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Prémio Artemisia para Johanna

Johanna Schippers, nascida em Taiwan e aluna da Escola Superior de Imagem de Angoulême, foi contemplada com o Prémio Artemisia 2008, pelo álbum “Nos âmes sauvages” (Futuropolis). Tal como “Nèe quelque part” (Delcourt), esta é uma obra autobiográfica, na qual Johanna, num estilo semi-realista e caricatural, confronta a sua experiência com o chamanismo dos índios jívaros e o quotidiano ocidental onde ainda está bem presente o estereótipo do “bom selvagem”.
Aberto apenas á participação feminina e atribuído agora pela primeira vez, o Prémio Artemisia, foi criado pela associação com o mesmo nome – fundada, entre outras, pelas autoras de BD Chantal Montelier e Jeanne Puchol e a escritora Marie-Jo Bonnet – que tem por objectivo dar visibilidade e reconhecimento à criação de BD no feminino.


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Wilhelm Busch morreu há 100 anos

Artista alemão foi um dos percursores da banda desenhada; Autores contemporâenos de BD homenageiam criador de Max und Moritz

Há 100 anos, morria Wilhelm Busch, percursor da banda desenhada sem o saber. O termo só nasceria mais de meio século depois e a data da sua invenção (1906) só seria estabelecida em 1989 (com óbvios propósitos mediáticos) por um colégio de especialistas (entre os quais Vasco Granja), reunidos em Lucca, Itália. Isso, no entanto, não o impediu de criar verdadeiras sequências narrativas, desenhadas com traço caricatural, rápido e expresivo, e mesmo de criar dois dos primeiros heróis regulares da 9ª arte, os endiabrados Max e Moritz, em 1865, inspiradores de uma pleiade de duplas de garotos traquinas, como The Katzenjammer Kids (os célebres Sobrinhos do Capitão), juntando-se a um reduzido número de percursores dos quadradinhos, onde se contam, entre outros, o suíço Topfer e o português Bordallo Pinheiro. Max e Moritiz, são verdadeiros diabos à solta, cruéis e desagradáveis, sempre em busca de maldades para fazerem, narradas em sete episódios que constituem um todo e um retrato pela negativa do que deve ser o mundo da infância.
Nascido a 15 de Abril de 1832, em Widensahl, na Alemanha, Busch, que foi também poeta e pintor, fez estudos politécnicos em Hanover, antes de aprender técnicas litográficas em Dusseldorf. Ao mesmo tempo que se interessava pela obra de pintores como Hals, Rubens ou Brouwer, dava também os primeiros passos na caricatura, publicando em 1959, os seus primeros trabalhos nesta arte e também as suas primeiras bandas desenhadas.
Os 175 anos do seu nascimento, em 2007, e o centenário da sua morte deram origem a diversas exposições, nomeadamente no museu que tem o seu nome, em Hanover, e deixam como marco uma emissão filatélica pelos correios alemães com outra das suas personagens, Hans Huckebein, o lançamento de uma moeda de 10 euros, em prata, com a sua efígie, e a edição do livro “Wilhelm Busch und die Folgen” (Wilhelm Busch e os seus continuadores), que mostra a sua importância no imaginário colectivo alemão e em especial nos seus criadores gráficos, que conta com a colaboração dos mais proeminentes autores de banda desenhada germânicos das últimas décadas, como Ralph Koenig, Volker Reiche, Martin Tom Dieck ou Ulf K.


