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Clássicos

Tem por título “Ex-Libris”, por objectivo adaptar em BD os grandes romances da literatura e é dirigida por Jean David Morvan, recém-despedido argumentista de Spirou e autor de êxitos como “Sillage”. Como premissas, apresenta “um profundo respeito pelas obras”, a sua recriação “por autores que pretendam revisitar um dos seus livros de cabeceira” e “adaptações fiéis mas personalizadas”

Já com Dickens, Mary Shelley, Victor Hugo ou Kafka em agenda, esta colecção da Delcourt estreou-se com os primeiros volumes das versões aos quadradinhos de “Les Trois Mousquetaires”, de Alexandre Dumas, e “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe.

No primeiro caso, o argumento de Morvan e Dufranne reteve a essência do original bem como o seu espírito, que o traço semi-caricatural de Rubén acentuou, realçando o lado divertido e alegre da narrativa, a par do dinamismo das muitas cenas em que imperam as espadas, tudo assente numa planificação multifacetada com profusão de vinhetas por prancha.

Já em “Robinson Crusoé”, o traço de Gaultier é bem mais esquemático e sombrio, quase intimidativo, como que antecipando a angústia das quase três décadas passadas na ilha deserta, às portas da qual deixamos o protagonista, depois de este viver algumas aventuras que não aplacaram a sua sede de descoberta, nas quais a grande expressividade dos desenhos permite muitas vezes a omissão do texto escrito.


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Duplo adeus

No espaço de um ano, as bancas portuguesas perderam cinco dos heróis Bonelli que a brasileira Mythos trazia até nós: “Martin Mystère”, “Dylan Dog”, “J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga”, “Mágico Vento” e “Zagor” (estes dois ainda nas bancas em Abril). E, curiosamente, os três últimos foram suspensos por decisão da distribuidora, insatisfeita com as vendas apesar de a editora ter opinião diferente! Fica assim, a oferta de BD em bancas reduzida aos diversos títulos de Tex e a “Conan”, enquanto se (des)espera (pel)a chegada das edições Panini, com a Marvel e a Turma da Mônica à cabeça.

“Mágico Vento” destacou-se desde a sua criação, em 1997, por Gianfranco Manfredi, como um western diferente, não só pela forma aprofundada como são desenvolvidas as personagens, mas também pelo seu lado místico (o protagonista, Ned Ellis, apesar de branco e parcialmente amnésico, é um feiticeiro com estranhos poderes) e pela combinação equilibrada entre ficção e realidade (são vários os seres de carne e osso – Custer, Calamity Jane, etc., que cruzam o caminho do herói). O seu interesse deve-se igualmente ao facto de se tratar de uma saga, em que cada história auto-conclusiva contribui, primeiro, para Ned descobrir o pai no seu maior inimigo, e, depois, no avanço para desvendar os responsáveis por uma grande conspiração, que para nós, portugueses, agora, continuarão desconhecidos…


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David B., Prado, Max e Rubín encabeçam programa aliciante

III Festival de BD de Beja começa hoje; Muitos autores portugueses também no programa

Tem início hoje o III Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja que, até dia 20 de Maio, propõe dezena e meia de exposições distribuídas por vários locais do centro histórico da cidade: Casa da Cultura (que alberga a Bedeteca de Beja), Conservatório Regional do Baixo Alentejo, Galeria do Desassossego, Museu Jorge Vieira – Casa das Artes, Museu Regional de Beja, Núcleo Visigótico – Igreja de Santo Amaro e Pousada de S. Francisco.

Considerado por muitos o segundo mais importante evento dedicado à BD do nosso país (a seguir ao Festival da Amadora) pelo bom gosto e cuidado posto na apresentação das exposições, quase todas elas apresentadas pela primeira vez entre nós, pela descoberta e divulgação de propostas aos quadradinhos inovadoras, e pelo ambiente acolhedor com que recebe os seus visitantes, a terceira edição do evento promete continuar a subir a fasquia com uma programação diversificada e a presença de alguns nomes que, embora se movam em meios de alguma forma marginais, devem merecer a atenção de quem gosta de banda desenhada e não só.

