Etiqueta: F. Cleto e Pina

Homenagem a João Abel Manta

A Humorgrafe, do crítico e especialista em caricatura e cartoon, Osvaldo de Sousa, e o BDJornal, publicação especializada em banda desenhada, estão a promover uma homenagem a João Abel Manta, a propósito do seu 80º aniversário, que se cumpre a 29 de Janeiro de 2008.
No texto comum disponibilizado nos respectivos blogues (http://humorgrafe.blogspot.com/ e http://kuentro.weblog.com.pt/) justificam a iniciativa afirmando que “80 anos é uma bonita idade para se comemorar, e creio que nenhum artista, principalmente ligado ás artes gráficas, põe em causa o valor, a importância da sua obra no panorama das artes do séc. XX”. E sabendo que “o Mestre detesta homenagens e actos públicos de louvor, com palavras ocas, com hipocrisias oficiais e oficiosas”, propõem antes uma homenagem gráfica, “com irreverência, com humor”, como a melhor forma de “homenagear um artista irreverente”.
Por isso, lançam o desafio a todos os cultores de artes gráficas – caricatura, cartoon, banda desenhada, pintura – para responderem “à arte com arte (…), com o melhor da sua expressão estética, parodiando, alegorizando, caricaturando o Mestre”.
Os trabalhos deverão ser entregues até final de Janeiro do próximo ano, estando já garantida uma exposição dos mesmos, no CNBDI – Centro Nacional de Banda Desenhada e da Imagem da Amadora e a sua edição num catálogo evocativo.
João Abel Manta, que assinou as suas primeiras obras nos anos 40 do século passado e se diplomou em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1951, tem uma vasta obra como arquitecto como arquitecto, pintor, designer e cartoonista, nesta última área especialmente após a revolução do 25 de Abril – muitos consideram-no o “cartoonista da revolução” por excelência – sendo de sua autoria algumas marcantes caricaturas de Salazar ou um dos mais conhecidos cartazes do MFA.


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Encontro de cultura japonesa em Janeiro no Porto

Nos dias 26 e 27 de Janeiro de 2008, vai realizar-se no Porto, na Casa da Animação, o II Yukimeet, um evento dedicado à cultura japonesa. Encontro de Inverno (Yuki é neve, em japonês), terá vertentes dedicadas ao manga (BD japonesa), animé (cinema de animação), gastronomia e música, e pretende celebrar a chegada do ano novo à moda do país do sol nascente.
Os dois dias do evento albergarão sessões de karaoke de música japonesa (J-Pop, J-Rock e banda sonoras de anime), Cosplay (em que os participantes se vestem e agem como personagens de BD, desenho animado ou videojogos) e cinema (que eventualmente incluirá um ciclo de curtas-metragens nipónicas), troca de presentes, concurso e exposição de desenho e de manga (que os autores deverão completar numa sessão contínua de 12 horas) e, possivelmente, apresentação e torneio de videojogos. Haverá ainda workshops de Origami (dobragem de papel) e de artes marciais.
A entrada é gratuita (excepto para as sessões de cinema), mas é necessário fazer uma pré-inscrição, já disponível em www.yukimeet-porto.blogspot.com. A Casa da Animação vai também acolher um bar com alimentos tradicionais do Japão e uma mini-feira do livro japonês.


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Programa eclético em Angoulême 2008

Festival de BD destaca José Muñoz, Ben Katchor, Sérgio Toppi, Kazuo Koike, Clamp e os Schtroumpfs

