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Um álbum menor

Escolha óbvia em ano olímpico para base do terceiro filme de Astérix de imagem real – e também porque muitos títulos, satirizando outros povos, não são opção neste tempo em que impera um cada vez mais doentio politicamente correcto – “Astérix nos Jogos Olímpicos” até é um dos álbuns menores da era Goscinny.
Criado no também olímpico ano de 1968, acompanhando a actualidade, como era hábito dos autores, tem um argumento demasiado espartilhado pelo tema base, que embora arrancando bem, acaba por se perder num excesso de descrições que lhe retiram ritmo, não sendo feliz o esquema que conduz Astérix à palma olímpica e que origina o primeiro caso (múltiplo!) de doping dos jogos.
Isto não quer dizer que o álbum – reeditado pela ASA com nova capa e marcado pela estreia do ancião Decanonix – não contenha algumas cenas de antologia, como a discussão gastronómica sobre os cogumelos ou a involuntária interrupção do treino do campeão romano por Astérix e Obélix, capazes de arrancar sonoras gargalhadas ao leitor.

Astérix nos Jogos Olímpicos
Goscinny (argumento) e Uderzo (desenho)
Edições ASA


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F. Cleto e Pina

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Grande prémio de Angoulême 2008 partilhado por Dupuy e Berberian

Autores de Monsieur Jean fizeram caderno de desenhos sobre Lisboa; “Là oú vont nos pères”, do australiano Shaun Tan, escolhido como Melhor Álbum do Ano

O Grande Prémio de Angoulême, divulgado ontem, pela primeira vez foi atribuído ex-acqueo, a Dupuy e Berberian. Ou talvez não, porque na sua obra é impossível distinguir onde termina a contribuição de um e começa a do outro.
Philippe Dupuy nasceu em 1960, em França, e frequentou a Escola de Belas-Artes de Paris, onde conheceu Charles Berberian, nascido um ano antes no Iraque. Em 1983 elaboraram a sua primeira BD conjunta, uma homenagem a Hergé, e um ano depois nascia “Le journal d’Henriette” (primeiro volume editado em português pela Booktree), o divertido diário secreto de uma adolescente gorda que deseja ser escritora. A sua obra de referência é a série “Monsieur Jean” (1991), a crónica quotidiana de um trintão – também escritor – indeciso perante as encruzilhadas da vida, feita em tom intimista e autobiográfico, que lhes valeu o Alph’Art para o Melhor Álbum de 1999. O traço da dupla assenta numa linha clara de desenho simples e eficaz e cores suaves. O primeiro volume, editado pela Meribérica com o título “Monsieur Jean, o amor, a porteira…”, trouxe o protagonista a Portugal, em busca de inspiração para as suas obras. Por Portugal passaram também os autores, primeiro como convidados do IX Salão de BD do Porto (1999), depois, a convite da Bedeteca, pela capital, resultando dessa estadia o livro “Lisboa – cadernos”.
O júri do Festival escolheu “Là oú vont nos pères”, do australiano Shaun Tan, como Melhor Álbum do Ano, um livro notável, totalmente mudo, feito de imagens aparentemente soltas, trabalhadas a lápis, em incómodos tons de cinzento e sépia, sobre os dramas dos emigrantes.
O palmarés de Angoulême fica completo com os álbuns “essenciais”: “Exit Wounds”, de Rutu Modan; “La Marie en plastique”, de Rabaté e Prudhomme; “Ma Maman est en Amérique, elle à rencontré Buffalo Bill”, de Regnaud e Bravo ; “R.G.”, de Peeters e Dragon ; “Trois Ombres”, de Pedrosa; “L’Elephant”, de Isabelle Pralong (Revelação); “Moomin”, de Tove Jansson (Património); “Kiki de Montparnasse”, de Catel e Bocquet (Público); “Sillage #10”, de Morvan e Buchet (Juventude).


