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Tex clássico

Com o fim das edições da Devir e o cancelamento de quase todos os títulos Disney, a BD nas bancas – em tempos o local por excelência da sua venda – está limitada ás edições Bonelli, que nos chegam pela brasileira Mythos Editora, e que actualmente são apenas três westerns, embora de características bem diferentes: Zagor, Mágico Vento (a que prometo voltar em breve) e o incontornável Tex.

Caso invulgar de longevidade (quase 60 anos de publicação ininterrupta), figura de quase culto para muitos, às oito colecções já existentes, vê agora somar-se mais uma: “Os grandes Clássicos de Tex”, cujo primeiro número está já distribuído entre nós. Destinada a recordar os momentos marcantes do percurso do ranger, esta colecção abre com o seu breve e invulgar casamento. Invulgar porque, ao contrário do habitual em muitas séries clássicas da BD, não surgiu após um namoro que parecia eterno, antes como fruto das circunstâncias (ou casava ou morria no poste das torturas…!), e breve, porque os autores rapidamente perceberam que Tex não era o tipo de herói que trabalha das 9 às 6 e volta a casa para jantar, e mataram a bela Lilith…

Para além da curiosidade, esta história, que começa com a investigação de um tráfico de armas, é um documento que mostra as origens daquele que é um verdadeiro ícone para muitos leitores, aqui pela mão dos seus criadores Giovanni Luigi Bonelli e Galep.


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Grande Prémio de Angoulême para José Muñoz

Encerrou ontem o 34º Festival de BD de Angoulême com a atribuição do Grande Prémio a José Muñoz. Escolha, consensual a todos os níveis, dos anteriores laureados, Muñoz conquistou-a “pela sua obra intensa e exigente” e por ser “um criador virtuoso”.

Um dos grandes mestres da BD a preto e branco, José Muñoz, nascido a 10 de Julho de 1942 em Buenos Aires, aprendeu com Alberto Breccia e Hugo Pratt, mas seria na Europa, a partir de 1974, que criaria fama, ao lado do também argentino e exilado político Carlos Sampayo. As aventuras de Alack Sinner, um policial de contornos humanos e sociais, são a obra mais conhecida de uma bibliografia vasta e adulta, política e socialmente empenhada, que inclui também “Viet Blues” ou “Billie Holiday”. Em português é possível apreciá-lo em “Nos Bares” (Asa, 2003) e no catálogo “José Muñoz – Cidade, jazz da solidão” (Livros Horizonte, 1994).

O Palmarés oficial de Angoulême, este ano renovado, sem os controversos prémios para argumento e desenho que “separavam” o que na BD deve ser inseparável, ficou assim definido: Melhor Álbum: “Non Non Bâ”, de Shigeru Mizuki (Cornélius); Álbuns Essenciais: “Black Hole”, de Charles Burns (Delcourt), “Lucille”, de Debeurme (Futuropolis), “Lupus”, de Frederik Peeters (Atrabile), “Le photographe”, de Guibert, Lefèvre e Lemercier (Dupuis), “Pourquoi j’ai tué Pierre”, de Olivier Ka e Alfred (Delcourt); Prémio Revelação: “Panier de singe”, de Mulot e Ruppert (L’Association); Prémio do Património: “Sergent Laterreur”, de Touïs e Frydman (L’Association).


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Corto Maltese regressa à BD

Quando todas as atenções do mundo da banda desenhada estavam centradas no Festival de Angoulême, que decorre até amanhã, a notícia chegou de surpresa: Corto Maltese vai viver novas aventuras aos quadradinhos, depois de uma pausa de 15 anos, pois “Mú”, a última aventura escrita e desenhada pelo seu criador, o italiano Hugo Pratt, data já de 1992. Agora, em entrevista ao jornal francês “Le Fígaro”, Patrizia Zanotti, primeiro colaboradora e depois também companheira de Hugo Pratt, e a actual detentora dos direitos das obras do mestre, declarou que “Hugo disse-me várias vezes que desejava que Corto prosseguisse as suas aventuras após a sua morte”.
Este desejo está então a tomar forma, pela mão de dois autores cuja identidade não foi ainda revelada, embora tenham sido divulgados já alguns esboços de Corto da sua autoria.
Segundo Zanotti, a nova aventura “deverá situar-se entre 1905 e 1913, preenchendo um vazio” na biografia do marinheiro errante, ou seja entre os acontecimentos narrados nos álbuns “A juventude 1904-1905” e o mítico “A balada do Mar Salgado”, no qual Corto fez a sua aparição, em Julho de 1967, nas páginas da revista italiana “Sgt. Kirk”. Talvez se fique a saber finalmente como Rasputine e Corto se conheceram e o que viveram juntos ou porque razão o segundo surge amarrado numa jangada no início de “A Balada…”, naquela que é uma das mais célebres vinhetas da história da BD.
Agora, resta esperar até meados de 2008 ou princípios de 2009, para saber se Corto, uma das mais emblemáticas personagens dos quadradinhos, pode viver para lá de Hugo Pratt, de quem sempre foi considerado o alter-ego.
Esta não é, no entanto, a primeira vez que uma obra de Pratt é retomada após a sua morte, em 1995, pois em 2005, Pierre Wazem assinou um novo episódio de “Os escorpiões do deserto”, então com boa receptividade da crítica e dos leitores.