Numa altura em que a banda desenhada foi considerada a única expressão artística ainda viva da cultura francesa, pela revista “Time”, num artigo publicado esta semana,intitulado “The Death of French Culture”, e enfrentando uma época de edição excessiva (mais de 100 livros aos quadradinhos são lançados diariamente no mercado franco-belga), o Festival Internacional de BD de Angoulême, que como todos os anos terá lugar no último fim-de-semana de Janeiro, reflecte esta realidade, através de um programa eclético e variado, agora divulgado.
Assim, o argentino José Muñoz, Grande Prémio em 2007, para além da sua exposição monográfica, patrocina uma grande mostra antológica sobre a produção argentina de quadradinhos, onde se destacam nomes como Dante Quinterno (o homem que influenciou Goscinny), Quino, Breccia ou Copi. Por outro lado, propostas mais alternativas como as do americano Bem Katchor ou o classicismo do italiano Sérgio Toppi convivem lado a lado com produções vocacionadas para o público infantil, como “Lou” ou os “Schtroumpfs”. E, representando quase 40 % do mercado francófono, a 9ª arte asiática, com o manga (BD japonesa) à cabeça, não podia faltar, ocupando por inteiro o espaço Franquin, com originais de Kazuo Kaminura, Kazuo Koike e do estúdio Clamp.
A 35ª edição do festival, que fica marcada pelo regresso das grandes feiras de BD ao centro da cidade, apresentará ainda a segunda das quatro partes da “Exposição Universal da Banda Desenhada”, consagrada à ficção-científica, com uma importante componente baseada nas novas tecnologias.


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Originais de BD rendem milhares

Longe vai o tempo em que a banda desenhada era olhada como uma coisa para crianças e em que os desenhos se perdiam ou ficavam esquecidos nas redacções das revistas e jornais que os publicavam. Hoje a BD tem o estatuto de arte – a 9ª – e os seus originais podem valer milhares de euros.
No passado fim-de-semana, no leilão Vintage Comic and Comic Art, organizado pela famosa Heritage, foi estabelecido um novo recorde para um original dos Peanuts. A prancha dominical de 10 de Abril de 1955, assinada por Charles Schulz, mostrando Charlie Brown sozinho no campo de basebol, debaixo de um dilúvio, foi arrematada por 113.525 dólares (cerca de 76.500 €). Esta foi a primeira vez que um desenho de Schulz ultrapassou a barreira dos 100 mil dólares.
Alguns dias antes, em Paris, numa outra venda pública de originais de banda desenhada, foi apurado um total de um milhão e trezentos mil euros, sendo Tintin a estrela do leilão. No ano em que se comemora o centenário do nascimento do seu autor, uma prancha com uma única vinheta da versão de 1941 do “Caranguejo das Tenazes de Ouro”, dedicada e assinada por Hergé, atingiu os 70.000 €, um exemplar de “Tintin au Pays des Soviétes”, de 1930, autografado e numerado (3 de uma tiragem de 1000 exemplares) foi vendido por 42 mil euros, e um esboço da capa do álbum “As jóias da Castafiore” (1963), anotado por Hergé no verso, chegou aos 48.000 €.
Na mesma altura foram também vendidos originais de Moebius (51.000 € para a primeira prancha de “Arzach”), Bilal (a capa de “Le vaisseau de pierre” por 44.000 euros) ou Franquin (30.000 euros por um desenho a tinta de “Le fou du Bus”).
A um outro nível, no final de Outubro, um exemplar (dos sete conhecidos) da revista “Amazing Fantasy #15”, com a primeira aventura do Homem-Aranha foi vendido por 227 mil dólares (153 mil euros), tornando-se a mais cara revista de BD de sempre da década de 1960.