Assim, entre os 40 autores com originais expostos no certame, o principal destaque vai para David B. membro fundador de L’Association e autor de obras de cariz autobiográfico e grafismo expressivo, sendo importante referir também os espanhóis David Rubín (recém-premiado no Salão de Barcelona) e Max ou o alemão Ulf. K. Os seus originais estarão expostos, bem como os de muitos autores portugueses, que continuam a ser o prato forte do salão, dos veteranos Jorge Magalhães, Augusto Trigo e Artur Correia, aos autores a despontar, como as “mangakas” (autoras de manga) Gisela Martins e Sara Ferreira, ou os integrantes do atelier Toupeira, que funciona todo o ano e serviu, de alguima forma, de génese do festival, passando por valores firmes como André Lemos, Maria João Worm, Pedro Rocha Nogueira ou Alice Geirinhas.

Das retantes propostas, a par das inevitáveis sessões de autógrafos, workshops, apresentação de projectos editoriais, feira do livro e cinema de animação, há que destacar, diariamente, os jantares de fazer crescer água na boca, com ementas típicas propostas pelos autores que o festival convidou, juntando assim, à fruição visual e intelectual que a banda desenhada proporciona, em originais ou edições impressas, os prazeres da boa mesa.


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Os vilões do filme

Quando Stan Lee e Steve Dikto criaram o Homem-Aranha, acrescentando aos problemas (monetários, sentimentais, existenciais…) do anódino Peter Parker a grande responsabilidade inerente aos seus grandes poderes, esqueceram-se de incluir na máxima que o norteia que os grandes poderes também atraem muitos adversários. Daí que num percurso longo de 45 anos (a primeira aparição do Homem-Aranha foi na “Amazing Fantasy #15”, em Agosto de 1962) tenham sido muitos e variados os inimigos que teve de enfrentar. 

À cabeça, está o recorrente J, Jonah Jameson, o irascível director do Clarim Diário, que faz do Homem-Aranha o seu ódio de estimação, mas bem mais violentos, são os vilões que, com mais ou menos poderes, força bruta e/ou a inteligência, a solo ou em grupo, infernizaram a a vida de um dos mais amados super-heróis dos quadradinhos. No filme que hoje estreia, enfrenta três deles.

Homem-Areia

Um dos primeiros adversários do Aranha, o Homem-Areia, imaginado logo em 1963, na “Amazing Spider-Man #4”, por Lee e Ditko, nunca passou de um vilão de segunda categoria. William Baker de seu verdadeiro nome, ligado ao crime desde a infância, acabou preso, mas, após uma fuga da prisão, refugiou-se numa zona de testes nucleares onde, exposto à radiação, passou a poder transformar o seu corpo em areia, moldando-o conforme deseja.

Venom

Simbionte proveniente de outro planeta, pretendia dominar o Homem-Aranha. Acabou por se apossar do corpo de Eddie Brook, que odiava o herói, assumindo um aspecto assustador e poderes similares aos do herói, vivendo apenas com um objectivo: matá-lo. Apareceu pela primeira vez na “Amazing Spider-Man 299” (1988), sob o traço dinâmico e marcante de Todd McFarlane.

Duende Verde

Criado por Lee e Ditko na “Amazing Spider-Man 14”, de Julho de 1964, após uma experiência mal-sucedida do empresário e inventor Norman Osborn, que lhe aumentou a inteligência e a força mas o tornou insano, esta identidade seria assumida pelo seu filho Harry após a (suposta) morte acidental do pai num confronto com o Aranha. O Duende Verde original regressaria anos mais tarde, sendo um dos primeiros a mostrar que nas BD’s de super-heróis os bons e os maus, para além dos impressionantes poderes, são também imortais, porque há sempre uma ressurreiçãozinha milagrosa ou um substituto à espera ao virar da esquina, para que tudo possa continuar na mesma.


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Turma da Mônica parodia a série “Perdidos”

A edição “Lostinho – Perdidinhos nos quadrinhos” deve chegar a Portugal após o Verão