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Parar de fumar

Foi o que decidiu fazer Cati Baur, que conta aos quadradinhos a sua experiência nesse sentido no livro “J’arrête de fumer” (Delcourt). Experiência inicialmente narrada de forma regular (o que dá ao livro um tom de quase diário íntimo) no blog que mantém desde 2004, que é mais um exemplo de como as novas tecnologias podem ser usadas pelos quadradinhos.
No livro, que combina ilustração e sequências narrativas, desenhadas em traço fino, expressivo, composto com tons de cinzento dados a pincel, Cati Baur descreve, sem intenções moralistas (“eu fanfarrono o que quiser, é o meu livro”, escreve ela) e algum humor (que se vai esbatendo ao longo das páginas), o que passou para conseguir cumprir o seu propósito: a falta da nicotina, os sonhos em que fumava, como passou a contabilizar tudo em maços de cigarros (poupados) e não em euros, o aumento de peso, a indiferença dos próximos (“quando se acende um cigarro há sempre alguém para exprimir desaprovação; quando não o fazemos, ninguém nos felicita…”), como certas coisas (tomar um café, ir a uma festa ou um bar) parecem não fazer sentido sem um cigarro a acompanhar, aspectos que quase ofuscam por completo as alegrias das pequenas (grandes) vitórias quotidianas, sempre que um cigarro fica por acender….
Porque a recaída é sempre possível e parar de fumar “…nunca, nunca é algo adquirido”.

PS: Quase 10 anos (que se completariam a 11 de Fevereiro) e 456 colunas depois, este espaço “Aos Quadradinhos” chega ao fim. Àqueles que me acompanharam, (mais ou menos) regularmente, o meu obrigado; espero que tenham encontrado tanto prazer como eu em (pelo menos) algumas das centenas de edições aos quadradinhos, cuja leitura me pareceu relevante.


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Homem-Aranha e Hulk ao serviço das Nações Unidas

Depois de enfrentarem os mais incríveis vilões – e até de se enfrentarem um ao outro – o Homem-Aranha e o Incrível Hulk, dois dos super-heróis imaginados por Stan Lee, no princípio dos anos 60 do século passado, vão estar juntos de novo, mas desta vez ao lado das forças das Nações Unidas, com o objectivo de melhorar a sua desgastada imagem nos Estados Unidos, bastante afectada durante a presidência Bush, e também ensinar aos mais novos a importância das acções internacionais de cooperação e sensibilizá-los para problemas que têm lugar noutros pontos do globo.
A notícia foi dada em primeira-mão pela versão digital do Financial Times e confirmada pela Marvel Comics: os criadores da chamada “Casa das ideias” estão a desenvolver um comic-book no qual aqueles super-heróis se colocarão ao serviço da ONU para ajudarem a resolver conflitos e livrarem o mundo de algumas ameaças, tal como já aconteceu, por exemplo, com o Capitão América ou o Super-Homem, que, ao lado das forças aliadas, combateram Hitler e os exércitos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.
A história, desenrolar-se-á num país fictício, embrenhado num conflito armado, e o Homem-Aranha e o Hulk trabalharão lado a lado com as forças de manutenção de paz da ONU, os capacetes azuis. A revista, com uma tiragem de um milhão de exemplares, será inicialmente distribuída gratuitamente nas escolas dos Estados Unidos. Posteriormente serão feitas traduções em francês e noutras línguas, para permitir uma maior difusão do projecto.
Segundo Camilla Schippa, da secção de parcerias das Nações Unidas, o guião da história já está escrito, devendo ser aprovado até final de Fevereiro do próximo ano. Seguir-se-ão as fases de desenho a lápis, passagem a tinta, aplicação da cor e legendagem. Todos os artistas envolvidos neste projecto trabalharão gratuitamente.
Na origem desta ideia esteve o realizador francês Romuald Sciora, que actualmente elabora um DVD sobre a Organização das Nações Unidas, que deverá ser distribuído nas escolas juntamente com a banda desenhada.
A utilização dos heróis da Marvel em causas sociais ou campanhas de sensibilização não é inédita; já este ano, por exemplo, o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico protagonizaram o comic-book “Hard Choices”, integrado numa campanha de prevenção do uso e abuso de álcool pelos adolescentes, igualmente nos EUA.