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Efémero

Está nas bancas a revista “Marvel Especial #8” (Devir). Cumprimento tardio de uma promessa – a conclusão das histórias “Wolverine: Massacre no Texas” e “Guerra suprema” (daí as duas capas da publicação) deixadas em aberto com o cancelamento dos títulos “Os Espantosos X-Men” e “Ultimate Homem-Aranha” – marca o regresso efémero dos super-heróis aos quiosques portugueses (e o adeus da Devir a este segmento do mercado após 7 anos de publicações regulares), onde poderão voltar se se confirmarem os rumores que apontam para a distribuição das publicações brasileiras da Panini no nosso país.

Para os fãs do género (mas não só…), promete a Devir edições ocasionais para livraria, onde se encontram de momento dois títulos a ler. O primeiro é “Demolidor: Amarelo”, de Jeph Loeb e Tim Sale, que reconta, em tom pausado e melancólico, a origem do super-herói cego, na forma de carta à única mulher que ele amou, num registo próximo daquele que os dois autores já tinham utilizado em “Homem-Aranha: Azul”. O segundo é “Homenm-Aranha & Gata-Negra: O mal que os homens fazem”, de Kevin Smith, Terry e Rachel Dodson, uma agradável surpresa, pois uma banal história do género, com contornos românticos e policiais, acaba transformada numa humana e invulgar (para o meio) reflexão sobre questões como o abuso infantil, o incesto e a violação.


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Festival de BD de Angoulême na encruzilhada

Maior manifestação europeia de banda desenhada começa hoje, ensombrada por questões logísticas e problemas de financiamento; Lewis Trondheim e Hergé atraem as atenções

Começa hoje a 34ª edição do Festival International de Bande Dessinée d’Angoulême, França, ensombrada por diversas questões que podem mesmo pôr em causa a continuidade da mais importante manifestação europeia dedicada aos quadradinhos, pelo menos nos moldes até agora utilizados.

À cabeça destas, surgem os problemas de financiamento que o festival experimentou este ano, acompanhadas de perto pela necessidade de montar as tradicionais feiras de BD num local situado a dois quilómetros do centro de Angoulême, onde estão as principais exposições, o que desagradou aos livreiros e põe em causa a imagem de marca do festival: uma cidade inteiramente consagrada à banda desenhada. Esta opção permitiu, no entanto, congregar num único espaço, com cerca de 10.000 m2, que se apresenta como a “maior loja de BD do mundo”, editores, fanzines e produtos derivados.

Esta edição nasceu desde logo envolta em polémica, ou não fosse Lewis Trondheim, contemplado com o Grande Prémio da Cidade em 2006, o Presidente. Polémico por natureza, disparou para todos os lados (direcção do festival, patrocinadores, imprensa), e a verdade é que deixa a sua marca. Quer no cartaz sóbrio e mais gráfico do que era habitual, quer na alteração do palmarés do festival (ver caixa), quer no facto de ter abdicado da tradicional exposição retrospectiva, substituindo-a por “Les 7 merveilles de la bande dessinée”, uma exposição-gag minimalista em que Trondheim e os seus amigos rendem homenagem à BD em todas as suas formas, em sete vinhetas gigantes irónicas, entre as quais “Pranchas originais dos Schtroumpfs”, “A prancha mais cara do mundo” e “Descobrir o mundo com Corto Maltese”. Por iniciativa de Trondheim, também, serão realizadas em Angoulême “As 24 horas de BD”, nas quais 24 autores criarão em 24 horas uma história de 24 páginas, que será difundida na Internet.

