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Paul Norris: morreu um clássico

Criou Aquaman e foi desenhador de Brick Bradford, Flash Gordon, Jungle Jim e Agente Secreto X-9

Paul Norris morreu ontem, aos 93 anos, em Nova Iorque. Para a posteridade, lega décadas de trabalho com que alimentou o imaginário juvenil de muitos leitores, já que periódicos (como o Jornal de Notícias) e revistas portugueses (com destaque para o “Mundo de Aventuras”) publicaram profusamente nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, as tiras dos heróis clássicos que desenhou.
Nascido em Greenville, no Ohio, a 26 de Abril de 1914, Norris estudou jornalismo, dicção e arte no Midland College Of Fremon, trabalhando depois como ilustrador. A mudança para Nova Iorque coincidiu com a entrada no mundo dos comics, sendo o seu primeiro trabalho de relevo, a criação gráfica de Aquaman, um ser submarino, oriundo da mítica Atlântida e um dos fundadores da Liga da Justiça da América, na revista “More Fun Comics”, da DC Comics, em 1941, a partir de argumentos de Mort W.eisinger.
Em 1942 teve a sua primeira experiência numa tira diária, Vic Jordan, para o New York Daily, entrando no ano seguinte para o King Features Syndicate, o maior distribuidor deste tipo de banda desenhada, onde se distinguiu pelo seu traço realista, fino e detalhado, bastante agradável e eficiente, tendo assegurado, durante alguns períodos, o desenho das aventuras de Flash Gordon e Jungle Jim, duas criações de Alex Raymond, e do Agente Secreto X-9.
A partir de 1952, assumiu o argumento e o desenho da página dominical de Brick Bradford (entre nós por vezes “aportuguesado” para Brigue Forte), uma série de ficção-científica criada em 1933 por William Ritt (argumento) e Clarence Gray (desenhos), famosa pelo célebre pião do tempo que o herói utiliza para se deslocar no tempo e no espaço, que assegurou durante mais de três décadas, tendo no currículo ainda passagens por Tarzan e Magnus, the Robot Fighter, nos anos 70.


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Mônica escolhida pela UNICEF como a sua nova embaixadora no Brasil

Estúdios de Maurício de Sousa em negociações com a Marvel para criarem aventuras brasileiras do Homem-Aranha

O Fundo das Nações Unidas para a Infância anunciou a escolha da Mônica como sua nova embaixadora no Brasil. O título, concedido há dias, vem reforçar a importância das criações de Maurício de Sousa e justificar a forma como ele as tem usada nas mais diversas campanhas (alfabetização, vacinação, etc.) em prol da sociedade e dos mais necessitados.
Criada em 1963, depois de Franjinha, Bidu, Cebolinha ou Cascão, Mónica em breve se tornou a personagem central da Turma a que acabou por dar o nome, sendo facilmente reconhecível pelo seu vestido vermelho curto, pelos dentes grandes e por andar sempre acompanhada pelo seu coelho azul de peluche, que lhe serve de arma de arremesso quando os outros meninos da Turma a aborrecem.
Entretanto, mostrando um invulgar dinamismo, entre outros projectos, como uma versão em estilo manga (BD japonesa) da Turma ou a sua transposição para mais desenhos animados, Maurício de Sousa acaba de anunciar que está em negociações com a Marvel Comics para criar uma versão brasileira das aventuras do Homem-Aranha. Segundo o autor, a ideia é recuperar o espírito original do herói, mas “com o nosso estilo, traço, cuidado, jeito e grafismo. Não uma história infantil” como a Mônica, mas algo que combine a dinâmica daquele super-herói com a alegria das suas criações, direccionada para um segmento juvenil. E com as aventuras, “logicamente, se passando no Brasil”.
A concretizar-se este projecto, será a terceira versão não-americana do famoso aracnídeo, depois das produzidas no Japão e na Índia, com o intuito de conquistar novos leitores, ao aproximar o conceito original da realidade local bem específica de cada um daqueles países. Neste último, por exemplo, o protagonista é um jovem indiano chamado Pavitr Prabhakar, que sobrevoa ruas congestionadas com carrinhos puxados por homens e lambretas ou trepa a monumentos como o Taj Mahal, tendo como maior inimigo, nesta versão, não o Duende Verde, mas sim Rakshasa, um demónio indiano mitológico.