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“Sou um contador de histórias”

Palavras de Fernando Relvas, nome grande da BD portuguesa, a residir na Croácia; Autor auto-editou recentemente diversos títulos pelo sistema “print on demand”; São crónicas de viagem em que combina texto, desenho e fotografia

O nome próprio é Fernando, mas foi pelo sobrenome de Relvas que se tornou conhecido, como um dos mais notórios autores de BD nacionais. A partir de 1978 na revista Tintin, com “L123”, “Cevadilha Speed” ou “O Espião Acácio”, depois no semanário “Se7e”, onde se perderam (para a posteridade) obras marcantes para uma geração como “Concerto para Oito Infantes e um Bastardo”, “Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino” ou “Karlos Starkiller”, crónicas urbanas de uma certa marginalidade, feitas de acção transbordante e humor desconcertante, quase sempre na Lisboa onde nasceu em 1954. Nos anos 90, o encontro (finalmente) com os álbuns, revelaram um autor em busca das histórias paralelas da nossa História, que não encontraram o seu público.
Há três semanas, Relvas regressou aos jornais, de forma efémera, com uma prancha no semanário gratuíto “Mundo Universitário”, no espaço coordenado há dois anos por Geraldes Lino, que o foi desinquietar na Croácia natal da sua mulher, onde reside “porque a certa altura se tornou óbvio que não estávamos a fazer nada em Portugal”. E sem rumo certo, como muitos dos heróis de papel que criou, “assim que surgir uma boa oportunidade, partiremos”. Porque, “como aí, os editores também são timoratos e com pouca imaginação e arrastam-se em promessas sem concretização”, o que o fez procurar alternativas, que encontrou “num artigo do “The Guardian”, sobre o site lulu.com” e o sistema “print on demand” (POD) (ver caixa). “Não me pareceu que perdesse algo em experimentar. O sistema é prático, a impressão boa, o prazo de pagamento rigorosamente respeitado”. Mas, “para o tornar rentável é preciso investir na promoção…” Por isso está ainda “em fase experimental”, não excluindo a hipótese “da edição clássica, que o POD, uma ferramenta útil, não substitui”. Assim, no lulu.com, entre milhares de propostas, estão as mais recentes experiências narrativas (ver caixa) do “contador de histórias que sou. Se é a banda desenhada que me permite fazê-lo melhor, então serei autor de banda desenhada”. Mas “não tem sido o caso nos últimos anos, pois cansei-me de desenhar e só encontrei sossego quando comecei a escrever mais e a desenhar menos”.
Banda desenhada (será?) onde tem “misturado tudo” – texto, desenho em computador, fotografia… – “como em Costa” ou na página do “Mundo Universitário”.
Estas obras, bem como as experiências que vai partilhando no seu blog (http://hardline-approach.blogspot.com)“, surpreendentemente são todas em inglês, “o que não foi fácil, porque gosto de escrever em português. Mas colocar publicações on-line só para leitores de língua portuguesa numa pareceu-me fraca iniciativa”. Depois, “comecei a achar graça à língua inglesa”, embora não ponha de parte o regresso à língua materna “se a procura o justificar ou surgir uma proposta séria dum editor português”, até porque “é uma língua que eu conheço bem!”.
Os seus projectos são “continuar a contar histórias, só não garanto que em BD. A experiência no Lulu reaproximou-me do desenho, mas tenho ali uns ficheiros de Word que me chamam com insistência…”

[Caixa 1]
Os novos títulos
Fernando Relvas tem disponível no lulu.com cinco títulos, aqui resumidos pelo autor:

“O Urso vai a Espanha”
Acabada de escrever em 2005, é a minha primeira novela. Inspirei-me no ambiente de uma BD feita cinco anos antes. No centro da história, que tem os mesmos elementos de movimento e rapidez duma BD, um simples mas estranho mistério que envolve um frete marítimo. É para ser lida entre dois pontos de uma viagem e é uma mistura de argumento de BD com crónica de viagem.