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O primeiro

Era inevitável.
Em Espanha, França, Alemanha, EUA, a quota de mercado de manga (BD japonesa) não pára de crescer; nalguns casos ronda os 50 %. Nas lojas de importação vende-se cada vez mais. Concursos, fanzines, a internet, reflectem a sua influência crescente nos jovens autores. As editoras – timidamente – fazem experiências, sondam o mercado. Por isso, era inevitável que mais cedo ou (pouco) mais tarde, fosse editado o primeiro manga (enquanto tipo de BD com características próprias) português. A honra (?) coube a “Bang Bang” (PedranoCharco), um western futurista pós-apocalíptico, que retoma a temática dos caçadores de prémios.
Foi cedo demais? O traço de Hugo Teixeira responde que sim. Precisava de mais trabalho, tem problemas de proporções, regista grandes desequilíbrios, mostra que busca ainda o seu estilo pessoal. Defeitos que contrabalança com um bom domínio da planificação e do ritmo, de que resultam algumas pranchas visualmente fortes. Da história, pouco foi adiantado neste tomo #1 (faltaram-lhe mais páginas) e há ainda que definir as personagens, bem como os caminhos narrativos que o autor quer trilhar.
Para que resulte, e seja bem mais que apenas “o primeiro”, precisa de muito trabalho. Para superar as limitações e para produzir num ritmo que permita a sucessão dos capítulos num prazo razoável para “agarrar” os leitores, em mais um caminho possível para a BD em Portugal.


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Caminhos para a BD em Portugal

O corvo III – Laços de família
Luís Louro (desenhos) e Nuno Markl (argumento)
Edições ASA
13,00 €

Evereste
Ricardo Cabral
Edições ASA
10,00 €

Obrigada, patrão
Rui Lacas
Edições ASA
15,00 €

O lançamento, no recente Festival de BD da Amadora, de uma dezena de obras de autores portugueses, longe de ser um atestado de vitalidade dos quadradinhos nacionais, reflecte a importância do evento enquanto local privilegiado para os autores e as suas obras encontrarem – e serem encontrados – os/pelos seus leitores. Até porque parte – pela tiragem reduzida ou por opção editorial – não tem sequer distribuição nacional, o que torna mais difícil chegarem aos seus (potenciais) leitores. Três deles mostram alguns caminhos que se abrem (podem abrir…) à BD em Portugal.
Em “O Corvo III – Laços de família”, Luís Louro, criador e até agora autor completa do Corvo, o (pobre) super-herói português que percorre as ruas de Lisboa com Robin, a sua bicicleta, às costas, decidiu apelar a Nuno Markl para a escrita do argumento, e há que reconhecer que a aposta foi ganha, a dois níveis. Logo à partida, pela associação de uma “celebridade” ao livro, o que lhe dá maior visibilidade; depois, porque o humor de Markl adapta-se bem ao desastrado super-herói, tendo originado uma aventura divertida e bem-disposta (que só peca por parecer curta demais), que faz a ponte com os anteriores álbuns, continuando a revelar-nos alguns dos estranhos super-heróis (bem) nacionais e a traçar um retrato sentido de uma certa Lisboa típica. E que tem alguns achados, mostrando a familiaridade de Markl com a temática, começando logo pela abertura, no cemitério, que evoca ambientes e poses típicos dos super-heróis (a sério), em especial do Homem-Aranha, para os desmistificar com o bem conseguido desfecho. Quanto a Louro (até neste texto quase esquecido – este é o perigo destas “parcerias”) continua igual a si próprio com o seu traço solto e dinâmico e uma planificação fluida que pontua o ritmo da história.
Quanto a “Evereste”, ancora-se na realidade contemporânea portuguesa ao adaptar aos quadradinhos o livro no qual o alpinista João Garcia conta a sua trágica ascensão ao cume do Evereste. Nele, o traço de Cabral umas vezes surge algo tolhido, talvez demasiado preso à documentação fotográfica que lhe terá servido de base, e noutras explode em belas imagens panorâmicas que nos ajudam a compreender a imensidão das montanhas cobertas de neve e a dimensão da proeza de João Garcia, assim transformado em herói (nacional), fazendo relembrar hábitos de tempos em que a censura limitava (forçava…) as escolhas dos autores.
Finalmente, “Obrigada, patrão” recordou-me (em antítese) os muitos autores que, ao longo dos muitos anos que levo ligado à BD, dizem não criar por não terem onde publicar, porque Rui Lacas, numa atitude rara entre nós, com umas quantas dezenas de pranchas prontas, foi ao festival de BD de Angoulême, França, mostrá-las. Encontrou editor na Suiça (Paquet), no ano passado e, só depois, agora, em Portugal. O seu desenho tem por base uma linha clara de traço grosso, expressiva e muito dinâmica, com multiplicidade de enquadramentos e belos achados, como a utilização de palavras como onomatopeias, tudo pintado predominantemente por tons de ocre, amarelo e castanho, que evocam a região onde se passa a história, a Zambujeira e o seu clima sufocante. Como sufocante é a narrativa, um retrato amargo da relação entre os senhores das terras e os trabalhadores rurais, mostrando como as prepotências daqueles cerceiam os sonhos destes, como as ilusões da infância podem ser espezinhadas pelas (tristes) realidades da idade adulta, e que culmina com um inesperado toque de humor negro, que valoriza o todo.