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Luc Besson leva Adèle Blanc-Sec ao cinema

Descoberto o filão, que tantos sucessos tem garantido, o cinema não larga a banda desenhada. Agora, foi Luc Besson que comprou os direitos para adaptação cinematográfica das “Aventuras Extraordinárias de Adèle Blanc-Sec”, uma série criada em 1976 por Jacques Tardi, nas páginas do jornal Sud-Ouest.
O acordo foi assinado entre a EuropaCorp (a produtora de Besson) e a Casterman (que edita os álbuns de Adéle) e prevê a realização de três longas-metragens, a primeira das quais já em 2009, tendo por base o extravagante ambiente da série. Misto de policial, terror e fantástico, em Adèle Blanc-Sec, uma das primeiras heroínas modernas da BD franco-belga – inteligente, independente e convicta -, Tardi diverte-se, com uma ironia muito própria, criando uma obra operática caótica, em que contracenam sábios loucos, dinossauros ressuscitados, seitas adoradoras de deuses exóticos sedentos de sangue, conspiradores e polícias dotados de grande inépcia, que se vão cruzando com a protagonista. A acção passa-se no pós-Primeira Guerra Mundial, na Paris que Tardi adora e retratou como ninguém nos quadradinhos. Com nove álbuns publicados no mercado francófono (e um décimo a caminho), com vendas globais superiores a dois milhões de livros, os quatro primeiros tomos das aventuras de Adèle Blanc-Sec chegaram a Portugal no final da década de 70 do século passado, pela mão da Bertrand, sendo depois reeditados pela Witloof, em 2003.
Esta não é a primeira vez que Luc Besson faz a ponte entre a BD e o cinema. Em “O quinto elemento”, chamou Jean-Claude Mezières, desenhador da série de ficção-científica “Valérian”, para criar os cenários e adereços e, recentemente, associou-se ao desenhador Dikeuss para dar uma nova vida à Septième Choc, uma pequena editora de BD que acaba de apresentar os seus primeiros álbuns no festival de BD de Angoulême.


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Encontro de cultura japonesa no Porto

Casa da Animação acolhe hoje e amanhã o II Yukimeet; Manga, animé e cosplay em destaque

Tem lugar amanhã e domingo, na Casa da Animação, no Porto, o II Yukimeet, evento dedicado aos manga, animé e à cultura japonesa em geral. O evento celebra o Inverno (Yuki significa neve em japonês) e pretende dar as boas-vindas ao novo ano à moda do Japão.
O programa tem actividades relacionadas com várias vertentes da cultura nipónica, desde o manga (BD) e animé (cinema de animação) até ao origami (técnica de dobragem), videojogos, artes marciais e mesmo um workshop de iniciação à língua japonesa.
Mas o II Yukimeet, cuja entrada é gratuita (com excepção das sessões de cinema), inclui também outras actividades como a projecção de filmes de animação, um concurso de Cosplay (actividade que consiste em vestir e representar a pele de uma personagem de ficção, geralmente de manga ou anime), uma troca de presentes, um concurso de banda desenhada, cujos participantes terão que executar uma história completa em 12, e um outro de desenho e ilustração.
Na Casa da Animação, que acolhe o evento a partir das 10h e durante todo o dia, funcionará um bar com comida japonesa e uma mini-feira do livro japonês e será possível ver os originais de “Bang Bang”, de Hugo Teixeira, o primeiro manga criado por um autor português editado em livro (pela Pedranocharco), que é um western futurista, do projecto “All girl-zine”, uma publicação de Daniel Maia totalmente preenchido com bandas desenhadas de autoras nacionais, muitas delas próximas do estilo manga, e dos participantes nos dois concursos, cujos vencedores serão divulgados no domingo, às 17h45. Informação mais detalhada sobre o programa do II Yukimeet.