Acaba de ser distribuída no Brasil uma edição especial da Turma da Mônica, intitulada “Lostinho – Perdidinhos nos Quadrinhos” que é uma paródia à série televisiva norte-americana “Perdidos” (“Lost” no original) que em Portugal é transmitida pela RTP 1.
Maurício de Sousa, que fez questão de participar na sua escrita “para que a história não funcionasse apenas para os seguidores de série”, decidiu “perder” os seus heróis numa ilha deserta, onde Cebolinha, Mônica, Cascão e Magali, que encarnam, respectivamente, as personagens Jack, Kate, Charlie e Claire da série televisiva, acordam um dia, com os restos de um avião por perto, mas sem saber como lá chegaram ou como de lá podem sair. Após sucessivas e divertidas peripécias, que decalcam acontecimentos originais de “Lost”, mas adequando-os ao universo da turma, como a descoberta da escotilha, os números amaldiçoados de Hurley, os sucessivos flash-backs ou os encontros com os Outros, os componentes da Turma da Mônica acabam por descobrir que estes são antigas criações de Maurício de Sousa, entretanto abandonadas.
Esta edição, com 80 páginas a cores (que incluem esboços e desenhos preparatórios) e formato maior que o habitual, não é a primeira em que Mônica e companhia parodiam séries e filmes, destacando-se títulos como “Horacic Park”, “Batmenino eternamente”, “Romeu e Julieta” ou “Coelhada nas Estrelas”. E em preparação está já uma sátira ao “Big Brother Brasil”, na qual “a Dona Morte, um dos nossos personagens, entra na casa do BBB.”.
Graficamente, esta edição avança mais um pouco na “mangalização” da Turma da Mônica, ou seja na aproximação do seu estilo ao do manga e anime (BD e animação japoneses), sendo esta uma “mudança que já começou há algum tempo; houve uma pequena reacção, o público tradicional achou uma heresia, mas a criançada gostou”, explica Mauricio de Sousa acrescentando que “cada vez mais vamos buscar inspiração aos desenhos animados”.
No início deste ano todas as publicações da Turma da Mônica recomeçaram do número 1, devido a uma mudança de distribuidora (da Globo para a Panini Comics), devendo essas primeiras edições ser distribuídas nas bancas portuguesas durante o próximo mês, e “Lostinho – Perdidinhos nos Quadrinhos” depois do Verão.


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Salazar vence Troféus Central Comics

Salazar, não o homem, mas a obra – “Salazar – Agora, na hora da sua morte” (editado pela Parceria A.M. Pereira), de João Paulo Cotrim (argumento) e Miguel Rocha (desenhos) – que desconstrói o mito, mostrando o seu lado humano, com as suas muitas fragilidades e limitações, ao arrebatar os prémios para Melhor Álbum e Desenho nacionais foi o grande vencedor dos V Trofeús Central Comics, divulgados ontem durante uma cerimónia que decorreu na Casa da Animação, no Porto, onde está patente até 17 de Maio, uma exposição com pranchas originais de Rui Gamito, Hugo Teixeira, Rui Ricardo, Phermad e o colectivo El Pep. “Salazar” falhou apenas o Melhor Argumento, entregue a “C.A.O.S. – Livro 1”, de Fernando Dórdio Campos, da Kingpin of Comics, distinguida como Melhor Editora.

Os Troféus Central Comics são promovidos pelo portal (www.centralcomics.com), com o mesmo nome que aposta na divulgação da banda desenhada e de tudo o que se relacione com a nona arte em geral. Criados em 2002, são uma forma de reconhecer os autores e editores portugueses que fizeram ou lançaram banda desenhada na nossa língua durante o ano transacto. Os vencedores são decididos por votação directa dos seus frequentadores, ou seja dos leitores e interessados na 9ª arte, o que os torna únicos.

A nível estrangeiro, os troféus para Melhor Argumento e Desenho foram, respectivamente, para Neil Gaiman e Dave McKean, ambos por “Orquidea Negra” (GFloy Studios), mostrando como é ilógico separar em BD as duas coisas, já que apesar disso, o Melhor Álbum foi “A cidade de vidro” (ASA).

Os restantes distinguidos foram: Melhor Álbum de Tira ou Prancha Cómica/Cartoon/Caricatura Nacional – “Os Compadres” (Sergei, Polvo); Melhor Álbum de Tira ou Prancha Cómica/Cartoon/Caricatura Estrangeira – “Obra Completa dos Peanuts Vol. 1” ( Charles Shultz, Afrontamento); Melhor BD Curta/Cartoon nacional não publicada em álbum – “Kull: O Fim” (Hugo Jesus e Nuno Sarabando, Tertúlia BDZine #109); Melhor Edição de Bancas – “BDJornal” (Pedranocharco); Melhor Fanzine – Sketchbook 3 (Direcção: Ricardo Cardoso); Melhor Edição Investigação Especializada – Catálogo FIBDA 2006 (CNBDI).