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Banda desenhada: o regresso dos clássicos

Príncipe Valente, Tarzan, Peanuts, Zé do Boné e Lance estão de regresso às livrarias; Editora portuguesa lança clássicos da BD em Espanha

Príncipe Valente. Tarzan. Peanuts. Zé do Boné. Heróis dos quadradinhos que divertiram e/ou fizeram sonhar (pelo menos) todas as gerações dos que têm hoje mais de 30 anos, estão de volta às livrarias portuguesas. No espaço de poucas semanas ficaram disponíveis o sexto tomo da reedição integral do “Príncipe Valente”, de Hal Foster, o primeiro das “Pranchas Dominicais de Tarzan”, desenhadas por Russ Manning (ambos da Bonecos Rebeldes), mais dois volumes dos “Peanuts”, de Charles Schulz, abarcando o período de 1955 a 1958 (Afrontamento), e dois volumes do “Zé do Boné” (Andy Capp no original) de Reg Smythe (Fólio Edições). E em breve chegará também o “Lance”, de Warren Tufts (ver caixa).
Comum a quase todas é o extremo cuidado posto nas edições, a nível gráfico, no design cuidado e no seu complemento com textos introdutórios ou notas explicativas. E merece referência extra salientar que, nos casos das obras de Foster e Tufts, todo o trabalho editorial foi feito em Portugal e com tal qualidade que, inclusive, originaram uma edição em espanhol.
Este verdadeiro “regresso ao passado”, não é exclusivo português. Nos Estados Unidos, recuperam-se clássicos da 9ª arte, como os “Peanuts” (na edição que a Afrontamento está a seguir), “Popeye”, “Dennis the menace”, “Pogo”, “Prince Valiant” (numa edição inferior à portuguesa…), Krazy Kat” ou “Little Orphan Annie” (todas em curso no catálogo da Fantagraphics Books), “Mutt and Jeff” ou “Terry and the Pirates” (NBM).
Mas porquê este regresso aos clássicos? Aparentemente, há sempre razões afectivas associadas. Manuel Caldas, da Livros de Papel, afirma: “eu edito clássicos de que gosto, se o puder fazer com a qualidade que nenhum editor antes lhes dispensou”. Andrea Peniche, coordenadora editorial da Afrontamento, reforça a ideia: “a opção de edição dos “Peanuts” é, essencialmente, afectiva, pela memória das tiras publicadas no “Diário de Lisboa”, que eram recortadas e guardadas diariamente”. E bem próxima está a justificação de Francisco Linhares, da Fólio Edições: “O Primeiro de Janeiro, que pertence ao mesmo grupo da Fólio, publica há cerca de 50 anos o Zé do Boné, tendo os leitores criado laços afectivos muito fortes com ele”.
E os clássicos têm uma vantagem: chegam a leitores que habitualmente não lêem BD, mas que a leram em tempos idos. Apesar disso, Caldas diz que “não há mais público para os clássicos, mas HÁ público se a edição for mesmo de qualidade”, o que é corroborado pela experiência da Afrontamento, cujos “leitores, que já conheciam a edição americana, ficaram satisfeitos com a qualidade e cuidado da portuguesa”.
Edição que, quando não segue outra já existente, “fica mais cara do que publicar obras recentes, pois as agências ou não têm o material ou não o têm pronto para se publicar com a devida qualidade”, diz Caldas, que passou mais de 20 horas em cada prancha do Príncipe Valente, para restaurar o traço original a preto e branco de Hal Foster. Com tal qualidade, que “os muitos compradores espanhóis da edição portuguesa me entusiasmaram e eu lancei-me para Espanha”, onde uma ordem restritiva só lhe “permite vender por correspondência, o que não dá para grandes voos, apesar de não inviabilizar a continuidade da colecção”. Por isso, em 2008 “saírão mais três volumes em espanhol – e, quem sabe, noutra língua…”.
Quanto aos leitores, podem ficar descansados. Correndo tudo bem, os clássicos continuarão a chegar às livrarias durante 2008. E se a Afrontamento assume ficar-se “pelos “Peanuts”, um “projecto que nos ocupará nos próximos 10 anos” e a Fólio, não prevê outras edições “já que o material existente para o Zé do Boné é imenso, incluindo as pranchas dominicais coloridas”, Manuel Caldas admite “ter mais edições previstas”, mas acha cedo para “divulgar quais”.