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30 anos sem Goscinny

Criador de Astérix foi um dos mais notáveis argumentistas de banda desenhada; Biografia e livro de crónicas assinalam a data em França; revista “Lire” consagra-lhe um número especial

Foi há 30 anos, a 5 de Novembro de 1977, que a banda desenhada – e a literatura – perderam René Goscinny, um dos seus mais notáveis escritores, vítima de um ataque cardíaco enquanto fazia um teste de esforço numa clínica… Para a posteridade – e gáudio de milhões de leitores de várias gerações, deixou personagens inolvidáveis, entre as quaisAstérix, João Pistolão e Humpá-pá (com Uderzo), Lucky Luke (Morris), Iznogoud (Tabary) ou o menino Nicolau (Sempé).
Nascido a 14 de Agosto de 1926, em Paris, para além de ser um notável humorista e um dos escritores de língua francesa mais traduzidos e lidos no mundo inteiro, Goscinny foi também percursor na defesa dos direitos dos autores de BD e um grande descobridor de talentos, nomeadamente enquanto chefe de redacção da revista “Pilote”, um dos mais importantes títulos periódicos da história da BD europeia, que contribuiu para a revolucionar e a levar a atingir também um público adulto, em cujo número inicial Astérix nasceu (a 29 de Outubro de 1959), e onde revelou autores como Bretécher, Cabu, Christin, Druillet, Fred, Meziéres, Mandryka, Reiser ou Solé. Porque Goscinny foi sempre capaz de reconhecer uma boa BD e de incentivar e lançar os seus autores, mesmo quando as temáticas ou estilos apresentados não eram os que mais lhe agradavam.
No ano em que Angoulême, França, deu, em Janeiro, o seu nome a uma das suas artérias, os 30 anos sobre a sua morte são assinalados por três publicações. A primeira, “Du Panthéon à Buenos Aires – Chroniques illustrées” (Imav Éditions), recolhe dezasseis crónicas escritas por Goscinny, os “bilhetes de humor”, como ele gostava de lhes chamar, abordando os pequenos defeitos do género humano, agora ilustradas, em jeito de homenagem, entre outros, por Gotlib, Mézières, Giraud e Tibet.
Já “Goscinny – La liberté d’en rire” (Ed. Perrin), é, segundo o seu autor, o historiador Pascal Ory, “a aventura do mais famoso argumentista cómico de toda a história da banda desenhada francófona, ao lado do mais notável patrão de toda a história das publicações para os jovens”.
Finalmente, a conceituada revista literária “Lire”, consagra-lhe um dos seus raros números especiais, intitulado “La vie secrète de Goscinny”, que inclui inéditos de Goscinny, entre os quais uma história do menino Nicolau, homenagens de escritores e desenhadores como Uderzo, Didier van Cauwelaert, Daniel Pennac, Serge Tisseron, Umberto Eco, Moebius ou Bilal, e em cujo editorial se lê: “René Goscinny é um dos génios do século XX. Digo alto e bom som: reduzir Goscinny a um autor de BD é um erro; ele foi um dos gigantes da literatura popular. Alegrem-se: o escritor continua vivo, pois o seu universo é imperecível”.