O Prémio Especial do Júri, o único que não é decidido por votação dos leitores foi entregue a Paulo Monteiro, autor de BD e responsável pela Bedeteca de Beja e pelo Festival local, pelo trabalho que tem desenvolvido na divulgação da BD em Portugal e da BD nacional em Espanha.


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Homem-Aranha e Quarteto Fantástico juntos contra o consumo de álcool

Edição especial, distribuída gratuitamente nas escolas, alerta adolescentes contra os perigos do álcool

Está a ser distribuída nas escolas dos Estados Unidos uma edição especial em banda desenhada que reúne o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico, desta vez não para combaterem contra um qualquer vilão super-poderoso que quer destruir o mundo, como é habitual, mas contra uma ameaça bem mais real e concreta: o álcool. Intitulado “Spider-Man and the Fantastic Four in Hard Choices”, o comic-book tem uma tiragem de cerca de 700.000 exemplares e é uma edição conjunta da Marvel, que detém os direitos das personagens, da Elks National Foundation, uma organização religiosa que tem como missão “inculcar os princípios da caridade, justiça, solidariedade, amor e fidelidade” e que promove programas de combate às drogas nos EUA, e da organização governamental SAMHSA – Substance Abuse and Mental Health Services Administration, e tem como objectivo “alertar os mais novos contra os perigos do álcool”.

Escrito por Mark Sumerak e desenhado por Marcio Takara, conta como um dos amigos de Franklin Richards, o filho do sr. Fantástico e da Mulher Invisível, é pressionado por um colega de escola para beber bebidas alcoólicas “para se tornar um homem”. A intervenção do Homem-Aranha e do Quarteto fantástico impede que isso aconteça, levando os dois a fazer a “escolha certa”, não faltando sequer uma sentença moral do “aracnídeo”: “os verdadeiros heróis não usam nem abusam do álcool”.

Herman Roesler, presidente da Elks, afirmou que o objectivo é “chegar às crianças e adolescentes antes que eles sejam expostos ao álcool e a mensagem terá mais impacto se lhes for levada por nomes conhecidos, como os super-heróis da Marvel”.

Por cá, o Centro Regional de Alccologia do Centro (CRAC), teve uma iniciativa similar, em 2003, ao editar um álbum de José Carlos Fernandes (autor da multi-premiada série “A pior banda do mundo”), intitulado “Francisco e o Rei de Simesmo” para “sob a orientação dos professores, poder sensibilizar crianças, entre os 6 e os 10 anos para atitudes mais saudáveis face ao consumo de bebidas alcoólicas”.


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A América Latina pintada por Lepage

A Terra sem Mal
Anne Sibran (argumento) e Emmanuel Lepage (desenhos)
Vitamina BD
13,99 €

Muchacho – Tomo 1
Emmanuel Lepage (argumento e desenhos)
Edições ASA
14,00 €

Emmanuel Lepage nasceu em 1966 e desde os 21 anos que faz banda desenhada. Viajante inveterado, trouxe para a BD a experiência recolhida na realização de elaborados esboços de viagem, podendo ser considerado um pintor de quadradinhos – sem que isso signifique a ausência de ritmo e movimento nas suas pranchas, de planificação heterogénea, onde muitas vezes se multiplicam as vinhetas para ritmar as cenas, sendo outras de (quase) imagem única o que obriga o leitor a parar e a contemplar o pormenor a que o autor chega ou a beleza explosiva do conjunto. Até porque a paleta cromática que ele utiliza, rica de tons, sejam os verdes da selva, os azuis e cinzentos das (belas) cenas nocturnas ou os amarelos e sépias quando predominam os seres humanos, fantástica na forma como recria a luz, as sombras e os volumes, é uma enorme mais valia para o seu traço elegante, a um tempo espontâneo e trabalhado, detalhado e expressivo.

Tudo isto, presente nas duas obras disponíveis em português – “A Terra sem Mal” (de 2003) e o recente “Muchacho – tomo 1” – é usado por Lepage para retratar uma das suas paixões: a América Latina, respectivamente o Paraguai (no final da década de 30 do século passado) e a Nicarágua (sob a ditadura de Somoza, em 1976). Mas não se pense que os seus retratos são apenas pictóricos, Lepage, em ambos os casos, ao mesmo tempo que nos transporta ao colorido de cada um dos locais, revela também, com uma invulgar intensidade, os seres humanos de carne e osso que lá vivem, tornando, uma leitura atenta, mais forte o primeiro impacto que os belos desenhos provocam.