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Clássico da BD portuguesa dos anos 70 reeditado

Wanya – Escala em Orongo” foi lufada de ar fresco no panorama nacional; Obra chegou a estar no index dos livros que não convinham ao regime

Corria o ano de 1973. Às livrarias portuguesas, com a surpreendente tiragem de 5000 exemplares, chegava “Wanya – Escala em Orongo”, uma banda desenhada com “uma mensagem pacifista de carácter universal”, escrevia então Vasco Granja. Com um traço realista, assente numa cuidada técnica de pontilhado e numa planificação dinâmica e diversificada, “Wanya…” abria novos caminhos para a BD portuguesa que, no entanto, nunca foram trilhados.
Agora, 35 anos depois, a reedição, pela Gradiva, cumpre o desejo da pintora Maria João Franco de “dar a conhecer a obra de Nelson Dias”, seu marido e desenhador da obra, já falecido, e “revelar a importância de “Wanya” a uma nova geração”.
Que, conta Augusto Mota, o argumentista, então professor em Leiria, “nasceu por acaso, na onda da nova BD francesa dos anos 60. O Nelson” – também professor – “elaborou seis pranchas, para experimentar a “gramática” da narração figurativa e desafiou-me para criar um texto que o levasse a conseguir uma história com princípio, meio e fim; ao longo de três anos fomos discutindo a estrutura gráfica da obra, para que texto e desenho se complementassem”. Acrescenta Mª João que o marido “trabalhou exaustivamente na obra, desenhando preciosa e apaixonadamente cada centímetro da página, como se de uma teia imensa se tratasse”.
Para modelo da heroína, Dias usou a esposa que gostou “de se ver no papel, como Vânia, a jovem mulher símbolo de um sonho para um mundo melhor; aquele deveria ser o “papel” de todos nós: resgatar o Mundo para os vindouros, para o Homem como ser total, pondo as suas capacidades ainda por descobrir ao serviço da paz e da justiça”.
A reacção “dos leitores e da crítica ultrapassou as expectativas”, relembra Mota: “ficaram seduzidos pelo rigor e beleza do desenho; o texto era quase só pretexto para que o leitor-espectador não se perdesse naquele universo de imagens”. Para o qual são unânimes ao indicar uma influência: “A Saga de Xam”, de Nicolas Devil”.
Apesar da temática abordada em “Wanya” – a libertação de um povo oprimido – aludindo a “um clima de opressão, que todos sentiam, embora sem qualquer intenção panfletária da nossa parte”, garante o argumentista, “não houve problemas com a censura”. Mas podia ter havido, “se não se tivesse dado o 25 de Abril, porque foi incluída no “índex” dos livros que não convinham ao regime”.
Curiosamente, foi a revolução que tornou Vânia, heroína de uma só BD, porque “o Nelson foi destacado para a reestruturação da Escola do Magistério Primário de Leiria, e deixou de ter tempo e disponibilidade de espírito”, recorda a esposa, pelo que “a segunda aventura, “O Povo dos Espelhos”, passada noutra dimensão, atrás da realidade que os espelhos reflectem”, revela Augusto Mota, se ficaria “apenas por seis pranchas, a cores”.


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BD argentina e asiática em destaque em Angoulême