(Caixa)
Lance
Na segunda semana de Dezembro ou só em Janeiro, chega às livrarias mais um clássico dos quadradinhos norte-americanos (já disponível por correio em mcaldas59@sapo.pt). É o primeiro dos quatro tomos daredição integral das pranchas dominicais de “Lance”, o western assinado por Warren Tufts (1925-1982) entre 1955 e 1960, o “Flecha” do “Cavaleiro Andante”, também publicado nos anos 70 e 80, no “Mundo de Aventuras Especial”.
Ambientado nos primeiros anos da expansão americana, “Lance” reflecte o eterno confronto bem/mal, com brancos e índios divididos pelos dois campos, com um fundo moralista e romântico, assente em personagens complexas e verdadeiramente humanas.
A edição, de grande formato (23,3 x 33 cm), que recupera as cores originais, tem o selo “Livros de Papel”, e por detrás dela está o trabalho laboriosos de Manuel Caldas, que conta “publicar apenas o segundo volume em 2008, e os dois finais em 2009”, pois passa “umas 14 horas (sem exagero), no restauro de cada prancha”, o que é necessário por não existirem “provas originais”, tendo que trabalhar a partir de “páginas de jornais da época, obtidas no Ebay”.


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Prémio Nacional del Comic para Max

Galardão instituído pelo Ministério da Cultura espanhol atribuído pela primeira vez; Autor catalão foi visita assídua do Salão de BD do Porto e esteve este ano no Festival de Beja

O desenhador catalão Francesc Capdevila, conhecido como Max, foi o vencedor do Prémio Nacional del Comic (dotado de 15 000 euros), instituído pelo Ministério da Cultura espanhol, com o objectivo de conseguir um maior reconhecimento para a banda desenhada. Atribuído este ano pela primeira vez, a uma obra publicada em 2006, numa das línguas oficiais de Espanha, distinguiu “Hechos, dichos, ocurrências y andanzas de Bardin el Superrealista”, colectânea de histórias publicadas desde 1997, em revistas e jornais. O comunicado do Ministério da Cultura justifica a escolha por se tratar de uma obra “graficamente deslumbrante, com um guião original e repleto de referências literárias, filosóficas e cinematográficas (…) que marca um antes e um depois na banda desenhada espanhola”.
Personagem de cabeça desproporcionada, sinónimo talvez dos muitos sonhos que o animam e o levam por mundos oníricos e surrealistas, Bardin, que segundo o autor disse à agência EFE, “fala da realidade de forma não realista, pois trata de temas que nos afectam a todos, transportados para ambientes inverosímeis e fantásticos”, está longe de ser uma obra fácil ou comercial, a que levou os blogues especializados a aplaudirem especialmente a sua atribuição a Max. Este, afirmou também esperar que este prémio “leve a BD a ser equiparada a outras actividades artísticas e a ter o impulso social e mediático de que necessita”.
Max, que cria BD desde 1973, quase sempre em publicações independentes (algumas auto-editadas) e marginais, teve já exposições nos salões de BD do Porto, Amadora, Lisboa e Beja (este ano). Apesar disso, a sua obra, onde se incluem as aventuras de “Peter Pank”, uma referência dos anos 80, é quase inédita em português, sendo excepção algumas histórias de Bardin, publicadas na revista Quadrado, da Bedeteca de Lisboa.