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O corsário Pistolão
Para além de Astérix e Lucky Luke, Goscinny escreveu argumentos para inúmeras personagens (ou, mais exactamente, mais de 1400, compiladas em “Le dictionnaire Goscinny” (2003), que, nas suas 1248 páginas, analisa exaustivamente as 19 séries, 150 álbuns, 387 romanos e gauleses, 654 cowboys e índios, 309 génios e princesas, 91 javalis…), entre as quais “Luc Junior” (1953) e “Humpá-pá o pele-vermelha” (1958). Ou também “Jehan Pistolet” (1952) ou João Pistolão, na versão portuguesa da ASA, que acaba de lançar o segundo tomo, “Corsário do rei”.
História bem disposta de piratas e corsários, apesar de alguma ingenuidade, revela já os seus talentos de humorista, capaz de em meia dúzia de diálogos levar os leitores a um sorriso (ou às lágrimas), utilizando humor directo, a repetição de situações, indescritíveis trocadilhos ou uma equilibrada crítica social ou de costumes. E no qual Uderzo, partindo de um estilo semi-realista e terminando mais próximo do traço que o celebrizou, demonstra já um bom domínio da planificação, do ritmo e do sentido de leitura.


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Festival de BD da Amadora volta à Brandoa em 2008

Lewis Trondheim, fundador de L’Association é a grande figura do fim-de-semana; Festival da Amadora termina domingo; Mais lançamentos portugueses hoje

Termina domingo, dia 4, o 18º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, cujo tema central é “Maioridade”, já “atingida pelo festival em termos de idade”, nas palavras de Nélson Dona, o seu responsável, mas entendida pelos organizadores “como o questionar constante do nosso papel, do que fazemos e de como podemos dar resposta ao mundo editorial e ao público leitor, sempre em mudança”. Maioridade demonstrada pela “afirmação do festival como uma referência cultural a nível nacional” e pela sua “presença ino calendário internacional”, mas questionada por alguns pela pouca atenção dedicada aos comics (BD americana) e aos manga (BD japonesa), opção justificada por Nélson Dona, “pela pouca expressão editorial que esses géneros têm em Portugal”. No entanto, reconhece que ” são nichos de mercado muito importantes, preferidos pelo público mais jovem, por isso é nossa intenção inclui-los em programações futuras, sempre que a sua temática ou qualidade artística o justifiquem”. E confidencia que “está em estudo, em cooperação com o Festival de Angoulême (França) uma exposição sobre BD chinesa”, que, no entanto, não “deverá ser já para 2008”.
Aliás, certos no programa do próximo ano, “se aceitarem os convites, apenas os premiados deste ano: Luís Henriques e Jean-C. Denis”, decorrendo contactos com “autores importantes nos seus países, mas pouco conhecidos entre nós por estarem fora dos circuitos comerciais europeu e norte-americano”.
Para os últimos dias, que contarão com a presença de Lewis Trondheim, fundador da editora L’Association, que mudou a forma de ver e editar BD em França, Zidrou, Sapin e de membros do colectivo Les Requins Marteaux, Nélson Dona destaca, “em primeiro lugar, a exposição monográfica de Alain Corbel e “Salazar, Agora na Hora da sua Morte”, de Miguel Rocha e João Paulo Cotrim, dois autores portugueses determinantes e com um trabalho extraordinário; em segundo lugar, o trabalho de renovação e de ocupação do espaço do Fórum Luís de Camões”, na Brandoa, onde o núcleo central do evento tem lugar pelo segundo ano consecutivo, realçando “o destaque dado ao livro, quer pela criação de zonas de leitura, quer pelo melhoramento da zona comercial, mais confortável para expositores e visitantes”. A melhor ocupação do espaço tem sido consensual entre os visitantes, sendo assim boa notícia a confirmação que o FIBDA de 2008 também lá terá lugar, como já “anunciou o Presidente da Câmara na abertura do festival”.