Principal festival europeu de banda desenhada começa amanhã em França

Começa amanhã, quinta-feira, o 35º Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, França, o mais importante certame europeu do género.
Do ponto de vista formal, há dois aspectos a realçar: por um lado, o regresso das enormes feiras de BD ao centro da cidade, após a infeliz experiência do ano transacto que nos arredores; depois, a substituição do anterior patrocinador, os hipermercados Leclerc, por uma parceria entre a FNAC e a SNCF (caminhos de ferro franceses) que triplicarem o investimento (500 mil euros) e instituíram um prémio.
Quanto à programação, o principal destaque vai para a retrospectiva da banda desenhada argentina, na perspectiva do virtuoso do preto e branco José Muñoz, presidente do festival este ano por ter sido distinguido com o Grande Prémio da Cidade em 2007, que é uma homenagem sentida à 9ª arte do seu país natal. Também apetecíveis são “Cidades do futuro”, que ilustra como têm sido (ante)vistas nos quadradinhos as metróploles do futuro, a exposição consagrada ao filme de animação Persépolis, de Marjane Satrapi, e a retrospectiva dos 35 autores já contemplados com o Grande Prémio do festival.
Os manga, (bd japonesa), com importância crescente no mercado francófono, estão representados numa grande exposição do colectivo Clamp. No que respeita à BD asiática, haverá igualmente uma forte presença chinesa, no seguimento do protocolo estabelecido há dois anos com o Festival de BD de Xangai, concentrada num enorme pavilhão e numa delegação de mais de 50 pessoas, encabeçada pela vice-primeira ministra chinesa da Cultura, e com autores como Jidi e Yao Feila.
A reter ainda, entre muitas outras mostras, como habitualmente com as mais diversas temáticas e espalhadas por toda a cidade, as monográficas de Sérgio Toppi, Luciano Bottaro, Ben Katchor, Moebius e Hermann, bem como a realização das 24 horas de BD, que reunirá 24 autores durante um dia completo frente ao desafio de criarem uma BD de 24 páginas, e os encontros internacionais, nos quais o público tem oportunidade de dialogar com grandes nomes da 9ª arte.
No que respeita ao palmarés de festival, se a crítica especializada aponta na lista dos títulos pré-seleccionados a ausência das obras mais populares de qualidade, como “XIII”, nas quais assenta muito do mediatismo e do sucesso financeiro do género no mercado franco-belga, destaque para o novo prémio que contemplará uma BD criada em blog.


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António Alfacinha chega a Portugal

Português da Turma da Mônica na capa da revista “Cebolinha #7”, agora nas bancas; A sua introdução reflecte a aproximação das criações de Maurício de Sousa à realidade do Brasil

Está já a chegar às bancas portuguesas a revista “Cebolinha” #7 (nova numeração iniciada em Janeiro de 2007, quando as revistas da Turma da Mônica passaram a ser distribuídas pela Panini), na qual faz a sua estreia António Alfacinha, o “miúdo luso” que Maurício de Sousa introduziu há pouco mais de meio ano. As revistas da Turma da Mônica, após alguns meses de ausência voltaram a ser distribuídas no nosso país em Julho último, com cerca de uma dezena de títulos mensais, para além de edições especiais como “Lostinho – perdidinhos nos quadrinhos” ou “O Imundo perdido – Horacic Park”, paródias a “Lost” e “Jurassic Park”, respectivamente, a que se juntará, em breve, a primeira compilação das tiras originais dos anos 60 onde os pequenos heróis de Maurício deram os primeiros passos.
Aparentando a mesma idade que a Mônica, Cebolinha, Cascão ou Magali, o Alfacinha, – que usa e abusa do “oh pá!” e do “ora pois!” – veste calção verde e t-shirt vermelha (numa óbvia alusão à bandeira portuguesa) e um colete preto; o cabelo é escuro e lembra um bigode aristocrático português, embora nos primeiros esboços se assemelhasse a uma alface, na forma e na cor. E tem os olhos e as bochechas salientes, típicas das personagens de Maurício, que lhe conferem um ar simpático e divertido e condizem com o carácter desinibido e mesmo provocador do Alfacinha.
A história assenta em divertidos trocadilhos e confusões causados pelas diferenças entre as línguas portuguesa (do Alfacinha) e brasileira (dos restantes intervenientes) e na paixão à primeira vista que o portuguesinho sente pela Mônica, o que provoca uma enciumada resposta do Cebolinha, embora caiba à pretendida a última palavra, dita aos dois, de forma expressiva, com o seu célebre coelhinho.
A introdução do Alfacinha – bem como de Dorinha, a menina cega, Luca, o paraplégico em cadeira de rodas, Bloguinho, um maníaco da informática, ou, em breve, uma menina com Síndroma de Down – enquadra-se na aproximação da Turma da Mónica à realidade actual e no seu espírito de renovação constante, razão pela qual, está já em preparação uma versão da Turma em estilo manga (bd japonesa). Isto a par da aposta noutros suportes: cinema de animação, um parque temático e a internet. Estas são razões que ajudam a explicar o seu sucesso crescente: os seus diversos títulos vendem dois a três milhões de exemplares mensalmente no Brasil, sendo traduzida em países tão diferentes como Espanha, Itália, EUA, Indonésia ou Coreia do Sul.