“Costa”, 1 e 2
Histórias curtas, relatos das viagens, aventuras e trabalhos de Costa, um marinheiro reformado que se entrega aos excitantes prazeres da cozinha, da pintura e do desenho, e dos encontros com misteriosas mulheres.

“Palmyra”
Segunda versão duma história concebida para ser publicada em Portugal em 2000, a sua acção passa-se em Lisboa, junto ao Tejo, algures entre um passado próximo e um vago futuro. Nela uma bióloga, Jau, é perseguida ao recusar-se colaborar num projecto sobre peixes transgénicos.

“Ink flow”
Histórias com poucas palavras e muita tinta, feitas sem esboços preparatórios, para ler com o texto em fundo, enquanto se acompanha o fluir da tinta.

[Caixa 2]
Print on demand
O sistema “print on demand” (POD) apresenta, à partida, dois atractivos: não implica investimento inicial e não gera stocks. O POD assenta num princípio simples: o autor entrega ao site a obra acabada (BD, livro, CD, DVD, etc.) em formato digital, e este coloca-a disponível para ser encomendada on-line, só imprimindo cada exemplar à medida que vai recebendo encomendas. O preço de custo tem por base o custo de fabrico do produto, ao qual o autor acrescenta a margem que desejar, sendo que o site fica com uma percentagem da mesma (entre os 10 % e os 25 %). Uma vez colocada a encomenda, o produto é fabricado, devidamente acondicionado e expedido para casa do comprador, que o recebe até três semanas depois.
Principal senão: toda e qualquer promoção fica a cargo do autor, que, no entanto, em qualquer momento pode retirar a obra do site ou introduzir as alterações ou correcções que ache necessárias, bem como consultar o número de exemplares já vendidos.


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Grande final

24 anos depois da sua origem (!), finalmente está desvendado um dos maiores mistérios da BD franco-belga: a verdadeira identidade de XIII, o amnésico (assassino do presidente dos EUA? filho de um agitador comunista? revolucionário na América Latina? terrorista irlandês?) protagonista de um dos maiores sucessos do género.
Segredo revelado num final duplo pois Van Hamme, para falar da conturbada situação vivida na Irlanda, escreveu um álbum extra – “La Version Irlandaise” (Dargaud), com traço de Jean Giraud – fundamental mas demasiado explicativo, a que falta o ritmo trepidante de outros tomos da série – presente, por exemplo, no 19º e último volume, “Le Dernier Round”, como sempre assinado por William Vance – na qual surgem surpreendentemente ligados os nomes de Kelly Brian e Jason Fly – que os portugueses já conhecem da atribulada edição que a série está a ter (está?) no nosso país, com apenas 10 dos álbuns desde 1988 (!?).
E o grande final de “XIII”, um dos mais apaixonantes relatos de mistério e acção jamais contados aos quadradinhos, demonstra a invulgar capacidade inventiva e narrativa de Jean Van Hamme, um dos maiores argumentistas que a BD conheceu, justificando a sua (re)leitura na totalidade, para comprovar o perfeito encadear da história… enquanto se espera a confirmação dos rumores que anunciam álbuns “paralelos” dedicados aos co-protagonistas da série!


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Impressões

Rei
António Jorge Gonçalves (desenho) e Rui Zink (argumento)
Edições ASA
328 p.
16,00 €