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Musicalidade

E se o autor da terceira melodia mais tocada de sempre não tivesse escrito uma única nota dela, antes a tivesse “roubado” de ouvido ao seu alcoolizado compositor?
É esta confissão, motivada pelos remorsos, do autor de “Happy Living”, tema fictício que dá título a mais uma edição da interessante colecção “Mirages” (Delcourt), que vai arrastar François Merlot, um jornalista francês que prepara o primeiro livro, sonhando com fama e sucesso, numa longa investigação pelos EUA, de Nova Iorque à Costa Oeste. Investigação que o vai levar a diversas descobertas – algumas bem surpreendentes – que ilustram o âmago do ser humano e as reais motivações por detrás de atitudes banais ou altruístas, espontâneas ou calculadas, e a questionar-se a si próprio e às suas opções de vida.
Este elegante romance gráfico, criado por Jean-Claude Gotting, é também um pequeno passeio pelo jazz de meados do século passado, traçado a negro, num estilo agreste, semi-realista, marcado pelo estatismo das personagens – fruto da dedicação do autor à pintura e à ilustração antes deste (conseguido) retorno à BD? – que faz com que cada vinheta se assemelhe a uma foto envelhecida…
O que não significa que falte ritmo à obra, sendo ele transmitido pelo texto, marcante, bem trabalhado, credível, envolvente – quase musical – e pela utilização sucessiva de diferentes planos na ilustração das muitas conversas que a pontuam.


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Mutt e Jeff nasceram há 100 anos

Criados por Bud Fisher, institucionalizaram o conceito de tira diária de imprensa e foram as primeiras a ser adaptadas para desenho animado