Entrevista com Maurício de Sousa

“António Alfacinha é uma homenagem aos meus amigos portugueses”

Chama-se Maurício de Sousa, nasceu em 1935, em Santa Isabel, no Brasil, e desde 1959 anima as aventuras aos quadradinhos de um grupo de miúdos que o tornaram famoso: a Turma da Mónica, cuja principal mensagem é “deixem as crianças ser crianças”. Em declarações exclusivas para o Jornal de Notícias explicou falou da génese do António Alfacinha.

Jornal de Notícias – Porquê um português na Turma da Mônica?
Maurício de Sousa – Porque a Turminha não tem fronteiras. Como as nossas personagens são exportadas para dezenas de países, achei que era uma óptima oportunidade de mostrar ao mundo que o Brasil acolhe pessoas de todas as nacionalidades com o mesmo carinho.

Como nasceu o António Alfacinha?
Eu tinha planos para um miúdo luso há muito tempo. Quando estive no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em 2006, vi pela reacção dos leitores portugueses que estava mais do que na hora. Então, tratamos de estudá-lo e de moldá-lo para se encaixar no perfil da Turminha.

Quais as maiores dificuldades que houve na sua criação?
Ah, sem dúvida, foi mostrar que o António Alfacinha é uma homenagem aos meus queridos amigos portugueses. Tomamos todo o cuidado para que ele não soasse como uma paródia. A ideia de brincar com as diferenças dos nossos idiomas ajudou muito para esse fim.

Quais têm sido as reacções dos leitores ao António?
Os leitores adoraram a sua primeira aparição. E como desde então ele não tornou a aparecer (logo, logo, ele retorna), têm-nos pedido novas histórias.

Com que frequência vamos encontrá-lo nas revistas da Turma da Mônica?
Não estabelecemos qualquer tipo de frequência. As personagens adquirem vida própria quando passam a chamar mais e mais a atenção dos leitores. Eu diria que o Alfacinha está no bom caminho.


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Mortadelo y Filémon: meio século de disparates

Francisco Ibañez, o seu criador, quer que as suas aventuras continuem quando desaparecer; “Misión: salvar la tierra”, segundo filme de imagem real estreia este ano

Quando se fala de banda desenhada popular (sem que este adjectivo seja depreciativo), diversos nomes surgem de imediato: os heróis Disney, nos EUA, a Turma da Mônica no Brasil, os fumetti Bonelli, com Tex à cabeça, na Itália… e Mortadelo y Filémon, aqui ao lado, na vizinha Espanha.
Estes últimos completam hoje 50 anos – estrearam-se a 20 de Janeiro de 1958, na revista Pulgarcito #1394, da editora Bruguera – sendo uma criação de Francisco Ibañez. Os dois protagonistas, baptizados em Portugal de Mortadela e Salamão (onde foram editados dezena e meia de álbuns, o último dos quais, “Estrelas de Cinema” (2005), pela ASA), respectivamente (in)subordinado e chefe, são uma espécie de agentes secretos e primam pela falta de discrição e de jeito, transformando cada missão num fracasso completo e num caos total. Da galeria das principais personagens fazem também parte o Super, superior hierárquico dos heróis, Ofélia, a sua (muito) gorda secretária, e o professor Bactério, inventor dos mais extravagantes apetrechos.
A série assenta num humor desbragado, quase sem limites nem temas tabus, e num ritmo infernal, onde os gags se sucedem a alta velocidade, sem um único momento de pausa que permita ao leitor respirar o fôlego. Ao mesmo tempo, Ibañez tira todo o partido do seu traço arredondado e extremamente expressivo, com as personagens (em especial Salamão, vítima constante da inépcia de Mortadelo) a ficarem momentaneamente com o corpo deformado, queimado ou quase estropiado, devido aos violentos acidentes – explosões, queda de objectos, portas que se abrem, etc. – que vão sofrendo, como é mais vulgar ver nos desenhos animados. Outra marca da série são as constantes mutações de Salamão, capaz de instantaneamente vestir um disfarce que sirva a sua missão, ou de aparecer transformado em animal, revelando assim o seu estado de espírito, ou até em objecto.
Para além de Mortadelo y Filémon, Ibañez, que nasceu a 16 de Março de 1936, em Barcelona, e espera que alguém prossiga com as suas criações quando desaparecer, criou outros sucessos, que originaram um verdadeiro império de “historietas” (BD espanhola) de humor, como “13, Rue del Percebe”, “El botones Sacarino”, “Rompetechos” ou “Pepe Gotera y Otilio”, sendo normal a interacção entre os protagonistas de todas elas.
Para assinalar os 50 anos da dupla, as Ediciones B editaram “El Gran Livro de Mortadelo y Filémon”, que resume a história de sucesso da série, traduzida também na Dinamarca, Alemanha, Brasil ou Turquia, os seus primeiros passos, as aventuras mais significativas, anedotas, curiosidades, as diversas adaptações em cinema de animação e os filmes de imagem real, HYPERLINK “http://www.mortadeloyfilemon.com/pelicula/” “La gran aventura de Mortadelo y Filemón” (2003) e “Misión: salvar la tierra” (a estrear este ano).