Outro dos grandes atractivos do festival é a primeira parte da “Exposition Universelle de la bande dessinée”, que tem por base uma exploração prospectiva da BD que se faz hoje em todo o mundo, buscando pontos de contacto e vias inovadoras, e que será desenvolvida ao longo de várias edições do evento.

Em ano de centenário de Hergé, que tem uma rua em Angoulême com o seu nome, tal como acontecerá este ano com Goscinny, o festival propõe uma grande evocação do desenhador e da sua herança artística através de encontros de críticos e autores e de uma exposição inédita – “Hergé: da viagem imaginária à viagem interior” – que explora os mecanismos da criação do pai de Tintin.

“O mundo de Kid Paddle”, uma exposição espectáculo vocacionada para os mais novos, uma mostra dedicada ao psicadelismo de Jim Woodring, um documentário sobre a influência da actualidade na série “Valérian”, o cada vez mais procurado “Espaço Manga” e os Encontros Internacionais, para os quais estão garantidos nomes como Gilbert Hernandez, Didier Comès ou Sergio Toppi, são outros dos pontos de interesse do festival que se desenrola até ao próximo domingo.

[Caixa]

Palmarés renovado

Entre as muitas críticas de Lewis Trondheim ao festival, avultava a questão do palmarés, que, entre outros atribuía prémios para melhor argumento e melhor desenho, como se numa banda desenhada fosse possível fazer esta separação. A sua tese venceu – e este poderia ser um bom exemplo a seguir pelo Festival da Amadora – e assim, este ano, o palmarés do festival será assim estabelecido: Melhor Álbum, seis Álbuns Essenciais, um dos quais também “Revelação”, e o Prémio do Património, a atribuir à reedição de uma obra clássica da 9ª arte.

As 50 obras pré-seleccionada para estes prémios estarão disponíveis ao público, no “Espaço Leitura”, criado este ano no Festival. 


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BD inédita do Quarteto Fantástico

Criada por Stan Lee e Jack Kirby, em 1970, chega às livrarias em Fevereiro

A Marvel vai publicar uma aventura inédita do Quarteto Fantástico, escrita por Stan Lee e desenhada por Jack Kirby, os criadores do primeiro grupo familiar de super-heróis, em 1961. A história, que data de 1970, deveria ter sido publicada no número 102 da revista “Fantastic Four” mas, na altura foi substituída por outra. Como a relação entre os dois criadores entretanto atingira o ponto de ruptura, devido a divergências criativas, esta banda desenhada não chegou a ser finalizada, tendo entretanto Jack Kirby sido substituído por John Buscema na arte.
Há pouco mais de um ano os seus originais foram encontrados e, agora, a banda desenhada, de que algumas pranchas estavam apenas esboçadas, foi finalizada por Stan Lee e Joe Sinnott, com base no trabalho a lápis de Kirby, que faleceu em 1994, e será publicada num número único intitulado “Fantastic Four: The Lost Adventure”, que chegará às livrarias em Fevereiro próximo.
A edição, que inclui também uma análise dos originais de Kirby, feita pelo especialista John Morrow, reedita “The Monstrous Mistery of the Nega-Man!”, história originalmente publicada em “Fantastic Four #108”, que, na época, utilizou algumas das pranchas de Kirby numa sequência em flashback.
O “Quarteto Fantástico” nasceu na banda desenhada em 1961, numa revista com título próprio, em cujo primeiro número é descrita a transformação sofrida por Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Bem Grimm, quando a nave que tripulam atravessa uma zona de raios cósmicos durante um voo aeroespacial não autorizado. Decidem então usar os seus super-poderes, que não pediram e que lamentam, para ajudarem a humanidade, mais do que para combaterem o crime, ao contrário de tantos outros super-heróis. Aliás, Lee quis “fazer destas personagens gente real”, com problemas corriqueiros como contas para pagar ou a necessidade de emprego para subsistirem. E, como família, vivem juntos e trabalham juntos, exactamente como uma família normal, pelo que grande parte das suas histórias gira em torno dos conflitos entre eles.


