver um pôr-do-sol no mar”. O que não impede que neste filme, talvez como nunca, o desenho virtuoso de Prado brilhe, reluza, cative e atraia, realçado pela forma pausada como a acção decorre, qual mergulho extasiado no mar que o protagoniza, ao som da música original (indissociável da animação) de Nani Garcia “um amigo, músico de Jazz, com larga experiência de escrita de música para cinema e televisão”, cujas composições, interpretadas pela Orquestra Sinfónica da Galiza, marcam o ritmo, acentuam a narrativa, exprimem emoções e sensações e são o único som dos 75 minutos deste filme sem diálogos, produzido pela Continental Producciones, em co-produção com a Desembarco Produccións e a Zeppelin Filmes, e que pode ser visto a partir de quinta-feira nos cinemas UCI El Corte Inglês e Cinema City Classic Alvalade.
A história, lê-se na versão em banda desenhada, editada pela ASA, começa numa “casa no meio do mar, que tinha uma torre voltada a Poente, uma escadaria que se estendia pela água adentro e, a Levante, uma árvore que floria entre Março e Abril”. Nesta minúscula e estranha ilhota, um lugar de todo improvável, que desde logo marca o tom do filme, fantástico e maravilhoso, mais próximo do sonho do que da (nossa) realidade cinzenta, “viviam, apaixonados, uma mulher que tocava violoncelo e um pintor fascinado pelo mar e pelas suas criaturas…”. Pintor que, após um naufrágio, enceta uma viagem maravilhosa pelo mar profundo, onde (re)descobre tudo o que projectou nas suas telas.
Prado acredita que os portugueses “que vivem com o mesmo Atlântico que me inspirou” e que têm “uma cultura marítima e uma relação próxima com o mar, terão uma sensibilidade especial para entender a história, o seu lado onírico, a mitologia de sereias e monstros marinhos, os sonhos e terrores que o mar inspira”.
E, se a gestação de “De Profundis” coincidiu com a catástrofe do petroleiro “Prestige”, Prado nega “a ideia de denúncia”; o filme tem “uma clara vocação de redenção, uma espécie de ritual propiciatório, um pedido de perdão. Pretende recuperar o oceano na sua concepção mais limpa, mais brilhante, mais tradicional. É um conto, com muita poesia”.

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Saramago em animação

Antecedendo “De Profundis”, é projectada “A Maior Flor do Mundo”, uma curta-metragem (10 minutos) dirigida por Juan Pablo Etcheverry, baseada no conto homónimo de José Saramago, que, para além de (breve) narrador, surge como co-protagonista desta película, feita da animação mista de plasticina e desenhos, que tem coleccionado distinções.
Nela, Etcheverry aceita a proposta do Nobel de “reinventar a sua história” e consegue ultrapassar o obstáculo que Saramago a si próprio aponta – narrar a sua história às crianças com palavras simples – ao substituí-las por (belas) imagens animadas envoltas na música agradável de Emílio Aragón, que narram a aventura de um menino que percorre uma enorme distância para levar água a uma flor. Um conto simples e poético, aberto a muitas interpretações – tantas quantos aqueles que o lerem/ouvirem/verem – da mensagem de respeito pelo ambiente à concretização dos sonhos, passando pelo prazer das descobertas, a procura do nosso lugar neste mundo ou o valor das pequenas acções.


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A sensual Betty Boop estreou-se na BD há 75 anos