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Lançamentos em português
1 de Novembro
“Evereste” (ASA); de Ricardo Cabral
“Bang Bang” (PedranoCharco), de Hugo Teixeira
“Formas de Pensar a BD – Entrevistas do BDesenhada.com” (PedranoCharco), de Nuno Pereira de Sousa
3 de Novembro
“ABZ do Sexo” (Arte Plural Edições), António Pedro Nobre e Manuel Sousa Fernandes


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“Tratado de Umbrografia” multipremiado na Amadora

José Carlos Fernandes e Luís Henriques distinguidos pela crítica e pelo público

“Tratado de Umbrografia”, primeiro volume das “Black Box Stories”, editado pela Devir, foi o grande vencedor dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, anunciados ontem durante o Festival Internacional de BD da Amadora, que está a decorrer no Fórum Luís de Camões, na Brandoa, até 4 de Novembro. Para além de ter sido considerado o Melhor Álbum Português editado entre a anterior edição do Festival e a actual, viu os seus autores, José Carlos Fernandes e Luís Henrique, distinguidos, respectivamente, como Melhor Argumentista e Melhor Desenhador. O álbum foi ainda premiado com o Prémio Juventude, atribuído pelo público. “Tratado de Umbrografia” é uma colectânea de histórias curtas, nas quais Fernandes, com a ironia que o caracteriza, explana alguns dos seus temas recorrentes como os sonhos, o mundo da arte moderna, a sociedade de consumo ou a massificação, que Luís Henrique ilustra, adequando a cada uma o traço, a paleta cromática e a planificação.
Instituído este ano, o troféu para o Melhor Álbum de Autor Português em Língua Estrangeira, coube a “Merci Patron” (Éditions Paquet”, de Rui Lacas, há dias lançado no FIBDA, em português, pela ASA, sob o título de “Obrigada, patrão”. Da mesma editora é “Alguns meses em Amélie”, de Jean-C. Denis, escolhido como o Melhor Álbum Estrangeiro editado em português, enquanto que o troféu Clássicos da 9ª Arte foi atribuído a “A Trágica Comédia ou Cómica Tragédia de Mr. Punch” (Vitamina BD), de Neil Gaiman e Dave McKean.
Nuno Markl conquistou o Troféu para Melhor Álbum de Tiras Humorísticas com “Há vida em Markl – Opus 2” (Gradiva) e Carla Pott o prémio para Melhor Ilustração para Literatura Infantil, por “O bicharoco que era oco” (Pena Azul). “Venham +5”, da Bedeteca de Beja o de Melhor Fanzine e o Troféu de Honra foi entregue ao autor brasileiro Ziraldo, um dos convidados do festival deste ano, onde hoje ainda está Milo Manara, o mestre da banda desenhada erótica.


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Fartura

“Não há fome que não dê fartura”, diz a sabedoria popular – tão sábia que muitas vezes tem um dito oposto, para ter sempre razão. No caso, aquele aplica-se às revistas Bonelli, que chegam a Portugal, via Brasil, nas edições da Mythos que, depois de alguns meses limitadas aos títulos de Tex, vêem este mês a oferta aumentada com o regresso de “Mágico Vento” e “J. Kendall, aventuras de uma criminóloga” (e em breve “Zagor”), graças à mudança de distribuidora. Neste último, Júlia, a criminóloga de Garden City, criada por Berardi à imagem de Audrey Hepburn, a braços com um potencial assassino que procura a sua atenção, continua incapaz de estabelecer relações a nível pessoal, numa história rica e bem estruturada, de ritmo propositadamente lento, que cruza o mistério da situação policial com as questões quotidianas dos protagonistas. Já Mágico Vento, o feiticeiro branco dos Sioux, desenvolvido por Manfredi, atravessa uma das suas fases mais interessantes, combinando o ritmo arrebatador do western com o misticismo das crenças indígenas e o realismo histórico com um toque de fantástico.
E como a anterior distribuidora se atrasou – ainda vai fazer mais um lançamento, para não haver falhas na continuidade – e a nova se adiantou, há neste momento oito títulos Bonelli nas bancas, entre os quais os “Tex” #422 e #424 e o “Tex Gigante” #17, em que se destaca o soberbo preto e branco de José Ortiz.