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Futura Imagem

Cancro da mama

“Comment le cancer m’a fait aimer la télé et les mots croisés” (Delcourt), é o diário da convivência da norte-americana Miriam Engelberg, com o seu cancro da mama, desde a sua descoberta, passando pelas diversas fases subsequentes: estados de depressão, desânimo, negação, raiva, operação, radioterapia, quimioterapia, etc.
O que surpreende nesta obra, servida por um desenho pouco menos do que incipiente, mas de leitura fácil e fluente, é a exposição total de Miriam, com os seus temores e as suas ansiedades, perdida perante a reviravolta que a doença provocou na sua vida, como numa primeira fase tentou ignorar a incontornável nova realidade, através de técnicas de “esvaziamento mental” (palavras cruzadas, consumo obsessivo de televisão) – e como viria a encontrar a via “salvadora” na realização de BD, quer enquanto terapia, quer enquanto realização de um sonho de sempre – a rejeição sistemática à religião (e principalmente aos “religiosos”), e expondo questões como o desconforto da operação, os vómitos, o (difícil) relacionamento com os outros, as relações sexuais, a escolha de uma peruca, etc. Ao mesmo tempo, o tom da abordagem é cáustico e irónico, de um humor desconcertante, atenuando o peso do drama, sem, no entanto, lhe retirar o seu lado emocional e extremamente doloroso.
Miriam Engelberg faleceu em 2006 após a publicação do livro nos Estados Unidos.


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Contar

Christophe Blain, como outros autores da sua geração (Sfar, Guibert…). encara a BD, antes de tudo, como um meio para contar histórias. Isso era já notório em “Le Réducteur de Vitesse”, com que se revelou em 1999, ou em “Isaac, o pirata”, de que a Polvo editou em português três tomos.

E é visível também, agora, em “Gus, #1 – Nathalie” (Dargaud), um western, desconcertante e atípico (no bom sentido), que poderia igualmente ser um conto medieval, actual ou de ficção-científica, pois o seu propósito é divagar sob a forma como os homens se relacionam (ou não…) com as mulheres. Para isso, apresenta-nos Gus, Clem e Gratt, três salteadores (pontualmente xerifes!) bem sucedidos na sua vida de pilhagens, mas insatisfeitos na busca das suas “almas gémeas”.

Numa história sensível mas irónica (que se adivinha) nascida ao correr da pena, que combina habilmente o real com os pensamentos, sentimentos e desejos dos intervenientes, Blain concede-se (e a nós) uma imensa liberdade gráfica, esquecendo questões “clássicas” como as proporções do corpo humano ou a constância da aparência das personagens, para colocar o seu traço simples e nervoso, parco em pormenores mas admiravelmente expressivo, sensual no tratamento das personagens femininas e capaz até de ser evocativo, ao serviço de uma total eficácia narrativa, que prende e carrega o leitor até à última e significativa prancha.


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Transatlântico

O propósito da colecção: Marvel Transatlântico é levar aos leitores tradicionais europeus os super-heróis Marvel, no formato que melhor conhecem (álbum a cores, cartonado), pelos autores que mais apreciam; para estes há o aliciante de poderem tornar a sua arte conhecida dos leitores habituais de comics americanos.

O primeiro volume da colecção é “Wolverine – Saudade”, de Jean-David Morvan e Philippe Buchet, que a novel editora BdMania (nascida no seio das lojas especializadas heterónimas) fez chegar às livrarias portuguesas em simultâneo com a edição original francesa.

Diferenças entre os comics tradicionais e este “comic europeu” (que deturpa a definição de saudade)? Para além do formato (que influencia também a planificação), uma história mais consistente, que combina a temática super-heróis com lendas (e realidades) do local onde a trama se ambienta, no caso o Brasil. E também um desenho mais violentamente realista, ou não houvesse na narrativa a participação dos esquadrões da morte brasileiros, assassinos de crianças, e não mostrasse Buchet os efeitos de corte múltiplo das garras de Wolverine, em armas aos bocados ou braços às fatias…

Os próximos volumes (a ler também em português) serão uma história do Demolidor com o Capitão América, por Claudio Villa e Tito Faraci e outra com as mulheres dos X-Men, escrita por Chris Claremont e desenhada por Milo Manara.

A promoção fica a cargo do autor, que terá de encomendar todos os exemplares que quiser para este ou qualquer outro fim; ao longo de todo o processo nunca existem stocks e o autor, em qualquer momento pode retirar a obra do site ou fazer as alterações ou correcções que ache necessárias.


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Desenhadores portugueses procuram alternativas editoriais

“Printed on demand” foi opção de Carla Pott e Luís Peres; novo sistema em voga na net elimina investimento inicial e stocks

Face à crise que reina no sector da edição em Portugal, que se tornou especialmente visível no que à BD diz respeito durante 2006, os autores, tentando que as suas criações continuem a chegar ao público, têm procurado alternativas aos editores tradicionais. A edição de autor ou as pequenas editoras eram até agora as primeiras escolhas, potenciadas até pelo facto de a impressão digital permitir, actualmente, edições na ordem dos 200 exemplares. No entanto, um novo sistema, o “printed on demand” (POD, algo como “impressão por pedido”) está a despontar na internet, e apresenta desde logo algumas vantagens: não implica investimento financeiro, não gera qualquer tipo de stock e permite ao autor publicar o que quiser, na forma que desejar (ver caixa).