Frágil, elegante, olhos grandes, boquinha pequena, a formar beicinho, pernas bem torneadas, medidas exactas, ombros e pernas nuas, liga na perna esquerda, voz suave em que pronunciou vezes sem conta o famoso “boop-oop-a-doop”… Esta é a imagem de marca de Betty Boop que, se hoje pouco mais provoca do que um sorriso, quando chegou à BD, a 23 de Julho de 1934, em tiras diárias da autoria de Bud Couniham, possivelmente fez sonhar mais do que um leitor.
Esse foi, no entanto, o segundo nascimento da sensual pin-up dos anos 30, inspirada no visual da cantora Helen Kane, já que a sua estreia acontecera a 9 de Agosto de 1930, em versão animada, num filme intitulado “Dizzy Dishes”, da autoria de Grim Natwick e Max Fleisher. O que poucos sabem é que então era uma… cadela (literalmente!), fazendo parceria com o cãozinho Bimbo, numa tentativa de emular o sucesso crescente e imparável do par Mickey e Minnie Mouse. Como a ideia não teve sucesso, a evolução para figura humana surgiu como alternativa, em filmes ambientados no meio cinematográfico, bem explícitos quanto ao tema sexo, com a cantora e actriz a usar vestidos bem curtos e, por vezes, até transparentes. Depois de uma parceria com Popeye, em 1933, a entrada em vigor do Hays Act, uma lei censória que veio regulamentar e “limpar” o cinema e os quadradinhos, obrigou a despojar Betty Boop do carácter provocador e provocante que a distinguia, tornando-lhe a vida breve nos quadradinhos, marcados por um humor ingénuo. A tira diária terminou logo em Março de 1935 e as pranchas dominicais, iniciadas em Dezembro de 1934, resistiram apenas até Novembro de 1937. Nos anos 80, ensaiou novo regresso à BD, em parceria com o (em tempos também) popular Felix the Cat, mas a experiência terminaria ao fim de quatro anos.
Hoje, quando muitos ignoram as suas origens desenhadas, esta septuagenária que hoje cumpre as suas Bodas de Ouro na BD, não é mais do que uma popular referência retro, usada e abusada em merchandising.


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A Lua em (todos os) quadradinhos

Musa inspiradora de poetas e escritores, pintores e escultores, a Lua também não deixou indiferente os criadores de banda desenhada, tendo alguns enviado até lá os seus heróis de papel.
O mais célebre de todos os astronautas da banda desenhada é, com certeza, Tintin que por lá andou quase 20 anos antes de Neil Armstrong, no diptíco “Rumo à Lua”/”Explorando a Lua” começado a publicar a 30 de Março de 1950. Partindo da imaginária Sildávia, num foguetão concebido pelo Professor Tournesol, numa viagem com imensas semelhanças com aquela que a NASA organizou em 1969, Tintin, Haddock, Milu e os Dupont foram até ao satélite da Terra numa aventura que, se se enquadra no tom aventuroso normal da série, é também bastante plausível do ponto de vista científico, graças à profunda investigação que Hergé levou a cabo antes de a iniciar. Mais tarde, o autor voltaria ao tema, narrando, numa BD de apenas quatro páginas, a aventura vivida por Armstrong.
À mesma Lua, por diversas vezes, foram os heróis Disney. Numa das mais famosas, “The Loony Lunar Gold Race“, escrita pelo “homem dos patos”, Carl Barks, em 1964, Donald e Patinhas procuram lá ouro, mas Mickey e Pateta também foram astronautas mais do que uma vez, como agora, na recém-editada “Topolino e il guardiano lunare”, que assinala os 40 anos da chegada do homem à Lua. Claro está, nunca se cruzaram com o solitário Astronauta, de Maurício de Sousa, que percorre o espaço na sua nave esférica, nem com o Spirit de Will Eisner e Wally Wood, que também lá foi, em perseguição de um criminoso, no ano de 1952, em “Outer Space”. E se os heróis Disney, mais do que uma vez encontraram selenitas, no insuspeito policial Dick Tracy, criação célebre de Chester Gould, o filho do protagonista desposava uma bela… lunática. Da Lua provinha também a pedra que dava super-poderes à Moon Girl, uma super-heroína dos anos 40, criada por Max Gaines, Gradner Fox e Sheldon Moldoff, com vários pontos de contacto com a Mulher Maravilha, bem como o broche que transforma Usagi Tsukino na bela Sailor Moon, reencarnação de uma guerreira lunar e protagonista do manga a que dá título.
A adaptação do sucesso televisivo “Espaço 1999”, que teve edição portuguesa, mostrou o nosso satélite como base de naves espaciais, ideia usada em muitas outras histórias aos quadradinhos de ficção-científica, como é o caso de “Nathan Never”, um polícia que vive 200 anos no futuro, originário da Casa das Ideias Bonelli, imaginado por Medda, Serra e Vigna em 1988.
Para além disso, essa mesma Lua, onde o trapalhão Gaston Lagaffe, de Franquin, tem permanentemente a cabeça, testemunhou alguns dos banquetes de Astérix, Obélix e dos outros gauleses irredutíveis, assistiu aos oníricos passeios na cama andante do Little Nemo, de Winsor McKay, e foi companhia dos devaneios do errante Corto Maltese, de Hugo Pratt.
A terminar, duas curiosidades: em “Carson de Vénus”, que o Mundo de Aventuras publicou há cerca de um quarto de século, uma novela de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan, adaptada aos quadradinhos por Mike Kaluta, o herói, após meses de exaustivos preparativos, parte rumo a Marte, acabando por chegar a Vénus… por se ter esquecido da Lua nos seus cálculos! E dez anos antes de Armstrong descer na Lua, numa tira diária publicada no jornal inglês “Daily Express” de 21 de Novembro de 1959, Jeff Hawke, herói de ficção-científica criado por Sydney Jordan, para assinalar a sua presença no satélite terrestre, colocava uma placa na qual se lia esta previsão quase exacta: “A 4 de Agosto do ano terrestre de 1969, o primeiro ser pisou a Lua. Chamava-se Homo sapiens”!