Dez anos depois de “A arte suprema” (oportunamente reeditada pela ASA, com nova roupagem), então a “primeira novela gráfica portuguesa” (aproveitando o momento forte que as obras assim catalogadas viviam), António Jorge Gonçalves e Rui Zink (ou vice-versa) voltaram a encontrar-se para juntarem vontades e inspirações que desaguaram em “Rei”, que pode ser considerado próximo do manga (bd japonesa, o género aos quadradinhos em ascensão nos nossos dias). Próximo no formato – livro -, no local da acção (e de inspiração) – o Japão -, na utilização de alguns dos códigos da linguagem manga.
De “Rei”, convém começar por explicar o título: tão só um nome feminino japonês, vulgar, tal como Maria, em Portugal. Porque o resto se torna difícil de explicar, podendo-se aspirar apenas a compartilhar impressões de leitura. Porque cada leitor, cada leitura – até as leituras dos autores, seus primeiros leitores – conduzirá por caminhos diferentes, levará a destinos diversificados, tão aberta é a obra – talvez demais até no final indefinido (por finalizar?), distante de muitos dos pressupostos que a narrativa foi traçando…
Simplificando o que não é simples (nem simplificável…), pode-se resumir “Rei” como a história de duas buscas. A de Nuno, 20 anos, que se busca a si mesmo na distância (a que se coloca da progenitora) do país longínquo que é o Japão, procurando a sua razão de ser no país que o seu mestre (de karaté e meditação) o fez idealizar. Nuno que encontra no Japão um amigo, Yukio, e Rei, a rapariga andróide (a explicação simplista) ou a projecção dos seus distúrbios mentais (a leitura racional)…
A segunda busca é a da mãe de Nuno, Teresa, que, um ano depois, também vai ao Japão, em busca do filho. E de uma relação inexistente. Mãe que, apesar de muito ocupada com a sua actividade política – é alguém importante em Portugal – continua a ver (e a tratar/a ignorar) o filho como se ele ainda fosse uma criança. Mãe que o filho vê como a Madrasta da Branca de Neve, altiva, distante, indisponível… Má. Mas que não passa de uma mulher, que pode ser – é – solitária, sensível, sincera no seu desejo de ser mãe. Na sua busca, Teresa leva Tano, o mestre do seu filho. Para a guiar e ajudar… Também para o castigar, como causador da partida do filho… e algo mais. Tano, que teme o que pode encontrar, no (re)encontro forçado com a origem que nunca teve, com as suas referências, ganhas na distância…
Estas duas buscas – duas histórias – são narradas em paralelo, alternadamente, graficamente de forma distinta. Para a segunda é utilizada um traço mais trabalhado, próximo do real visível, anatomicamente proporcionado, servido por correctos contrastes de luz e sombra. A busca de Nuno tem um traço mais arredondado, estilizado, livre, esboçado ao correr da imaginação, sem trabalho preparatório, longe da realidade, metafórico, onírico, alucinado.
Porque “Rei” é uma obra extremamente gráfica, que obriga o leitor a grande atenção, exigindo muito dele, impelindo-o à interpretação constante dos desenhos que vê. Que contam/narram mais do que aquilo que mostram explicitamente, quase sempre em páginas de uma vinheta só, cheias com pormenorizados planos de conjunto, vigiando de longe, no vazio, uma acção concreta, ou mergulhando(-nos) nas personagens, em close-ups alucinantes, sempre em equilíbrio perfeito com os diálogos que fluem livremente ou falando-nos alto quando são os silêncios (a ausência de texto) que imperam.


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X-Men e Wolverine vão ter versão manga nos EUA

Projecto nasce de parceria entre a Marvel e a Del Rey Manga; Edição prevista para o primeiro semestre de 2009; Primeiras imagens agora divulgadas