No site lulu.com, um dos que se especializou no POD, encontramos obras de dois autores portugueses, um caderno de apontamentos, profusamente ilustrada por Carla Pott, e o álbum de BD “As aventuras do Príncipe Ziph”, de Luís Peres, uma saga galáctica que narra, com humor e muitas surpresas, a busca de um livro mágico que permite manter a paz entre os diversos povos do planeta Marte, há muitos anos atrás.

Carla Pott, que tem feito ilustração para jornais, revistas e livros infantis, conta que tomou “conhecimento do sistema através de um mail dos EUA, em resposta a um post do meu blog em que eu discordava do design que uma editora tinha escolhido para um dos meus livros infantis”. Após ler “um artigo no “New York Times” sobre o assunto, decidi usá-lo para publicar com a liberdade que desejo e sem esperar que as editoras aceitem ou não. Assim, o público é quem decide”. Para ela, “o sistema POD foi a primeira opção; numa editora os projectos demoram muito tempo na gaveta”.

Razões semelhantes são apontadas por Luís Peres, designer há 14 anos, no desemprego há dois, o que lhe permitiu pôr no papel as histórias que o acompanhavam há muito. Para ele, a escolha do POD surgiu “porque gosto da ideia de independência. o POD é um instrumento fantástico pois permite apresentar um trabalho com qualidade profissional logo à partida e ver se a receptividade justifica o investimento na continuidade”.

Financeiramente, “a opção não é dispendiosa, só necessito de fazer o trabalho e não tenho custos”, realça Carla Pott. Concordando, Luís Peres aponta alguns aspectos negativos do POD: “Temos de ser nós a fazer toda a promoção, se queremos dar a conhecer o trabalho; em termos de BD, o lulu.com apenas trabalha com o formato americano (o que me obrigou a adaptar as minhas pranchas), com capa brochada, não cartonada, e agrafada, logo sem lombada”.

Estando as duas obras há venda há poucas semanas, ambos os autores estão ainda na expectativa de saber até onde elas poderão ir.

Machado Dias, responsável da Pedranocharco Edições, que edita o “BDJornal”, confessando-se “entusiasmado com o POD”, no entanto vê “pouca gente parece interessada em fazer encomendas via net “. Por isso não acredita “que o sistema vá afectar ou substituir os editores tradicionais (de BD ou não) num futuro, mesmo distante”. Marcos Farrajota, há muito ligado à edição independente e a fanzines como o “Mesinha de Cabeceira”, alinha pelo mesmo diapasão: “o POD não vai mudar muito, só vai tornar as coisas mais eficientes”. E reconhece que “para um autor será mais fácil editar mas enfrentará os mesmos problemas de distribuição e promoção”.

O que é o sistema pod?

Disponível para qualquer tipo de obra – o site lulu.com lista quase 35.000 títulos, entre livros, comics, calendários, imagens, CDs, vídeos e DVDs – o sistema “printed on demand” (POD) assenta num princípio simples: o autor entrega a obra acabada em formato Pdf ao site que a coloca disponível para venda on-line, só fabricando cada exemplar quando tem uma encomenda. O preço de custo é calculado antecipadamente, a partir das tabelas disponíveis no site, de acordo com as características da obra, definidas pelo autor. Este, escolhe depois a margem de lucro que deseja, sendo que, em cada venda, uma percentagem desta (entre os 10% e os 25%) reverte para o site; o restante é entregue ao autor que a qualquer momento pode consultar na sua área pessoal do site quantos exemplares já foram vendidos. O cliente encomenda on-line e passados alguns dias (dependendo da urgência de entrega escolhida) recebe em sua casa, devidamente acondicionada, a obra. No caso do lulu.com, a existência de uma filial espanhola, a Publicaciones Digitales, S.A., reduz bastante os prazos indicados para entregas na Europa.

A promoção fica a cargo do autor, que terá de encomendar todos os exemplares que quiser para este ou qualquer outro fim; ao longo de todo o processo nunca existem stocks e o autor, em qualquer momento pode retirar a obra do site ou fazer as alterações ou correcções que ache necessárias.


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