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Uderzo por ele próprio

Biografia do desenhador de Astérix sai em França dia 16; Novo filme de Astérix, com actores de carne e osso, chega aos cinemas no final do mês

Na próxima quarta-feira, dia 16, chega às livrarias francesas “Uderzo se raconte” (Éditions Stock), a autobiografia de Uderzo, o desenhador de Astérix. Reconhecidamente um dos grandes desenhadores de histórias aos quadradinhos, também argumentista – bem menos bem sucedido – após a morte de René Goscinny, em 1977, e um hábil gestor da imagem de Astérix e companhia, que transformou num dos grandes negócios da BD mundial, Uderzo faz, assim, a sua estreia num género diferente.
O que, com certeza, ajudará a tornar 2008 (mais) um bom ano para Astérix. Isto, mesmo não estando previsto nenhum novo álbum que Uderzo, em sucessivas entrevistas, não tem posto de parte enquanto hipótese, embora se mostre plenamente consciente da sua idade (80 anos) e das dificuldades crescentes que tem para desenhar devido aos problemas na mão direita. Porque convém não esquecer que à autobiografia há que acrescentar a estreia do terceiro filme baseado nas aventuras aos quadradinhos do pequeno guerreiro gaulês, com actores de carne e osso (Clovis Cornillac, Gérard Depardieu, Alain Delon), realizado por Frédéric Forestier e Thomas Langmann, que terá a sua estreia nos ecrãs franceses já no próximo dia 30, arrastando consigo a reedição do álbum original e um sem número de artigos de merchandising. E com a realização no Verão, em Pequim, na China, do maior de todos os eventos desportivos do calendário mundial, o título escolhido não poderia ser senão “Astérix nos Jogos Olímpicos”.
“Uderzo se raconte”, é um grosso volume de quase 300 páginas no qual Albert Uderzo conta na primeira pessoa, como o filho de imigrantes italianos em França, nascido a 25 de Abril de 1927 em Fismes, se tornou um dos mais célebres autores de quadradinhos, profissão que abraçou contra a vontade do pai.
Pelo meio, entre muitas ilustrações, indispensáveis para conhecer melhor este desenhador de eleição, ficam as suas origens italianas, a chegada dos pais a França, o encontro com Ada, o grande amor da sua vida e futura esposa, a relação com René Goscinny, com quem trabalhou durante 26 anos, criando as aventuras de João Pistolão, Humpá-pá o pele vermelha e, entre muitos outros, sobretudo, de Astérix, bem como a revista Pilote, as hesitações para continuar as aventuras dos irredutíveis gauleses após a morte do seu argumentista, a criação das edições Albert-René ou a chegada de Astérix ao grande ecrã, primeiro em desenhos animados, depois em filmes com actores de carne e osso.
Um resumo em tom terno mas divertido, que surpreende pelo dom de observação que revela, da vida e obra de um dos últimos “dinossauros” da banda desenhada mundial, Uderzo, que é, nas palavras de Maria José Pereira, editora de BD das edições ASA e, com certeza, uma das pessoas que melhor o conhece em Portugal, “”.