A Marvel Entertainment, Inc. anunciou recentemente, no New York Anime Festival, uma parceria com a Del Rey Manga (a editora original de “Avril Lavigne – Pede 5 desejos”, lançado em português pela Gradiva) para a publicação de versões em estilo manga (BD japonesa) dos X-Men e de Wolverine. A ideia é adaptar os universos próprios daqueles super-heróis ao estilo manga (edições formato livro, a preto e branco, com muitas dezenas de páginas, protagonistas adolescentes, de olhos arregalados, predominância da acção sobre o texto, uso exaustivo de linhas indicadoras de movimento…), como forma de chegar às gerações mais jovens e ao número crescente de leitoras que dão preferência aos manga, cuja quota de mercado não pára de crescer nos EUA, tendo as suas vendas, em 2006, atingido perto de 200 milhões de dólares.
O título dedicado aos X-Men será um shojo (criação vocacionada para o público feminino, assente em comédia, drama e romance), cabendo o protagonismo a Kitty Pride (Shadowcat/Lince Negra) que será, nesta BD, a única rapariga da escola de mutantes do professor Xavier, associando assim os super-heróis à temática escolar, recorrente no género manga. Os argumentistas desta versão manga dos X-Men serão Raina Telgemeier e Dave Roman, estando os desenhos entregues ao artista indonésio Anzu.
Quanto a Wolverne será um shonen (história para um público adolescente), do qual, para já, apenas se sabe que terá argumento de Anthony Johnston.
A edição terá como editores C.B. Cebulski e Mark Paniccia, pela Marvel, e Trisha Narwani, pela Del Rey, estando o lançamento dos novos títulos, completamente independentes dos seus homónimos da Marvel, previsto para o primeiro semestre de 2009.
O site Newsrama, especializado em BD, revelou as primeiras imagens de Wolverine, Jean Grey, Mística e Magneto, ainda numa fase embrionária do esboço, mas reveladoras já do grafismo que será adoptado, e entrevistou Ruwan Jayatilleke, vice-presidente da Marvel Entertainment, Inc., que afirmou que “os fãs de comics e os leitores de manga têm muito a esperar deste projecto”, acrescentando que “se trata de um licenciamento”, cabendo assim à Del Rey todo o processo criativo e editorial, embora sob a supervisão da Marvel.

Esta não é a primeira experiência no género que a Marvel patrocina. Em 2000, foi criado o “mangaverso” (universo manga da Marvel), onde os seus principais super-heróis foram reformulados, com aspecto de adolescentes e, nalguns casos com mudança de sexo (originando, por exemplo, a Tocha Humana, a Capitã América ou a Rapariga de Ferro). O principal responsável do projecto foi o criador Ben Dunn, que assinou o primeiro e o último tomos da saga, que incluiu também histórias, assinadas por outros autores, dedicadas a diferentes personagens (Homem-Aranha, Justiceira, Quarteto Fantástico, Vingadores, X-Men), tendo ficado associados ao projecto, que durou dois anos, nomes como Chuck Austen, Adam Warren ou Peter David. Em 2005/2006, a Marvel voltou à carga com o “New Mangaverse”, cuja acção se situava num universo paralelo ao das séries habituais.
Uma abordagem diferente teve lugar com “Wolverine: Snikt” (editado em português pela Devir), uma aventura do mutante de garras retrácteis inteiramente criada pelo mestre japonês Tsutomu Nihei.

A um outro nível, alguns dos principais heróis Marvel tiveram versões próprias no Japão, em alturas em que a Marvel tentou penetrar no mercado nipónico. O caso de maior sucesso foi o Homem-Aranha, de Ryoichi Ikegami, no início da década de 70 do século passado, várias vezes reeditado, inclusive no Ocidente. Na mesma altura surgiu também “Hulk: The Manga”, publicada na revista “Weekly Bokura Magazine”, desenhado por Yashihiro Morifuji e escrito por Kazuo Koike.
Mais recente (1998-1999), é o exemplo dos X-Men, que deram origem a 12 volumes, assinados por Hiroshi Higuchi, Miyako Kojima e Koji Yasue, que tinham por base a versão em desenho animado da Fox Network.