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Tarzan

Entre muitas e boas leituras, algumas partilhadas aqui, a que me deu maior prazer nos últimos tempos foi “Tarzan – Vol. 1 – Pranchas Dominicais de Russ Manning 1968-1970” (Bonecos Rebeldes).
Não pelo traço vigoroso e dinâmico de Manning que, num preto e branco contrastante, produziu o “mais limpo” Tarzan de sempre, rigoroso na reprodução de homens (e belíssimas mulheres) e animais, capaz de (quase) nos fazer sentir a humidade da verdejante selva africana, o calor abrasador do deserto, o nevoeiro denso dos mundos misteriosos, os cheiros intensos de homens e animais, os seus gritos e uivos, capaz de transmitir dor, raiva, fúria, alegria ou surpresa pela simples expressão dos rostos…
Não pelas histórias, leves e bem ritmadas, que combinam episódios quase ecológicos com aventura pura, o fascínio da selva com mundos fantásticos, o confronto desigual entre as civilizações branca e negra…
Foi, apenas (?!), porque reencontrei um herói de juventude, o seu universo misterioso e sedutor, os brados arrepiantes – “Kreegah!”, “Bundolo!” – que preencheram muitas brincadeiras, porque relembrei imagens fortes e marcantes que a memória guardou – os homens-formiga, os primitivos habitantes de Opar e La, a sua sedutora rainha, Tarzan em combate à frente dos animais, a sua selvagem celebração de vitória com os grandes macacos… -, porque (re)descobri um encantamento que o tempo não foi capaz de apagar.


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A maioridade na Amadora

Festival de Banda Desenhada começa hoje; Ziraldo, Cameron Stewart, Achdé e Gerra, autores de Lucky Luke, presentes este fim-de-semana; Previsto o lançamento de uma dezena de obras de autores portugueses

Começa hoje a 18ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que abre as suas portas para o fantástico mundo dos quadradinhos até 4 de Novembro. Do programa, destaque para as exposições “Salazar, Agora na Hora da sua Morte”, sobre a obra de Miguel Rocha e João Paulo Cotrim, que venceu os Prémios Nacionais de BD para Melhor Álbum Português, Melhor Argumento e Melhor Desenho, em 2006, “As 10 BD’S do Século XX” (passeio pelos universos de “Little Nemo in Slumberland”, “Krazy Kat”, “Tintin”, “Batman”, “Spirit”, “Peanuts”, “Astérix”, “Blueberry”, “Corto Maltese” e “Maus”, “Astérix e seus Amigos”, uma homenagem de diversos autores a Uderzo, pelos seus 80 anos, e o espaço dedicado às novidades editoriais e a projectos em curso nacionais. Aliás, é de salientar o facto de estar previsto o lançamento, durante o FIBDA, de mais de uma dezena de obras de autores portugueses.
O tema desta edição, no ano em que o FIBDA comemora 18 anos, é “Maioridade” mas, como em qualquer ser humano, não é o simples atingir do patamar dos 18 anos que concede aquele estado. Esta opinião é partilhada por diversos intervenientes ligados à 9ª arte nacional, que referiram ao JN alguns aspectos em que, segundo eles, o Festival necessita de crescer. À cabeça é apontada o local de realização do festival que este ano se mantém no Fórum Luís de Camões, na Brandoa, reconhecidamente com as características logísticas necessárias para albergar um evento deste tipo, mas mal situado em termos de acessibilidade. Por isso João Miguel Lameiras, crítico e livreiro, aponta a necessidade “de arranjar uma casa fixa, em vez de mudar de dois em dois anos”, sendo secundado por Geraldes Lino, especialista em fanzines, que pede que “o núcleo principal se localize, definitivamente, num ponto central da Amadora, como era a saudosa Fábrica da Cultura”.
Puxando a brasa à sua sardinha, Marcos Farrajota e Teresa Câmara Pestana, autores e editores de fanzines, gostariam, respectivamente, de mudar “tudo” e de “ter os autores marginais como principal atracção do festival”, enquanto que Machado Dias, editor da pedranocharco e do “BDJornal” apostaria numa “equipa organizadora maior com um orçamento compatível”, a quem Lameiras pediria “uma maior profissionalização”.
Outro ponto referido, por José Freitas, editor da Devir, é a obrigatoriedade de “uma maior ligação com a realidade efectiva do público e dos seus interesses, ou seja, deixar de fazer um FIBDA para leitores de BD franco-belga com mais de 50 anos e admitir finalmente que o público de BD de hoje não é o mesmo de há dez ou quinze anos atrás”, pois prefere comics de super-heróis e manga (BD japonesa).
A mesma ideia é partilhada por Hugo Jesus, responsável pelo portal Central Comics, que pede à organização para “virar o festival para um publico mais jovem” e “para apostar definitivamente na área comercial”, desejo indirecto de José Freitas quando sugere ao FIBDA para “passar a olhar minimamente para o mercado para saber o que se editou e o que vende”. José Carlos Fernandes, o mais destacado autor português dos últimos anos, pensa que a maioridade só será atingida se (e quando) “houver um mercado saudável de BD em Portugal” pois, “se houver mercado, surgem editoras e autores nacionais”; sem isso, “o FIBDA será sempre a fachada enganadora de um edifício inexistente”. O que reitera Lameiras que, considerando “as crises de adolescência do Festival um reflexo das debilidades do próprio mercado nacional de BD” tem algumas reservas “pois o estado semi-comatoso do mercado deixa antever um prognóstico reservado quanto ao futuro do festival…”. 