“A Terra sem Mal”, um argumento de Anne Sibran, narra a experiência de uma jovem europeia, no interior do Paraguai, para conhecer e registar a língua, os hábitos e as tradições do povo Mbya, vencido pelo desânimo e que está a deixar-se morrer. Mas a chegada de um misterioso feiticeiro leva a aldeia em peso numa peregrinação (que se revelará insensata) à procura da sua Terra sem Mal (uma espécie de paraíso na terra), uma peregrinação selva adentro, que será mais espiritual que terrena, e que a jovem acompanhará, dividida quanto a continuar com aquele povo, que já ama e sente quase como seu, apesar de não a reconhecerem como amiga, ou abandonar tudo e regressar às origens, num relato tocante, sobre a busca dos outros e de si próprio, num ambiente natural, com tanto de belo como de hostil, que leva a repensar prioridades de vida.

Em “Muchacho”, (um romance desenhado forte e lírico, num contexto sócio-político real), o protagonista, Gabriel, seminarista, filho de um dos protegidos do ditador Somoza, empreende também uma busca de si próprio quando é enviado por algumas semanas para um lugarejo, para pintar um fresco na igreja local. Só que a convivência com o padre de lá, tão preocupado com a saúde espiritual do seu rebanho quanto com a sua qualidade de vida (o que o leva a simpatizar com a guerrilha e a ser mal-visto pelas autoridades), abre-lhe novas perspectivas de vida e na sua arte, a pintura, em que se refugia face à hostilidade da população. Isto, a par do despertar duma desconhecida sexualidade, vão levar Gabriel a repensar as suas prioridades – a sua fé, a sua arte… – e a fazer opções que só conheceremos no segundo e último tomo, que se espera chegue em breve às livrarias.


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Interlúdio

As conspirações no seio da Igreja Católica e as (muitas) dúvidas sobre a veracidade de alguns dogmas sobre os quais assenta, não sendo um tema novo, está na moda, embora a BD já o explorasse antes do fenómeno Dan Brown.
Esta é também a temática da série “O Escorpião”, ambientada no século XVIII, que narra a procura da verdadeira cruz de Pedro, para desmascarar o Cardeal Trebaldi, auto-assumido ateu, recém-eleito Papa com o objectivo de se servir da muito poderosa organização católica, refundando-a à imagem dos seus interesses.
Para além dos seus sequazes, a busca envolve um aventureiro conhecido como Escorpião, filho ilegítimo do anterior Papa e que vive na fronteira da lei, e as belas – mas perigosas – Ansea e Méjai, e está na origem de movimentadas narrativas, em que a veracidade histórica e ficção se confundem, plenas de acção e dinamismo, com muitas armadilhas, traições, surpresas, intriga e mistério, que mostram o melhor da BD de aventuras franco-belga.
O traço realista ágil, fluído e expressivo e a planificação cinematográfica de Marini servem na perfeição o guião de Desberg que demonstra toda a sua mestria em “O vale sagrado”, de ritmo intenso, com diversos volte-faces e cuja leitura prende e entusiasma, mesmo que não passe de um interlúdio, pois, no final, nada se adiantou à história base, e os protagonistas estão numa situação tão crítica como no início…


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Álbum de homenagem assinala os 80 anos de Uderzo

Mais de três dezenas de autores colaboraram no projecto; Obra vai ter edição portuguesa

O 80º aniversário de Albert Uderzo, no próximo dia 25 de Abril, será assinalado pela edição do álbum “Astérix et ses amis”, no qual mais de três dezenas de autores homenageiam o desenhador de Astérix.

O projecto, nascido no seio das Éditions Albert-René, que destinam o produto da sua venda para auxílio da organização Défenseur des Enfants, responsável pela divulgação da Convenção dos Direitos da Criança, será lançado no próprio dia do aniversário na França, Bélgica, Suiça e Grécia, e depois na Finlândia, Noruega, Polónia, Alemanha e Áustria, não estando ainda definida a data do seu lançamento em Portugal, “embora o livro já esteja em produção”, revelaram ao JN as Edições ASA. No entanto, caberá a Espanha estrear mundialmente a obra, em castelhano e catalão, já no dia 19, no 25º Saló Internacional del Còmic de Barcelona, que decorrerá de 19 a 22 de Abril, já que uma parte dos seus originais estarão lá expostos.