Foi a 10 de Novembro de 1907 que Augustus Mutt, apareceu pela primeira vez, numa ilustração nas páginas de hipismo do “San Francisco Chronicle”. Era uma criação de Bud (Harry Conway) Fisher, desenhador desportivo, que, cinco dias mais tarde, publicaria a sua primeira tira -“Mr. A. Mutt – Starts in to Play the Races” – ainda nas páginas desportivas do mesmo jornal. Três semanas mais tarde, o desenhador mudava-se para o rival “San Francisc Examiner”, pertencente ao magnata Rudoplh Hearst, levando consigo a sua criação, o que não impediu o “Chronicle” de a manter, animada por Russ Westover, durante cerca de um ano.
No “Examiner”, Mutt continuaria sozinho – salvo aparições esporádicas da mulher e do filho, Cícero – inventando os mais inusitados esquemas para arranjar dinheiro para as suas apostas nas corridas de cavalos, até 27 de Março de 1908, quando encontrou Jeff, que se tornou presença recorrente e, mais tarde, seu companheiro inseparável em mil e um estratagemas, o que deu um novo rumo à série, que com ele ganhou uma dimensão humana, e se tornou a primeira tira diária cómica de sucesso.
Não porque Bud Fisher tenha sido o primeiro a publicar uma tira diária com regularidade – esse mérito coube a Charles Briggs, dois anos antes, com “A. Piker Clerk”, no “Chicago American” -, mas “Mutt and Jeff” – título adoptado apenas em 1915 – manteve-se no tempo, com utilização de uma galeria de personagens fixa, institucionalizando o sistema de publicação semanal de segunda a sábado (ou domingo), a preto e branco, das famosas “daily strips”, as “tiras diárias”, em oposição às pranchas dominicais coloridas que então imperavam. E mais, segundo o especialista norte-americano Robert C. Harvey, em “Mutt and Jeff” foram “utilizados elementos – tais como a narração continuada de um dia para outro e a sátira política – só muito mais tarde associados às tiras de imprensa”.
Este sucesso aconteceu, pode-se dizer, apesar do traço de Fisher, que não era especialmente trabalhado ou atraente, podendo as personagens surgirem desproporcionadas, com seis ou sete dedos por mão (!) porque, como afirmou, “eu tinha uma ideia e a única coisa que queria era expressá-la. Pouco me interessava se o braço do homem era mais longo que o seu corpo ou se usava um chapéu de palha em pleno Inverno”, numa atitude percursora do desenho estilizado ou pouco cuidado que muitos autores utilizaram posteriormente neste género de banda desenhada.
“Mutt and Jeff” seria também a primeira tira de imprensa a ser recolhida em livro, logo em 1911, originando os “comic books” (livros ou revistas de BD), e a ser adaptada em (muitas dezenas de) desenhos animados (mudos), em 1921.
O facto de Fisher – numa atitude até então sem precedentes – a ter registado em seu nome logo na origem, fez dele rapidamente um milionário pois, dizia-se, ganhava 150.000 dólares anuais, em 1916, que subiram para 250.000, cinco anos mais tarde, com os proventos dos desenhos animados e dos produtos derivados. Isto fez com que o autor, nascido em Chicago a 3 de Abril de 1885 e sem formação artística, trocasse progressivamente o estirador pelos prazeres mundanos, confiando “Mutt and Jeff” a um dos seus assistentes, Ed Mack, criando o mito de que os cartoonistas são ricos que vivem à sombra da glória enquanto assistentes semi-escravizados fazem o seu trabalho.
Fisher morreria sozinho e esquecido, a 7 de Setembro de 1954, já depois de ter confiado a tira a Al Smith, em 1932, que, amenizou as temáticas, reduziu os textos e dotou-a de um traço arredondado, mais simpático e atractivo. Smith autonomizou a gata do filho de Mutt, em “Cicero’s cat”, uma série humorística muda, e continuou a série original até 1980, dois anos antes do seu término, apesar de só a ter assinado a partir de 1954.
O trabalho de Smith foi publicado em Portugal, (pelo menos) na segunda metade dos anos 50, no “Mundo de Aventuras”, “Condor” e “Colecção Audácia”, tendo “Mutt and Jeff” sido rebaptizado como “Os dois inseparáveis”, “Belarmino e Elias” ou ainda “Benedito e Eneias”.

[Caixa]
Os heróis
Primeira parelha célebre da BD, Mutt e Jeff, exímios representantes do povo, podem ser considerados antecessores e fonte de inspiração de muitos duos opostos – o alto e o baixo, o gordo e o magro, etc. – que a 9ª arte (e não só) conheceu. Nos Estados Unidos, o termo “mutt and jeff” designa mesmo esse tipo de contrastes.
Mutt (diminutivo de “mutton head” = idiota), o pouco recomendável protagonista original da série, é alto e magro, frequenta com assiduidade os hipódromos, é um apostador inveterado e um autêntico fala-barato.
Jeff, em oposição, é baixo e gordo e foi inicialmente apresentado como um fugitivo do hospício em que estava internado, facto sobejamente justificado pelos seus estranhos comportamentos e reacções, entre a perfeita inocência e a mais gritante ignorância.
Ambos assumem facilmente qualquer actividade, de polícia a empregado de mesa, de apostador a (várias vezes) candidato à presidência, de acordo com as necessidades das histórias a contar.


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