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Destaques

Do programa do primeiro fim-de-semana do Festival de BD da Amadora, enquanto se aguarda por Manara (a 27 e 28) e Trondheim (3 e 4 de Novembro) destaca-se a presença do brasileiro Ziraldo, autor, entre outros títulos destinados à infância, de “O Menino Maluquinho”, Achdé e Guerra, actuais responsáveis de Lucky Luke, Cameron Stewart, desenhador de “Cat Woman”, “B.P.R.D.” ou “Seaguy”, Ilan Manouach, Godi, Zidrou e Jean-Louis Marco.
No que respeita a lançamentos, destaque para o regresso do Corvo, o mais desajeitado super-herói português, em “Laços de Família” (ASA), com desenhos de Luís Louro e argumento de Nuno “Homem-que-mordeu-o-cão” Markl, a par do sexto e derradeiro volume de “A Pior Banda do Mundo” (Devir), de José Carlos Fernandes.
Terão também apresentação “Obrigado patrão” (ASA), que Rui Lacas lançou este ano nas Éditions Pacquet”, “SuperPig #3”, de Carlos Pedro e Mário Freitas, e “C.A.O.S.#3”, de Filipe Teixeira, Fernando Dordio Campos e Carlos Geraldes (ambos da Kingpin Comics), “Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, “Portfólio”, de José Abrantes, bem como das revistas “BDjornal #20” e “BDVoyeur #2” (pedranocharco).


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“Queremos leitores que queiram envolver-se”

Afirma António Jorge Gonçalves, co-autor com Rui Zink de “Rei”, um romance gráfico que acaba de ser lançado