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50 anos a animar a Turma

A 18 de Julho de 1959, Maurício de Sousa iniciava “oficialmente” a sua carreira com o cãozinho azul Bidu que, recorda, “foi assim baptizado no jornal Folha da Manhã, hoje Folha de S. Paulo”, apesar de já sair “em tiras a toda a largura da página, semanalmente, desde Maio”.
Eram os primeiros passos de um ex-repórter policial, hoje com 73 anos, que tentara a BD realista antes de (se) encontrar com a Turma da Mônica, que fez dele uma referência e um exemplo para sucessivas gerações. 50 anos e 200 personagens depois, vendeu mais de 1000 milhões de revistas, em 50 idiomas e 126 países, licenciou 3000 produtos, possui o maior estúdio de BD do Brasil e é o maior produtor de cinema de animação daquele país.
Para este sucesso, tem uma explicação simples: a Turma da Mônica é formada por crianças que agem como crianças e que reflectem valores imutáveis e fundamentais: “amizade, solidariedade, superação”.
Depois do Bidu, vieram o Franjinha, o Cebolinha, Mônica, a estrela da companhia, inspirada num dos dez rebentos que teve em seis casamentos. E também o Cascão e a Magali, Chico Bento, a tétrica turma do Penadinho, o mini-dinossauro Horácio, o Astronauta e até o português Alfacinha. Ou Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho, mini-heróis de papel, sempre com a bola nos pés. E um filho de pais separados, uma menina cega, outro paraplégico, para que as suas criações reflictam sempre o mundo real, defendendo a integração, o direito à diferença, o respeito pelos outros.
Projectos nunca faltam: o regresso às bancas portuguesas, há dois anos, Mônica, Cebolinha e os outros, adolescentes, em estilo manga, campanhas educativas e de sensibilização, edições pedagógicas na China, Ronaldinho Gaúcho numa série animada em Itália, revistas em inglês e espanhol (“um velho sonho”), o desejo de ver Pelezinho como mascote do Mundial de 2014…
Agora, depois da Unicef fazer da “dentucinha” sua embaixadora, as comemorações incluem vários livros, uma homenagem de cartoonistas, a partir de 2ª-feira neste site, um documentário no Biography Channel e a exposição “Maurício 50 anos”, no Museu Brasileiro de Escultura, que traça o seu percurso e mostra os heróis da Turma reinterpretando obras de arte clássicos.


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