“Astérix e os seus amigos” (“título provisório da edição portuguesa”), nas suas 60 páginas, inclui participações de 34 autores de diversas nacionalidades, com ilustrações, gags ou histórias curtas, entre os quais os veteranos Tibet, Dany, Jean Graton ou Walthéry, nomes de referência como Van Hamme, Rosinski, Vance, Boucq, Loustal, Baru ou Manara, ou valores confirmados da nova geração como Mourier, Arleston, Guarnido, Tarquin ou Zep. 

Clonando o traço de Uderzo ou dando aos heróis gauleses aparências mais ou menos realistas, muitos destes autores transportaram-nos para os seus universos ou introduziram na aldeia gaulesa referências deles retirados, não sendo assim surpresa que ao longo do álbum Astérix e Obélix se cruzem, por exemplo, com Thorgal, XIII, Lucky Luke, Gaston Lagaffe, Natacha, Oliver Rameau. Kid Ordin ou o Marsupilami, havendo também uma referência (de Derib) à paixão de Uderzo pelos Ferrari, consubstanciada num veículo daquela marca esculpido na rocha por Obélix.

A edição portuguesa “terá uma tiragem de 3000 exemplares”, semelhante à dos álbuns com as aventuras do pequeno guerreiro gaulês, cuja reedição completa, com as novas traduções em que os nomes das personagens secundárias, muitas vezes trocadilhos ou jogos de palavras, foram adaptados à nossa língua, “deverá estar terminada em Junho”, afirmou Maria José Pereira, responsável do Departamento de Banda Desenhada da ASA. No final do ano deverá ter início a edição de Astérix em formato “gigante”, que, para além do formato 20 % superior ao habitual, se distingue por partir do restauro digital dos originais de Uderzo, que “limpou” o traço negro de todas as imperfeições e aplicou novas cores e nova legendagem.

(caixa à parte)

Albert Uderzo, um grande desenhador
Nascido a 25 de Abril de 1927, em Fismes (França), no seio de uma família de origem italiana, Albert Aleandro Uderzo teve o seu primeiro trabalho como aprendiz de desenhador em 1940. Em 1945 publicou a sua primeira banda desenhada, tendo-se multiplicado em inúmeros projectos, na BD, ilustração e no cinema de animação durante a década e meia que se seguiu. Em 1961 a sua ligação à International-Press, levá-lo-ia a conhecer Charlier, Hubinon, Graton e, principalmente René Goscinny, com o qual estabeleceu uma relação de trabalho e de cumplicidade que deu origem a João Pistolão, Humpápá, o pele-vermelha e, entre muitos outros, Astérix, que se estreou no nº 1 da revista Pilote, a 29 de Outubro de 1959, e de que Uderzo se tornaria também argumentista em 1977, após a morte de Goscinny.

Hábil nos negócios, criou a sua própria editora, as Éditions Albert-René, em 1979 e fez de Astérix um sucesso ímpar, com mais de 300 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, nas 100 línguas e dialectos em que está traduzido, incluindo o mirandês.

Distinguido com o Grande Prémio do Milénio, no 26º Festival Internacional de BD de Angoulême, em 1999, Uderzo é um grande desenhador, muitas vezes imitado mas nunca igualado, conhecido pelas formas arredondadas e grandes narizes dos seus heróis, que possui um traço suave, vivo e dinâmico, a que alia um bom domínio da planificação, do ritmo e do sentido de leitura. 

[Caixa]

“Uderzo visto pelos seus amigos”

“Astérix e os seus amigos” não é caso único. Em 2002, a Vitamina BD lançou a versão em português de “Uderzo visto pelos seus amigos”, originalmente editado em França, pela Soleil e desde o início acarinhado pelo próprio Uderzo. São 20 histórias curtas assinadas, entre outros, por Achdé, Arleston, Corteggiani, Coutelis, Franz, Meynet, Mourier, Rodolphe, Rouge ou Tranchand, que decorrem na pré-história, no célebre “ano 50 antes de Cristo”, ou nos nossos dias, e que (re)contam episódios da vida de Uderzo, levam-no a uma certa “aldeia povoada por irredutíveis gauleses” ou satirizam situações recorrentes das verdadeiras histórias do pequeno guerreiro gaulês.


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