Depois do lançamento “oficial” em Lisboa, António Jorge Gonçalves e Rui Zink estiveram no Porto, para falarem de “Rei” (ASA), o seu novo “romance gráfico”, 328 páginas condensadas num vídeo, disponível no YouTube.
“Rei” é a segunda colaboração entre os dois autores, depois de “A Arte Suprema” (ASA, 1997, agora reeditada), já uma obra graficamente experimental, que combinava desenho, fotografia, técnicas digitais e colagem. Este reencontro, “há muito desejado, demorou 10 anos, pois foi necessário que encontrássemos uma paixão comum, no caso o Japão”, revela Rui Zink, daí a aproximação “intencional, em jeito de homenagem, ao formato manga (bd japonesa)”.
“Rei”, continua, “pode ser considerado dois livros em um” pois é o “cruzamento de duas histórias. A primeira, a viagem de um rapaz de 20 anos ao Japão, onde se perde e mergulha numa montanha russa de experiências” e conhece a protagonista que dá nome ao livro pois “Rei, em japonês, é um nome feminino tão vulgar como Maria em Portugal”. A segunda, é “a história da sua mãe, uma mulher autocrática, inspirada em Manuela Ferreira Leite com o look de Teresa Patrício Gouveia”, brinca Rui Zink, “que vai procurar o filho e tentar ter uma relação com ele”. Os dois, como todas as personagens, “como todos nós, têm falta de algo; são destroços de si mesmos, pois todas as experiências de vida nos marcam e despojam de algo”. Estas duas histórias estão separadas no livro por “dois estilos gráficos distintos”, com o “traço simples feito à mão, trabalhado e preenchido depois no computador”, dois estilos que revelam mais uma vez um António Jorge Gonçalves em busca de inovação e experimentação, tingidos de “rosa, que é uma cor muito japonesa”.
Neste “livro de silêncios, com poucas palavras”, que “ocupou dois anos das nossas vidas, e no qual demos o nosso melhor”, afirma Zink, argumento e desenho foram sendo feitos “progressivamente”, com cada um dos autores constantemente “a tentar surpreender e deslumbrar o outro”, esperando também “que encontremos leitores que queiram envolver-se e encontrar a sua própria leitura, a sua própria história”, complementa o desenhador.
Embora avesso a definições estanques, Zink considera que se trata de um “romance (gráfico), com personagens, com texturas, cheiros…” e, acrescenta Gonçalves, uma “história que tinha de ser contada”. Um romance gráfico “que é banda desenhada, mas também literatura”, confessando o escritor que “gostava que a editora o enviasse para um concurso literário”.
Os dois autores estarão na FNAC do Colombo, amanhã, sexta-feira, às 18h30, onde “Rei” será apresentado por Miguel Vale de Almeida, e no Teatro S. Luís, a 29 de Outubro, às 22h, na Noite Wenceslau de Moraes.


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Tal pai…

Sem dúvida um dos melhores argumentistas franco-belgas das últimas décadas, Jean Van Hamme, anunciou há meses o desejo duma (merecida e) descansada reforma, tendo por isso decidido abandonar as várias séries que criou, com excepção de Largo Winch. Aos seus desenhadores, deu toda a liberdade para encontrarem substitutos, o que fez Rosinski, buscando em Yves Sente, argumentista de Blake e Mortimer, quem, após 29 álbuns, continuasse com as aventuras de Thorgal, ou melhor, de Jolan, numa invulgar sucessão dinástica, que é caso raro nos anais da BD, embora aquele possa ser sempre presença recorrente.
Por isso, “Moi, Jolan” (Le Lombard), em que Rosinski explana de novo a sua técnica de cor directa com a qual nos proporciona belíssimas imagens, alterna entre a busca iniciática empreendida pelo filho do vicking das estrelas, “deixando definitivamente a sua infância” para “se tornar um homem” como o seu pai, e a nova vida deste e da sua família, fazendo assim a ponte entre o passado da série e o seu novo rumo.
Num álbum de transição, Jolan encontra um grupo de (inicialmente) concorrentes, com quem aprende a compartilhar experiências e que, possivelmente, protagonizará com ele as futuras aventuras que Sente promete já ao leitor, neste aperitivo bem escrito e construído, no qual deixa adivinhar promissores e surpreendentes desenvolvimentos, relacionados com o passado, a diversos níveis.


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