[Caixa]

Bom ano, Astérix!

Por cá, 2008 promete também uma boa colheita, no que a Astérix diz respeito. Ainda em Janeiro, chega às livrarias “Astérix entre os belgas”, o último título da reedição completa da série que a ASA leva a cabo desde 2003, com novas traduções, que têm a particularidade de traduzirem o nome de todas as personagens, com excepção de Astérix, Obélix e Panoramix. Ainda em Janeiro, dia 31, chega aos ecrãs portugueses “Astérix nos Jogos Olímpicos”. Aproveitando a embalagem, em Fevereiro, o livro em que a película se inspirou, ficará disponível com uma nova capa alusiva à versão cinematográfica e enriquecida com algumas informações a ela relativas.
E em Março, será finalmente lançado “Astérix e os seus amigos”, uma homenagem a Uderzo de diversos colegas de profissão, entre os quais os veteranos Tibet, Dany, Jean Graton ou Walthéry, nomes de referência como Van Hamme, Rosinski, Vance, Boucq, Loustal, Baru ou Manara, ou valores confirmados da nova geração como Mourier, Arleston, Guarnido, Tarquin ou Zep, em Abril último, a propósito do seu 80º aniversário.
E, não havendo ainda certezas, também não está excluída a hipótese de ser editada ainda este ano em português a autobiografia de Uderzo que os franceses vão conhecer já esta semana.


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Banda desenhada inspirada em placas de colmeia pintadas

Mostra de autores alternativos inaugurada hoje na Bedeteca de Lisboa

Depois de ter viajado por quase toda a Europa, é inaugurada hoje, às 15 h, na Bedeteca de Lisboa, a exposição “Honey talks”, constituída por originais de bandas desenhadas inspiradas nas pinturas realizadas em painéis de madeira que decoravam as colmeias eslovenas entre os finais do século XVIII e meados do século XX. Os apicultores pintavam, de forma naif, temas religiosos ou seculares, crítica de costumes, animais bizarros ou cenas históricas, em cores fortes e luminosas, porque acreditavam que isso levava as abelhas a reconhecerem mais facilmente a sua colmeia, o que aumentava a rentabilidade do negócio.
O projecto foi idealizado por Pakito Bolino, do colectivo francês Le Dernier Cri e coleccionador de excentricidades culturais, numa visita a um mercado em Liubliana, onde estavam à venda reproduções dos originais expostos no Mercado Etnográfico do país, como forma de artesanato. A sua concretização esteve a cabo do colectivo esloveno “Strip Core”, responsável pela revista “Stripburger” e pelas antologias temáticas “Stripburek”, que recolhem e promovem a produção de BD dos países do leste da Europa, bem como pela caixa com os livros dos autores representados na exposição: a alemã Anke Feuchtenberger, o francês Matthias Lehmann, os eslovenos Jakob Klemencic, Koco e Matej Lavrenčic, a israelita Rutu Modan, o holandês Marcel Ruijters, o húngaro Milorad Krstic, o croata Daniel Zezelj e o sérvio Vladan Nikolic. Alguns destes autores, que se basearam em imagens cedidas pelos Museus Etnográfico Esloveno e da Apicultura de Radovljica para as suas reinterpretações pós-modernas, têm obras editadas em Portugal na Polvo, Associação Chili com Carne ou na revista Quadrado.
A exposição, patente na Bedeteca até final de Fevereiro, em cuja inauguração estarão presentes Klemencic e David Kracan, editor da Stripburger, inclui ainda réplicas dos antigos painéis de colmeias e novos painéis pintados por autores eslovenos.


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