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2008 em cheio para José Carlos Fernandes

Nova série e quatro novos títulos em português e traduções em Espanha, Brasil e Polónia

José Carlos Fernandes, apesar da chegada tardia ao mundo da banda desenhada (em 1989, já com 25 anos), é um dos mais produtivos e interessantes autores portugueses contemporâneos, com mais de um milhar de páginas e um muitos prémios no currículo, os últimos dos quais no 18º Festival Internacional de BD da Amadora, em Novembro último, onde o livro “Black Box Stories – Tratado de Umbrografia”, desenhado por Luís Henriques, recebeu os troféus para Melhor Álbum, Argumento e Desenho, tendo sido igualmente a escolha do público.
Tendo ainda fresco nas livrarias o sexto volume de “A Pior Banda Do Mundo – Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal” (Devir), tem previstos cinco novos álbuns para 2008, sendo a novidade o desdobramento por duas editoras. Assim, a Devir prevê lançar dois “Black Box Stories”, desenhados por Susa Monteiro e Roberto Gomes, e a Tinta da China vai publicar “O que está escrito nas estrelas”, um pessoalíssimo horóscopo, “A Agência de Viagens Leming – 1. Dez mil horas de jet lag”, passado “numa agência de viagens, entre um agente de erudição enciclopédica e um cliente que acaba por nunca viajar, publicada no “Diário de Notícias” no Verão de 2005″, diz o autor, e, “provavelmente, “Terra Incógnita”, ainda sem nenhum livro publicado, mas na qual deposito grandes esperanças, desenhada por Luís Henriques. São histórias surreais, que têm em comum dizerem respeito a cidades, lugares, reinos ou repúblicas imaginárias, que tem como inspiração (óbvia) “As cidades invisíveis” de Calvino, um dos meus livros favoritos”.
Em Espanha, “A Pior Banda do Mundo”, que tem tido bom acolhimento do público e da crítica, é publicada pela Devir Iberia, e será igualmente editada em basco, na revista “Nabarra”, e também na Polónia, pela Taurus Media, uma pequena mas bem estabelecida editora de BD. Uma oportunidade que surgiu “graças a um professor que ensina português lá, que gostou tanto da BD que a fotocopiou, traduziu e enviou para vários editores, por sua iniciativa e risco”. O que deixa JCF, que deverá ir à Polónia “em Março, com uma exposição, muito grato, apesar de ainda não ter conseguido chegar ao contacto com este benfeitor anónimo”.
Ainda em Espanha, a Astiberri vai publicar “A Agência de Viagens Leming”, “aproveitando a Devir Brasil a co-impressão para editar pela primeira vez, directamente em “brasileiro”, um título de José Carlos Fernandes.


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De novo

Jacques Tardi, antes de ser um grande autor de BD, é um (fantástico) pintor da Paris da primeira metade do século passado. Por isso (também) adaptou aos quadradinhos muitos romances policiais franceses, ambientados lá. E, por isso, são em Paris, nos anos 1920, as aventuras da sua heroína fetiche, Adèle Blanc-Sec.
Criada em 1976, parcialmente publicada em português (pela Bertrand e pela Witloof), é outra das suas paixões, a que regressa ciclicamente, por mais que anuncie o fim das suas (extraordinárias) aventuras. Por isso, cada novo álbum/ciclo, é como que um regresso ao passado, em que reencontrámos não só Adèle, como também uma vasta, caricatural e estereotipada galeria de aliados e vilões, como na recente primeira parte de “Le labyrinthe infernal” (Casterman), o seu nono álbum, que, significativamente, começa com ela a exclamar: “Não vamos recomeçar eternamente com os mesmos disparates!”.
Mas a verdade é que tudo recomeça, com o tom assumido de farsa, numa evocação /homenagem aos folhetins populares de então, publicados na imprensa, numa aventura em que é claro que Tardi se diverte – e assim nos diverte a nós – ao voltar a envolver Adèle com pterodáctilos, monstros, sábios loucos, atentados e conspirações, num hábil emaranhar de pistas que, como sempre, deverá culminar (no próximo álbum?) num grande final operático, que resolverá tudo… até ao próximo regresso de Adèle!


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